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¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV
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janercr@terra.com.br
Tiragem
Janer Cristaldo escreve no Página Não-Oficial de Janer Cristaldo Arquivos 10/01/2003 - 11/01/2003 12/01/2003 - 01/01/2004 01/01/2004 - 02/01/2004 02/01/2004 - 03/01/2004 03/01/2004 - 04/01/2004 04/01/2004 - 05/01/2004 05/01/2004 - 06/01/2004 06/01/2004 - 07/01/2004 07/01/2004 - 08/01/2004 08/01/2004 - 09/01/2004 09/01/2004 - 10/01/2004 10/01/2004 - 11/01/2004 11/01/2004 - 12/01/2004 12/01/2004 - 01/01/2005 01/01/2005 - 02/01/2005 02/01/2005 - 03/01/2005 03/01/2005 - 04/01/2005 04/01/2005 - 05/01/2005 05/01/2005 - 06/01/2005 06/01/2005 - 07/01/2005 07/01/2005 - 08/01/2005 08/01/2005 - 09/01/2005 09/01/2005 - 10/01/2005 10/01/2005 - 11/01/2005 11/01/2005 - 12/01/2005 12/01/2005 - 01/01/2006 01/01/2006 - 02/01/2006 02/01/2006 - 03/01/2006 03/01/2006 - 04/01/2006 04/01/2006 - 05/01/2006 05/01/2006 - 06/01/2006 06/01/2006 - 07/01/2006 07/01/2006 - 08/01/2006 08/01/2006 - 09/01/2006 09/01/2006 - 10/01/2006 10/01/2006 - 11/01/2006 11/01/2006 - 12/01/2006 12/01/2006 - 01/01/2007 01/01/2007 - 02/01/2007 02/01/2007 - 03/01/2007 03/01/2007 - 04/01/2007 04/01/2007 - 05/01/2007 05/01/2007 - 06/01/2007 06/01/2007 - 07/01/2007 07/01/2007 - 08/01/2007 08/01/2007 - 09/01/2007 09/01/2007 - 10/01/2007 10/01/2007 - 11/01/2007 11/01/2007 - 12/01/2007 12/01/2007 - 01/01/2008 01/01/2008 - 02/01/2008 02/01/2008 - 03/01/2008 03/01/2008 - 04/01/2008 04/01/2008 - 05/01/2008 05/01/2008 - 06/01/2008 06/01/2008 - 07/01/2008 07/01/2008 - 08/01/2008 08/01/2008 - 09/01/2008 09/01/2008 - 10/01/2008 10/01/2008 - 11/01/2008 11/01/2008 - 12/01/2008 12/01/2008 - 01/01/2009 01/01/2009 - 02/01/2009 02/01/2009 - 03/01/2009 03/01/2009 - 04/01/2009 04/01/2009 - 05/01/2009 05/01/2009 - 06/01/2009 06/01/2009 - 07/01/2009 07/01/2009 - 08/01/2009 08/01/2009 - 09/01/2009 09/01/2009 - 10/01/2009 10/01/2009 - 11/01/2009 11/01/2009 - 12/01/2009 |
Sexta-feira, Agosto 31, 2007
EUROPA CRIA CUERVOS Os suecos tiveram uma sexta-feira agitada hoje. Os muçulmanos fazem a primeira página de seus jornais. No Dagens Nyheter lemos: SVENSKA FLAGGAN BRÄNDES DEMONSTRATION MOT MUHAMMEDHUNDAR Traduzindo: Bandeira sueca é queimada. Demonstração contra os cães de Maomé. No Aftonbladet: HÄR BRINNER DOCKAN AV FREDRIK REINFELDT KONSTNÄREN LARS VILKS MORDHOTAD Queimado o boneco de Fredrik Reinfeldt. Artista Lars Vilks ameaçado de morte. Reinfeldt é o primeiro-ministro sueco. Lars Vilks é o personagem através do qual o escândalo surge. A história toda começou com os rondellhund, esculturas amadoras de cães, geralmente bem-humoradas, colocadas em rotatórias de tráfego de todo o país como uma forma de expressão da contracultura. Aconteceu que Vilks teve a péssima idéia de desenhar uma imagem de rondellhund em que o cachorro tinha a cabeça de Maomé. A imprensa do país passarou a discutir se as galerias de arte deveriam expor a imagem. E um jornal de Örebro, o Nerikes Allehanda, considerou o debate digno de novas análises e publicou a imagem, juntamente com um artigo discutindo a liberdade de expressão. Lars Vilks brincou com fogo. O cão, assim como o porco, é um animal maldito para os muçulmanos, a ponto de alguns choferes de táxi muçulmanos nos Estados Unidos se recusarem a transportar passageiros que estejam acompanhados de cães, mesmo que sejam guias de cego. Se publicar imagens de Maomé já é considerado uma ofensa ao Islã, pode-se imaginar o potencial explosivo de retratar o profeta com uma cabeça de cachorro. O primeiro protesto veio do Irã, que convocou o encarregado de negócios da Suécia em Teerã, na segunda-feira passada, para receber uma queixa oficial sobre a publicação da imagem. Mahmoud Ahmadinejad acusou os "sionistas" de estar por trás do desenho sueco, porque "sua sobrevivência está na guerra". Ainda pediu que os muçulmanos não reagissem, pois "os sionistas ficarão desorientados se houver paz no mundo". O mesmo não pensaram os muçulmanos na Suécia. Cerca de duzentos deles cercaram hoje a redação do jornal, exigindo desculpas do jornal. "Nós, muçulmanos, também somos örebroenses, nós temos um grande respeito pelo Nerikes Allehanda e queremos que o respeito seja recíproco. Eles precisam ter respeito por nós, que somos uma minoria na sociedade", disse Gamal Lamhawdi, porta-voz do centro de cultura islâmica de Örebro. Outros grandes jornais suecos já haviam publicado os desenhos de Vilks. A reação centrou-se no jornal de Örebro dado o grande número de muçulmanos que lá vivem. Ulf Johansson, o diretor do jornal, recebeu e-mails ameaçadores e foi obrigado a adotar um guarda-costas. "Alguns diziam que eu queimaria no inferno", ele disse. A polícia reforçou a segurança em torno dos escritórios do jornal. No distante Paquistão, em Lahore, onde ninguém jamais ouviu falar do Nerikes Allehanda, e certamente muito menos de Örebro, foi queimada a bandeira da Suécia em praça pública. Em Karachi, foi queimado um boneco do primeiro-ministro sueco. Há dois aspectos na questão. Primeiro, a escultura de Vilks foi uma provocação óbvia, feita por alguém que tinha plena consciência das conseqüências de seu gesto, afinal a vizinha Dinamarca viveu ano passado a crise das caricaturas do profeta. Vilks certamente queria promoção e hoje seu nome circula em todos os jornais do Ocidente. O curioso é que não houve reação dos muçulmanos a esta provocação. Outro aspecto é noticiar o fato e publicar fotos do pivô da polêmica. Se um jornal quer discutir um fato, é perfeitamente normal que o apresente com fotos. Reagiriam os muçulmanos se o Nerikes Allehanda noticiasse o fato sem fotos? Seja como for, não serão imigrantes fanatizados, recebidos com generosidade pela Suécia, que irão decidir como os suecos devem fazer jornalismo. O que os muçulmanos até hoje não entendem - e isto ficou evidente no caso da Dinamarca - é esta particularidade do Ocidente, a liberdade de imprensa. Nem podem entender, já que a desconhecem em seus países de origem. É claro que ninguém lê jornais suecos no Irã ou no Paquistão. Esse escândalo todo é obra dos mulás que dirigem as madrassas no Ocidente. No fundo, querem calar a imprensa livre na Europa, de modo que ninguém mais ouse tecer críticas ao obscurantismo islâmico. Já conseguiram grandes avanços. Em vários países europeus, quando árabes cometem estupros, jornal algum notícia a origem do estuprador. Enquanto isto, os Estados europeus e até mesmo a Igreja Católica estão financiando a construção de mesquitas na Europa. Cria cuervos - dizem os espanhóis - y te picarán los ojos.
Quinta-feira, Agosto 30, 2007
FÉ É FOGO Comentando o livro Deus, um Delírio, de Richard Dawkins, escrevi outro dia que sua argumentação, opondo a ciência à fé, é inútil. Pois os crentes são infensos à razão. Continuando a leitura do livro, encontrei um caso exemplar que confirma minha afirmação. Dawkins fala de Kurt Wise, um geólogo americano que hoje dirige o Centro para Pesquisas no Brian College, em Dayton, Tenesse. Falei outro dia também do filme E o vento será tua herança, que retoma uma discussão - em verdade, um processo - de 1925, quando o promotor William Jennings Bryan, na mesma cidade de Dayton, acusou de darwinismo o professor de ciências John Scopes. O Bryan College deriva do promotor Bryan. Wise era um cientista altamente qualificado e promissor e sua educação religiosa exigia que ele acreditasse que a Terra tinha menos de 10 mil anos de idade. O conflito entre sua religião e sua ciência fez com que tomasse uma decisão. Sem conseguir suportar a tensão - conta-nos Dawkins - atacou o problema com uma tesoura. Pegou uma Bíblia e a percorreu, retirando literalmente todos os versículos que teriam de ser eliminados se a visão científica do mundo fosse verdadeira. Concluiu então: "Por mais que eu tentasse, e mesmo com o benefício das margens intactas ao longo das páginas das Escrituras, vi que era impossível pegar a Bíblia sem que ela se partisse ao meio. Tive de tomar uma decisão entre a evolução e as Escrituras. Ou as Escrituras eram verdade e a evolução estava errada ou a evolução era verdade e eu tinha de jogar a Bíblia fora. Foi ali, naquela noite, que aceitei a Palavra de Deus e rejeitei tudo que a contradissesse, incluindo a evolução. Assim, com grande tristeza, lancei ao fogo todos os meus sonhos e as minhas esperanças na ciência. "Embora existam razões científicas para aceitar uma terra jovem, sou criacionista porque essa é a minha compreensão das Escrituras. Como disse para meus professores, anos atrás, quando estava na faculdade, se todas as evidências do universo se voltarem contra o criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, mas continuarei sendo criacionista, porque é isso que a palavra de Deus parece indicar. Essa é a minha posição". Fé é fogo. Como disse, não adianta opor a razão à fé. Quem crê, não tem dúvidas. Mesmo tendo nascido em um universo pagão, em meus de guri fui pego por uma catequista e o catecismo cristão me foi enfiado a machado na cabeça. O que me libertou do obscurantismo católico foi uma singela característica do ser humano, a sexualidade. Eu não conseguia entender como algo tão bom podia ser pecado, e portanto proibido. Em umas férias de verão, encerrei-me em um quarto de nossa casa de campo, com uma Bíblia em punho. Eu a reli durante três dias e três noites, encerrado naquele quartinho, só saindo de casa nas madrugadas, para cavalgar pelas coxilhas. Meus pais, que me passavam a comida por uma janelinha, começavam a duvidar de minha sanidade mental. Daquela releitura, emergi ateu. De início, um profundo desconsolo. Quer dizer que não havia vida eterna, paraíso, aquelas sobremesas todas post-mortem? Convicto de que com a morte tudo acaba, consolei-me ao constatar que todos os homens morrem, acreditem ou não na vida eterna. Ao contrário de Wise, entre a razão e a fé, optei pela razão. Senti-me extraordinariamente liberto. Em dias de tempestade, montava nu em um cavalo e saía a galope em meio aos raios. Na Casa - a residência original do clã - meus tios e primas rezavam, cobriam espelhos e escondiam objetos de ponta, como tesouras e facas. Acreditava-se que esses objetos atraíam raios. Em minha hybris juvenil, eu empinava o cavalo frente à Casa e a cada raio gritava: "Manda outro, grande Filho-da-Puta". Crueldade de menino. Minha parentada, lá dentro da Casa, se contorcia, rezava e fazia o sinal da cruz, implorando a salvação da alma do herege. Não que fossem católicos por formação. Mas em suas religiosidades primitivas acreditavam em um Deus que mandava raios. Hoje, eu os entendo. Mais difícil é entender um cientista que deliberadamente renuncia à razão.
UMA FÓRMULA SENSATA Charles Pilger me informa sobre uma fórmula sensata de financiamento de blogs: Janer Você está deixando de lado uma característica da forma de recebimento online: maior parte dos ganhos vem do Google Adsense. Blogueiro vai lá, se cadastra no programa, bota o Google Adsense no blog e passa a receber do Google, que é o intermediário. E o que o Google faz? Pega o teu blog, coloca ele num analisador de texto e a partir do texto joga a publicidade,onde o anunciante comprou aparições baseadas em palavras-chave. É justamente por isso que o maior anunciante em blogs que falam sobre Linux é justamente a Microsoft... O anunciante não escolhe onde vai parar, o blogueiro ocasionalmente escolhe quem paga ele através do painel de configuração (sim, o blogueiro que fala de Linux pode vetar os comerciais da Microsoft) e assim vai. Nenhum contato entre as duas partes. É por conta do Google. E o pior é que isso funciona. Grato, Pilger. Desconhecia este dado. De fato, é uma fórmula que não interfere na independência do blog.
