¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, agosto 31, 2013
 
ESTE BLOG NÃO TEM
PATROCINADORES



Dois leitores me alertam que meu blog está inundado de publicidade. Ao abri-lo, em meu computador, não encontro nenhuma publicidade. Outros leitores me dizem o mesmo. Ocorre que este blog não tem patrocínio algum. Como nada aparece em meu computador e em outros, suponho que o problema não esteja no blog, mas nos computadores.

Não sei o que pode estar ocorrendo. Um amigo sugere que o compartilhamento talvez gere anúncios indevidos. Peço aos leitores que estão recebendo a página com propaganda comunicar-se comigo. Peço o mesmo a quem puder esclarecer-me sobre o problema.

PRIMEIRAS RESPOSTAS

Cassionei Niches Petry - Tenho instalado o programa Adblock e por isso não vejo essas propagandas.

Alexandre Dutra Mello - Publicidade nenhuma. Samuel de Oliveira Devem ser usuários de Google Chrome.

Alceu Dias Oliveira - Nenhuma publicidade. Entretanto, em sites que não possuem publicidade alguma, já vi computadores *contaminados* (de terceiros) exibirem janelas pop-up com anúncios chamativos. Não sei se é o caso, mas um computador sem firewall+antivírus de boa qualidade (como os que vi) podem exibir publicidade que não está no site visitado.

Deonísio da Silva - Pra você nunca vai aparecer. Você é o administrador.

Rhyan Fortuna - Nada aqui. Uso Chrome.

Licínio Medeiros - Mais tarde irei ligar o Windows 7 com navegador Firefox 19 para investigar sobre ocorrido no blog. Terei de desativar o plugin AddBlock instalado.

Vera Lucia Hermenegildo - Normal. Nada. Uso Chrome.

Marcelo Callado - Nada de publicidade por aqui, Janer.

Marco Silveira - Meu AdBlock acusa uma única propaganda no blog, mas não aparece nada aqui mesmo quando desativo esse bloqueador...

Rhyan Fortuna - Isso pode ser uma praga virtual que fica mandando propagandas, os Adwares.

Bazar Infólio - Foi impossível ler o seu último post.."como emagrecer..." etc...

Gerson Antunes - Não é nada disso, deve ser algum tipo de propaganda subliminar.

Janer Cristaldo - O problema parece residir no computador ou navegador, Kezia, e não no blog.

Gabriel De Oliveira Bueno - Estou usando o Internet Explorer 10 e não tem nenhuma publicidade, tudo normal.

Vinícius Ramon Fontanela - Nada de publicidade aqui, Janer.

Jeferson Garske - NO TEU BLOG NUNCA VI PROPAGANDA.

Gerson Antunes - Tenho acessado pelo celular. Por sorte, propaganda zero.

Flávia Portilho - Nada consta.

EM SUMA...

... é sacanagem, mas o problema não parece ser tão grave.

sexta-feira, agosto 30, 2013
 
CIENTISTAS ISOLAM
O GENE BANDIDO



Sempre entendi a vida de um homem como uma resultante, em primeiro lugar do acaso, em segundo da vontade de cada um. Nasci no campo, de família pobre de camponeses, e consegui viver em três países da Europa e bater pernas por boa parte do mundo. Dependeu um pouco de minha vontade. E mais ainda do acaso.

Já contei. Eu estudava em uma escola rural, na divisa entre Brasil e Uruguai. Findo o curso primário, bom em matemática, o máximo que podia aspirar era ser caixeiro nalgum bolicho das Três Vendas ou Ponche Verde, uma das poucas chances de escapar ao rabo do arado. Findas as provas, atrelei o tordilho à aranha. Uma fase havia terminado em minha vida. Voltava ao campo, talvez para lá morrer.

Dei de rédeas ao tordilho, a aranha já descia o lançante da coxilha. Foi quando Dona Ivone Garrido, uma professora vinda de Dom Pedrito para fiscalizar as provas, atravessou o alambrado de sete fios que cercava o colégio e gritou: "pára, Clotilde, teu filho é um gênio, ele não pode voltar para o campo". Minha mãe, que só queria ouvir isto, me tomou as rédeas das mãos e esbarrou o tordilho. Daqueles segundos geridos pelo deus Acaso – e aqui começa o mistério – decorrem minhas andanças e estas linhas.

Outros acasos me levaram para cá e para lá. Por acaso, encontrei a mulher que preencheu minha vida e foi companheira nos bons e maus momentos. Por acaso, e um pouco de volição, fui para a Suécia. Por acaso, li uma convocatória de bolsas para a França num jornal, concorri e ganhei quatro anos em Paris. Por acaso, tropecei em um livro de Sábato e daí decorreu um doutorado. Claro que havia sempre uma vontade permeando os acasos. Mas sem os acasos, minha vida não teria sido a que foi.

Cientistas buscam todos os dias causas genéticas para comportamentos e opções de cada indivíduo. Já se buscou o gene do alcoolismo. Não me consta que tenha sido encontrado. Se o fosse, seria muito oportuno. Qualquer pinguço poderia justificar-se cientificamente: "Que posso fazer? É genético. Garçom, dose dupla, por favor". Nada mais confortável que atribuir a uma predestinação biológica o que depende de uma decisão.

Buscou-se depois um gene bem mais conveniente, o do homossexualismo. Mas os engenheiros genéticos parecem ser avessos a leituras históricas. No Ocidente, o homossexualismo era um comportamento normal e até mesmo desejável, antes que o cristianismo contaminasse a cultura helênica com a camisa-de-força de seu conceito de amor, como algo único e direcionado ao sexo oposto. Aliás, este poderoso mito literário ocidental, o amor, nasce na Grécia, com os poemas de Safo de Lesbos, e é antes de tudo homossexual. Em todo caso, uma causa biológica para esta opção facilitaria a vida de muitos efebos sem maior cultura histórica. “É genético, querido”.

O que está sendo cada vez mais insólito de admitir é que alguém é homossexual porque decidiu ser homossexual, porque gosta de relacionar-se com o mesmo, em suma, porque é livre de decidir com quem quer se relacionar.

Buscou-se também o gene da inteligência. Epa! Terreno minado. Imagine se este gene fosse politicamente incorreto, com preferência por certas raças. Encontrá-lo seria um desastre. Deixa pra lá, melhor não insistir nesta pesquisa.

Há uns bons quinze anos, os jornais anunciaram outro brilhante achado dos cientistas. Pois estes senhores conseguiram produzir, por meio de engenharia genética, um rato que permanece fiel a um parceiro. Esse animal normalmente fútil, dizem as agências, tornou-se um amante mais fiel depois de receber genes do arganaz, um roedor conhecido por sua fidelidade. Segundo o resultado, a dedicação a um só parceiro, durante a vida toda, talvez seja uma questão de presença no cérebro de uma determinada química, que associa o amor ao hábito.

Estudos com os arganazes mostraram que a sensibilidade ao hormônio vasopressina determinava se o macho da espécie acasalava com várias fêmeas ou se formava um casal com um delas para o resto da vida. Para mudar o comportamento roedores, bastou manipular o mecanismo regulatório da vasopressina.

No que diz respeito aos arganazes, não sei. Quanto ao ser humano, fidelidade vai depender em boa parte do acaso. Se peguei esta rua e não aquela, se ao pegar esta rua tropecei com esta ou aquela mulher, se indo a Paris encontrei uma macedônia e se ela, também por acaso, foi para Paris. Ou indo a Suécia encontrei uma finlandesa, que também por acaso, foi cair em Estocolmo. Se cultivo por razões religiosas a fidelidade, ou se não a cultivo por ser ateu. Em suma, vai depender das circunstâncias e de um ato de vontade meu, jamais de um gene.

Somos infiéis porque a vizinha é linda. Porque aquela aluna quer uma pedagogia mais personalizada. Porque aquela moça no bar nos olhou com um olhar mais quente. Porque as formas daquela transeunte distraída mexeram com nossos hormônios. Em suma, pela elementar razão de que... somos livres. Da mesma forma, sempre me pareceu que permanecer fiel a um parceiro fosse decisão a ser tomada por cada um. Nada disso. Segundo os doutos cientistas, liberdade é mito. Você não escolhe nada, a biologia é que determina suas ações. Tudo era genético, o arganaz que o diga.

A busca de uma base genética para explicar comportamentos isenta todo homem de qualquer responsabilidade. Sou bêbado? Não tenho culpa alguma, estava nos genes. Sou homossexual? Foi sem querer, a genética determinou. Até aqui, disto não decorrem maiores consequências. O problema surge quando a genética busca justificar o crime, absolvendo todo e qualquer criminoso.

Li há pouco um artigo preocupante na Zero Hora. Fala de um ex-detento que, anos depois de libertado, senta de novo no banco dos réus. Voltou a furtar, é o que dizem. Como estamos falando de um reincidente, o juiz achou por bem descobrir se há algo de errado no cérebro do acusado. A perícia informa que ele tem um córtex cingulado anterior (ACC, na sigla em inglês) preguiçoso. Agora a acusação pede perpétua, porque um córtex dessa lavra não merece lugar entre os cidadãos de bem (os bem-acerebrados, diga-se), e a defesa vai se vacinando com a tese de que ninguém tem culpa por nascer com um parafuso a menos: o réu não passa de um robô programado para furtar.

O julgamento proposto é imaginário, mas a perícia se baseia em um estudo bastante real e recente, liderado pelos neurocientistas americanos Kent Kiehl e Eyal Aharoni. Eles monitoraram a atividade cerebral de 96 apenados e constataram que aqueles com ACC menos ativo tinham duas vezes mais chances de voltar a cometer crimes nos quatro anos seguintes à libertação.

O artigo cita um caso clássico da literatura jurídica, o americano Donta Page, que confessou ter estuprado e matado a facadas uma jovem em 1999, escapou da pena de morte e foi sentenciado à prisão perpétua. A defesa alegou que espancamentos durante a infância haviam danificado o cérebro de Page. Ele não tinha escolha senão ser violento.

Ou seja, livre arbítrio não existe. Todo homem é refém do seu passado. Ou de seus genes. Nesta época em que há uma tendência generalizada a absolver todo criminoso, a tese faz fortuna. Vai ver que Zé Dirceu, José Genoíno et caterva não podiam deixar de ser corruptos. A corrupção estava no sangue, ou melhor, nos genes. Não tinham nenhuma outra opção a não ser corromper-se. E dizer que os coitados, reféns de sua genética, estão sendo hoje condenados por um tribunal obsoleto, que nada entende das neurociências.

Segundo o professor da Faculdade de Direito da UFRGS, criminologista e desembargador aposentado Odone Sanguiné, o futuro que a neurociência acena para a Justiça Criminal é de reformas inclusivas, que levem em conta o princípio da dignidade humana.

- O diálogo com os conhecimentos das neurociências está provocando uma revisão das categorias dogmáticas do Direito Penal, bem como uma rediscussão sobre a legitimação das penas e medidas de segurança - afirma.

Assim, quando alguém estupra uma criança ou faz picadinho da própria mulher, não nos apressemos em julgá-lo. O homem, no fundo, é inocente. Algum gene bandido o levou, inexoravelmente, a tais gestos.

quinta-feira, agosto 29, 2013
 
DA VERGONHA DE SER JOVEM


Com quem faremos a revolução? – escreveu Roberto Arlt -. Com os jovens. São estúpidos e entusiastas.

Tenho manifestado, ao longo de minhas crônicas, minha desconfiança visceral a tudo que vem dos jovens. Tenho não poucas razões para tanto. Como todo mortal, já fui jovem e cometi muitas s besteiras naqueles dias. Y a las pruebas me remito. Estive relendo meu primeiro livro de crônicas, A Força dos Mitos, com textos publicados em 1975 e 1976. Há quase quatro décadas, portanto. Poeira do tempo à parte, há crônicas que ainda param em pé. Outras, confirmam Arlt.

Nada mais doloroso do que rever escritos de juventude. Por duas razões. Por um lado, descobrimos que acabamos renunciando a sonhos que naqueles dias pareciam realizáveis. Quem sabe talvez fossem, mas faltou-nos fibra. Por outro lado, as bobagens que escrevemos, e estas são as mais. Não porque fossemos bobos. Mas por falta de informação.

Informação só se adquire com idade, tempo e leitura. Qualquer afirmação definitiva de um jovem corre o risco de ser idiota, pois faltam-lhe elementos para qualquer afirmação definitiva.

Envolto pelo ambiente provinciano da Porto Alegre dos anos 70, pouco conhecendo do Brasil e menos ainda do mundo, eu alimentava na época uma visão terceiro-mundista da realidade que de longe me cercava. Via o declínio próximo dos Estados Unidos e a emersão do Terceiro Mundo. Via grande potencial humano na América Latina e decadência no hemisfério norte. O hemisfério norte, apesar da crise, vai bem. Nuestra America – como se dizia na época – continua patinando no atoleiro. Embora denunciasse as ditaduras na China e União Soviética, havia em mim um certo contágio de esquerda, que via no capitalismo um mal a combater.