Quarta-feira, Agosto 29, 2007
MERCADO AMEAÇA INDEPENDÊNCIA DOS BLOGS Quando comecei a publicar este blog, em outubro de 2003, sentia-me um tanto inseguro em relação a este tipo de mídia. Os blogs haviam surgido como diários de adolescentes e ainda não eram uma alternativa à grande imprensa. Não me pareciam ser coisa de adultos. Estimulado por amigos e amigas, me lancei à aventura. De lá para cá, o universo blogueiro multiplicou-se por mil - ou quem sabe por um milhão - e mesmo os grandes jornais tiveram que optar por esta forma de comunicação, rápida, ágil e cada vez mais utilizada. Me lancei à aventura e gostei. Comecei devagar, postando duas ou três crônicas por semana. Quando vi que leitores me buscavam no site, senti que não podia escrever esporadicamente. Blog tem de ser diário. Já publiquei alguns livros e confesso que jamais tive com eles o retorno que agora tenho com o blog. A interatividade poderia ser maior, caso abrisse espaço a comentários. Ocorre que conheço os bois com que lavro. Uma boa parte de meus leitores é de desafetos. (São talvez os leitores mais fiéis. Sofrem, mas não dá pra não ler). Mal tivessem oportunidade, poluiriam o blog com baixarias. Como não tenho tempo para ficar deletando bobagens, o mantenho fechado a comentários. Se o leitor quiser conversar, meu e-mail está lá. Penso inclusive que, a médio prazo, os blogs vão mexer com a literatura. Os escritores em breve se darão conta que é melhor escrever todos os dias, sobre todo e qualquer assunto, conversando com os leitores, do que sentar o traseiro por um ano, dois ou mais anos, para entregar um livro em papel, cuja confecção custa caro e ainda depende de distribuidores e livreiros. O blog depende apenas de que o leitor, esteja onde estiver, tenha um computador conectado à Internet. Ora, este computador está se tornando cada vez mais onipresente. Leitores me perguntam às vezes porque não escrevo também na grande imprensa. Até que gostaria. Mas isso depende de contatos. No Brasil, não existe isto de um jornal procurar alguém só porque ele escreve bem. Uma coluna depende de relações, apadrinhamentos, postura ideológica, filiações ilustres. Isto eu não tenho. Verdade que já tive coluna em jornal por mais de cinco anos, isso sem falar em colaborações esparsas ao longo de toda minha vida. Mas sempre em jornais pequenos, onde a censura não é tão intensa. Porque não são muito lidos. Mesmo assim, tinha de autocensurar-me. No blog, não. Em que grande jornal do Brasil eu poderia chamar o papa de o maior traficante internacional de drogas? Ou o presidente da República de Supremo Apedeuta? Em nenhum. No último fim de semana, reuniram-se em São Paulo cerca de 150 blogueiros, para discutir a própria atividade. E também para mostrar que blog não é mais desabafo de adolescentes, mas coisa de gente grande e de profissionais. Leio no Estadão que a forma de ganhar dinheiro foi um dos temas preferidos dos blogueiros. "A gente precisa profissionalizar a gestão e saber mais sobre a audiência dos sites para que o blog seja uma mídia atraente para os anunciantes", afirmou Edney Souza. Desde 2005, Souza tira o sustento da família por meio de blogs. Segundo os participantes, para se considerar profissional, o blog precisa se sustentar. "Para isso, é necessário conquistar o mercado anunciante - o que invariavelmente depende da credibilidade dos sites e de sua audiência". É atraente a idéia de montar um blog e dele tirar o próprio sustento. Você cria o seu, foge à luta pelo emprego e confortavelmente sentado em sua casa, talvez de pijama e com um copo de vinho ao lado, vai ganhando a sua vida. Uma idéia na cabeça, um mouse na mão e o pão está salvo. Idílico demais para ser verdade. A menos que você tenha alguma vocação para a profissão aquela, a mais antiga do mundo. Pois ao buscar o mercado anunciante, você está renunciando àquela liberdade da qual desfruta todo blogueiro. Imagine que você capte o patrocínio de sonho de um Banco do Brasil, Caixa Econômica, Petrobras. Dia seguinte, você não pode mais escrever sobre as maracutaias do PT. Se escrever, perde o pão. Mas já nem falo desses patrocínios divinos. Digamos que você consiga anunciante mais modesto. No dia em que ferir convicções mais profundas desse anunciante, sejam convicções políticas, religiosas ou futebolísticas, lá se vai voando pelo espaço seu anunciante. Você passa então a policiar-se. Não vou xingar o papa, porque fulano é católico de carteirinha. Não posso manifestar simpatias pelos homossexuais, porque beltrano odeia homossexuais. Não posso condenar a política de Israel, porque sicrano é judeu. Não posso denunciar a condição da mulher no mundo árabe, porque mengano é muçulmano. E por aí vai. Verdade que os grandes jornais conseguem abrigar esta diversidade de opiniões. Têm um vasto leque de anunciantes e a partida de alguns não afeta o jornal. Mas para isto é preciso ser grande jornal. Mesmo assim, todo articulista destes jornais sabe muito bem que nem tudo pode ser dito. Para evitar dissabores, o jornalista acaba inevitavelmente se autocensurando. Se um perigo ronda a independência do universo blogueiro, este perigo é o mercado anunciante. Claro que os articulistas de blogs institucionais não precisam preocupar-se com o problema de pagamento. São funcionários de empresas e lidam com material de primeira-mão fornecido pela reportagem dos jornais. Mas isto já não é bem um blog, e sim o noticiário antecipado na rede à publicação do jornal no dia seguinte. Este é, me parece, o futuro bastante próximo do jornalismo. Não está longe o dia em que os jornais serão blogs renovados a cada minuto. É atraente – dizia – a idéia de tirar de um blog o seu próprio sustento. Talvez até seja possível encontrar um anunciante ideal, que não interfira no que você escreve. Quanto a mim, prefiro continuar tendo a liberdade de xingar o papa.
SANTA INGENUIDADE O STF tornou réus ontem em ação penal todos os 40 acusados pela Procuradoria Geral da República de envolvimento no caso do mensalão. O ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, denunciado por corrupção ativa e formação de quadrilha, pode ser condenado a 75 anos de prisão, caso receba pena máxima para todas as denúncias. É o que diz o Terra on line. Diz ainda que o publicitário Marcos Valério, também denunciado por envolvimento no esquema do mensalão, pode ser condenado a 1.131 anos de prisão. Santa ingenuidade. Ontem ainda, o publicitário Duda Mendonça era anunciado em página inteira no Estadão como palestrante na aula inaugural do curso de Comunicação Social da Faculdade Metropolitanas Unidas (FMU). O anúncio era um evidente desagravo a seu indiciamento na CPI por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Não funcionou. Foi recebido por estudantes com gritos de mensaleiro, corrupto e ladrão. Em depoimento na CPI dos Correios, Duda disse ter recebido do PT R$ 10,5 milhões numa conta em Miami, em nome de empresa offshore com sede nas Bahamas. "O que eu fiz de errado? Não fui indiciado por formação de quadrilha ou peculato porra nenhuma. Eu recebi o meu dinheiro. Se essa era a forma de receber eu recebi. Precisava pagar os salários dos funcionários", reagiu. Ou seja, sendo para pagar salário de funcionários, qualquer dinheiro sujo vale. A denúncia deste pagamento ilícito sequer fez mossa no PT. Alguém ainda acha que Duda Mendonça será punido? Santa ingenuidade. Estes senhores não verão o sol quadrado nem mesmo durante um dia.
Terça-feira, Agosto 28, 2007
EVANGÉLICOS PERDEM OCASIÃO DE TER UM SANTO Pelo menos cinco leitores me enviaram hoje uma notícia que vem de Tanabi, interior de São Paulo. Um homem de 32 anos de idade, separado da mulher há poucos dias, cortou o próprio pênis depois de saber que sua religião o proibia de se relacionar com outras mulheres. O caso aconteceu ontem à noite. Freqüentador da igreja evangélica Congregação Cristã do Brasil, o homem decidiu se auto-mutilar depois de ouvir dos "irmãos" que a orientação religiosa de sua igreja considera pecado o sexo fora do casamento e que estaria impossibilitado de se casar novamente. Numa tentativa de cortar o problema pela raiz, o homem, chamado Costa, entrou no banheiro de sua casa e deu início a automutilação usando uma tesoura caseira. A polícia foi chamada e, ao chegarem no local, os bombeiros e PMs o encontraram sentado no vaso sangrando muito. "Ele ficou revoltado ao saber que não poderia mais se casar e manter relações sexuais com outra mulher e também não queria largar a igreja", contou um PM. Os leitores querem saber o que penso do assunto. A meu ver, com a chegada da polícia e dos bombeiros, os evangélicos perderam a ocasião de ter em seu rebanho um santo homem. Orígenes, conhecido como um dos maiores sábios do cristianismo de todos os tempos e considerado um dos pais da Igreja Católica, parece ter levado ao pé da letra um versículo de Mateus e cometeu o mesmo gesto do Costa. Verdade que o Deuteronômio diz: "aquele a quem forem trilhados os testículos, ou for cortado o membro viril, não entrará na assembléia do Senhor". Mateus, no entanto, parece não ter lido com atenção o Velho Testamento, pois escreve: "Porque há eunucos que nasceram assim; e há eunucos que pelos homens foram feitos tais; e outros há que a si mesmos se fizeram eunucos por causa do reino dos céus. Quem pode aceitar isso, aceite-o". Orígenes aceitou. Autor de mais de 600 obras, entre as quais De Princippis, Hexapla e o excelente Contra Celso, graças ao qual foi milagrosamente preservado o pensamento do nobre romano, castrou-se. A castração é prática que não causa espécie alguma aos autores bíblicos, que a vêem com simpatia. O Antigo Testamento está permeado de eunucos. Os papas também não viram nada demais em emascular meninos para seu deleite espiritual. Era comum, no século XVIII, castrar crianças durante a infância para que preservassem a voz aguda. Um destes castrati foi Carlo Broschi, mais conhecido como Farinelli, o mais popular e bem pago cantor de ópera da Europa de então. Procure ver o filme, dirigido por Gérard Corbiau. Belíssimo! Bombeiros e PMs são em geral pessoas incultas e desprovidas de conhecimentos bíblicos ou históricos. Fariam melhor se deixassem o Costa completar seu trabalho. Sabe-se lá que santo homem está perdendo a humanidade.
TRASEIRO MINISTERIAL PRODUZ TEMORES NO MERCADO É mais que batida a piada do marido que, tendo sido traído pela mulher no sofá, resolve o problema retirando o sofá da sala. Foi mais ou menos o que fez Nelson Jobim, o ministro da Defesa, para resolver a crise aérea que afeta o país. Há falta de segurança nos aeroportos? Tira as poltronas dos aviões. Como o espaço interno dos aviões é desconfortável para o 1,90m do ministro, a primeira providência de Jobim foi exigir o aumento de espaço entre os assentos. As empresas, para conforto do traseiro ministerial, concordam em aumentar em dois centímetros a distância entre uma poltrona e outra. Está em estudo o aumento dos atuais 77,5 cm para 79,5 cm. Enquanto isso, companhias como a Iberia, KLM e LanChile oferecem 81,28 cm. A TAP - ou os TAP, como preferem os lusos - é mais generosa: 83,82 cm. Segundo o Estadão, as empresas temem possíveis distorções provocadas pela medida, como a perda da competitividade em relação às companhias estrangeiras. "A LanChile poderá decolar de São Paulo com destino a Santiago usando um avião idêntico ao da TAM, por não estar sujeita a um pitch (espaço entre as poltronas) fixo", disse um executivo. Estas empresas estão chorando de barriga cheia. Mesmo com o aumento de dois centímetros, a distância entre as poltronas fica aquém das demais companhias internacionais. O pior em tudo isso é que nunca falta um patrioteiro para achar que brasileiro tem de voar com empresa brasileira.
TANTO FAZ COMO TANTO FEZ Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) já abriram denúncia contra 37 dos 40 acusados pelo Ministério Público de participar do mensalão. Ontem, foram acatadas denúncias muito esperadas pela platéia, contra José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, que pertenciam à cúpula do PT. Não se entusiasmem os sedentos de justiça. Acatar denúncias significa apenas indiciar os denunciados como réus. Julgar são outros quinhentos. O STF, em toda sua existência, jamais condenou alguém. Nem mesmo Fernando Collor de Mello, com sua grotesca operação Uruguai, foi condenado. Seja como for, os processos correrão, em princípio, por cinco ou seis anos. Consideradas as manobras protelatórias, poderemos estender este prazo para dez anos. Alguns dos acusados talvez tenham morrido até então. Outros atingirão aquela idade em que passarão a gozar de relativa impunidade: "a disposição do art. 115 do Código Penal é clara ao instituir que a redução do prazo prescricional pela metade somente ocorrerá se o agente contar com setenta anos na data da sentença condenatória". Os réus acabarão sendo absolvidos não pelo Código Penal, mas pelo direito adjetivo. O mérito da questão não mais interessa. O que importa são os recursos, embargos, protelações. Cada réu tem direito a oito testemunhas por crime. Se for acusado de cinco crimes, terá direito a quarenta testemunhas. Multiplique isto por 40 indiciados, serão 1600 testemunhas. Muitas terão de ser convocadas no Exterior. Sei, nem todos serão indiciados por cinco crimes. Mas certamente poderemos contar com um bom milhar de testemunhas. Se você tem esperanças de ver um dia um José Dirceu, José Genoino ou Delúbio Soares atrás das grades, onde merecem estar, você é um otimista incorrigível. Vá tirando seu cavalinho da chuva. Aquelas sumidades vulturinas do STF estão fazendo apenas jogo de cena. Ficaria muito mal ante a opinião nacional não denunciar estes apparatchiks do PT. Para salvar a cara, o STF então os denuncia, sabendo que denunciar tanto faz como fez.