Você pode remar contra as correntes de superfície. Mas a grande corrente subterrânea que jaz sob as demais acaba por arrastá-lo inexoravelmente aos rumos escolhidos por uma época. Particularmente se você é jovem e do mundo pouco conhece. Ao assumir uma coluna na Folha da Manhã, um pouco do planetinha eu já vira. Voltava da Suécia, onde passei um ano. Lá, me imbuíra de uma visão mais arejada do mundo. Mas faltava muito ainda a derrubar do legado de meus dias de universidade. Até que idade um homem escreve bobagens? Difícil determinar. Há quem as escreva toda a vida. De minha experiência, posso afirmar que até os trinta assinei não poucas.

Namorei idéias perigosas. Por exemplo, meu comentário sobre o “misterioso casal, conhecido apenas como os dois”, que afirmavam existir um reino superior que só podia ser alcançado através dos discos voadores. Na época, havia no ar um clima de evasão, fuga das cidades, do sistema, como dizia-se então. Aderi entusiasticamente à idéia. “Confesso que vontade de seguir os dois é o que não me falta”.

Chamavam-se Marshall Applewhite e Bonnie Nettles e fundaram uma seita ufológica em San Diego, a Heaven’s Gate. Em 1997, os dois disseram ao que vinham. Quando o cometa Hale-Bopp estava no seu brilho máximo, decidiram pegar carona e partir para o reino superior. A polícia encontrou os corpos de 39 de seus membros, que haviam cometido suicídio. O fanatismo era tal que junto aos cadáveres foram encontrados passaportes.

Na época, sem maiores informações sobre a FUNAI, eu desconhecia a política anti-civilização da entidade. E tomei a defesa de uma invasão de índios em povoados do Maranhão, Pará e Mato Grosso.

“Se nem os tuaregues, protegidos pela vastidão inóspita do Saara, conseguiram escapar do branco, que esperança poderão alimentar indígenas vivendo em terras férteis e valorizadas? Nenhuma, ao que tudo indica. Pois o branco é senhor e impõe seus valores e doenças. Em desespero, alguns índios passaram a atacar os brancos. Mas agora é tarde”.

A mais solene besteira terá sido a última crônica deste volume – “Procura-se” –, que teve ampla repercussão na época, particularmente entre os padres de esquerda. Influenciado certamente por Renan, historiador ateu que romantiza o Cristo, criei uma espécie de guerrilheiro e subversivo ao gosto da época. Só mais tarde me muni de melhor literatura sobre o personagem e, hoje, aquela crônica prova mais do que qualquer outra que todo jovem não está a salvo de escrever bobagens. Em suma, crônicas de um novato que ainda estava longe de entender o mundo.

Perdão, leitor!

A Força dos Mitos pode ser baixado de
pdf: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/forcamitos.pdf
html: http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/forcamitos.html

PROCURA-SE


— indivíduo de estatura média e compleição robusta
— tez morena
— barba e cabelos longos
— aparenta uns trinta anos
— conversador
— sem profissão definida
— não porta carteira identidade, não tem CPF, nem mesmo certidão de nascimento
— não possui residência fixa
— freqüentador de maus ambientes
— vive rodeado de marginais, pescadores e prostitutas
— olhar inflamado e comportamento anormal
— paranóico total
— egocêntrico ao extremo: quanto mais acreditam nele, mais ele acredita em si próprio
— mania de Messias
— como não exerce profissão alguma, deve ter um grande número de cúmplices que o sustentam
— julga-se o centro do universo
— está tão convencido disso que convence a todos que lhe dão ouvidos
— anda falando mal dos ricos e suscitando a luta de classes
— mistifica as multidões com ilusionismos baratos, como andar sobre as águas e multiplicar pães e peixes
— proclama publicamente que não veio trazer a paz, mas a espada
— anarquista e místico, não admite o princípio da autoridade, nem o Estado
— incita o povo contra comerciantes e tabeliões
— de temperamento violento e explosivo, agrediu fisicamente inocentes vendedores de souvenirs num templo
— pouco se sabe de seu comportamento sexual, mas é de conhecimento público sua intimidade com uma mulher de Magdala, de nome Maria
— anda proclamando por aí que quem tem duas camisas deve dar uma ao que não tem nenhuma
— como todo megalomaníaco, sofre de complexo de perseguição
— de índole rabugenta, chama todo mundo de hipócritas, fariseus e sepulcros caiados
— extremista e esquizofrênico, acha que quem não está com ele está contra ele
— carismático e virulento, é adorado por pessoas que se matam entre si, em nome dele
— vocifera contra sacerdotes e defende adúlteras
— nada possui além da roupa do corpo
— como nada tem a perder, é capaz de tudo
— anda desarmado, mas torna-se perigoso quando fala
— se julga o bom
— no auge de sua loucura, passou a proclamar-se o filho de Deus
— anda curando sem habilitação legal para o exercício da medicina
— para driblar a censura, fala por metáforas
— já foi preso, espancado, crucificado, morto e sepultado mas nem assim se regenera
— demagogo irrecuperável, nem na cruz deixou de largar frases de efeito
— foi mil vezes morto e mil vezes ressuscitou
— anda por aí incógnito, envolto em mil disfarces
— aparentemente inofensivo, tem levado homens à loucura e ao martírio
— de nome Jesus, também atende pelo apelido de Cristo
— Acautele-se. Ele tem mil faces e pode estar a seu lado.

quarta-feira, agosto 28, 2013
 
SOBRE MÉDICOS E VACINAS


A presidente Dilma Rousseff acusou hoje os que têm preconceito contra a presença dos médicos cubanos no Brasil. Disse que há também médicos de outros países, além de Cuba. A presidente reiterou que os estrangeiros estão no Brasil para desempenhar o trabalho que os médicos brasileiros não querem fazer.

"É um imenso preconceito sendo externado contra os cubanos. É importante dizer que os médicos estrangeiros, não só cubanos, vêm ao Brasil para trabalhar onde médicos brasileiros formados aqui não querem trabalhar", disse ela.

A presidente sofisma. O que se pede é que os cubanos cumpram as mesmas exigências feitas aos médicos nacionais, o exame do Revalida. O que também tem causado indignação é saber que mais da metade do salário de cada profissional vai para a ditadura cubana.

Segundo os jornais, os médicos cubanos atuarão no Brasil em regime diferente dos que se inscreveram individualmente no Mais Médicos. No acordo, os repasses financeiros serão feitos do Ministério da Saúde para a Opas. A entidade repassará as quantias ao governo cubando, que pagará os médicos. Inicialmente nem a Opas nem o Ministério da Saúde souberam especificar quanto dos R$ 10 mil pagos por médico será repassado para os profissionais. O secretário adjunto de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Fernando Menezes, disse depois que a remuneração ficaria entre R$ 2,5 mil e R$ 4 mil.

O que será uma festa para quem ganhava algo em torno a cem reais por mês, menos que um chofer de táxi cubano que trabalhe junto a turistas, quantia que um mendigo brasileiro tira fácil em uma ou duas semanas nas ruas de São Paulo. Os médicos que vêm de outros países receberão a integralidade de seus salários. Por que só os cubanos entregarão parte de seus ganhos ao Estado? No fundo, é o PT erguendo o bracinho stalinista, em uma tentativa canhestra de financiar o falido regime comunista da ilha.

Não é a primeira vez que o Brasil vai em socorro da ditadura castrista. Ou já foi esquecido o caso das famosas vacinas cubanas contra a meningite, importadas pela bagatela de 250 milhões de dólares? Pelo jeito, ninguém mais lembra delas. Na grande São Paulo, a vacina cubana foi administrada em 1989 e 1990 para 2.400.000 crianças, na faixa etária de três meses a seis anos de idade. Após a campanha de vacinação, não foi observada queda do coeficiente de incidência da meningite.

Mas as vacinas eram socialistas. Quem duvida - salvo reacionários irrecuperáveis, como este que vos escreve - da excelência da medicina cubana? Em abril de 94, o ministério da Saúde brasileiro decidiu liberar o uso destas vacinas, suspensas desde 91.

Na época, a Organizacão Panamericana de Saúde (Opas) já constatara que sua eficácia era baixa em menores de quatro anos e quase nula em menores de dois. Mesmo assim, o Rio de Janeiro formalizou o pedido das vacinas. Consultei então quem entende do assunto, o professor e pesquisador Isaías Raw, do Instituto Butantã. Respondeu-me o professor Raw:

"A verdade é que a vacina cubana não imuniza crianças abaixo de dois anos (nem de quatro) onde a meningite B é mais freqüente e pode ser fatal. Crianças pequenas usualmente não respondem a polisacarídeos. Para maiores de quatro anos a vacina funciona, evitando que adultos espalhem a meningite para filhos, etc., o que não justifica o seu uso generalizado que deu a Cuba 250 milhões de dólares".

Há quem diga existir um viés ideológico na discussão a respeito dos médicos cubanos. Sem dúvida nenhuma. Prova disto são os gatos pingados que foram receber os 176 médicos que desembarcaram no Aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília, com bandeiras da UNE, do MST e da Associação Médica Nacional (AMN), entidade que reúne 650 brasileiros formados em medicina nas universidades cubanas.

“Não viemos para competir. Viemos trabalhar junto e esperamos contar com o apoio de todo o povo brasileiro”, disse Alexander Del Toro, graduado há 17 anos, que se apresentou como natural do centro da ilha, região onde “repousam os restos mortais de Che Guevara”, o médico exemplo de militância pela integração latino-americana.

Médico também exemplo de médico assassino de gatilho fácil, que admitia serenamente, em dezembro de 1964, na sede da ONU:

- Fuzilamentos? Sim, temos fuzilados, fuzilamos e seguiremos fuzilando sempre que necessário, nossa luta é uma luta à morte.

Que um médico cubano defenda Che ou o regime castrista no Exterior, entende-se. Ele é refém da ditadura. Espantoso é ver alguém no Brasil defendendo Cuba e o Che, 24 anos após a queda do Muro, 22 anos após a dissolução da União Soviética, em suma, duas décadas após a derrocada do comunismo.

Leitor de Dom Pedrito me acusa de radicalismo. Que radicalismo, companheiro? Resta alguma dúvida sobre a ineficácia das famosas vacinas cubanas? Que os médicos sejam pagos, muito louvável, digno e justo. Mas financiar uma ditadura? E se o Pinochet, em sua época, tivesse enviado médicos chilenos ao Brasil, ficando com 50 ou mais por cento de seus salários, você defenderia a vinda dos médicos chilenos?

Enfim, numa cidade que tem uma rua em homenagem a Che Guevara, não é de espantar que existam defensores da Disneylândia das esquerdas. O que redime um pouco os pedritenses é que, na falta de informaçõe sobre o guerrilheiro, a rua acabou sendo a Rua do Che, o que naquelas plagas passa a ter outro sentido.

Sempre houve uma complacência generalizada contra a corrupção que envolve Cuba. Em 2000, manifestantes do PT, CUT e MST organizaram em São Paulo o Dia do Basta. O protesto denunciava, entre outros escândalos, o desvio de 169 milhões de reais na construção de um prédio do TRT, pelo ex-juiz do Trabalho Nicolau dos Santos Neto - Lalau para os jornalistas -, na época foragido há três meses. No mesmo dia, o MST invadia em Recife, com coquetéis molotov, um cargueiro de bandeira liberiana que transportava milho transgênico, importado como ração animal.

Ora, o rombo produzido pelo Lalau, em moeda forte, era de 89 milhões de dólares. Apenas um terço do que foi tungado do contribuinte brasileiro para a compra de um placebo socialista. Esplêndido país, este nosso: suas crianças estão expostas à fome e à delinqüência nas ruas e seus dirigentes se dão ao luxo de financiar uma ditadura no Caribe. Contra aquela corrupção, nem a imprensa nem as oposições pediram investigação.

Como tampouco pedirão sobre esta. Dona Dilma, extração da geração que louvou Castro, Che e a revolução cubana, acusa de preconceito os brasileiros que protestam contra o trabalho escravo dos médicos cubanos e deles exigem tratamento igual ao dispensado aos brasileiros.

A presidente defende, não os médicos cubanos – que não têm culpa de sua condição – mas a mais antiga ditadura do Ocidente.

terça-feira, agosto 27, 2013
 
Relembrando os 70:
JOVENS IMPORTAM BURACOS *



Você já ouviu falar dos buracos santos? Sabia que todos seus buracos são santos? Você sabia que é cheio de buracos? Só na cabeça, são sete. E que a vida não seria nada divertida se não fossem os buracos?

Sabia ainda que um buraco só pode existir quando há algo em sua volta? Pois se não houvesse, o buraco não seria buraco, seria nada. E você sabia que você é um buraco, em torno do qual existe Deus? Pois se Deus não existisse, você, buraco, seria nada.