Segunda-feira, Agosto 27, 2007
A PROFISSÃO DO MOMENTO Em compensação, encontrei o Site Oficial do Seminário Brasileiro de Teologia, fundado em 1990 pelo "Escritor e Pastor Dr. Omar", que fornece formação por correspondência para que os candidatos a pastor possam instalar suas franquias, isto é, igrejas. Pelos preços cobrados, o retorno deve ser garantido. Teologia deixou de ser mercadoria exclusiva das grandes igrejas e hoje é vendida no varejo. O site não especifica se é preciso ter ou não ter fé. Inscreva-se e erija sua Igreja. O bispo Edir Macedo, em apenas 30 anos de árdua labuta, construiu um império que vai de São Paulo a Nova York, passando por Paris e Johannesburg. O "missionário" R. R. Soares, cunhado e dissidente de Edir Macedo, em 20 anos já conseguiu montar uma outra igreja e hoje dá-se ao luxo de pagar 2,5 milhões de reais por mês para um espaço em horário nobre na Band. Pastor é a profissão do momento. Forme-se em teologia sem sair de casa. Diplomas garantidos. Milhões de fiéis sem rumo nem luz, mas de dízimos em punho, estão pedindo um novo deus. Mansões, iates, carros importados, relógios de ouro, dólares no cofre o esperam logo à frente. Inscreva-se já! Antes que regulamentem a profissão. Formação de Pastor Curso com 5 módulos e 500 perguntas, e o Aluno/Pastor recebe credencial e diploma registrados. Bacharelado em Teologia Eclesiástica Contendo 6 módulos, 650 questões e ainda a ênfase em Missiologia e Evangelismo e uma Monografia. Doutorado em Teologia da Divindade Contendo 6 módulos, 680 questões, com ênfase em Divindade e defesa de uma Tese. Médio em Teologia Com 30 disciplinas, inclusive dízimos e ofertas, e Bibliologia com 270 perguntas dissertativas. Mestrado em Teologia Bibliológica Contendo 6 módulos, 740 questões, com ênfase em Bibliologia e uma Dissertação. Curso de Capelania e Missão no Exterior Curso para Capelão com credencial e apoio logístico para Missionários noutros países. CURSOS COM DIPLOMA E CREDENCIAL REGISTRADOS E MAIS 50% DE DESCONTO OS CURSOS SÃO TOTALMENTE POR CORRESPONDÊNCIA MÉDIO EM TEOLOGIA : DE R$ 600,00 POR APENAS R$ 300,00. FORMAÇÃO DE PASTOR : DE R$ 1.600,00 POR APENAS R$ 800,00. CAPELANIA : DE R$ 1.800,00 POR APENAS R$ 900,00. BACHAREL EM TEOLOGIA : DE R$ 2.000,00 POR APENAS R$ 1.000,00. MESTRADO EM ESTUDOS BÍBLICOS: DE R$ 2.800,00 POR APENAS R$ 1.400,00. DOUTORADO EM DIVINDADE : DE R$ 3.600,00 POR APENAS R$ 1.800,00. ORATÓRIA FESTIVA, DISCURSO E PREGAÇÃO: DE R$ 500,00 POR R$ 250,00. OUTROS CURSOS: DE R$ 200,00 POR APENAS R$ 100,00. PARCELAMENTO PELO PREÇO PROMOCIONAL EM ATÉ 8 VEZES Bacharel em Teologia 8 de R$ 200,00 totalizando R$ 1.600,00 Mestrado em Teologia 8 de R$ 238,00 totalizando R$ 1.900,00 Doutorado em Teologia 8 de R$ 275,00 totalizando R$ 2.200,00 PARCELAMENTO PELO PREÇO PROMOCIONAL EM ATÉ 6 VEZES Médio em Teologia 6 de R$ 80,00 totalizando R$ 480,00 Formação de Pastor 6 de R$ 200,00 totalizando R$ 1.200,00 Capelaria 6 de R$ 200,00 totalizando R$ 1.200,00 Bacharel em Teologia 6 de R$ 250,00 totalizando R$ 1.500,00 Mestrado em Teologia 6 de R$ 300,00 totalizando R$ 1.800,00 Doutorado em Teologia 6 de R$ 350,00 totalizando R$ 2.100,00 Oratória Festiva, Discurso e Pregação 6 de R$ 60,00 totalizando R$ 360,00. PARCELAMENTO PELO PREÇO PROMOCIONAL EM ATÉ 4 VEZES Médio em Teologia 4 de R$ 100,00 totalizandoR$ 400,00 Formação de Pastor 4 de R$ 250,00 totalizando R$ 1.000,00 Capelaria 4 de R$ 275,00 totalizando R$ 1.100,00 Bacharel em Teologia 4 de R$ 300,00 totalizando R$ 1.200,00 Mestrado em Teologia 4 de R$ 400,00 totalizando R$ 1.600,00 Doutorado em Teologia 4 de R$ 500,00 totalizando R$ 2.000,00 Oratória Festiva, Discurso e Pregação 4 de R$ 80,00 totalizando R$ 320,00 PARCELAMENTO PELO PREÇO PROMOCIONAL EM ATÉ 2 VEZES Médio em Teologia 2 de R$ 180,00 totalizando R$ 360,00 Formação de Pastor 2 de R$ 450,00 totalizando R$ 900,00 Capelaria 2 de R$ 500,00 totalizando R$ 1.000,00 Bacharel em Teologia 2 de R$ 550,00 totalizando R$ 1.100,00 Mestrado em Teologia 2 de R$ 750,00 totalizando R$ 1.500,00 Doutorado em Teologia 2 de R$ 950,00 totalizando R$ 1.900,00 Oratória Festiva, Discurso e Pregação 2 de R$ 150,00 totalizando R$ 300,00 PREÇOS DOS CURSOS FORA DA PROMOÇÃO Médio em Teologia R$ 600,00 Formação de Pastor R$ 1.600,00 Capelania R$ 1.800,00 Bacharel em Teologia Eleciástica R$ 2.000,00 Mestrado em Teologia Eclesiástica R$ 2.800,00 Doutorado em Divindade R$ 3.600,00 Oratória Festiva, Discurso e Pregação R$ 500,00 PROMOÇÃO PARA CASAIS: PAGAMENTO DE APENAS 50%, USANDO O MESMO MATERIAL. EX: CURSO DE FORMAÇÃO PASTORAL: A ESPOSA PAGA SOMENTE R$ 400,00 PACOTE MíNIMO DE 10 CURSOS DE TEOLOGIA MÉDIO PARA IGREJAS 10 CURSOS POR R$ 1.500,00, EM TRÊS PAGAMENTOS.
ESCLARECIMENTO DO JOSÉLIO De Josélio Silva, recebo o seguinte mail: Com relação a nota do curso de pastor no site oficial das Asssembléias de Deus no Brasil está noticiado desde o dia 15/08/2006 o seguinte: (segue link) http://www.cgadb.com.br/viewNoticias.asp?id=6 Se possível, por favor, coloque isso no seu blog. Colocado está, Josélio. Mas se a CGADB não está associada ao curso de formação de pastor, isto não quer dizer que o curso não exista. Afinal, está anunciado.
Domingo, Agosto 26, 2007
BRASIL CRIA NOVA PROFISSÃO, O AMIGO DE ALUGUEL Entre as coisas boas da vida, estão os amigos. O problema é que a palavra se vulgarizou. Uma das coisas que detestei em meus dias de Florianópolis era ser chamado de amigo a todo momento, por gentes que nem conhecia. É um hábito ilhéu, chamar de amigo todo e qualquer interlocutor. A meu ver, desvaloriza a palavra. E também o conceito. Amigo é palavra que reservo para poucas pessoas. Se for contá-las nos dedos, acho que vão sobrar alguns. Em certo momento de minha vida, concluí que são necessários pelo menos uns dez anos de convívio para considerarmos alguém um amigo. Mas a vida continua. Continuando, me levou a outras conclusões. Talvez sejam necessários quarenta anos. Hoje, pelas experiências que tive, considero que nem quarenta anos são suficientes. Já tive um amigo de infância, com quem nadei no mesmo rio em meus dias de adolescente. Vivemos vidas diferentes. Ele era marxista, fez guerrilha urbana, foi preso e torturado, sofreu quatro anos de prisão militar. Apesar de estarmos em fortificações opostas, algo nos unia, os dias passados naquele rio e naquela cidadezinha lá da Fronteira. Isto me fascinava. Apesar de termos visões totalmente distintas da vida e do mundo, continuávamos cultivando essa coisa hoje tão rara, a amizade. Era um sentimento muito gaúcho - e quando digo gaúcho não falo de rio-grandenses. Falo daqueles gaúchos dos tempos de Martín Fierro. Trocamos de países, mudamos de cidades e acabamos nos reencontrando nesta Paulicéia, para rememorar aquelas lutas de adolescentes e nossas universidades. Passaram-se mais de quatro décadas. Foi quando ele doutorou-se pela USP. Uma vez titulado, afastou-se completamente de mim. E é por esta razão que afirmo que, para definir uma amizade, quarenta anos não são suficientes. Por estas e por outras, fico perplexo ao ler, em reportagem da Folha de São Paulo, que hoje já se pode alugar amigos, por algo entre 50 e 300 reais por hora. Se lesse isto em um livro de ficção científica, eu consideraria que o autor era pessoa de uma imaginação fértil. Não estou lendo ficção alguma, mas uma reportagem. Vamos à dita: Atenção você, leitor, que sofre com a falta de "amigos, desses que olham nos olhos e falam com sinceridade", não fique assim pra baixo: seu problema pode estar resolvido. O mercado de babás de luxo acaba de acrescentar a seu crescente leque de ofertas o assim chamado "personal friend'. Trata-se de um especialista em amizade profissional, que cobra por hora para ser seu amigo, conversar e acompanhá-lo em voltinhas pelo shopping ou, se for no Rio, pelo calçadão, tomando uma água de coco. Paulo Sampaio, que assina a reportagem, tranqüiliza: "Os psicólogos não precisam se sentir ameaçados. O novo profissional faz questão de esclarecer que não tem a menor intenção de ser terapeuta. Disponibiliza apenas a amizade". Que o mundo está cheio de pessoas solitárias, disto sei muito bem. Ainda em Porto Alegre, tive certa vez acesso ao diário de um desses seres. "Eu, meu rádio e Deus", escreveu ele, referindo-se a seus únicos interlocutores. Guri novo, eu jamais havia visto tamanha solidão. Em Estocolmo, vi pessoas que morriam e só tinham seus cadáveres descobertos quando terminava o inverno e começavam a putrefazer-se. Não tinham um único ser que sentisse suas faltas. Por onde quer que se olhe, há pessoas envoltas em espessas carapaças de solidão - e não conseguem perfurá-las. Daí a pagar pelo convívio de alguém, pagar caro e pagar por hora, me soa como uma das misérias mais deploráveis deste nosso mundinho contemporâneo. Verdade que há gentes fazendo isto há muito tempo. São aquelas senhoras que buscam o médico por qualquer espirro. Elas não se sentem doentes, querem apenas falar com alguém. É o que leva muitos clientes aos psicanalistas. Não que necessitem de tratamento psicológico, querem apenas ser ouvidos. Já que o psicanalista é pago para ouvir, então que ouça tudo, inclusive nossas misérias inconfessáveis. Penso que este, e não a terapia, é um dos fatores que leva multidões até estes gigolôs das angústias humanas. E, pelo que conheço dos bois com que lavro, há bois que não dá para ouvir por preço baixo. Amizade tem gradações. Para mim, há aqueles que não chegam a ocupar todos meus dedos. Estes são os que procuro cultivar. Depois há a grande fatia dos conhecidos. Isto é, aquelas pessoas com as quais conversamos e convivemos no dia-a-dia e não são necessariamente amigos. Mas ajudam a tornar a vida mais suportável. Hoje, a Internet trouxe uma espécie nova, a dos amigos - ou conhecidos - cuja face geralmente desconhecemos, mas com os quais convivemos amigavelmente. Conversando certa vez com um desses seres solitários que não conseguem relacionar-se com ninguém, ouvi sua queixa. Ele não conseguia comunicar-se com pessoa alguma em seu prédio. Grande novidade! Eu moro num prédio com 90 unidades residenciais e, fora o bom dia boa tarde, não tenho maiores relações com ninguém. Mas estou conversando quase todos os dias com pessoas em Estocolmo, Helsinki, Paris, Madri, Los Angeles, Brasília, Rio, Porto Alegre, Santa Maria e até mesmo Dom Pedrito. Essas pessoas, eu as conheço bastante bem. A Internet filtra afinidades. Quanto a meu vizinho de porta, não tenho a mínima idéia do que ele pensa do mundo. A menos que ele seja um desses interlocutores com os quais me correspondo e não tenho a mínima idéia onde vivem. Até pode acontecer. Volto aos amigos de aluguel. Trata-se de uma nova profissão, diz a reportagem. "Os entrevistados começaram no ramo há menos de um ano e, segundo dizem, estão com a agenda tomada. Ah, importante: o serviço acaba na amizade, descartando-se, portanto, qualquer proposta de cunho sexual. Que tal? Sorriu? Então aí vão os detalhes: o amigo pessoal por dinheiro cobra uma taxa que pode variar de R$ 50 a R$ 300; em geral prefere trabalhar em lugares públicos e não tem restrições quanto à faixa etária". Ora, ora, até aí morreu o Neves. Se a questão é pagar, desde há muito existem os serviços de scorts. Por uma quantia não muito módica, você pode ter uma bela mulher - muitas vezes uma universitária - que o acompanha em teatros ou restaurantes e inclusive para a cama, se você quiser. Se você for mulher, o mercado lhe oferece homens. Com sorte, essa companhia pode ser muito agradável. Ou seja, os personal friends não estão descobrindo a América. Em verdade, trata-se de uma banalização da psicanálise. Em Porto Alegre, surgiu uma variante desta categoria de vigaristas, os filósofos clínicos. Mediante paga, se dispõem inclusive a ouvir suas bobagens na mesa de um bar. Estamos vivendo uma época de banalização de conceitos. Hoje, carisma é qualidade até mesmo de analfabetos. Qualquer vigarista letrado se intitula filósofo. Amor virou sinônimo de compras no shopping. E amizade, hoje - pelo menos segundo a imprensa - pode ser comprada. Por hora. A profissão é promissora. Por enquanto, não exige diploma. Como a psicanálise, qualquer vigarista pode exercê-la. O perigo, neste Brasil que adora criar profissões, é a regulamentação do ofício. Mais dia menos dia, os amigos profissionais criam um sindicato e proíbem o exercício da profissão aos não-sindicalizados. Mais um pouco e teremos cursos superiores de formação em Amizade. Quem não cursá-los não poderá mais ser amigo de ninguém.