Você sabia que o amor é um buraco que necessita ser enchido? E também de alguma coisa com que enchê-lo? Sabia ainda que existem buracos quadrados e buracos redondos e todos os tipos de buracos e eles são precisos e são necessários todos os tipos de peças para enchê-los?

Por isso, qualquer que seja o tipo de peça que você for. existem alguns buracos nos quais você encaixa — e não importa que tipo de buraco você é, Deus lhe tem encaixado!

Sabia ainda que Deus gosta de buracos — e gosta de enchê-los todos? E que Deus quer lhe encher com algo e fazer de você um buraco muito louco cheio de qualquer coisa com a qual Deus quer lhe encher?

E se você já encheu e acha que estou fazendo piada, está muito enganado. Os santos buracos constituem um caso seríssimo. Pois estão enchendo a cabeça oca de milhares de jovens em vários países. Se a cabeça de muitos jovens — que já é um buraco — for preenchida com outros buracos, ainda que santos, teremos uma geração com buracos ao quadrado em ar da cabeça.

O leitor já deve ter sido abordado, nas ruas de Porto Alegre, por moças e rapazes muito amáveis e simpáticos, os meninos de Deus. Pois os meninos — embora muitos sejam barbados - andam distribuindo uma série de panfletos, entre eles a história dos buracos. Que vem assinada por um misterioso Moisés David, com endereços de Londres e Dallas, Texas. Como é que Moisés David chegou a preocupar-se tão a fundo com buracos? Ele mesmo explica:

— Quando eu estava no exército eles me faziam cavar buracos e enchê-los de novo para me manter ocupado e me mostrar quão importante são os buracos.

Nada tenho a ver com o fato de que Moisés David tenha começado a preocupar-se com buracos, no exército. Cada um com sua mania. Que continue abrindo e tapando buracos, mas lá em Dallas, por favor, onde os texanos não apreciam presidentes com sete buracos no rosto e são extremamente peitos em abrir mais um ou dois. O que me preocupa é o fato de que moças e rapazes — alguns dos quais conheço pessoalmente — se unam em torno das maluquices do tal de Moisés David e se dediquem integralmente a um apostolado ridículo.

Conversei com alguns dos meninos. Não souberam me dizer a que se propunham. Só sabiam que me amavam e estudavam a Bíblia. Mas que Bíblia? Também não sabem. Ficam surpresos com a pergunta, imaginavam que existisse apenas uma Bíblia. Assistimos há pouco, os debates em tomo da TFP. Jovens fanatizados em torno do culto à Maria saíam pelas ruas com estandartes medievais, defendendo a tradição, a família e a propriedade. Quando Maria, a coitada, como nos relatam os evangelhos, era mãe solteira e não tinha apego algum a posses. E pouco ligava à tradição, pois seu filho reformulou o Antigo Testamento.

Há alguns meses, desfilaram em Porto Alegre, os “monges" de uma seita, Hare Khishna ou coisa parecida. Saltitaram um bocado na Rua da Praia, à tarde, em agressiva concorrência aos travestis que saltitam à noite. Depois sumiram, estarão agora saltitando nalguma outra cidade.

Quando jovens aderem de corpo e alma a seitas ridículas, com finalidades — pois finalidades elas têm — desconhecidas, é chegada a hora de autoridades e educadores se preocuparem seriamente com buracos. As gerações mais novas, mergulhadas em tóxicos e sons, sem o hábito da leitura, estão vivendo em um vácuo de idéias e ideais. Quando a cabeça é um buraco, é fácil a qualquer vigarista hábil enchê-la, até mesmo com buracos.

* 07/01/76

segunda-feira, agosto 26, 2013
 
ECOCHATOS CRIMINALIZAM CULINÁRIA


A conspiração contra as boas coisas da vida tem milênios. Começou com o bom Jeová criminalizando o sexo. Depois a carne de porco. De lá para cá, o homem já nem mais invoca deus para privar o próximo do que é bem bom. A partir da primeira segunda-feira do mês de outubro - leio nos jornais -, entrará em vigor a lei que proíbe a comercialização de carne vermelha nas segundas-feiras em Teresina, Piauí. A lei não inibe o consumo do alimento na data estabelecida, mas reflete uma preocupação da prefeitura com o consumo excessivo de carne vermelha, que, além de causar danos à saúde, também traz problemas ao meio ambiente, causados pela produção do alimento.

Ora, se carne vermelha causasse danos à saúde, o Rio Grande do Sul, sem ir mais longe, seria um imenso hospital a céu aberto. Quanto a trazer problemas para o meio ambiente, a tese rivaliza com aquela de que a flatulência bovina reduz a camada de ozônio. E por que não a humana? Vamos então exterminar o ser humano para o bem do planeta. Se alguém acha que faço piada, saiba que há quem defenda tal tese.

Segundo a autora da lei, a vereadora Teresa Britto, do PV – et pour cause – "a segunda sem carne tem como objetivo conscientizar a população quanto aos malefícios do consumo, é fazer a população entender que tem outras alternativas de alimentos. A carne provoca câncer e outras doenças e a pecuária é a atividade que mais emite gases do efeito estufa. É muito danoso para o meio ambiente e para a saúde humana".

Não é bem isso. É modismo importado dos Estados Unidos, a Meatless Monday, campanha para encorajar as pessoas a não comer carne nas segundas-feiras, em nome da saúde do planeta e da própria saúde. A campanha, inaugurada em 2003, é uma iniciativa sem fins lucrativos de The Monday Campanhas Inc. em associação com o Hopkins Bloomberg School of Public Health Center para um futuro habitável.

Em verdade, suas origens estão mais atrás no tempo e nada têm a ver com saúde do planeta. Durante a I Guerra Mundial, a United States Food Administration (USFA) exortou as famílias a reduzir o consumo de produtos básicos para ajudar no esforço de guerra. Para incentivar o racionamento voluntário, a USFA cunhou o termo "Meatless Monday" e "Wheatless Wednesday" – quarta-feira sem trigo - para lembrar aos americanos de reduzir a ingestão desses produtos.

Até aí, uma sugestão. Nada de lei proibindo a comercialização destes alimentos. Os ecochatos adaptaram o que parecia ser necessário em período de guerra a suas fantasias em torno ao meio ambiente. O embuste do aquecimento global já caiu por terra. Persistem ainda os estragos do fanatismo dos estraga-prazeres.

Os católicos, durante muito tempo, proibiram o consumo de carne de animais nas sextas-feiras de quaresma. Digo proibiram porque suponho que os padres tenham se rendido à evidência de que é proibido comer carne numa sexta-feira para contingentes humanos que comem carne só por milagre. O costume tinha intenções moralistas. O jejum é tradição que antiga e que se consolidou na Idade Média, quando a carne vermelha era consumida só em banquetes, nas cortes e nas residências dos nobres. Como era símbolo da gula – isto é, do bem-bom, pecado seja.

Durante a Guerra Civil Espanhola, para financiar a luta, Franco instituiu prática semelhante, o chamado "lunes sin postre". Às segundas-feiras, os espanhóis dispensavam a sobremesa, para colaborar com o esforço de guerra. Com um detalhe: a sobremesa era paga, mas não consumida. O objetivo não era a salvação do planeta, mas da Espanha.

No Brasil, a iniciativa da vereadora tem precedentes. Em março do ano passado, a Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP lançou o projeto Segunda Sem Carne na FSP. Ele consiste na inclusão de um cardápio sem carne em uma segunda-feira de cada mês no restaurante universitário da FSP, que oferecerá aos usuários preparações diferentes com legumes, verduras e soja que sejam de boa aceitação e baixo impacto ambiental. Seja como for, não era uma imposição legal a todo um município.

Não bastasse a vereadora verde piauiense pretender proibir o consumo de carne vermelha a todo um município, na semana passada, entrou em tramitação na Câmara Municipal de São Paulo o projeto de lei que proíbe a produção e venda do foie gras na cidade. O que também vem dos Estados Unidos.

O projeto de lei, do vereador Laércio Benko (PHS), também tem suas origens na civilização mais sensaborona do planeta. Inspirou-se na lei do Estado americano da Califórnia assinada em 2004 pelo exterminador do futuro, Arnold Schwarzenegger, então governador. A proibição, no entanto, só entrou em vigor ano passado. A alegação é que os patos ou gansos são submetidos a uma alimentação forçada. Enfim, se o projeto passar, sempre será um pretexto para ir a Paris.

Não bastasse o vereador querer privar os paulistanos de uma iguaria que vem do tempo dos faraós, na quarta-feira passada, um estudo publicado no Journal of Experimental Biology, afirma que os crustáceos são capazes de sentir dor. A conclusão decorre de pesquisa realizada com caranguejos-verdes. "Bilhões de crustáceos são capturados ou criados para atender à demanda da indústria agroalimentar. Em comparação com os mamíferos, eles não gozam de quase nenhuma proteção sob a única presunção de que não podem sentir dor. Nossas pesquisas sugerem o contrário", resumiu Bob Elwood, biólogo da Universidade Queen's em Belfast, na Irlanda.

É claro que não é o sofrimento dos caranguejos-verdes que está na mira. Mas a lagosta, sempre apreciada pelos cultores da bona-xira. oDavid Foster Wallace, autor de Consider the Lobster and Other Essays (Pense na lagosta e outros ensaios), dramatiza o sofrimento do bicho:

"Quando é despejada do seu recipiente para dentro do tacho fumegante, às vezes a lagosta tenta se segurar nas bordas do recipiente ou até mesmo enganchar as garras na beira do tacho como uma pessoa dependurada de um telhado, tentando não cair. Pior ainda é quando a lagosta fica imersa por completo. Mesmo que o sujeito tampe o tacho e saia de perto, normalmente é possível ouvir a tampa chacoalhando e rangendo enquanto a lagosta tenta empurrá-la. Ou escutar as garras da criatura raspando o interior do tacho enquanto se debate. Em outras palavras, a lagosta apresenta um comportamento muito parecido com o que eu ou você apresentaríamos se fôssemos atirados em água fervente (com a óbvia exceção dos gritos)”.

Vá lá. Pessoalmente não entendo porque a lagosta deva ser jogada viva no tacho, embora haja quem julgue que o melhor da lagosta é o chiado. Mas se não quisermos impor sofrimento nenhum a animais, a opção é o vegetarianismo – se é que planta não sofre. A humanidade, que desde seus primórdios se alimentou de carne, hoje morreria de fome se quisesse poupar sofrimento – ou morte – a animais. Pois todo ser vivo, se não gosta de sofrer, certamente tampouco gosta de morrer.

Em verdade, não passa dia sem que alguém, em algum lugar, criminalize práticas culinárias. A ética está invadindo o universo da culinária. Na Índia, pessoas jazem famintas nas ruas, enquanto as vacas passeiam pelas calçadas. Por trás das interdições alimentares, há um espírito religioso sedento de expiar alguma culpa. Os prejudicados são quem? Obviamente, os que podem comer bem. E hoje quem come bem é obviamente culpado de algum desastre social.

Sem ser exatamente um adepto de foie gras ou lagostas – embora não rejeite tais pratos – penso que para que o homem viva, alguém vai ter de morrer. Entre mim e esse alguém, minha opção é óbvia. E as restrições alimentares são veleidades de ecochatos.

No fundo, a maldita e tirânica mania, típica de religiosos, de impor suas idiossincrasias aos demais. Se alguém acha que animal sofre no preparo de seu consumo, que não os coma, ora bolas. Não precisa privar o resto do mundo de certos prazeres.

domingo, agosto 25, 2013
 
MANHÃ DE DOMINGO

(conto)

Espiou o céu por uma fresta da quincha. Noite limpa, bueno há de ser o domingo. Não esperou pelos galos. Levantou de manso pra não acordar Joana. Vestiu-se em silêncio. Na cozinha, deu uma enxaguada na boca, apanhou baldes e canecos e se dirigiu à mangueira. As vacas, habituadas ao apojo depois do raiar do sol, protestavam com coices e mugidos. Meio balde de leite se misturou à terra. Juvêncio retribuiu o coice da oveira e sampou-lhe o balde pelas guampas. Não seria uma vaca quem lhe estragaria o domingo. Por segurança, maneou as outras. Até os guaxos se mostravam baldosos. Azar, não beberiam o apojo. Nas pedras da cerca assomou Negrinho, o mais madrugador: “Paiê, quero com bastante escuma!” ao soltar as vacas sentiu-se cristeado, os terneiros mamavam o leite escondido.

Na cozinha, Joana quase sem fôlego assoprava na boca do fogão. A madeira verde resistia ao fogo, as lágrimas caíam pelas bochechas infladas, mentalmente maldizia a gurizada que não havia juntado graveto seco. Quando Juvêncio entrou, derramando leite do balde e canecos, Negrinho ao lado com um bigode branco de espuma, Joana já cuspia fora o primeiro mate.

- Que é que te deu na telha, levantar a esta hora?

Não há vivente que não perca o respeito pelo outro com a intimidade. Até cachorro estranho, quanto mais mulher. Cachorro começa rosnando, é só passar a mão na nuca e já vem lambendo as botas. Mulher também, só que com uma diferença. Em vez de fazer carinho, encrenca. Quando cortejava Joana e pernoitava na casa do sogro, ela surgia acanhada na cozinha, mas cumprimentava com um bom dia mais fresco que ar da manhã. Casou, taí! Já acorda em pé de guerra. Lei da vida. Vai olhando e aprendendo, guri. Todo índio tem sua hora de bobeira. É justo nessa que elas prendem o maula.

Respondeu com um vago “não amola, mulher! Tava sem sono e levantei”. Em verdade, não era bem isso. Chegara tarde da noite, banho de gado em estância grande rebenta qualquer cristão, até os ovelheiros haviam deitado cedo. Caíra na cama sem dar nem ao menos uma areada no cascão dos pés. Acordara mais cedo do que de costume. Nem havia esfregado os olhos, decidira uma troteada até o Aliás Bendigo. Já estava em tempo de pagar os fiados no bolicho. Como Aliás nunca tinha troco, aceitaria umas que outras por câmbio.

Qual seria o nome de pia do Aliás? Havia chegado há muito naqueles pagos, se alguma vez disse o nome a alguém, foi logo esquecido. Com ar de granfa, insistindo nos erres e esses de cada palavra, mal abria a boca dizia “aliás, bem digo!”, daí o nome. Tinha muita plata escondida, juntada não se sabia como. No lugarejo, dinheiro só tinham os estancieiros, e esses jamais pisavam em bolicho. Havia quem falasse em tropeadas noturnas, contrabandos, mas ninguém havia visto nada, só ouvira dizer. E diz-que-diz-que é ocupação de mulher em tarde de mate doce. Falta de assunto. Aliás mourejava de sol a sol, ganhava no arroz e na canha, carneava e distribuía a carne, levava coima do carteado e do osso, era justo que ganhasse o seu. Viver todos vivem, saber viver é que é!

O baio, flete de domingo, ficara preso durante a noite pra adelgaçar. Cavalo no trabalho vira matungo. O baio ficava solto a semana toda, tinha trote faceiro e nervoso. Mesmo velho, conservava o garbo da época em que conhecera Joana. Não fosse o baio, talvez não ganhasse a mulher. Bem aperado, fazia bela figura. O pelegão vermelho já estava desbotado e meio rasgado, as rédeas brancas de brancas só tinham o nome. Nunca as usava em serviço, mas é assim mesmo, índio que casa perde a elegância. Também! Não tem mais precisão de andar arrastando a asa. Pra que elegância, então?

Entre um mate e outro foi afiando a gilete num copo, fez espuma de sabão numa lata enferrujada de sardinha, ajeitou o espelho rachado na cadeira, sentou num cepo, Joana trouxe a bacia com água quente. Negrinho olhava calado aquele ritual todo, Juvêncio forçava a vista pra se afeitar à luz do fogão. Em seguida vai chegar tua vez, guri! E não pensa que barba é privilégio. Barba é maldição que cresce com o sono.

Se afeitava pra quê? Bueno, mesmo casado, um tem que manter certo asseio. Com o rosto ainda sangrando, deu uma aparada no bigode. Uma chama mais viva iluminou o espelho, Juvêncio viu em meio às rachas do cristal um corpo estranho - o seu. Um calafrio lhe percorreu a espinha, devia ser o vento entrando pelas frestas da porta. Ou seria talvez que pela primeira vez olhava seu rosto?

Joana amassava o pão, largava a massa de vez em quando para tomar um mate. Estava arisca.

- Que requintes são esse, até parece que tu vai pra um baile?

Mulher não merece resposta. Negrinho ia guri bom. Via as coisas, aprendia pra si, não falava muito. Madrugava, bom sinal. Os outros ainda roncavam, as nulidades, nem pareciam crias do mesmo pai. Eram mais como filhotes de chupim em rancho de joão-de-barro. Puxaram a algum inútil da família, pois Joana também era despachada.

Secou a gilete - se a gente não seca, enferruja -, despejou a bacia pela janela, uma claridade fria começava a se infiltrar por baixo do carramanchão de glicínias. Com o barulho da água despejada o galo cantou, com um ar de tapeado. O galo do Martim respondeu. Em silêncio tomou mais uns mates, só se ouvia o chiado da cuia seca e Joana sovando a massa. O rancho era pobre, mas visita que chegasse no domingo não podia se queixar de ser mal recebida.

Os anuns começaram a charlar no bambuzal, as corruíras chiavam no oitão da casa. Amanhecia.

Bateu a porta, foi encilhar o baio. Negrinho largou a cuia, saiu atrás como cachorro. Via e aprendia. Esse guri merecia ir pra escola. Os tempos haviam mudado, qualquer rapazote bom nas contas valia mais que um domador. Negrinho mal dava na barriga do cavalo e já encilhava o seu, trepado num tronco. Os arreios ficavam meio frouxos, mas o que importa é a boa intenção.

A crina estava desparelha, Juvêncio deu uma tosada rápida. Encurtou um pouco a cola do baio e, num repente, decidiu sair de cola atada. Por que só solteiro havia de sair com o cavalo de cola atada? Não tá morto quem tá casado!

Pela barriga do animal corriam arrepios, o cavalo todo estava indócil. Negrinho ia alcançando os arreios. Deixou a cincha frouxa, o animal só de cabresto e foi se vestir. O lenço estava encardido, mas vermelho quando encarde é sempre vermelho. Só fica um sebo na linha do cogote, mas isso ninguém nota. A camisa estava recém no terceiro domingo. Bombacha remendada mas limpa, pior se estivesse inteira e suja. Bota lustrada, o problema era meter o pé dentro, acostumado o dia todo nas chinelas. Mas com talco e jeito, não há bota que não sirva. Pé de pobre não tem número.

De espora o baio não precisava, mas enfiou os pés nas cujas. Há muito não se pilchava, queria hoje sair lampeiro, ainda que pela última vez na vida. Enfiou o pala calamaco, que mais não fosse servia pra esconder o nagão. Recheou de balas o dito, nunca se sabe que insolente um vai encontrar no bolicho em dia de cachaceira. Ajustou o sombrero ensebado na cabeça, puxou o lenço vermelho pra fora do pala branco, ajustou o barbicacho logo abaixo do bigode. Devia estar lindo o tipo todo. Resolveu embromar Joana.

Entrou despacinho por baixo do parral, abriu sem bulha a janela da cozinha. Joana virou-se com a luz que entrava, arregalou os olhos de susto.

- Não te reconheci. Tu não vai durá muito.

Mulher agourenta, caramba! Não era à toa que cada vez mais parecia uma coruja. Queria só lhe fazer uma broma e recebia uma respostada daquelas. Ficou até meio sem jeito. Quis fazer um carinho, não pôde. “Bueno, já me vou!” - foi só o que conseguiu dizer.

Enquanto enfrenava o baio, buscou Negrinho com o olhar pelo galpão. Não estava mais lá. Uma revoada de pássaros indicou que já andava caçando pelo eucaliptal. Le traria umas rapaduras. Açúcar é ruim pra dentição, mas mais vale um gosto do que cem pesos. Apertou a cincha, já a cavalo fechou a porteira, saiu a trote manso pelo lançante da coxilha. Na sanga, enquanto o baio tomava água, olhou para trás. Em frente à casa senhorial, se delineava contra o horizonte o cinamomo que dera sombra a tantas gerações. Imóvel contra o céu já claro, suas ramadas mais altas acenavam como que em despedida. Talvez fosse aquela árvore, com sua copa generosa, a causa do empobrecimento e decadência dos Moreiras. Sua sombra convidava sempre para o mate. Pela manhã, batia no portal da casa, o sol já ia alto mas sua sombra era sempre fresca. Depois da sesta, a sombra estava do outro lado da cerca que rodeava o pátio. Quanto namoro não começou com mate doce debaixo daquela ramada!

Já que a água estava quente, os barbados aproveitavam pra tomar um amargo junto com o mulherio. Enquanto isso, a lavoura se enchia de jujo brabo, os alambrados deitavam mal um caturrita pousava no fio de cima. Fosse como fosse, cumprira sua obrigação, a de dar sombra. Se os Moreiras não haviam cumprido a sua, a culpa não era do cinamomo.

Atravessou a sanga pelo passo do vime. Tinha histórias aquele vime. Ali pescara suas primeiras joaninhas (um dia uma Joana o pescou, mas isso já era outro causo), ali possuíra sua primeira ovelha. No tronco deitado à guisa de barranco, cavalgara a primeira égua. E numa tarde quente de dezembro, quando levava os animais pra aguada, encontrou Joana acocorada esfregando roupa nas pedras. Não resistiu, homem não é de ferro. O sabão caiu na correnteza, foi descendo, fazendo borbulhas sanga abaixo.

Largou as rédeas do baio, que partiu num galope suave. A brisa dobrava as abas do chapéu de feltro, o barbicacho se enredava nos flecos do pala. Uma perdiz assustada alçou vôo, interrompida em seu passeio matinal. De um cardo a outro brilhavam babas-de-boi. Em zona de pedregal, os quero-queros mergulhavam com puas e gritos de guerra. Juvêncio galopava com o rebenque apoiado no lombilho, gesto pelo qual os Moreiras eram reconhecidos a léguas. Não que o baio precisasse de mango, no necesita el rebenque el que tiene buen cavallo, diz o paisano, mas em toda cancha de osso sempre há um atrevido implorando um mangaço.

O campo havia mudado, e como! Nos tempos de rapazote, era só se chegar no bolicho e já se sabia onde havia bate-coxa. Tudo tinha terminado, hoje só sobrava jogo de taba e missa no último domingo do mês. Não havia mais churrasqueada em eleição, ninguém dava mais baile pra despachar as machorras. Não havia mais estímulo pra uma penca, já nem se podia matar negro em fandango que a Rural Montada não dava mais folga ao índio. Se um ia calmamente pela estrada, nunca faltava um caminhão ou jipe roncando para atirar o cavalo nas macegas. Qualquer dia o Aliás Bendigo juntava uma boa plata e botava armazém na cidade. E nada mais haveria pra se fazer no domingo. Não era por nada que a rapaziada mais nova se mandava pros povoados.

O cavalo resfolegava, passou pra um trote largo. Ao passar pelo rancho das Tujas, o baio exibiu suas manhas de marchador. Mas as Tujas já tinham se mandado à la cria, há muito o rancho era tapera. A última que ficara se afogou numa cacimba ao saber que tinha doença ruim, ninguém consegue esquecer a infeliz nem beber daquela água. Só o baio não via isso, insistia em ser galante. Mulher da vida só no povo, agora. Os pagos ficavam cada dia mais tristes.

Chegou cedo no bolicho, nenhum cavalo na frente. De longe avistou o Aliás no meio dos eucaliptos, molhando a cancha de osso. Certa volta foi descoberto um pelego enterrado numa ponta. Por mais clavador que fosse o índio, só dava culo. Não saiu morte porque ninguém sabia a quem matar. Ninguém falou nada, mexerico é coisa de china. Mas não houve quem não pensasse no Aliás.

Ao chegar ao palanque, Aliás se aproximou com uma faca e uma chaira.

- Buenas, Juvêncio. Me ajudas a coreá uma vaca?
- Se não for roubada, te ajudo.

Broma de mau gosto. Com três mangangás no peito, Juvêncio Moreira mordeu o pó do terreiro. Cumprida sua sina, o baio voltou ao trotezito pelo caminho real, os estribos balançando na manhã de domingo.

sábado, agosto 24, 2013
 
DONA MARTA QUEBRA TODOS
PARADIGMAS DA CORRUPÇÃO



Cultura é palavra abrangente, de difícil definição. Em seu sentido mais lato, eu diria que cultura é tudo o que o homem faz. Assim, tanto um anzol como a bomba atômica, um ábaco ou um computador, uma ópera ou um show de rock, um tacape ou a pedra de Rosetta constituem cultura. Já num sentido restrito, para efeitos pessoais delimito a cultura àquela área das grandes produções do espírito. Neste sentido, fazem parte da cultura tanto a lei da gravidade como a da termodinâmica, a Bíblia ou o Quixote, tanto Mozart como Shakespeare, Platão ou Dante, Schliemann ou Champollion. Mas jamais Rowling ou Paulo Coelho, Madonna ou Lady Gaga, Roberto Carlos ou Chico Buarque, Beatles ou U2. Aí estamos o mundo do comércio, do show business.