Sábado, Agosto 25, 2007
SERÃO TODOS OS PADRES FALSOS? Enquanto isto, os EUA vão reabrir 42 casos de abuso sexual envolvendo sacerdotes. É a notícia que chega de Washington, pela EFE. Uma juíza federal dos Estados Unidos determinou ontem o início imediato dos julgamentos de 42 casos de abuso sexual atribuídos a sacerdotes da diocese católica de San Diego (Califórnia). Cinco julgamentos tiveram que ser suspensos em fevereiro, quando a diocese declarou falência um dia antes de o primeiro começar. O problema é o alto valor das indenizações. A Arquidiocese de Los Angeles teve de fazer um acordo de mais de R$ 1 bilhão com 508 vítimas de abuso sexual por sacerdotes. Que os padres abusem de crianças não se justifica, mas até que se entende. Privados de mulheres por uma determinação obscurantista da Igreja Católica, os padres se saciam com o que está mais à mão e é indefeso. Isto faz parte das fraquezas humanas. O que não faz parte das fraquezas humanas é dar calote. Aí já é vigarice muito bem planejada. Dar calote é o que estão fazendo as dioceses americanas, para eximir-se das gordas indenizações conferidas às vítimas pelos tribunais. São cerca de 150 denúncias de abuso, que datam da década de 1950 e afetam 60 sacerdotes. Os valores exigidos em indenização chegariam a cerca de US$ 200 milhões. A diocese de San Diego é a quinta dos EUA a se declarar em quebra. Os padres americanos, além de obcecados sexuais, estão se revelando vigaristas. A praga se alastra. Na Itália, novos escândalos sexuais envolveram sete padres em diferentes cidades do país. A Procuradoria está investigando pelo menos seis, nas regiões de Puglia, Lombardia, Piemonte e Ligúria, alguns deles acusados de violência sexual grave e contínua. Em Turim, um ex-menino de rua que chantageava Don Luciano Alloisio, um padre salesiano, declarou aos procuradores que há muitos anos vive da prostituição e de chantagear sacerdotes. "Mantinha relações sexuais com vários padres de Turim e cidades vizinhas e pedia dinheiro para ficar calado", afirmou. Cauto, Don Luciano pedia recibo. Em sua casa, os procuradores encontraram uma série de bilhetes assinados pelo garoto de programa com as frases "Nunca tive relação sexual com Don Luciano" ou "Eu inventei tudo". O rapaz explicou que assinava os bilhetes como recibo em troca do silêncio. Há prelados que preferem acusar as vítimas. Na Sicília, o ex-seminarista Marco Marchese foi violentado por Don Bruno Puleo dos 12 aos 18 anos num seminário de Agrigento. O padre dizia que eles tinham uma relação única, que o que faziam não era pecado e que não era necessário confessar. Marchese denunciou o padre ao bispo local, monsenhor Carmelo Ferraro. Vendo que o bispo não fazia nada, acabou abandonando o seminário e criou coragem para denunciar judicialmente Don Puleo. No processo, o padre foi considerado culpado por ter abusado sexualmente não apenas de Marchese, mas também de outras seis crianças, e condenado a dois anos e seis meses de prisão. A reação da Igreja não se fez esperar. O bispo Ferraro entrou com um processo contra o ex-seminarista - com pedido de ressarcimento de 200 mil euros - pelos danos que a denúncia de violência sexual teria causado à imagem da Igreja de Agrigento. "Denunciar um religioso pedófilo na Itália é muito mais difícil do que nos Estados Unidos, porque o Vaticano está aqui ao lado e a pressão é muito grande", diz Marchese, hoje formado em Psicologia. Em meio a isso, um caso de rara honestidade entre sacerdotes ocorreu em Monterosso, pequena cidade de 800 habitantes próxima a Pádua, no norte da Itália. Sante Sguotti, pároco de Monterosso, decidiu tirar o peso da consciência e confessou ser pai de um menino de nove meses durante o sermão de uma missa. "O fruto da própria fecundidade é algo que deve trazer alegria", disse o padre, acrescentando que "talvez tenham razão aqueles que dizem que os padres são todos falsos. Eu me sinto falso, porque não é fácil percorrer sozinho a estrada em busca da verdade. Às vezes, é preciso encontrar alguém para caminhar junto". A maioria dos habitantes de Monterrosso defende o sacerdote e está disposta a perdoá-lo. Assinaturas foram recolhidas em sua defesa e alguns jovens na cidade estão vestindo camisetas com a frase "Don Sante é meu padre". Serão todos os padres falsos? Quem fez voto de castidade não pode sequer pensar em sexo, quanto mais consumá-lo. Se fazer sexo é pecado para a Igreja, sexo com menores é crime para o Estado. O pecado pode ser perdoado, basta confessá-lo e fazer um sincero ato de contrição. No caso de crime, é um pouco diferente. A Igreja, em sua tolerância com seus ministros pedófilos, não está entendendo que abuso sexual não é apenas pecado, mas também crime. Ao que tudo indica, sim, os padres são todos falsos. Exceto talvez Don Sante, que não cometeu crime algum e teve a dignidade de confessar seu pecado a seus fiéis.
VIGARICE EM CURSO De um amigo gaúcho, recebo este recorte do jornal Assembléia de Deus: Curso de pastor Curso correspondência. Formação de pastor: R$ 600,00. Mestre da Bíblia a R$ 1.300,00. Doutor em divindade: R$ 1.500,00. Dentro de 90 dias você receberá o seu diploma, o qual o habilitará a ter sua própria igreja. O curso é mantido pela Assembléia de Deus, uma das maiores igrejas evangélicas do Brasil. O setor movimenta anualmente 3 bilhões de reais e gera centenas de milhares de empregos - sem vínculo trabalhista. Hoje há mais de 30 milhões de fiéis e as estimativas são que nos próximos 40 anos a metade da população brasileira estará convertida. A bancada evangélica da Câmara de Deputados tem 62 membros e na próxima legislatura poderá ter mais de oitenta. Somente em São Paulo, entre redes de TV abertas, canais em UHF e canais fechados, ocorrem mais de 2000 horas de pregação. Não perca a oportunidade de participar.
Sexta-feira, Agosto 24, 2007
HÁ 435 ANOS, NOITE DE SÃO BARTOLOMEU Neste 24 de agosto, uma leitora me pede um comentário sobre a noite de São Bartolomeu, episódio sangrento desfechado nesta data, em Paris, em 1572, durante o reinado de Charles IX, quando os protestantes franceses, chamados huguenotes, começaram a ser massacrados pela realeza católica. Os ânimos estavam envenenados na Paris daqueles dias. Os três últimos anos haviam sido marcados por guerras civis entre católicos e protestantes, que tiveram fim com o tratado de Saint-Germain. Os católicos mais intransigentes, no entanto, não aceitavam esta paz. O almirante Gaspard de Coligny, líder huguenote, foi admitido no Conselho Real. Os católicos ficaram chocados com o retorno dos protestantes à corte francesa. Para ratificar a paz entre as duas facções religiosas, Catherine de Médicis, a rainha-mãe, quer casar sua filha Marguerite de Vallois com o príncipe protestante Henri de Navarra, futuro Henri IV. O casamento foi marcado para o 18 de agosto e não foi aceito pelos católicos nem pelo papa Gregório XIII. O rei da Espanha, Felipe II, também condenava o casamento real. Não tendo o acordo papal para o casamento, Catherine de Médicis teve de convencer o o cardeal de Bourbon para celebrar a união. Os parisienses, católicos ao extremo, não gostaram do grande afluxo de nobres protestantes que vieram para o casamento. A união de uma princesa francesa com um protestante lhes soava como blasfêmia. O Parlamento francês ignorou as bodas. A alta dos preços e o luxo das núpcias reais revoltaram os franceses. Mas o estopim do massacre ocorreu no dia 22 de agosto, quando um atentado contra Coligny o deixou ferido no braço e na mão. Segundo o Histoire et Dictionnaire des Guerres de Religion (Arlette Jouanna et allia, Paris, Robert Laffont, 1998), o autor teria sido Charles de Louvier, sieur de Maurevert, que já tinha em sua folha corrida o assassinato, em 1569, de Artus de Mouy, um seguidor de Coligny. Até hoje não se sabe quem encomendou o crime. Alguns historiadores falam de Catherine de Médicis. Mas é pouco provável que ela tenha pretendido destruir a obra de reconciliação empreendida desde 1570 e selada pelo casamento de sua filha com o príncipe de Navarra. Há quem aponte o clã dos Guise, que suspeitavam ser Coligny o responsável pelo assassinato de François de Guise. Ou seja, seria uma questão de vendeta. Outros falam de uma pista espanhola. Felipe II e o duque de Alba jamais teriam escondido seu desejo de ver Coligny morto. Sua eliminação portaria um golpe fatal ao projeto de intervenção nos Países Baixos. Embora os historiadores não tenham chegado a nenhuma conclusão sobre a autoria intelectual do crime, o fato é que o atentado desfechou um dos episódios mais sangrentos da história das guerras de religiões. O atentado contra Coligny lembra um outro atentado crucial, em 1936, quando o assassinato de Calvo Sotelo deu o sinal para o desfecho da Guerra Civil Espanhola, que deixou um saldo estimado em um milhão de cadáveres. Charles IX tenta amenizar o clima de guerra civil, visitando Coligny em seu leito no dia seguinte ao atentado e lhe prometendo justiça. Diante do recuo do rei ante os protestantes, os Guise ameaçam abandonar a capital deixando o rei e a rainha-mãe ao desamparo. Durante o almoço da rainha, os protestantes vieram reclamar justiça. No mesmo dia, Catherine teria tido uma reunião nas Tuilleries com seus conselheiros, após o que foi ver o rei e comunicou-lhe a existência de um complô protestante. Charles IX decidiu eliminar os chefes protestantes, sem que sua mãe lhe trouxesse maiores provas do complô. O rei teria sofrido pressões do papa Gregório XIII e se resignou "a comprar a paz com a Espanha e com Paris ao preço da vida de Coligny e de seus principais lugares-tenentes". Poupou os príncipes de sangue, Henri de Navarra e o príncipe de Condé. Segundo alguns, teria explodido ante os conselhos de sua mãe: "Que assim seja. Que os matem. Mas que matem todos. Que não reste um só para que eu não seja acusado". Em verdade, o rei pretendia eliminar um número limitado de líderes huguenotes. O que não havia previsto, segundo os autores do Histoire et Dictionnaire des Guerres de Religion, é que a execução limitada dos chefes daria o sinal de um massacre em massa, que em Paris durou até o 29 de agosto, com um paroxismo de violência durante os primeiros três dias. No dia 24 começaram as matanças em Paris. As portas da cidade foram fechadas. O sinal para o início dos massacres foi dado por um sino da igreja Saint-Germain-l’Auxerrois, próxima ao Louvre. Os nobres protestantes foram expulsos do palácio do Louvre e depois assassinados nas ruas. Na madrugada, o duque de Guise vai com uma tropa à residência do almirante Coligny. Alguns de seus companheiros são mortos ali mesmo, outros escapam pelo teto. Coligny foi atacado por um cigano ao serviço do duque. Olhando seu assassino, teria suspirado: "Se ao menos algum homem e não este bruto me fizesse morrer". Seu cadáver foi então jogado pela janela e caiu aos pés de Henri de Guise e de Henri d’Angoulème, que o identificaram. O povo se encarniçou sobre o cadáver, que foi mutilado, castrado, arrastado pela lama, jogado no Sena e depois repescado e finalmente pendurado na forca de Montfaucon, sob a qual foi acendida uma fogueira. O massacre durou vários dias. Estudantes estrangeiros, livreiros e comerciantes foram massacrados pelo povo, encorajado pelos padres. Os cadáveres foram jogados no Sena. Os assassinatos de huguenotes se espalharam pelo interior da França, por uma quinzena de cidades ardentemente católicas, entre elas Toulouse, Bordeaux, Angers, Saumur, Lyon, Meaux, Bourges, Rouen e Orléans. Mil a mil e quinhentos protestantes foram degolados e jogados na Loire. Segundo o Dictionnaire, estas matanças provinciais revelam nos que as praticaram a convicção de cumprir uma obra de Deus, purificando suas cidades da heresia que as maculava. Mas particularmente no Sul, elas revelavam também lutas intestinas pelo controle do poder urbano. No total, na França, os São Bartolomeus fizeram talvez dez mil vítimas. A violência desfechada contra os huguenotes levou muitos, nas cidades mais hostis, a abjurar. Em Rouen, três mil se converteram à Igreja Católica. Em Orléans, as abjurações coletivas foram feitas ante as ridicularizações da multidão católica reunida. Outros preferiram exilar-se. No Oeste e Sul da França, a indignação estimulou a vontade de lutar. De sua tomada de armas, surgirá a Quarta Guerra Civil (outubro 1572 - julho 1573). Há quem fale de 70 mil a cem mil mortos. Segundo relatos, os cadáveres boiaram nos rios durante meses, de modo que ninguém comia peixe. Quem ficou muito feliz com o massacre foi o papa Gregório XIII, que cunhou uma medalha comemorativa da data e encarregou Giorgio Vasari de pintar um mural celebrando o massacre.