Moda é cultura? Naquele sentido lato, claro que sim. Pode um desfile de moda ser patrocinado por uma lei de incentivo à cultura? Neste momento, se ficamos com o sentido lato, a lei Rouanet pode financiar tudo o que o homem faz, desde turismo até mesmo guerra. Não é este no entanto – ou não era – o sentido da lei Rouanet. A lei teria o sentido original de incentivar as produções do mundo das artes. Diz o artigo 18 da lei nº 8.313, de 23.12.1991:

§, 2º. As pessoas jurídicas tributadas com base no lucro real não poderão deduzir o valor da doação ou do patrocínio referido no parágrafo anterior como despesa operacional.
§ 3º. As doações e os patrocínios na produção cultural, a que se refere o § 1º, atenderão exclusivamente aos seguintes segmentos:
a) artes cênicas;
b) livros de valor artístico, literário ou humanístico;
c) música erudita ou instrumental;
d) exposições de artes visuais;
e) doações de acervos para bibliotecas públicas, museus, arquivos públicos e cinematecas, bem como treinamento de pessoal e aquisição de equipamentos para a manutenção desses acervos;
f) produção de obras cinematográficas e videofonográficas de curta e média metragem e preservação e difusão do acervo audiovisual; e
g) preservação do patrimônio cultural material e imaterial.
h) construção e manutenção de salas de cinema e teatro, que poderão funcionar também como centros culturais comunitários, em municípios com menos de 100.000 (cem mil) habitantes.

A data da lei é emblemática, vésperas de Natal. Augúrios de presentes a amigos e conhecidos. A lei não diz, mas pela lógica seria de supor-se que o financiamento seria a obras de difícil comercialização, já que não tem sentido algum financiar obras que vendem bem e dão lucro. Se assim fosse, teríamos o Estado bancando a iniciativa privada. Ocorre que estamos no Brasil. Mesmo no espírito original da lei, a porta já estava aberta para a corrupção. Com a política de clientelismo que impera no país, óbvio que o governo só vai autorizar o financiamento dos amigos.

Assim, já nos 90, sob as asas da abençoada lei, Rubem Fonseca, Patrícia Mello, João Gilberto Noll e Chico Buarque desembarcavam em Londres, onde fizeram leituras públicas de suas obras e lançaram livros não só na capital britânica, como também na Escócia e no País de Gales.

Em um primeiro momento, poderíamos pensar: que maravilha, o Reino Unido se interessa por nossa literatura. Nada disso. Era o Ministério da Cultura brasileiro que promovia tais turismos e financiava as traduções dos autores brasileiros. A famigerada lei serviu para entronizar a vaidade de um ex-presidente. De ilhapa, sobrou dinheiro até para empresas fantasmas.

Conta-nos o Estadão que em 2005 a Fundação José Sarney , para manter um museu com o acervo do período em que foi presidente da República,- desviou para empresas fantasmas e outras da família do próprio senador dinheiro da Petrobrás repassado em forma de patrocínio para um projeto cultural que nunca saiu do papel.

Segundo o jornal, do total de R$ 1,3 milhão repassado pela estatal, pelo menos R$ 500 mil foram parar em contas de empresas prestadoras de serviço com endereços fictícios em São Luís (MA) e até em uma conta paralela que nada tem a ver com o projeto. Uma parcela do dinheiro, R$ 30 mil, foi para a TV Mirante e duas emissoras de rádio, a Mirante AM e a Mirante FM, de propriedade da família Sarney, a título de veiculação de comerciais sobre o projeto fictício. A verba foi transferida em ato solene com a participação de Sarney e do presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli. A Petrobrás repassou o dinheiro à Fundação Sarney pela Lei Rouanet.

Se o financiamento da fundação se enquadrava no que chamo de corrupção perfeitamente legal, o mesmo não se pode dizer para do desvio para empresas fantasmas da família do senador. Alguma punição, pelo menos para a corrupção ilegal? Pelo que sei, nenhuma.

Uma vez amigo do Rei, para sempre amigo do Rei. Em maio de 2012, Chico Buarque voltou a beber na generosa fonte. Recebeu financiamento da Biblioteca Nacional para a tradução de seu livro Leite Derramado para o coreano. Mais uma ajuda financeira indireta do Ministério da Cultura, comandado pela mana Ana. Chico quer empurrar sua “obra” ao mercado asiático. Quem a paga a tradução da obra do vate na Coréia? Você, leitor, que é coagido a pagar e cinicamente chamado de contribuinte.

Sobrou até para autores insólitos no mundo das Letras, que fizeram carreira abrindo as pernas para quem pagasse. Bruna Surfistinha teve uma renúncia fiscal de dois milhões de reais aprovada pelo Ministério da Cultura para a produção da peça de teatro Doce Veneno, inspirada em sua vida exemplar de prostituta. Como a dita vida fácil andava muito difícil, Bruna Surfistinha preferiu optar por ofício similar e mais confortável, a literatura. Acabou estreando no teatro, graças às mordomias da Lei Rouanet.

Os favorecimentos a amigos do Rei foram se sucedendo, mas sempre dentro de áreas que, a rigor, se enquadravam no disposto na lei. Em 2007, os amigos foram mais ousados. O governo federal autorizou a organização da Oktoberfest, festa do chope no Rio Grande do Sul, a captar R$ 1,182 milhão, via Lei Rouanet. Justificativa: o projeto "mantém e potencializa a cultura local, essencialmente germânica, contemplando a música instrumental". Chope também é cultura. Pergunta ao contribuinte que gosta de chope: se você já financiou a festa, por que terá pagar de novo pelo chope?

Esta farra com o bolso alheio teve seu ápice quando o Cirque du Soleil, companhia circense do Canadá, apresentou-se em São Paulo subsidiado pela famigerada lei. E deu-se ainda ao luxo de cobrar ingressos caríssimos dos contribuintes que financiavam seu espetáculo. Os canadenses devem ter ficado perplexos com a generosidade tupiniquim. Eram pagos para ganhar dinheiro.

Nesta semana, a escalada foi mais longe. Com a aprovação de dona Marta Teresa Smith de Vasconcellos Suplicy, psicóloga, sexóloga e hoje ministra da Cultura, três estilistas brasileiros estão autorizados a captar, por meio da generosa lei, cerca de R$ 7, 6 milhões para a realização de desfiles de moda. Pedro Lourenço irá receber R$ 2, 8 milhões para desfilar na Semana de Moda de Paris; Ronaldo Fraga será contemplado com R$ 2 milhões para realizar suas duas próximas coleções e desfiles na São Paulo Fashion Week. Alexandre Herchcovitch vai poder captar R$ 2, 6 milhões, para criar sua próxima coleção, que irá desfilar em Nova York e na SPFW.

"No meu desfile, as pessoas terão acesso à cultura brasileira por meio de uma moda surpreendente, trazendo ainda a arquitetura jovem do país para criar um espaço diferente e vão conhecer o que há de mais inovador nestes setores", disse Pedro Lourenço.

“Quebra de paradigmas” – leio no Estadão de hoje. “Assim vem sendo vista pelo mundo da moda e pela ministra da Cultura Marta Suplicy a aprovação do projeto”.

De fato, foi uma quebra de paradigmas. "Il nous faut de l'audace, et encore de l'audace, et toujours de l'audace" - dizia Danton. Dona Marta escancarou de vez a porta para os corruptos. Orgulhe-se, meu caro contribuinte. Sua “contribuição” de 7,6 milhões de reais está financiando desfiles nas mais prestigiosas capitais do Ocidente.

Daqui pra frente, tudo será diferente. Não mais serão financiados apenas escritores, teatrólogos e cineastas corruptos. A hora e a vez é dos estilistas.

sexta-feira, agosto 23, 2013
 
Relembrando a Guerra Fria:
SANTIAGO SEGUNDO LITTÍN *



Santiago do Chile — A cidade é feia, pobre e suja. Pelos buracos e lixo acumulado nas amplas avenidas, adivinha-se uma capital que um dia foi próspera e cujos habitantes desfrutaram, em passado pouco distante, um alto nível de vida. Cidadãos pobremente vestidos, em seus ternos ainda restam farrapos de dignidade - e nada mais triste do que ver um homem cheio de remendos, mas elegantemente vestido, estendendo a mão súplice para pedir alguns centavos. Lojas vazias, de vazias e tristes vitrines, restaurantes entregues às moscas, garçons olhando para nada. Mal o sol se põe sobre o Pacífico, a capital escurece e os raros privilegiados da tirania se escondem em suas tocas, temerosos da fome e da justa violência dos deserdados. Mesmo durante o dia, nota-se tensão e medo nos rostos e gestos, como se alguém que agora circula livremente pelas ruas, no momento seguinte, sabe Deus lá por que razões, pudesse estar algemado nos porões da ditadura. Um exército parece ter postos suas patas sobre a cidade. Estou em Santiago do Chile. Do Chile de Pinochet.

O poder do tirano é onipresente. Em um país privilegiado pelos deuses, que por sua geografia se permite quatro estações simultâneas, mar e montanha, deserto e neve, os tentáculos da ditadura envolvem o território todo, manifestando-se principalmente na capital. Raríssimas bancas de jornais exibem apenas a imprensa laudatória ao regime. Jornais de oposição, nem em sonhos. A imprensa internacional está banida do país e só pode ser adquirida em hotéis de luxo, onde o cidadão comum só pode entrar se estiver disposto a sérios interrogatórios pela polícia do regime ao sair, mesmo que saia sem jornal algum. As raríssimas livrarias, de paupérrimas estantes, exibem não mais que literatura técnica e alguma ficção de escritores coniventes com a ditadura.

Miséria, lixo, decadência, medo, opressão, silêncio, desconfiança: estes são os odores que todo visitante, isento de quaisquer preconceitos ideológicos, respira em um rápido giro por Santiago. Mas as cidades são como árvores, quem quiser destruí-las terá de cortar-lhes as raízes. Estão vivas as raízes de Santiago. Que um dia será Salvador. Salvador Allende.

Terminasse eu aqui esta crônica, sem ajuntar sequer uma linha a mais, conquistaria platéias e simpatias, sem falar em tribunas, lugar ao sol e quem sabe até mesmo uma sinecura num órgão público qualquer. Acontece que estaria mentindo, transmitindo, é verdade, uma mentira que todos gostam de ouvir. Como não gosto de mentir, renuncio a eventuais simpatias e passo a contar o que vi.

Para quem está acostumado a bater pernas pelas ruas de cidades como Porto Alegre ou São Paulo, Santiago exerce um poderoso impacto pela conservação e limpeza de suas ruas e passeios. Nas capitais brasileiras, há muito resignei-me a enfrentar ruas sujas e esburacadas, sem falar no lixo cotidiano nelas jogado por transeuntes sem noção alguma de cidadania, meros habitantes, nefastos usuários da cidade. Passear pelas margens do Mapocho - rio que atravessa um aglomerado de cinco milhões de almas - é respirar milagre, suas águas preservam a limpidez com que descem da Cordilheira. Para quem sofre a Beira-Mar Norte de Florianópolis - já nem falo do riacho Ipiranga ou Tietê - o Mapocho mais parece miragem de viajante perturbado pela travessia dos Andes.

Pelo Paseo de la Ahumada, rua Estado, Huérfanos, uma fauna humana e bem vestida (insisto em dizê-la humana, pois os transeuntes das ruas centrais do Rio ou São Paulo, sem ir mais longe, mais parecem animais machucados na luta pela vida) que há muito não se vê nas metrópoles da América Latina. Antes de Santiago, estive em Buenos Aires e a outrora elegante Florida, hoje, proporções à parte, mais parece rua Direita ou Nossa Senhora de Copacabana. Deixada de lado a agressão idiota - mas não perigosa - de cambistas à cata de divisas fortes, senti no centro de Santiago sensação que brasileiro algum pode hoje sentir em nossas capitais: a sensação de segurança. As ruas da capital chilena têm um ar de praça; nela vi velhos, jovens e crianças sentadas, degustando sorvetes e o espetáculo da rua em si, tanto à tarde como à noite, sem preocupação alguma com assaltos ou violência gratuita. Para mim, que já penso duas vezes quando em Porto Alegre ao atravessar a Borges e a Praça XV para freqüentar o Chalé à noite, Santiago me fez evocar a Praça da Alfândega dos anos 60, quando filosofávamos madrugada adentro preocupados com a enteléquia aristotélica ou o ser em Sartre, jamais com punhais ou revólveres.

Outra surpresa, e das melhores, os quiosques de jornais e revistas. Penso que tais quiosques são uma excelente amostragem da cultura e liberdade de expressão de um país, neles podemos auscultar que tipo de informação consomem os cidadãos e, ao mesmo tempo, que qualidade ou quantidade de informação não proíbe o Estado de ser consumida. Pois bem: nesta Santiago que imaginava cidade sitiada e sob censura, vi nas bancas uma profusão e diversidade de jornais que sequer encontrei em Paris ou Madri. Jornais em cirílico do Leste europeu, imprensa de toda Europa, Escandinávia, Alemanha, França, Itália, Espanha, Estados Unidos, América Latina, Brasil. Sabendo como esta imprensa toda é gentil a Pinochet, o espanto do turista vira perplexidade. E mais: jornais chilenos malhando, em primeira página, a ditadura. Ocorre-me evocar os quiosques tristes e monocórdios que vi em cidades do Leste europeu, mas nem preciso ir tão longe. Nenhuma banca do Rio ou São Paulo, neste Brasil 88, me oferece tal quantidade e diversidade de informação.

Livrarias imensas, bem sortidas, onde não faltam livros de Fidel Castro ou Garcia Márquez, o mais ferrenho adversário de Pinochet e, curiosamente, defensor incondicional do ditador cubano. Tampouco faltam nas prateleiras obras de José Donoso ou Isabel Allende, isso para citar apenas dois opositores do regime chileno já conhecidos do leitor brasileiro. O que é no mínimo insólito em uma ditadura.

Nas vitrines e gôndolas das mercearias, víveres e bebidas do mundo todo, desde arenques do Báltico a foie gras trufado, dos mais diversos uísques da Escócia a vinhos alemães, franceses, italianos, espanhóis. E chilenos, naturalmente. Preços? Abordáveis. Para se ter uma idéia, pode-se comprar um scotch - com a certeza de que não são da reserva Stroessner - a partir de dez dólares, ou seja, o preço de um Natu Nobilis hoje. Que mais não seja, qual intelectual de esquerda não gostaria de viver em uma sociedade onde uma dose de um bom escocês custa, em bares, um dólar? Conheço não poucos exilados traumatizados com a democrática França de Mitterrand, onde um gole de uísque só é viável a partir dos cinco dólares. Piadas à parte, a farta oferta de tais produtos evidencia uma sociedade habituada a comer bem e com requinte, afinal comerciante algum seria insano a ponto de importar iguarias para turista ver.

Contava eu estas e outras coisas à uma moça ilhoa e bem-nascida, cidadã da Santa e Bela Catarina, dessas que julgam ser todo empresário um canalha, mas que jamais recusam uma cobertura facilitada por um pai empresário, dessas que jamais subiram o morro do Mocotó mas estão preocupadas com a colheita do café na Nicarágua, em suma, falava eu com um espécime típico da raça que chamo de os Novos Cafeicultores, e a objeção - a primeira objeção - caiu como um raio:

— E a miséria? Aposto que não foste visitar os bairros pobres, a periferia de Santiago.

Tinha razão em parte a jovem cafeicultora. Não visitei os bairros pobres de Santiago, afinal se troco as margens do Atlântico pelas do Pacífico, não será para ver miséria que conto meus parcos dólares. Não tenho a psicologia do francês médio, por exemplo, que mal chega ao Brasil, quer visitar favelas. Este comportamento, a meu ver doentio, parece-me ser vício de europeu inculto e de consciência pesada, que insiste em ver a miséria do Terceiro Mundo que explora, para depois contribuir com avos de seu bem-estar para guerrilhas suicidas. Se junto meus trocados para visitar um país, quero receber o que de melhor esse país tem a me oferecer. Nos anos que vivi em Paris, descia certa vez de Montmartre e enveredei pelas ruelas da Goutte d'Or, encrave árabe e paupérrimo que se alastra na cidade como mancha de óleo. Senti-me, de repente, em um território miserável para o qual jamais teria pensado em viajar, que mais não seja não será minha indignação ou revolta que resolverá o problema árabe na França. Dei meia volta, enfurnei-me na primeira boca de metrô e só voltei à superfície na Rive Gauche, a margem que mais me fascina do Sena. Não, não vi a miséria de Santiago. Mas consolei a cafeicultora: podes estar certa de que miséria existe, pois miséria está presente em qualquer metrópole do mundo.

Ela sorriu por dentro, parecia dizer: que bom que existe miséria em Santiago. O que me deixou um tanto perplexo, eu sorriria intimamente se soubesse que não existe miséria em lugar algum do mundo, independentemente de regimes políticos ou ideológicos. Ela, por sua vez, admitia a veracidade de meu relato. Ajuntei que a inflação era de seis por cento. Quando digo isto a um brasileiro, a reação normal é: "seis por cento ao mês?" Acontece que é seis por cento ao ano. Isto é sonho que, brasileiros, já nem ousamos sonhar. Se eu passar a alguém os preços de um restaurante que visitei em Santiago no mês passado, e se este alguém visitar o Chile no ano que vem, é provável que os preços continuem os mesmos ou, no máximo, tenham variado em torno de uns dez por cento a mais. Cá entre nós, não conseguimos recomendar para amanhã um restaurante no qual comemos ontem. Caiu, então, fulminante, a segunda objeção:

— Sim. Mas que preço pagaram os chilenos por este bem-estar?

Houve, no Chile, um assalto marxista e armado ao Estado e negá-lo é paranóia. Deste confronto resultaram, segundo alguns, três mil mortes. Segundo outros, quarenta mil. De qualquer forma, um preço infinitamente inferior ao preço pago pelos russos a Josiph Vissarionovitch Djugatchivili - que oscila entre vinte e sessenta milhões de cadáveres - para dar no que deu: uma confederação forçada de países pobres, alguns vivendo a nível de fome, como a Romênia e a Albânia. Bem mais barato que o preço pago pelos cambojanos a Pol Pot: dois milhões e meio de mortos, em um país de cinco milhões de habitantes, e disto não mais se fala. Sem falar que os que ficaram se jogam ao mar em jangadas, enfrentando tempestades, tubarões e piratas, ou já esquecemos os boatpeople? Sem falar nos que matou Castro - número que nenhum Garcia Márquez aventa - para instalar no Caribe seu gulag tropical. Em Cuba também há farta escolha de bebidas e gêneros alimentícios. Mas só o turista pode comprá-los, e com dólar. O cidadão cubano fica chupando no dedo. Nas praias, cheias de peixes, não há atividade pesqueira alguma, pois quem tem barco vai pra Miami.

— Justificas então tais mortes? - quis saber a moça - referindo-se, é claro, aos mortos do Chile, já que tornou-se tácito, para os fanáticos contemporâneos, que é lícito fazer correr sangue de certas pessoas e criminoso o de outras. Em suma, para usar dois conceitos que não me agradam, porque multívocos, é perfeitamente permissível fazer jorrar sangue da assim chamada direita e constitui sacrilégio, quase tabu, sangrar a assim chamada esquerda. Não justifico morte alguma, a humanidade tem pelo menos uns três mil anos de experiência histórica, milênios suficiente, parece-me, para concluirmos que não é matando que se chega a erigir a cidade humana.

— Cristaldices! - jogou-me na cara minha cafeicultora, digo, interlocutora. Pode ser. Chamo então um cineasta exilado que voltou clandestinamente ao Chile, em depoimento tomado por Gabriel Garcia Márquez, intitulado A Aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile, já traduzido ao brasileiro por Eric Nepomuceno e encontradiço em qualquer livraria. No capítulo significativamente intitulado "Primeira desilusão: o esplendor da cidade", depõe Littín:

— Eu atravessei o salão quase deserto seguindo o carregador que recebeu minha bagagem na saída, e ali sofri o primeiro impacto do regresso. Não notava em nenhuma parte a militarização que esperava, nem o menor traço de miséria. (...) Não encontrava em nenhuma parte o aparato armado que eu tinha imaginado, sobretudo naquela época, com o estado de sítio. Tudo no aeroporto era limpo e luminoso, com anúncios em cores alegres e lojas grandes e bem sortidas de artigos importados, e não havia à vista nenhum guarda para dar informação a um viajante extraviado. Os táxis que esperavam lá fora não eram os decrépitos de antes, e sim modelos japoneses recentes, todos iguais e ordenados.

Mais adiante:

— Na medida em que chegávamos perto da cidade, o júbilo com lágrimas que eu tinha previsto para o regresso ia sendo substituído por um sentimento de incerteza. Na verdade o acesso ao antigo aeroporto de Los Cerrillos era uma estrada antiga, através de cortiços operários e quarteirões pobres, que sofreram uma repressão sangrenta durante o golpe militar. O acesso ao atual aeroporto internacional, em compensação, é uma auto-estrada iluminada como nos países mais desenvolvidos do mundo, e isto era um mau princípio para alguém como eu, que não só estava convencido da maldade da ditadura, como necessitava ver seus fracassos na rua, na vida diária, nos hábitos das pessoas, para filmá-los e divulgá-los pelo mundo. Mas a cada metro que avançávamos, o desassossego original ia se transformando numa franca desilusão. Elena (militante da esquerda chilena que acompanha Littín) me confessou mais tarde que ela também, ainda que estivesse estado no Chile várias vezes em épocas recentes, tinha padecido o mesmo desconcerto.

Coragem, leitor de esquerda. Adelante! Leiamos Littín, só mais um pouquinho:

— Não era para menos. Santiago, ao contrário do que contavam no exílio, aparecia como uma cidade radiante, com seus veneráveis monumentos iluminados e muita ordem e limpeza nas ruas. Os instrumentos de repressão eram menos visíveis do que em Paris ou Nova York. A interminável Alameda Bernardo O'Higgins abria-se frente a nossos olhos como uma corrente de luz, vinda lá da histórica Estação Central, construída pelo mesmo Gustavo Eiffel que fez a torre de Paris. Até as putinhas sonolentas na calçada oposta eram menos indigentes e tristes do que em outros tempos. De repente, do mesmo lado em que eu viajava, apareceu o Palácio de La Moneda, como um fantasma indesejado. Na última vez que eu o tinha visto, era uma carcaça coberta de cinzas. Agora, restaurado e outra vez em uso, parecia uma mansão de sonho ao fundo de um jardim francês.

Fico por aqui. Se o leitor ainda alimenta dúvidas, que visite o Chile, preferentemente após ter deambulado por Havana. O homem só conhece comparando. Para finalizar, apenas mais uma observação, não minha, mas de Littín, que talvez elucide a prosperidade atual de seu país.

— Uma das primeiras medidas que ele (Allende) tomou no governo foi a nacionalização das minas. Uma das primeiras medidas de Pinochet foi privatizá-las outra vez, como fez com todos os cemitérios, os trens, os portos e até o recolhimento do lixo.

O que esclarece, a meu ver, o fascínio das ruas de Santiago.

* 10/12/88

quinta-feira, agosto 22, 2013
 
RELATOR DEFENDE ESTUPRO
E INFANTICÍDIO, DESDE QUE
CRIMINOSOS SEJAM ÍNDIOS



Alguém ainda lembra do cacique caiapó Paulinho Paiakan – o homem que podia salvar a humanidade - como foi saudado pela imprensa americana? Em 89, o homem que podia salvar a humanidade – conta-nos a Veja - foi homenageado nos salões luxuosos do Hotel Waldorf-Astoria, em Nova York, ao lado do ex-presidente americano Jimmy Carter. Tinha entre seus admiradores o príncipe Charles e outros membros da famíilia real britânica. O cineasta Ridley Scott, diretor de Alien, o Oitavo Passageiro e Blade Runner, queria fazer um filme sobre sua vida. Era tão popular no exterior que, numa viagem ao Canadá, conseguiu juntar 60.000 dólares em apenas algumas horas. Graças aos bons negócios que fazia com os produtos de sua tribo, era também um índio de muitas posses, dono de carros, avião e terras.

Em junho de 92, Paiakan – que deveria estar representando as comunidades indígenas na Eco 92 – fugia da polícia pelo interior do Pará. Em cumplicidade com sua mulher Irekran, estuprou barbaramente uma menina, professora de suas filhas, a estudante Silvia Letícia da Luz Ferreira, de 18 anos, filha de agricultores de Redenção, cidade ao sul de Belém. A menina tinha feridas espalhadas pelo corpo inteiro, sinais de espancamento no rosto, o bico de um seio dilacerado a dentadas. Estupro é crime hediondo, quando cometido por brancos. Enquanto o processo se arrastava, Paulinho - são simpáticos os diminutivos! - avisou: se fosse condenado, não sairia de sua reserva. Ameaçou inclusive fazer rolar o sangue dos brancos, em caso de condenação.

Foi condenado a seis anos de prisão. Não fez rolar o sangue dos brancos, mas continua até hoje em sua reserva, livre como um passarinho. A Polícia Federal, única autorizada a agir em reservas indígenas, com todo seu poder de fogo, não ousou lá entrar para buscar o criminoso. Paulinho zombou do Estado brasileiro, zombou da Justiça brasileira, zombou de sua vítima. Não houve na época sequer uma feminista que protestasse contra o crime hediondo.

Em 2008, a revista Istoé narrava a história de Amalé, indiozinho de quatro anos, que sobreviveu a um enterramento. Logo que nasceu, foi enterrado vivo pela própria mãe, que seguia um ritual determinado pelo código cultural dos kamaiurás, que manda enterrar vivo aqueles que são gerados por mães solteiras. Para assegurar que o destino de Amalé não fosse mudado, seus avós ainda pisotearam a cova. Duas horas depois, em um gesto que constituiu um desafio a toda aldeia, uma tia apiedou-se do menino e o desenterrou. Estava ainda vivo. Amalé só teria escapado da morte porque naquele dia a terra da cova estava misturada a muitas folhas e gravetos, o que pode ter formado uma pequena bolha de ar.