Quinta-feira, Agosto 23, 2007
DOIS QUARTOS PREOCUPANTES O primeiro é do Reino Unido. Segundo as notícias, um quarto de todos os bebês do Reino Unido tem um pai estrangeiro. No ano passado ocorreram 735 mil nascimentos do país, contra 663 mil quatro anos antes. Em 2001, a percentagem de pais estrangeiros era de 20%. Hoje é de 25%. Segundo um porta-voz do United Kingdom Office for National Statistics, isto reflete o efeito cumulativo da imigração nos últimos 40 anos e todas as evidências são de que estas cifras persistam. O problema não é exatamente que um quarto dos bebês tenha pais estrangeiros. O problema é que boa parte deste quarto tem pais muçulmanos. Há alguns meses, o mesmo organismo de estatísticas noticiava que o segundo nome mais popular entre os meninos nascidos na Inglaterra é Muhamad. Jack ainda está em primeiro lugar, mas isso não deve durar muito. O nome Aisha ocupa a 110ª posição entre os nomes mais populares para meninas. Os pais britânicos que batizaram seus filhos de Moahamed são em geral originários de Bangladesh, Índia, Paquistão e de países árabes. O nome muçulmano para os filhos é uma tentativa de reforçar os laços com a religião de origem. Quando deixará o Reino Unido de ser majoritariamente britânico? O recenseamento de 2001 revelou que as famílias inglesas muçulmanas totalizam de 1,6 milhões de pessoas, ou seja, 8% do total da população. A taxa de natalidade dos britânicos é de 12,3 nascimentos por 1.000 habitantes. Entre os muçulmanos cresceu 12% nos últimos sete anos. Depois da França e da Alemanha, a comunidade muçulmana no Reino Unido é a terceira em tamanho na Europa. Analistas já aventam a hipótese de o Reino Unido tornar-se um país muçulmano. Até aí, problema dos britânicos. Para nós, o mais preocupante é o segundo quarto. O nosso. Os jornais de hoje noticiam que o programa Bolsa Família atende quase um em cada quatro brasileiros, segundo estudo divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento Social. De setembro de 2005 a março de 2007, o número de famílias atendidas cresceu 46,05%, passando de 7,6 milhões para 11,1 milhões. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), o número de brasileiros beneficiados pelo programa - isto é, aquela gente toda que não trabalha e fica à espera da esmola estatal a cada fim de mês - hoje chega a 45, 8 milhões de habitantes. Em outras palavras, o Brasil que trabalha está levando nas costas, em números aproximados, - dois terços da França - uma África do Sul - quase toda uma Espanha - duas Coréias do Norte - quase três Chiles - quatro Cubas - mais de quatro Grécias ou Bélgicas - cinco Suécias - sete Israéis e meio - nove Finlândias - treze Uruguais
Quarta-feira, Agosto 22, 2007
A DOENÇA DA CURIOSIDADE Os crentes andam nervosinhos, e com razão. Vários livros difundindo o ateísmo estão surgindo nas livrarias e, ao que tudo indica, a fé dos teístas não é das mais firmes. Um leitor me envia um comentário feito ao livro de Richard Dawkins, Deus, um delírio, publicado no site da livraria Saraiva: "Infelizmente existem pessoas dedicadas a cooperar com o próprio demônio. Vejo esse livro como uma investida para CONFUNDIR nossas idéias e distorcer a verdade, a grande verdade de que Deus existe realmente e está aqui, Ele cura enfermos, nos sustenta, nos dá força... negar a existência de Deus é como negar a existência da própria alma, é pensar ser somente um monte de tecidos de macacos sem sentimentos e sem espírito. Negar a existência de Deus é blasfêmia e um ataque à própria inteligência". (Alison) Ora, se o Alison está firme em sua fé, não precisa temer a confusão de suas idéias. Se Deus realmente existe, as portas do inferno não prevalecerão contra sua Igreja, como dizia o Cristo. Mas parece que as coisas não são bem assim. As diversas facções cristãs se aceitam entre si e convivem pacificamente sem maiores problemas, apesar de detalhes divergentes como o purgatório ou a virgindade de Maria. O problema é o ateu, esse bárbaro - como diria Ernesto Sábato - que entra a cavalo e de lança em riste em um salão onde damas da corte dançam um minueto. Estou lendo o livro de Dawkins. O autor faz uma aposta: "Se este livro funcionar como espero, os leitores religiosos que o abrirem serão ateus quando o terminarem". Bom, isto não me diz respeito. Sou ateu desde meus verdes anos. Mas o autor demonstra ingenuidade. Se ele se debruçou sobre o fenômeno religioso, já terá observado que o homem que crê é infenso a qualquer argumentação racional. Por outro lado, Dawkins quer negar a existência de Deus a partir da ciência. É inútil. Fé é outro departamento. Se o livro não me traz nada de novo no que diz respeito a deus ou deuses, pelo menos me esclarece uma discussão corrente nos Estados Unidos, que sempre me soou estranha, a oposição entre os evolucionistas e creacionistas. Ora, essa discussão me parecia definitivamente encerrada desde aquele antigo filme de 1960, O Vento Será tua Herança, dirigido por David Greene, com Jack Lemmon e George C. Scott. O filme gira em torno de um professor que é processado por ensinar a teoria evolucionista de Darwin aos seus jovens alunos. Eu imaginava que esta questão estava morta e sepultada desde então. Isto é, há praticamente meio século. Santa ingenuidade, a minha. A discussão está viva e ainda dará muito do que falar. Ocorre que o debate foi polarizado nos Estados Unidos. Os ateus passaram a se apoiar em Darwin para contestar os crentes. À religião, opõem a ciência. O diálogo me parece de surdos, pois estas duas categorias não se tocam. Um católico pode ter todo respeito pela ciência, especialmente quando depender de tecnologia de ponta para vencer um câncer ou uma cardiopatia. Mas jamais deixará de crer no milagre, este insulto insuportável à ciência e à razão. Na hora de agradecer pela sua sobrevivência, deixará de lado todo o trabalho da equipe médica que se encarniçou para salvá-lo e agradecerá a Deus... justo o Deus que permitiu que fosse tomado pela doença. A propósito, o autor comenta esta mania dos crentes, ao citar o atentado a João Paulo II em 1981. O papa atribuiu sua sobrevivência à Nossa Senhora de Fátima: "Uma mão materna guiou a bala". Não dá para não se perguntar por que ela não a guiou para que se desviasse de vez dele. Ou se pode questionar se a equipe de cirurgiões que o operou por seis horas não merece pelo menos uma parte do crédito; mas talvez as mãos deles também tenham sido maternalmente guiadas. Comentando a teoria do design inteligente, o último achado dos creacionistas para proteger a idéia de deus dos assaltos da razão, comenta Dawkins: Esta é a mensagem que um "teórico" imaginário do design inteligente poderia transmitir aos cientistas: "Se vocês não entendem como uma coisa funciona, não tem problema: simplesmente desistam e digam que Deus a criou. Vocês não sabem como o impulso nervoso funciona? Tudo bem! Não entendem como as lembranças são depositadas no cérebro? Excelente! A fotossíntese é um processo desconcertantemente complexo? Maravilha! Por favor não saiam trabalhando em cima do problema, apenas desistam e apelem a Deus. Caro cientista, não estude seus mistérios. Traga seus mistérios a nós, pois podemos usá-los. Não desperdice a ignorância preciosa pesquisando por aí. Precisamos dessas gloriosas lacunas para o último refúgio de Deus". Santo Agostinho disse de forma bem clara: "Existe outra forma de tentação, ainda mais cheia de perigo. É a doença da curiosidade. É ela que nos leva a tentar descobrir os segredos da natureza, segredos que estão além de nossa compreensão, que nada nos podem dar e que nenhum homem deveria querer descobrir". Pretenderá Dawkins que este tipo de homem seja sensível à razão? Santa ilusão. De minha parte, só discuti a existência de Deus quando jovem e inexperiente. Desde há muito não a discuto mais. É beco sem saída. Não precisei de argumentação científica alguma para chegar à minha descrença. Tornei-me ateu lendo a Bíblia. Aquele deus truculento e assassino só podia ser criação humana. Não bastasse a Bíblia, comecei a ler História das Religiões. Não há crença que resista a estas leituras. Parafraseando Pessoa: os deuses são tantos, que não podem ser tantos. Hoje, gosto de discutir questões bíblicas. Considero o Livro como literatura e Jeová como personagem, ao mesmo título que Don Quixote ou Pantagruel. Discuto teologia como discutiria geometria. O triângulo não existe, é um ente de imaginação. Mas se alguém me der a medida dos catetos, forneço a hipotenusa. De qualquer forma, vale a pena ler o livro de Dawkins. É fruto da doença da curiosidade, como diria Agostinho. Se nada traz de novo em matéria de discussões a respeito de Deus, pelo menos nos mostra um país fanático, onde ser ateu é mais abominável que ser homossexual. Voltarei ao assunto. PS - O leitor Odilon Toledo esclarece que o filme Inherit the Wind se refere a um julgamento ocorrido em 1925. Ou seja, a discussão vem de mais longe.
Terça-feira, Agosto 21, 2007
PRINCESA MÄRTHA E OS ANJOS Os anjos surgem pela primeira vez na Bíblia sob a forma de leões-de-chácara. Já nas primeiras páginas do Gênesis, quando o Senhor transformou o trabalho em maldição, ao jogar Adão fora do Éden para lavrar a terra, pôs ao oriente do jardim "querubins, e uma espada flamejante que se volvia por todos os lados, para guardar o caminho da árvore da vida". Logo adiante, sem mais nem menos, junto a uma fonte no deserto que está no caminho de Sur, um anjo surge a Agar, serva de Sarai, e lhe pergunta: "donde vieste, e para onde vais?" Promete-lhe ainda farta descendência: "Multiplicarei sobremaneira a tua descendência, de modo que não será contada, por numerosa que será". Mais adiante, sempre no Gênesis, um anjo providencial salva Isaac do punhal do pai. Quando Abraão vai cumprir um sacrifício a Jeová, Isaac, desconfiado, vê que está faltando algo e pergunta: "Eis o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?" Abraão desconversa: "Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho". O cordeiro era o Isaac. Quando já estava amarrado sobre o altar, em cima da lenha, surge dos céus o Anjo do Senhor, que brada: "Abraão, Abraão! Não estendas a mão sobre o mancebo, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, visto que não me negaste teu filho, o teu único filho". Ainda no mesmo livro, temos os dois anjos que desceram dos céus para avisar a Ló que desse no pé de Sodoma. Pelo jeito, eram divinos, pois perturbaram os sodomenses (ou sodomitas?): "Onde estão os homens que entraram esta noite em tua casa? Traze-os cá fora a nós, para que os conheçamos". Ló, que conhecia os seus, entendia muito bem o que queria dizer conhecer. Para proteger seus hóspedes, oferece suas duas filhas: "Meus irmãos, rogo-vos que não procedais tão perversamente; eis aqui, tenho duas filhas que ainda não conheceram varão; eu vo-las trarei para fora, e lhes fareis como bem vos parecer: somente nada façais a estes homens, porquanto entraram debaixo da sombra do meu telhado". Ló era o único homem justo de Sodoma. Os anjos, para escapar ao assédio dos sodomenses (ou sodomitas?), feriram de cegueira os que estavam do lado de fora, de maneira que cansaram de procurar a porta. É o que dá querer amar os anjos. É Isaías quem fala pela primeira vez na Bíblia dos serafins: "cada um tinha seis asas; com duas cobria o rosto, e com duas cobria os pés e com duas voava". Judas, o irmão de Jesus, fala do arcanjo Miguel que discutia com o Diabo, disputando a respeito do corpo de Moisés. Paulo, com sua cultura helênica, ajunta às cortes celestiais as dominações, principados e potestades: "tudo foi criado por ele e para ele". Os anjos percorrem a Bíblia toda, do primeiro ao último livro. No Apocalipse, além de louvar ao Senhor e representar igrejas, são mensageiros de morte, sangue, peste, pragas e sofrimentos: "Naqueles dias os homens buscarão a morte, e de modo algum a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles". A Igreja Católica estabeleceu a existência de três hierarquias angelicais, com distintas funções. Cada hierarquia tem três coros: os serafins, querubins e tronos; as dominações, virtudes e potestades, e os principados, arcanjos e os anjos. Estes últimos se encarregam de cuidar das pessoas, desviá-las do mal e encaminhá-las ao vem e ao caminho da salvação. São Tomás de Aquino, também conhecido como Doctor Angelicus, por sua dedicação aos anjos, ocupou-se longamente destes seres etéreos na Suma Teológica. Para o Boi Mudo, outro epíteto que lhe foi dado por sua capacidade de trabalho, a natureza dos anjos é puramente imaterial e espiritual, seu número é incalculável e eles têm graus diferentes de sabedoria e perfeição, estando subdivididos em hierarquias. Sua acuidade é tal que chega a discutir a que distância os anjos devem estar entre si para que quando um fale o outro ouça. O estudo dos anjos se tornou uma tradição na cristandade e passou a constituir um ramo da teologia, a angeologia ou angelologia. Contemporaneamente, está se tornando uma questão de auto-ajuda. Se anjos existem, vamos conversar com eles. É o que propõe a princesa Märtha Louise, filha do rei Harald, da Noruega, que criou em Oslo uma Escola dos Anjos, a Astarte, que já não tem mais vagas para a reentrada do ensino deste ano. É o que leio no Libération. O projeto está provocando resmungos no reino escandinavo, onde há quem proponha que a princesa, de 35 anos e adepta de terapias alternativas, renuncie a seu título oficial. A filha do rei Harald, que diz ter dons de vidência, propõe aos alunos da Astarte entrar em contato com seus anjos, definidos como "forças que estão em torno a nós e são um recurso e uma ajuda em todos os aspectos de nossa vida". Para isso, os candidatos a conversar com os anjos deverão pagar 12 mil coroas norueguesas (cerca de 1500 euros) por semestre. O jornal Bergens Tidende convidou a princesa a renunciar a seu cargo e o escritor sueco Jan Guillou acha que Märtha deve tratar de curar-se. Sábado passado, a princesa defendeu-se na rede de televisão NRK: "Sou feliz de não ter não ter nascido há 200 anos, pois teria sido queimada na fogueira há muito tempo". Em verdade, Märtha teria mais sucesso há uns 800 anos. Como não teve esta graça, a de ter vivido na época do Doctor Angelicus, melhor faria mudar-se da luterana Noruega para este Brasil católico, onde angeólogas e angelológas fazem fortunas com seus livros de auto-ajuda. Se a escola de Märtha demonstra-se viável em país de Primeiro Mundo, muito em breve teremos entre nós, ao lado dos cursos de Teologia, os de Angeologia. Quem viver, verá! Amém? Marcadores: angeologia, Anjos, Aquino