“Antes de desenterrar o Amalé, eu já tinha ouvido os gritos de três crianças debaixo da terra”, relata Kamiru, a tia que o salvou. “Tentei desenterrar todos eles, mas Amalé foi o único que não gritou e que escapou com vida”. Dois casos, entre muitos dos quais não temos notícias. Há muito venho discutindo a chamada questão indígena e não me é fácil dizer algo de novo. Em agosto de 2011, sob pressão do governo, a Câmara esvaziou um projeto de lei que previa levar ao banco dos réus agentes de saúde e da Funai (Fundação Nacional do Índio) considerados "omissos" em casos de infanticídio em aldeias. A prática de enterrar crianças vivas, ou abandoná-las na floresta, persiste até hoje em cerca de 20 etnias brasileiras. Os bebês são escolhidos para morrer por diversos motivos, desde nascer com deficiência física a ser gêmeo ou filho de mãe solteira.

Em meu livro Ianoblefe (1994), citei as denúncias do antropólogo americano Napoleon Chagnon sobre as práticas ianomâmis, em cujas tribos a criança não desejada é morta após o parto. Ao tornar público este segredo de polichinelo, Chagnon foi excluído do universo da antropologia. Segundo a Istoé, a prática do infanticídio já foi detectada em pelo menos 13 etnias, como os ianomâmis, os tapirapés e os madihas. Só os ianomâmis, em 2004, mataram 98 crianças. Os kamaiurás matam entre 20 e 30 por ano. Mas entre os sacerdotes que vociferam contra o aborto, você não encontra um só que denuncie estes assassinatos. E tudo isto sob os olhares complacentes da Funai, que considera que os brancos não devem interferir nas culturas indígenas.

A polêmica chegou ao Congresso em 2007, quando o deputado Henrique Afonso (PV-AC) apresentou projeto que previa punir servidores que não tomem "medidas cabíveis" para impedir o ritual. Eles responderiam por crime de omissão de socorro, cuja pena varia de multa a prisão por até um ano. O texto ainda classificava o "homicídio de recém-nascidos" como uma "prática nociva". Antropólogos, indigenistas e assessores da Funai pressionaram a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, que adiou a votação da proposta por quatro anos.

Há alguns anos, comentei que os indígenas brasileiros se reservam o direito de matar filhos de mães solteiras e recém-nascidos portadores de deficiências físicas ou mentais. Gêmeos também podem ser sacrificados. Algumas etnias acreditam que um representa o bem e o outro o mal. Por não saber quem é quem, eliminam os dois.

Outras crêem que só os bichos podem ter mais de um filho de uma só vez. Há motivos mais fúteis, como casos de índios que mataram os que nasceram com simples manchas na pele – essas crianças, segundo eles, podem trazer maldição à tribo. Os rituais de execução consistem em enterrar vivos, afogar ou enforcar os bebês. Geralmente é a própria mãe quem deve executar a criança, embora haja casos em que pode ser auxiliada pelo pajé.

Ou seja, tanto estupro como infanticídio há muito são permitidos no Brasil, desde que seus autores sejam indígenas. Mas a lei – embora tolerasse tais crimes – não previa a exceção.

Leio no Estadão de hoje que o relator do projeto de mudança no Código Penal, senador Pedro Taques (PDT-MT), apresentou o parecer preliminar, retirando do texto propostas polêmicas como a legalização do aborto e da eutanásia. Mas incluiu a tipificação da corrupção como crime hediondo e regras mais rígidas para a progressão de penas nas propostas de mudança.

"Nossa intenção é fazer um Direito Penal mais justo, mas tendo claro que o Direito Penal não é um remédio para resolver os problemas do Brasil, mas apenas um mecanismo a mais para vivermos em uma sociedade mais justa", disse Taques. Entre as alterações no texto original, o relator propõe que índios teriam redução de pena em até dois terços ou simplesmente seriam anistiados quando praticarem crimes de acordo com suas crenças, costumes e tradições.

Se faltava legalizar estupro e infanticídio no Brasil, o relator está aplainando o caminho. Se aceita sua proposta, caciques não precisarão fugir para a selva por ter estuprado brancas nem índios serão acusados de matar os próprios filhos. Desde que ajam de acordo com suas crenças, costumes e tradições.

quarta-feira, agosto 21, 2013
 
CINEMA, LITERATURA E
OUTRAS CORRUPÇÕES



Há corrupções que correm soltas no Brasil contra as quais ninguém protesta, mesmo quando amplamente denunciadas na imprensa. Alguém viu algum jovem revolucionário – falo dos jovens revolucionários da Revolução – verdadeira, segundo a Veja – de Junho de 2013, protestar contra a corrupção universitária, ou a corrupção no mundo das letras ou do cinema? Diria que ninguém.

Verdade que de junho para cá ainda não decorreram dois meses, e a “voz das ruas”, que chegou a provocar propostas de constituinte e plebiscito, já nem mais é lembrada, como tampouco a constituinte e o plebiscito. Sic transit gloria mundi.

Antonio Hoauiss foi o autor de uma das maiores fraudes nacionais, a reforma ortográfica, que fez a lavoura de editores. A reforma era optativa – no sentido em que a lei não impunha nenhuma sanção a quem não a empregasse - mas tanto a universidade como a imprensa brasileiras engoliram bonitinho o golpe.

Alguém – sei lá quem – decidiu impor ao mercado tomadas de três pinos e o país inteiro se viu obrigado a trocar tomadas sem ter porquê. Uma tomada custa baratinho, não é verdade? Pelo menos enquanto você não multiplica o número de tomadas pelo número de residências no Brasil e pelo número de aparelhos elétricos que cada residência ou cidadão obrigatoriamente consome. O Brasil inteiro assumiu o golpe sem tugir nem mugir. Esta é, aliás, a forma mais palatável de corrupção: roubar centavos de milhões. Quem rouba milhões de poucos tende a se dar mal.

Ano passado, em crônica que foi amplamente replicada, eu falava das corrupções sutis, quase imperceptíveis, mas corrupções. A imprensa denuncia com entusiasmo a corrupção no congresso, na política, nos tribunais. Não diz uma palavrinha sobre a corrupção no santo dos santos, a universidade. Corrupção esta mais difícil de ser detectada, já que em geral foi legalizada. Mordomias para encontros literários internacionais inúteis, concursos com cartas marcadas, endogamia universitária, tudo isto se tornou rotina no mundo acadêmico e não é visto como corrupção.

Tampouco se fala sobre a corrupção no mundo literário, que há muito se prostituiu. Jorge Amado, que passou boa parte de sua vida escrevendo a soldo de Moscou, é homenageado todos os anos. Devo ter sido o único jornalista que o denuncia – e isto há décadas – como a prostituta-mor das letras tupiniquins.

Escritores, esses curiosos profissionais que querem transformar suas inefáveis dores-de-cotovelo em fonte de renda, adoram subsídios do Estado. As leituras obrigatórias são uma fonte de renda magnífica para os amigos do Rei. Um livro indicado para os currículos escolares faz a fortuna de qualquer escritor medíocre. Escritores já mortos, como Machado, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, há muito teriam sumido da memória nacional, não fossem as leituras obrigatórias. O Estado imbuiu-se da missão de protetor das artes e é no campo artístico que a corrupção mais campeia. Outra seara privilegiada é o cinema nacional. Que só sobrevive de renúncia fiscal.

Renúncia fiscal é o seguinte: a Fazenda aceita que empresas deixem de pagar o imposto devido desde que subsidiem as tais de “artes”. No fundo, quem paga é você. Porque o Fisco, se é generoso com o artista, de algum lugar terá de obter receita para repor sua generosidade. Esse lugar é nosso bolso. Ora, se eu financio a feitura de um filme, quero assisti-lo de graça. Com uma limusine enviada pela produção para me buscar em casa.

Não bastasse o contribuinte financiar a produção de filmes no Brasil, passou a financiar também sua exibição no estrangeiro. Em 2011, dez filmes ganharam verba para serem lançados no Exterior. O programa Cinema do Brasil distribui US$ 250 mil por ano para promover produções brasileiras. Mas o dinheiro não vai para os produtores e sim para os distribuidores. Nos últimos anos, vinte filmes brasileiros receberam apoio institucional para viajar.

São filmes que mal conseguem reunir alguns espectadores no Brasil e passaram a ser exibidos no Exterior. Foram lançados na França, Portugal e Japão. Os ediretores poderão acrescentar em seus currículos que suas “obras” foram um sucesso em Paris, Lisboa e Tóquio. Resta saber se alguém foi assistir. Pode ser que as salas tenham permanecido vazias. Mas o filme foi exibido. Com sua generosa contribuição, caro contribuinte.

O fato é que tais corrupções não podem ser legalmente enquadradas como corrupção. Elas são perfeitamente legais. Não bastassem ser perfeitamente legais, cineastas mais ousados não se contentam com esta permissão de roubar e sequer se dão ao trabalho de uma contraprestação mínima. De vários leitores recebi esta notícia, publicada no Globo:

BRASIL INVESTIU MAIS DE R$ 18 MILHÕES EM 17 FILMES
QUE NUNCA CHEGARAM AO GRANDE PÚBLICO


Este total é a soma dos valores captados por produtoras que hoje integram a lista negra da Ancine. Especialistas enxergam atraso de dez anos na reprovação de contas e lamentam dificuldade para recuperar valores captados. Vamos à reportagem:

Na relação existem projetos para públicos diversos. Há, por exemplo, uma adaptação do livro “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, que deveria ter saído do papel em 1996; uma do romance “Memorial de Maria Moura”, de Rachel de Queiroz, idealizada em 1997; um documentário com depoimentos de Betinho, de 1998; e o polêmico longa-metragem “Chatô, o rei do Brasil”, para o qual o produtor Guilherme Fontes começou a captar dinheiro em 1995. O valor investido também varia muito. Numa ponta está o doc sobre Betinho, que captou R$ 8 mil; na outra, “Chatô”, com R$ 8,6 milhões.

Segundo a Ancine, a maioria dessas produtoras não é sequer localizável. Muitas talvez nem existam mais. Todas as produções datam de 1995 a 2003. Dos projetos apresentados desde então, ainda não houve condenação — o que indica a existência de uma demora de pelo menos dez anos para que a agência reguladora reprove de forma definitiva as contas de uma produção apoiada.

— Não existe na Ancine nenhuma regra que fixe o tempo que ela tem para avaliar as contas de um projeto — diz Pedro Genescá, advogado especializado em leis de incentivo. — E isso é muito ruim, já que, na legislação brasileira, há prazos claros para expirar a punibilidade de crimes.


Leitores querem que comente a notícia. Comentar o quê? Não há comentário algum a fazer. Desde há muito as artes nacionais passaram a viver de corrupção. E palavras como escritor ou cineasta tendem a se tornar pejorativos, mais ou menos sinônimos de ladrão ou corrupto.

terça-feira, agosto 20, 2013
 
AZALÉIAS DE AGOSTO *


Era agosto. Elas se abriam em meu jardim com essa obscenidade com que sempre se abrem as flores, cumprindo sua missão natural de flores. Quanto mais floresciam, mais fenecias. Todos as manhãs eu atravessava aquele festival orgíaco de vermelho, rosa, branco e roxo, rumo ao amarelo ictérico que começava a envelopar tua pele, essa pele que por tantas décadas acarinhei.

"Onde estiver, vou sentir tua falta" - me disseste, com voz que jamais senti tão grave. Querendo afagar-me, suspeitando que pela última vez, te enganavas. Não estarás em parte alguma. Partiste para o grande nada, onde nada existe e ninguém sente falta de ninguém.

Quem vai sentir tua falta, todos os dias até o último deles, é este que fica e que em algum lugar sempre estará. Pelo menos até o dia em que não mais estiver. Quem parte descansa. Sofre quem fica. O que até me consola um pouco. Quem está sofrendo, pelo menos não és tu.

De novo é agosto e elas retomaram seu ritual exibicionista. Paranóicas, escondem-se nas primaveras e agora torturam meus invernos. Não apenas os meus, mas os de tantos outros cujos seres amados escolheram agosto para partir. Certa noite de setembro, eu conversava com jovens já contaminados pela resfeber, enfermidade nórdica que significa febre de viagens. Sedentos de vida, perguntaram a este ser tantas vezes acometido pela doença: qual é a mulher mais linda do mundo? Em que geografias pode ser encontrada?

Caí em prantos. A mulher mais linda do mundo, eu a conheci. E a tive. E agora não mais a tinha. Não a encontrara em distantes longitudes nem em países exóticos. Encontrei-a a meu lado, neste prosaico país, e nunca mais a abandonei. Quis a vida - ou talvez tenha quisto eu - que tivesse centenas de mulheres, algumas muitas queridas, outras nem tanto mas também desejadas, mais uma multidão de rostos mais ou menos anônimos, corpos sempre lembrados. Mentira da vida, mentira minha. Em verdade, tive só uma. Tu, que partiste no auge das azaléias.