Segunda-feira, Agosto 20, 2007
AZALÉIAS DE AGOSTO (in memoriam 20/08/2003) Era agosto. Elas se abriam em meu jardim com essa obscenidade com que sempre se abrem as flores, cumprindo sua missão natural de flores. Quanto mais floresciam, mais fenecias. Todas as manhãs eu atravessava aquele festival orgíaco de vermelho, rosa, branco e roxo, rumo ao amarelo ictérico que começava a envelopar tua pele, essa pele que por tantas décadas acarinhei. "Onde estiver, vou sentir tua falta" - me disseste, com voz que jamais senti tão grave. Querendo afagar-me, suspeitando que pela última vez, te enganavas. Não estarás em parte alguma. Partiste para o grande nada, onde nada existe e ninguém sente falta de ninguém. Quem vai sentir tua falta, todos os dias até o último deles, é este que fica e que em algum lugar sempre estará. Pelo menos até o dia em que não mais estiver. Quem parte descansa. Sofre quem fica. O que até me consola um pouco. Quem está sofrendo, pelo menos não és tu. É de novo agosto e elas retomaram seu ritual exibicionista. Paranóicas, escondem-se nas primaveras e agora torturam meus invernos. Não apenas os meus, mas os de tantos outros cujos seres amados escolheram agosto para partir. Certa noite de setembro, eu conversava com jovens já contaminados pela resfeber, enfermidade nórdica que significa febre de viagens. Sedentos de vida, perguntaram a este ser tantas vezes acometido pela doença: qual é a mulher mais linda do mundo? Em que geografias pode ser encontrada? Caí em prantos. A mulher mais linda do mundo, eu a conheci. E a tive. E agora não mais a tinha. Não a encontrara em distantes longitudes nem em países exóticos. Encontrei-a a meu lado, neste prosaico país, e nunca mais a abandonei. Quis a vida - ou talvez tenha quisto eu - que tivesse centenas de mulheres, algumas muitas queridas, outras nem tanto mas também desejadas, mais uma multidão de rostos mais ou menos anônimos, corpos sempre lembrados. Mentira da vida, mentira minha. Em verdade, tive só uma. Tu, que partiste no auge das azaléias. "Eu não tenho medo da morte" - me disseste ainda, um pouco antes da passagem rumo ao nada. Mesmo desbotada pelo palor da vida que foge, estavas linda como nunca estiveste. Em tuas quase seis décadas, conservavas ainda aquele eterno rostinho de criança, que a passagem dos anos jamais conseguiu roubar-te. Sedada, já no torpor da morte, chamaste tuas últimas energias, te ergueste no leito. Levantando o dedinho, didática qual professora falando a seus pupilos, sussurraste com o que te restava de voz: "E se fizéssemos assim: eu assino um documento: eu, TKM, em pleno uso de minhas faculdades mentais, declaro que quero ter meus restos cremados no cemitério da Vila Alpina". Reuni minhas forças e consegui balbuciar: não te preocupa, Baixinha adorada, isto há muito está combinado, verme algum sentirá o gosto de tuas carnes. Tuas cinzas, vou jogá-las de alguma ponte em Paris, uma daquelas pontes que tanto amaste, para que saias navegando mares afora. Passada a mensagem, te reclinaste em paz.Mas descumpri o trato. Não as joguei em Paris. Ficarias muito longe de mim, navegarias talvez por mares gelados e hostis, encalharias em geleiras e te perderias em fiordes, longe de meu calor. Com carinho, te plantei entre os rododendros e todas as manhãs passo entre ti e murmuro: adorada. É bom te cumprimentar. Mas como dói. A vida nos foi pródiga, e isso é talvez o que mais machuque. Nestes últimos meses, tenho sentido uma secreta inveja de homens que casam com megeras horrendas. Quando elas partem, começa a felicidade. Se morrer feliz é almejo de todo homem, esta graça não mais está reservada a quem um dia foi feliz. É duro conjugar certos verbos no passado. Dizia Pessoa: Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente! Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém... Bobagens de poeta, que tanto influenciaram meus dias de jovem. Verdade que "sem ti correrá tudo sem ti". Mas isto vale para as azaléias - seres insensíveis que sequer perceberam a ausência de quem as adorava tanto - e para o resto da humanidade. Para quem perdeu o ser mais lindo da vida, é mero jogo de palavras. As azaléias em breve irão perdendo seu sorriso orgíaco, suas cores fenecerão e agosto que vem estarão de novo florescendo, despudoradas. Tuas cores feneceram agosto passado e pelo resto de meus agostos não mais te verei florir.
Domingo, Agosto 19, 2007
AINDA A CORRUPÇÃO UNIVERSITÁRIA Com a comparação feita pelo Supremo Apedeuta entre a Bolsa-Esmola e as bolsas de doutorado no Exterior, voltou à tona o caso dos bolsistas inadimplentes. Na Folha de São Paulo de hoje lemos: UNIÃO COBRA R$ 54 MILHÕES DE EX-BOLSISTAS Doutorandos receberam ajuda para estudar no exterior e não teriam cumprido as exigências ou abandonado estudos Supostas irregularidades vão de falsificação de diplomas a descumprimento de acordo para permanecer no Brasil com o fim da pós-graduação Segundo o jornal, desde 2002 o governo federal pediu a devolução de cerca de R$ 54 milhões que ex-bolsistas de doutorado favorecidos por ajuda oficial teriam recebido de forma irregular. O montante da dívida difere de notícia publicada pela própria Folha no ano passado, que estimava o desfalque nos cofres públicos em R$ 97,6 milhões. 54 ou 97, a falcatrua é grossa. É curioso observar como a imprensa denuncia a corrupção na política, no mundo empresarial, no universo ongueiro, mas quando se trata de universidade a palavrinha corrupção é omitida. A Folha fala, eufemisticamente, em "supostas irregularidades". Afinal, é ou não é irregularidade falsificar diplomas e abandonar o país após ter sido financiado para estudar no Exterior? Quando professor na UFSC, em Florianópolis, observei não poucos casos desta corrupção, alguns deles a meu lado. Só em meu departamento, o de Letras, havia oito professores que não haviam levado a bom termo suas bolsas no Exterior. O caso certamente mais escandaloso foi o de uma professora que passara quatro anos em Curitiba sem conseguir concluir seu mestrado. Teve então seu projeto de mestrado espichado para doutorado e ganhou mais quatro anos de bolsa na USP. Sem concluir seu doutorado, recebeu mais dois anos para concluí-lo em Lisboa. Fui protestar junto ao chefe de Departamento. Como é que aquela moça, que em oito anos não conseguira elaborar uma tese, que há oito anos estava afastada do giz e do quadro-negro, era premiada agora com mais dois anos em Lisboa? - É um problema humano - me disse o professor. Ela se divorciou há pouco e outro dia apareceu com um olho inchado no Departamento. Ela tem de sair de Florianópolis. Bom, se assim era - respondi - eu falava com minha mulher pra me dar duas bofetadas e queria quatro anos em Lisboa. Ainda no mesmo Departamento, ocorreram outros escândalos memoráveis. A irmã da moça do olho inchado, professora de Literatura Portuguesa, que não tinha um único livro em sua casa - como tive a oportunidade de constatar -, recebeu bolsa na área também em Lisboa. Encontrei-a lá. Tese, nem pensar. Mas já tinha encontrado seu Quim (de Joaquim). Claro que não concluiu seu doutorado. Soube depois que passou a viver em Valladolid, Espanha, onde casou e não mais deu notícias à universidade. O caso mais berrante terá sido o de um professor e uma professora chilenos, mais conhecidos como o Casal. Pois bem, o Casal conseguiu bolsa em Londres, onde passou quatro anos, não concluiu doutorado e nunca mais foi visto em terras brasileiras. Outra história - e patética - é a de uma professora de Teoria Literária, já avançada em idade (creio que uns 50 anos) e quase cega. Recebeu bolsa para Paris, onde a encontrei. Tinha dificuldades até para atravessar a rua, dada sua deficiência visual. Transcorridos os quatro anos, a universidade a chamou de volta. Ela decidiu não voltar. Devido a não sei qual dispositivo legal ou burocrático, exigia-se que ela estivesse no Brasil para ser comunicada da cessação de sua bolsa. Como isso era tudo que ela não queria, não voltava. E continuava passeando às margens do Sena, mal conseguindo distinguir um sinal de semáforo. Confesso que não sei como acabou o imbróglio. Assisti também o caso de outro casal, ambos professores de Letras e também cinqüentões. Ele conseguiu uma bolsa na PUC de Porto Alegre. Para levar a mulher junto, forjou sua inscrição em um curso inexistente na mesma PUC. A fraude foi denunciada em pleno Departamento, por um outro professor que esperava sua vez de sair para Paris. Participei dessa reunião. A professora saiu da sala diretamente para o hospital universitário, com crise de hipertensão. Punição? Nenhuma. Apesar de toda a campanha que desfechei na imprensa catarinense contra o turismo universitário, apesar do processo que envolveu Ministério Público, Polícia Federal e Receita Federal, não tenho notícia de um único professor punido. A palavra corrupção, tão facilmente atribuída a políticos pelos jornalistas, bem que está na hora de ser associada ao universo universitário.
ESTUPRO EM LINKÖPING Três homens de aproximadamente 20 anos foram presos ontem em Linköping, Suécia, acusados de estuprar uma menina de 15 anos. Os jornais não dão mais informação alguma sobre os estupradores. Nem nome, nem nacionalidade, nem origem. Você consegue imaginar três suecos estuprando uma menina de 15 anos na Suécia? Até pode acontecer, mas as probabilidades são mínimas. O silêncio dos jornais é sintomático. É óbvio que se trata de estrangeiros, provavelmente árabes, talvez turcos, enfim, imigrantes. Com boas chances de serem muçulmanos. Os muçulmanos consideram que todas as suecas são "horor", isto é, putas. Tanto faz como tanto fez que sejam estupradas. O Islã está vencendo em toda a linha na Europa. Em países como Suécia, Alemanha ou França, quando o implicado em um crime é árabe ou africano, a imprensa faz um silêncio sagrado em torno a seu nome.
Sábado, Agosto 18, 2007
PIROU DE VEZ! No período pós-Ceaucescu, corria uma piada na Romênia. Em Bucareste, nos dias do conducator, um cidadão entra em uma farmácia: - Bom dia, camarada farmacêutico! - Bom dia, camarada cliente! - Camarada farmacêutico, você tem algo para a paranóia? - Para a paranóia, camarada cliente, só tenho respeito. A paranóia era - e ainda é - um dos mais típicos sintomas dos países comunistas. As ditaduras, para manter-se, precisam acreditar em si mesmas. A realidade que se lixe. Do alto de seu climatério, o novel editorialista Fidel Castro escreveu ontem no Granma artigo intitulado "O Império e a Ilha Independente", onde afirma que a base naval de Guantánamo, controlada pelos Estados Unidos, representa uma ameaça para o país. Disse ainda que Cuba esperará o fechamento da prisão, após a queda do sistema americano: "Se for preciso esperar que caia o sistema, esperaremos. A espera de Cuba sempre será em alarme de combate". Com a paranóia, sempre é bom ter respeito. Isto me faz lembrar paranóia análoga, de um velho comunista gaúcho, o advogado Antonio Pinheiro Machado Netto. Em seu livro Berlim: muro da vergonha ou muro da paz? (Porto Alegre, L&PM, 1985), escreveu: Hoje não se pode mais falar em reunificação da Alemanha, pura e simplesmente, com fundamento tão somente na língua e história comuns. (...) Não se pode, todavia, afastar a hipótese de, num futuro mais ou menos remoto, vir a ocorrer a unificação (como aconteceu no Vietnã). Esta hipótese, porém, só pode ser considerada se na chamada Alemanha Federal - RFA - passar a existir também um regime socialista. Uma das maiores bobagens veiculadas no Brasil sobre o Muro de Berlim é que ele foi erguido para evitar as fugas de alemães da RDA para a parte oeste de Berlim. Esta asneira é veiculada até por pessoas que gozam de alguma credibilidade no Brasil, e por órgãos de comunicação, que se apresentam como veículos fiéis à verdade. Todos os epítetos lançados contra o muro - afronta à liberdade, vergonha, etc., etc. - escondem apenas o ressentimento e a frustração dos fazedores de guerra que, naquela linha de fronteira, viam o começo da terceira guerra mundial por que tanto sonham, e para cujo deflagrar tudo fazem, com vistas a salvar o capitalismo da crise irreversível em que está mergulhado. É natural que na RDA e nos demais países socialistas a tendência seja a diminuição do índice de criminalidade, de vez que as infrações penais que têm origem na miséria, numa vida difícil e atormentada, com dificuldades econômicas e financeiras, tendem a desaparecer por completo nos países socialistas, e muito particularmente na RDA. Mas, decorridas quatro décadas, essa mesma Alemanha Ocidental - eis a grande verdade - não resolveu problemas vitais do povo alemão que vive na região ocidental. Mais do que isso. Hoje a República Federal da Alemanha - RFA -, como todo mundo capitalista, é um país atormentado por uma crise de vastas proporções, crise política, econômica, social e moral. A realidade alemã ocidental hoje reflete a crise que avassala o sistema capitalista. Na RFA a situação social também vem se agravando. Progressivamente aumenta a pobreza. Os sindicatos da RFA estão prevendo que até 1990 cerca de 100 mil pessoas perderão seus empregos, atualmente, por força da automação. Afora, evidentemente, o desemprego resultante da crise do capitalismo que existe na RFA e em todo o ocidente capitalista, e que vai continuar. Os meios de comunicação de massa do Ocidente já decretaram que nos países socialistas não há liberdade para os cidadãos e que, especialmente, inexiste liberdade de imprensa. Também decretaram que os direitos humanos não são respeitados no mundo socialista. Daqui cinco anos, na RDA, não haverá mais desconforto habitacional - todas as famílias terão sua casa.