"Eu não tenho medo da morte" - me disseste ainda, um pouco antes da passagem rumo ao nada. Mesmo desbotada pelo palor da vida que foge, estavas linda como nunca estiveste. Em tuas quase seis décadas, conservavas ainda aquele eterno rostinho de criança, que a passagem dos anos jamais conseguiu te roubar.

Sedada, já no torpor da morte, chamaste tuas últimas energias, te ergueste no leito. Levantando o dedinho, didática qual professora falando a seus pupilos, sussurraste com o que te restava de voz: "E se fizéssemos assim: eu assino um documento: eu, TKM, em pleno uso de minhas faculdades mentais, declaro que quero ter meus restos cremados no cemitério da Vila Alpina". Reuni minhas forças e consegui balbuciar: não te preocupa, Baixinha adorada, isto há muito está combinado, verme algum sentirá o gosto de tuas carnes. Tuas cinzas, vou jogá-las de alguma ponte em Paris, uma daquelas pontes que tanto amaste, para que saias navegando mares afora.

Passada a mensagem, te reclinaste em paz. Mas descumpri o trato. Não as joguei em Paris. Ficarias muito longe de mim, navegarias talvez por mares gelados e hostis, encalharias em geleiras e te perderias em fiordes, longe de meu calor. Com carinho, te plantei entre os rododendros e todas as manhãs passo entre ti e murmuro: adorada. É bom te cumprimentar. Mas como dói.

A vida nos foi pródiga, e isso é talvez o que mais machuque. Nestes últimos meses, tenho sentido uma secreta inveja de homens que casam com megeras horrendas. Quando elas partem, começa a felicidade. Se morrer feliz é o almejo de todo homem, esta graça não mais está reservada a quem um dia foi feliz. É duro conjugar certos verbos no passado. Dizia Pessoa:

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...


Bobagens de poeta, que tanto influenciaram meus dias de jovem. Verdade que sem ti correrá tudo sem ti. Mas isto vale para as azaléias - seres insensíveis que sequer perceberam a ausência de quem as adorava tanto - e para o resto da humanidade. Para quem perdeu o ser mais lindo da vida, é mero jogo de palavras.

As azaléias em breve irão perdendo seu sorriso orgíaco, suas cores fenecerão e agosto que vem estarão de novo florescendo, despudoradas. Tuas cores feneceram agosto passado e pelo resto de meus agostos não mais te verei florir.

* in memoriam 20 de agosto de 2003

segunda-feira, agosto 19, 2013
 
MEMÓRIAS DE UM EX-ESCRITOR (X)


Quando abordamos a obra de um escritor de renome, as mulheres que o acompanharam fazem parte de sua fama, trate-se de um Balzac ou de um Vinícius de Morais. Mas quando o candidato a escritor começa a fugir da monogamia, a gostar de muitas mulheres, seu gesto é quase criminoso. Se o candidato em questão for mulher, pior ainda: é puta e fim de papo. Em um escritor famoso, as muitas mulheres são um adorno à sua biografia. Como em uma escritora ou artista de renome, os vários homens que freqüentaram seu leito constituem currículo, aí estão Lou Salomé, Anaïs Nin, Frida Kahlo, Patrícia Galvão. No adolescente que começa a rabiscar seus contos, seja macho seja fêmea, a diversidade de parceiros é um estigma. Mesmo em Porto Alegre, em ambiente universitário, este comportamento não era muito bem visto. Na época, um radical de esquerda, mais tarde alcaide da capital e hoje ministro da Cultura, comentou que eu deveria ter muitos problemas, pois sempre andava com várias mulheres. Mandei um recado de volta: problemas teria ele, que andava sempre com a mesma. Eu tinha, isto sim, muitas soluções. Mais ainda: sem jamais ter mentido a nenhuma parceira.

Outro atrito com a cidade, a polêmica em torno à reforma agrária. Com os debates sobre a prostituição, foram surgindo detalhes que não imaginávamos existir. Por que uma mulher se torna prostituta? Por prazer é que não é. Havia o problema da migração do homem do campo para a cidade. Se o pequeno proprietário rural abandonava o campo com sua prole, era porque o latifúndio o expulsava. Os comunistas que nos rodeavam foram pródigos em bibliografia. Na época – final do governo Goulart – a grande questão nacional era decidir se a reforma agrária já estava prevista na Constituição, ou se seria necessário reformá-la para dividir as terras.

Lançamos então – éramos uns cinco ou seis pivetes, na faixa dos 14 ou 15 anos – um manifesto no Pirilampo, um jornalzinho estudantil que havíamos criado, em defesa da reforma agrária, solidamente fundamentado em Direito Constitucional. Era impresso na gráfica do Ponche Verde, de propriedade de Bernardo Munhoz, jornalista e fazendeiro. Na mesma semana, o jornal nos desancava em furioso editorial, assinado pelo Dr. Márcio Bazan. (Nas cidades do interior, todo bacharel se intitula doutor). O editorialista, advogado ao estilo antigo, em um texto pontilhado de muito latim, alertava a comunidade para os perigos do comunismo. O que preocupava as "forças vivas do município" era saber onde nós, pivetes, havíamos encontrado tantos argumentos jurídicos. Só podia ser coisa de comunista.

Não estavam longe da verdade. Naquela época, chegavam a Dom Pedrito dois exemplares do jornal Brasil, Urgente, editado em São Paulo por dominicanos de esquerda. Um dos exemplares era nosso, o outro do partido. Quem os distribuía era o Gerson Prabaldi, operário e militante, um dos raros comunistas que até hoje merece meu respeito. Funileiro, patrão de si próprio, lutava por uma sociedade mais justa, nada a ver com os filhos da classe média que fizeram carreira e fortuna montados nos ideais socialistas. Final de tarde, fechava a funilaria, pegava uma bicicleta e saía a fazer seu apostolado, o porta-cargas repleto de ideologia. Líamos as revistas China e Unión Soviética, ambas em espanhol, mais aquele catecismo em edições mensais do PC, a revista Problemas, e muita imprensa de esquerda.

O funileiro acreditava na utopia e dedicava suas horas de lazer à construção do socialismo. Homem de uma era pré-televisiva, na qual mesmo os jornais que eventualmente chegavam a Dom Pedrito desconheciam o que se passava no mundo soviético, Gérson acreditava piamente nos panfletos vindos de Pequim ou Moscou. Fosse um dia ao paraíso que louvava, ou tivesse melhores fontes de informação, tenho certeza de que faria marcha a ré. Era homem desinformado, mas honesto. Em sua oficina, rodeado de pneus e aros de bicicletas, recebi minhas primeiras aulas de marxismo, baseadas em um livrinho de Georges Politzer, Curso de Filosofia - Princípios Fundamentais. Primeiras e primárias: sua argumentação simplória não me convencia. No entanto, este divulgador menor foi bastante significativo. Em sua tentativa de trocar em miúdos o marxismo para um público operário, Politzer despe a doutrina de sua retórica e a exibe em sua indigência.

Nem por isso deixo de admirar o apóstolo da bicicleta, apesar de sua visão simplista do mundo. Com sua assessoria, argumentos para debate ideológico ou constitucional era o que não nos faltava. Enquanto os oblatos nos falavam em corpo místico de Cristo, estávamos mergulhados em estudos de materialismo dialético. Hoje, sabemos que as duas religiões pouco diferem uma da outra. Na época, eu julgava estar manipulando um método científico para encontrar um pouco de luz em meio às trevas clericais. Esconjuradas as trevas, acabei jogando no lixo o suposto método científico. Foi precioso como instrumento de libertação de uma fé. Eu conseguira escapar de uma religião, com não pouco sofrimento. Não estava disposto a submeter-me ao jugo de outra.

No dia seguinte às catilinárias do Ponche Verde, estávamos batendo às portas do Dr. Munhoz, de Constituição e Lei de Imprensa em punho, indignados. Exigíamos direito de resposta, o que nos foi concedido. Apelávamos aos sentimentos cristãos da comunidade, talvez até antecipando a dita teologia da libertação. Título:

Exigência de Cristo:
amor aos comunistas


Para não fazer feio ante o latinista, jogamos cá e lá alguns datas venias e quousque tandens na réplica, mais ou menos ao azar, assim como quem joga sal em uma picanha. O artigo foi publicado, cercado de editoriais. Novo mistério, nosso conhecimento do latim dos juristas. O único a matar a charada foi o padre Francisco, outro oblato vindo da Alemanha, professor de matemática: "Focês non me enganan, focês lerram as páchinas finais do Aurrélio". Na época, havia uma edição do Aurélio com expressões latinas ao final. Mas pesquisa nunca foi pecado.

Em meio a réplicas e tréplicas, um de nossos professores de português começou uma frase com um pronome oblíquo. Fomos implacáveis: "Admoestamos o ínclito mestre da língua vernácula que as mais elementares regras gramaticológicas coarctam o emprego do pronome oblíquo nos proêmios de uma frase". A resposta veio curta e grossa: "Rui Barbosa não foi presidente da República". Gerson Prabaldi voava em sua bicicleta, difundindo a polêmica. Me consta que as edições do semanário se esgotaram naqueles dias.

domingo, agosto 18, 2013
 
Crônica antiga:
PRIMEIRA EPISTOLA
ÀS POSSESSIVAS *



Uma amiga queixava-se outro dia de não se sentir exclusiva em suas relações afetivas. Reclamava dos homens que consideram a mulher como mais uma marca na coronha do rifle. Não podia conceber que alguém, homem ou mulher, amasse mais de uma pessoa. Amor exige exclusividade, ou não é amor, dizia. E anelava experimentar uma daquelas paixões que invadem o organismo como metástase incontrolável. Queria curtir um namoro daqueles antigos. Sonhava com abissais comoções de alma, com bocas entreabertas e olhares imóveis. Gesto que, aliás, sempre me traz à mente a imagem de um boi babando numa manhã de sol. Mas isto é outro assunto.

Um antropólogo inglês, que viveu algum tempo entre os bembas, na Rodésia, relata uma curiosa experiência.

Reunido com um grupo de nativos, o inglês contou-lhes uma lenda. A historieta falava de um príncipe que galgara montanhas de vidro, atravessara abismos e lutara com dragões para obter a mão da moça que amava. Os bembas não entendiam o porquê de tanto esforço, mas ficaram quietos. Por fim, um ancião, interpretando os sentimentos do grupo, tomou a palavra:

— Por que ele não escolheu outra moça?

Duvido que o antropólogo tenha conseguido explicar aos espantados bembas esse difuso sentimento civilizado que se convencionou chamar de amor. Sentimento que assumiu várias nuanças, desde os poemas de Safo de Lesbos, onde surge pela primeira vez na literatura ocidental, até o propalado amor conjugal dos últimos séculos. Mito que nasceu — com características homossexuais, saliente-se — evoluiu, atingiu seu auge lá pelo fim do século XI, com o chamado amour courtois, e hoje está em rápido declínio. Já houve quem o definisse como paixão ridícula, que não tem razão de ser, fora dos livros de recreação e dos romances. Outros o vêem como o contato de duas epidermes, ou ainda, um estado de anestesia perceptiva.

Falando sobre o namoro, Ortega Y Gasset foi implacável: “estado de miséria mental no qual a vida de nossa consciência se estreita, empobrece e paralisa”. E não fica nisto o pensador espanhol. Vai adiante: “um estado inferior de espírito, uma imbecilidade transitória. Sem anquilosamento da mente, sem redução de nosso mundo habitual, não poderíamos enamorar-nos. A alma de um namorado tresanda a quarto fechado de doente, a atmosfera confinada, nutrida pelos próprios pulmões que vão respirá-la. Quando caímos nesse estado de estreitamento mental, de angina psíquica, estamos perdidos”.

Não sei se por formação ou disposição psicológica, jamais entendi as tais relações exclusivas. Se ao menos fossem mútuas, teriam um certo sentido. Mas o dia-a-dia nos mostra que, em geral, fidelidade só existe da parte da mulher — quando existe. O homem sempre se permite aventuras paralelas, às escondidas. Os raros casos de fidelidade mútua que conheci não preenchem os dedos de uma mão. Como exceções, só confirmam a regra.

Por outro lado, gostar de uma única mulher e excluir as demais constitui, a meu ver, grave ofensa a tantas outras também amáveis. Por que razões seria uma mulher única na vida de um homem? Só por terem cruzado um pelo outro, certo dia, no mesmo ponto geográfico? E se fosse outra a cruzar?

Um amigo, muito impregnado em Dante, diz ter um critério infalível para saber se ama ou não uma mulher. Só existirá amor, quando enxergar naves no olho da amada. E vive me perguntando se alguma vez divisei naves vogando íris a dentro nos olhos de alguém. Não sei se serão os olhos pouco favoráveis à navegação, não sei se será minha miopia, o fato é que jamais vislumbrei as ditas naves.

Além disso, diz uma antiga maldição muçulmana:

“Se uma mulher o chamar para dormir com ela e você não vai, você está perdido. Deus não perdoa isto. Será colocado com Judas no mesmo abismo do inferno”.

* Folha da Manhã, Porto Alegre, 23 fevereiro 1976