Sexta-feira, Agosto 17, 2007
BOLSISTAS EM TURISMO NO EXTERIOR Comentei, em post anterior, a corrupção universitária dos bolsistas que vão ao exterior pesquisar e voltam de mãos vazias. O leitor Felipe Svaluto me envia esta notícia do UOL, datada de 04/09/2006: SECRETÁRIO DO MEC ESTÁ INADIMPLENTE COM A UNIÃO O secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (MEC), Ricardo Henriques, é um dos 659 ex-bolsistas que estão inadimplentes com a União. A dívida se deve ao custeio de curso de pós-graduação strictu sensu (mestrado ou doutorado) pela Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (Capes). Henriques deixou de ser bolsista da Capes em 1998. Ele ficou na França, por quatro anos, fazendo doutorado de economia na Universidade de Paris, às custas do financiamento do governo. No entanto, apesar de ter concluído todas as disciplinas, não chegou a defender a tese, requisito obrigatório exigido pela instituição a todos que recebem a bolsa. De acordo com o MEC, o secretário fez um pedido de prorrogação e deve apresentar o trabalho final até 2008. Até a manhã de hoje (4/9), o nome do secretário ainda constava no Cadastro Informativo dos Créditos não Quitados de Órgãos e Entidades Federais (Cadin) devido a essa pendência. Segundo a assessoria de comunicação da Capes, o processo de prorrogação é legal e está em andamento. Assim que eles receberem a última documentação, irão providenciar a regularização de Henriques junto ao Cadin. A defesa da tese é uma das exigências, tanto da Capes quanto do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico (CNPq), para que a bolsa de estudos para o exterior seja concedida. O aluno também não pode abandonar o curso sem apresentar uma justificativa e tem que voltar para o Brasil, permanecendo, no mínimo, o mesmo tempo que ficou fora do país. Caso contrário, é obrigado a ressarcir às instituições. O governo gasta R$ 100 mil por cada bolsista que passa quatro anos no exterior fazendo doutorado. Além dos custos com as mensalidades e taxas universitárias, o valor inclui passagens aéreas para o aluno, cônjuge e filhos, US$ 1,1 mil mensais para despesas pessoas e US$ 200 mensais para cada dependente, podendo ter até quatro. O Tribunal de Contas da União (TCU) está analisando 43 casos de ex-bolsistas do CNPq e já condenou 118 da Capes a pagar R$ 18 milhões ao governo. Se todos os beneficiados do CNPq forem obrigados a ressarcir o instituto, os cofres públicos receberão R$ 4,7 milhões. Em levantamento da Capes e do CNPq foram encontrados 659 ex-bolsistas que não reembolsaram os dois órgãos. Isso gerou um desfalque de R$ 97,6 milhões nos cofres públicos. Dos quase 700 nomes encontrados, apenas 73 estão no Cadin. Valiosa, a informação do Svaluto. Eu a desconhecia. De qualquer forma, duvido que os 118 inadimplentes da Capes devolvam R$ 18 milhões ao governo. Além disso, devem ser bem mais que 659. Em meus dias de professor em Florianópolis, denunciei amplamente na imprensa esta corrupção na Universidade Federal de Santa Catarina, que eu chamava de UFSCTUR, a mais barata e confortável agência de turismo do país. Reproduzo abaixo resposta a um leitor, que já publiquei neste blog, em 2005. Só a UFSCTUR havia enviado 73 privilegiados turistas para Europa e Estados Unidos. Multiplique isto pelo número de universidades do país e tenha uma pálida idéia do volume deste fluxo turístico.
DOUTORADO E TURISMO Isso de fazer turismo na Europa, com pretexto de doutorado e às custas do contribuinte, nada mais é do que corrupção. Como a universidade pública é o sacro dos sacros, ninguém ousa usar a palavrinha para definir o fenômeno. Em 1989, denunciei em cerca de vinte artigos, na imprensa catarinense e gaúcha, os desmandos administrativos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). E por que a UFSC? Porque nela trabalhei e sabia do que falava. Denunciei 73 professores que faziam turismo no exterior, mais outros tantos com dedicação exclusiva que mantinham consultórios ou escritórios privados. Houve inquérito administrativo, comissões de inquérito, entrega de folhas de pagamento àReceita Federal, etc., e tudo deu em nada. Fui processado pelo então reitor, Bruno Schempler, pelas alusões que fiz à UFSCTUR, a mais generosa agência de viagens do país. Diga-se de passagem, a reitoria da UFSC é a única que conheço que tinha em seu prédio uma agência de turismo para uso exclusivo de seu corpo docente. O juiz que recebeu o processo, deu-me 48 horas para retratar-me ou comprovar minhas denúncias. Comprovei-as em 24 horas e o juiz desmanchou o processo. O Magnífico Reitor teve de tirar o cavalinho da chuva. Todas as denúncias foram assinadas com meu nome, já que não costumo esconder-me atrás de pseudônimos covardes. Nunca, na história da Universidade Brasileira, um professor sozinho, sem nenhum respaldo político algum, ousou denunciar a corrupção universitária como eu o fiz. Como não cabe reproduzir hoje minhas denúncias de então, reproduzo apenas trechos de uma das muitas reportagens sobre o assunto, do Diário Catarinense, de 13 de março de 1990. CRIADA COMISSÃO PARA INVESTIGAR VIAGENS. REITOR DA UFSC QUER SABER QUEM FOI FAZER TURISMO E QUEM FOI AO EXTERIOR ESTUDAR. A APUFSC JÁ PROTESTOU Florianópolis - O Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina,Bruno Schlemper Júnior, assinou portaria ontem, designando a criação de uma comissão especial de alto nível para apurar a denúncia de que diversos professores teriam feito turismo e não estudos de pós-graduação no exterior. A comissão, segundo o procurador geral da UFSC, Marco Aurélio Moreira, terá 45 dias para apurar todos os casos individualmente.(...) Os professores que realmente forem considerados culpados, de acordo com o procurador da UFSC, terão de devolver tudo o que receberam indevidamente (salários, bolsas e os valores gastos com passagens aéreas). Além disso, os envolvidos na fraude deverão ser indiciados pela Polícia Federal. A irregularidade foi denunciada em meados do ano passado por JANER CRISTALDO, que trabalhou durante quatro anos no Departamento de Língua e Literatura Vernácula da UFSC. E é exatamente este Departamento que, segundo JANER, é o "foco de tudo". "Transformou-se em uma coisa comum as pessoas irem para o exterior e voltarem sem teses. No entanto, a Reitoria vai ter que investigar também aqueles casos de turismo doméstico, ou seja, aqueles professores que deveriam fazer estudos de pós-graduação em São Paulo, Rio de Janeiro ou outros estados e que também voltaram sem suas teses", acrescentou JANER CRISTALDO. (...) JANER fez os cálculos e chegou à conclusão de que os quatro anos que os 73 professores ficaram fora do Brasil significaram 292 anos de magistério desperdiçados pela UFSC. O dinheiro que eles devem chega a NCz$ 12 milhões de cruzados novos. (...) "E isso caracteriza a UFSCTUR, a agência de turismo mais barata do Estado". APUFSC CONTESTA A Associação dos Professores da Universidade Federal de Santa Catarina (Apufsc) contestou oficialmente as denúncias. A entidade emitiu nota oficial protestando contra a divulgação dos fatos denunciados pelo escritor JANER CRISTALDO e exige a retratação da Reitoria sobre o envolvimento de seu presidente, Edmundo de Arruda Lima, ao mesmo tempo em que aguarda o encaminhamento sério e responsável a respeito da questão. Resumindo, meu caro Wilton: todo meu esforço resultou em nada. Nenhum professor foi punido, apesar das bravatas do procurador geral da UFSCTUR. Os mais relapsos inadimplentes estão hoje gozando de boas aposentadorias. E você é testemunha de que o turismo universitário continua em alta. Se cabe à universidade formar as elites do país, não é de causar espécie as "elites" que nos governam. (13 janeiro 2005)
MEUS PRAZERES PERVERSOS Ouvir besteiras de figuras ilustres é um de meus prazeres perversos. Sei lá por quê, mas me diverte. Ontem, o Supremo Apedeuta me proporcionou mais um desses prazeres, ao defender o Bolsa-Família. "Tem gente que critica o Bolsa-Família como um programa assistencialista, porque a gente está dando o direito de os mais pobres comerem. Agora, essas mesmas pessoas não criticam uma bolsa de US$ 2 mil que a gente paga para um doutor se formar no exterior. Não podemos aceitar o preconceito contra a bolsa que a gente dá para as famílias mais pobres comerem o feijão que precisam comer". Para começar, Lula assume como sendo obra sua o tal de Bolsa-Família. Em verdade, é a unificação de programas assistencialistas anteriores do governo Fernando Henrique, como o Bolsa-Escola, Vale-Gás, Bolsa-Alimentação. Em sua insciência, o Apedeuta quer agora comparar esmolas de fundo eleitoreiro com especialização no Exterior. O Bolsa-Família é esmola sem contrapartida. A formação de doutores no Exterior é sinônimo de importação de ciência, tecnologia, know-how. Há um retorno, um ganho em capital humano para o país. O único retorno do Bolsa-Esmola é o voto nas próximas eleições. Bem entendido, há doutorados completamente inúteis, que só servem para desmoralizar o programa de bolsas no Exterior. São as bolsas concedidas a acadêmicos que vão estudar a obra de Machado de Assis ou Nelson Rodrigues em Paris ou Londres, que pretendem analisar o uso do pronome relativo na poesia de Fernando Pessoa ou os elementos cabalísticos na ficção de Guimarães Rosa. Isto, de fato, é dinheiro jogado no lixo. Sem falar nos doutorandos que passam quatro cinco anos no Exterior chuchando nas tetas do Estado e voltam de mãos vazias. Confesso nunca ter visto em minha vida qualquer punição imposta a esses universitários. Não falo em cadeia, afinal não mataram ninguém. Mas pelo menos perda do emprego e devolução do recebido. Denunciasse o Supremo Apedeuta esta corrupção universitária, eu - que o abomino - seria o primeiro a cumprimentá-lo. Mas não. O analfabeto estabelece um paralelo esdrúxulo, algo como comparar laranjas com triângulos isósceles. Infeliz do país de Terceiro Mundo que não envia seus universitários aos grandes centros de formação. Mas isto está longe do alcance de um bruto que se gaba de ser monoglota e inculto. O pior é constatar que este bruto conta com a adesão da maioria da nação. O Brasil elegeu e reelegeu Lula? Se isto antes me indignava, hoje não me indigna mais. Estou inclusive espiritualmente preparado para um terceiro mandato. O Brasil votou nele? Então o merece. Triste é ver a parte sadia da nação ter de viver este carma.
Quinta-feira, Agosto 16, 2007
BISPOS MENTEM E PAPA ENDOSSA O americano David Livingstone Smith, autor de Por que Mentimos - Os Fundamentos Biológicos e Psicológicos da Mentira (Editora Campus/Elsevier), lançado no fim de 2005 no Brasil, concedeu no ano passado uma entrevista interessante à Veja. Suas teses, apesar de discutíveis, não deixam de ter uma sólida base na realidade que nos envolve. Para Smith, "a mentira está por toda parte. Ela é normal. Todos mentimos e quem diz o contrário mente. Temos dificuldade em nos reconhecer como mentirosos porque há um julgamento moral contrário. Mentimos para obter vantagens e para nos proteger de algo, o que significa que estamos, de certa forma, passando a perna em alguém. Quem mente bem costuma se dar melhor do que quem não consegue fazê-lo". Sim e não, diria eu. Nunca vi a mentira como normal e não costumo mentir. Quando criança, tenho de admitir, cometi minhas pequenas mentiras, tentando escapar de uma surra, certamente bem merecida. Hoje, não tenho mais esses medos, nem preciso mentir para obter vantagens ou proteger-me. Mentir é muito complicado, dizia Mário Quintana. Precisamos criar tantas mentiras para justificar a primeira que as acabamos esquecendo. Quando se mente, fica difícil manter a lógica da história. Mais dia menos dia, o mentiroso cai em suas contradições. Se há pessoas que mentem para obter vantagens e proteger-se, como pretende Smith, nem sempre quem mente bem se dá melhor do que quem não consegue fazê-lo. O exemplo mais à mão é o do senador Renan Calheiros. Mente com propriedade, mas de modo algum pode se dizer que está se dando bem. Pode até não largar o osso do poder, mas está irremediavelmente desmoralizado ante a opinião pública. Que políticos mintam, entende-se. Perguntaram-me certa vez porque nunca pensei em política. Por uma razão elementar: teria de mentir. Duvido que algum político se eleja sem mentir. Faz parte do jogo. Para cada platéia, você tem de interpretar o papel que rende mais votos. Ou não se elegerá. A mentira é inerente à política. Lula se elegeria se não tivesse mentido toda sua vida? Nunca. FHC muito menos. Se mentir faz parte da personalidade do político, mentir é muito feio quando quem mente são bispos. A Igreja, bem entendido, existe em função de uma mentira maior, a de que Deus existe e é criador dos céus e da terra. Esta mentira milenar é mais ou menos universalmente aceita, a tal ponto que virou verdade para muitos. Deixemos então esta mentira colossal de lado. Vamos à mentira mesquinha dos bispos latino-americanos ao papa. Leio no Estadão de hoje que o documento votado pela 5ª Conferência-Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, realizado em maio em Aparecida, foi alterado pela presidência do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) antes de ser entregue ao papa, em 11 de junho. As mudanças mais relevantes referem-se às Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), núcleos de fiéis ligados à Teologia da Libertação com grande atuação pastoral e ideológica no continente nos últimos 40 anos. O texto divulgado pelo Vaticano, com a aprovação de Bento XVI, contém mais de 200 emendas feitas pelo cardeal chileno Francisco Javier Errázuriz Ossa e pelo bispo argentino Andrés Stanovnik, respectivamente presidente e secretário-geral do Celam na época. O jornal cita boa parte dos trechos alterados pelos purpurados chileno e argentino. Pior ainda, a mentira parece ser prática usual dos senhores bispos. "Não sei quem alterou, mas quero saber, pois não é a primeira vez que isso ocorre", protestou o cardeal Geraldo Majella Agnelo, arcebispo de Salvador e primaz do Brasil. Por outro lado, o atual presidente do Celam, d. Raymundo Damasceno Assis, acha difícil anular o texto oficial depois de ele ter sido aprovado por Bento XVI e distribuído, em espanhol, às 22 conferências nacionais do continente. O cardeal Errázuriz, arcebispo de Santiago, escreveu uma carta-circular, na qual diz ter encaminhado a questão a seu sucessor e sugere que não se fale mais do assunto. Um concílio de prelados falsifica um documento, o Sumo Pontífice endossa o documento falsificado e o distribui urbi et orbi, bispos e cardeais defendem a idéia de que a mentira deve ser mantida. "A melhor mentira é contada por aquele que acredita no que está dizendo”, diz David Smith. Os bispos latino-americanos, pelo jeito, acreditam na própria mentira, tanto que querem eternizá-la. A justificativa do cardeal chileno é divina: "Daríamos uma grande alegria ao demônio se nos ocupássemos tanto das mudanças que ocorreram no texto final de modo que o mal-estar conseguisse eclipsar a maravilhosa experiência de Aparecida e suas grandes orientações pastorais". Para não alegrar o demônio, o papa endossa a mentira de seus príncipes. A Igreja, que já havia conseguido passar uma borracha em seu passado inquisitorial - pelo menos para os que não conhecem História - vem perdendo credibilidade dia-a-dia, graças à sua política assassina de condenação dos anticoncepcionais e preservativos nesta época de Aids e ao acobertamento das práticas pedófilas de seus ministros. Ao endossar a tese de Smith, de que "a mentira não é boa ou ruim, ela é necessária", os purpurados latino-americanos estão se reduzindo à estatura moral de um Renan Calheiros e seus pares.
O PROTESTO DE PIAIA Do leitor Rapahel Piaia, recebi: Que direito tem qualquer sociedade minimamente civilizada de tolerar e ignorar culturas que massacram seres humanos inocentes e/ou indefesos? Em nome do multiculturalismo, a crescente onda de subversão de toda a base moral da sociedade vem aumentando. Qualquer valor que exista ou possa ter existido é descartado imediata e sumariamente se tiver a má sorte de proceder do ocidente. Que direito têm os índios de terem seus territórios ditos soberanos dentro das próprias fronteiras brasileiras ao mesmo tempo que recebem ajuda e sustentação financeira básica do mesmo governo ao qual não estão submetidos ou fazem parte? Que tipo de autonomia é essa? É a autonomia unicamente válida quando ameaçam "derramar sangue branco", ou para quando resolvem molestar, mutilar ou assassinar infantes indesejados. Antropólogos, aqueles sujeitos membros de uma das castas mais podres da sociedade (com raras, bem raras exceções) não hesitam em correr em defesa dos pobres índios assassinos e suas culturas sanguinárias. Pergunto-me se eles fariam o mesmo em defesa da cultura, digamos, nazista. Se quisessem manter alguma coerência, seriam obrigados a posicionar-se dessa forma também. Mas, sabemos, eles não o fariam. Antropólogos... A questão é que esses sujeitos , sociólogos, antropólogos, todos os autodeclarados "homens sensatos" que acreditam ter a fórmula para a utopia final, também acreditam que tudo que há de pior, tudo que existe de mais pútrido, e, principalmente, tudo do que eles mais hipocritamente desfrutam (e isso eles fingem ignorar) vêm do ocidente. Não sei a razão disso, é provavelmente uma reminiscência de espírito rebelde, uma necessidade de atrair atenção, de subverter talvez, para assim destruir as bases de tudo que se tem como concreto e então ter o caminho livre e limpo para a construção do novo mundo, da utopia final que os autodeclarados Gênios Visionários acreditam possuir e ter o direito de aplicar. Seja por quaisquer meios, seja a custo de quaisquer baixas. O que mais irrita, o que mais enoja, é imaginar que se você argumentasse usando o caso da garotinha que foi quase morta três vezes por membros de sua tribo só por ser indesejada, um desses multiculturalistas diria, quem sabe até com um sorrisinho condescendente nos labios: "A inocência é relativa". Mudando de assunto, e vendo que este e-mail já está muito longo, vão lançar dia vinte e oito no Brasil o livro The God Delusion, do Dawkins. Acho que você já comentou aqui. Já tenho a edição em inglês, mas acho que vou comprar a versão em português só pro caso de rpecisar emprestar, já que não gosto de emprestar meus livros. O que acho sempre estranho nessas traduções é que é possível, por exemplo, pagar R$56,81 pela edição em inglês com capa dura ao mesmo tempo que essas edições brasileiras, longe de terem capa dura, tem pequena diferença de preço. No caso do livro do Dawkins a edição em português vai custar R$54,00. Abraço, Raphael
Quarta-feira, Agosto 15, 2007
FORTUNA FÁCIL PARA ADOLESCENTES Suzane von Richthofen, a moça que foi condenada a 39 anos de prisão por ter participado do assassinato dos pais, Marísia e Manfred von Richthofen, em outubro de 2002, não vai abdicar da herança a que teria direito, estimada em R$ 2 milhões. No fórum de Tremembé, onde está detida, disse a juíza Márcia Berings Domingues de Castro que não abriria mão do dinheiro deixado pelos seus pais. Neste Brasil, em que celerados, assaltantes de bancos e seqüestradores foram premiados com pensões milionárias, tudo pode acontecer. Se a Justiça conceder as pretensões de Suzane, daqui para frente será bem mais fácil para um adolescente tornar-se milionário. Basta matar os pais.
BENTO XVI CONTRA DRAGÃO VERMELHO A Bíblia é bastante contraditória quando se refere a Satanás. Em Jó, por exemplo, Jeová conversa com ele afavelmente, como se fosse um de seus filhos: "Ora, chegado o dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles. O Senhor perguntou a Satanás: donde vens? E Satanás respondeu ao Senhor, dizendo: de rodear a terra, e de passear por ela". Não há, neste bíblico momento, nenhuma alusão condenatória ao demônio. Em Isaías, ele é saudado com muita admiração: "Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que prostravas as nações!" Em João de Patmos, o demônio muda de figura: "Viu-se também outro sinal no céu: eis um grande dragão vermelho que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas; a sua cauda levava após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; e o dragão parou diante da mulher que estava para dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe devorasse o filho. 'E deu à luz um filho, um varão que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono. E a mulher fugiu para o deserto, onde já tinha lugar preparado por Deus, para que ali fosse alimentada durante mil duzentos e sessenta dias. "Então houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão. E o dragão e os seus anjos batalhavam, mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou no céu. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás, que engana todo o mundo; foi precipitado na terra, e os seus anjos foram precipitados com ele". De companhia afável, de estrela da manhã e filho da alva, Satanás se transforma em grande dragão vermelho, que engana todo mundo. Foi esta última acepção a empregada por Bento XVI, em sua homilia improvisada ontem na missa da Assunção, na igreja de seu palácio de férias de verão, Castel Gandolfo. Segundo o papa, o dragão do materialismo não é invencível, apesar das aparências, pois Deus é mais forte. Criado Deus, criado estava Satanás. O mal e o sofrimento existem no mundo e não fica bem atribuí-los ao criador de todo universo. Urge um bode expiatório. Terá sido assim que o coitado do Satanás passou de filho da alva a dragão vermelho. Este é o responsável pelas "grandes ditaduras do século passado, o nazismo e o stalinismo". Só faltou Bento dizer que o velho Jeová, que massacrava e enviava flagelos sobre a humanidade, foi o responsável pela democracia. Astutamente, o papa também preferiu não se referir às ditaduras que se perpetuam neste século. Não é prudente associar eventuais parceiros ao demônio. "Hoje o dragão existe sob formas diversas - prossegue Bento - nas ideologias materialistas que nos dizem ser absurdo pensar em Deus, observar seus mandamentos descritos como ultrapassados, e que é preciso pegar o que se apresenta. Parece impossível opor-se a esta mentalidade dominante com toda a força midiática que ela dispõe, o dragão parece de novo invencível. Mas Deus é mais forte que o dragão e é o amor que ganha e não o egoísmo". Falar de materialismo no conforto da residência papal de Castel Gandolfo, que se debruça preguiçosamente sobre o lago vulcânico de Albano, 25 quilômetros ao sul de Roma, é luxo que um só um pontífice se permite. Castel Gandolfo é a maison secondaire de Sua Santidade. Para seu dia-a-dia, Bento XVI dispõe de um dos mais esplendorosos palácios de toda Europa, o Vaticano. Para seus banhos de multidão, sempre leva em seu avião privativo uma Mercedes especialmente desenhada para suas locomoções. Quando chega a qualquer país, as cidades estrangulam seus sistemas de tráfego para recebê-lo. É sem dúvida muito confortável condenar, do alto desta pompa toda, o dragão vermelho do egoísmo.
Terça-feira, Agosto 14, 2007
IRONIAS DA HISTÓRIA Leio artigo de Ipojuca Pontes, onde há uma menção ao "ex-marxista-leninista Tarso Genro". Marxista-leninista Tarso sempre foi. Quanto ao ex, não tenho notícia alguma de que algum dia tenha abjurado sua fé. Que mais não seja, sua fidelidade canina a Fidel Castro o evidencia no mínimo como comunista. Mais ainda: considero que quem defende a ditadura cubana nos dias que correm, antes mesmo de ser comunista, é stalinista. Stalinismo não é uma questão de pautar-se por Stalin, mas um estado de espírito. Considero inclusive que o primeiro stalinista da História foi um outro Tarso, o Paulo de Tarso, na Cilícia. Chamava-se Saulo e foi grande perseguidor de cristãos. "Persegui até a morte os que seguiam este caminho, prendendo homens e mulheres e jogando-os na prisão". Ao converter-se ao cristianismo, mudou até de nome, passou a chamar-se Paulo. A conversão ocorreu quando ia para Damasco. Um grande luz surgiu nos céus, Saulo caiu do cavalo e ficou momentaneamente cego, enquanto a voz de Cristo - que havia sido crucificado anos antes - lhe ordenava seguir para Damasco. Em Paulo de Tarso temos realmente uma mudança de filosofia. Mudança tão radical que Paulo é hoje considerado o construtor do cristianismo, e não Cristo. Cristo morreu como uma mosca tonta, sem saber muito bem o que estava ocorrendo em torno a ele. Paulo, poliglota e cosmopolita, viu no cadáver de Cristo uma promissora bandeira e a empunhou com entusiasmo. Alguns historiadores julgam inclusive ser mais adequado falar de paulismo em vez de cristianismo. Não se fazem mais Tarsos como antigamente. O Genro, pelo que sabemos, continua fiel a sua filosofia de juventude. Nunca soube que tenha caído do cavalo, nem que tenha percorrido sua estrada de Damasco. Há alguns anos, eu li - juro que li - um artigo assinado por Genro no caderno "Mais" da Folha de São Paulo, onde ele falava da "ventura do stalinismo". Assim sendo, me parece totalmente despropositado falar de ex-marxista-leninista. É curioso ver como as velhas raposas comunistas detestam ouvir esta palavrinha, sem jamais terem renegado a doutrina. Outro dia, eu escrevia sobre o deputado comunista Roberto Freire. Uma leitora, indignada, dizia que Roberto Freire nunca foi comunista. "Sempre foi socialista", jurava a moça. Num país de memória curta, as raposas simulam ter trocado de ideologia e não falta crédulo para acreditar na nova face. Esquecendo inclusive a antiga. Com o desmoronamento da União Soviética, os velhos comunistas da Polônia, para marcar sua renúncia à antiga filosofia, eram submetidos a uma crucificação por uma hora. Crucificação sem pregos, é verdade, pulsos atados por cordinhas, que ninguém está aí para ser mártir. O gesto era simbólico, mas pelo menos trazia a público a decisão de renunciar ao comunismo. Não que eu queira ver o Tarso Genro ou o Roberto Freire atados por cordinhas numa cruz de mentirinha, nada disso. Mas o que se pede a um homem público que repudia uma doutrina é que manifeste este repúdio publicamente. Ora, não ouvi um só pio, seja de Tarso, seja de Freire, seja dos velhos comunistas herdeiros de Marx, Lênin e Stalin, manifestando sua renúncia à doutrina assassina. Para mim, continuam sendo comunistas. Tanto que Tarso não hesitou em defender a deportação para Cuba, feudo do colega e dileto amigo Fidel Castro, de dois pobres diabos cubanos que queriam aproveitar o Pan no Brasil para pedir asilo na Alemanha. Não só defendeu como seu dedo ministerial deve estar por trás da deportação. É impossível que um ministro da Justiça não tenha tido ciência de uma operação assim delicada da Polícia Federal. A alegação esfarrapada é que os dois pugilistas estavam sem documentos e em situação irregular no Brasil. Foram presos em dois ou três dias e empacotados expressamente para Cuba. Ora, o Brasil tem centenas de milhares de colombianos, bolivianos, paraguaios, argentinos, uruguaios, coreanos, chineses e até mesmo europeus em situação irregular no Brasil e nenhuma Polícia Federal demonstrou tanto zelo em deportá-los com tanta rapidez. Para justificar a volta dos cubanos a Cuba, Tarso, o ministro stalinista, declarou à Folha de São Paulo que quando foi exilado político optou por regressar ao Brasil, mesmo na ditadura, "porque queria voltar para minha pátria. Saí do meu país um dia e no outro queria voltar". Leitor desmemoriado que lê esta declaração é capaz de imaginar que Tarso, o de São Borja e não o da Cilícia, esteve exilado em países distantes, de línguas estranhas e povo hostil, com oceanos de permeio. Ora, o exílio de Tarso foi bem mais singelo. E pragmático. Exilou-se... em Rivera, no Uruguai. Coitado do jovem poeta. Deve ter-se sentido terrivelmente dépaysé, assim longe da pátria que o viu nascer, a léguas de distância da São Borja natal e da Santa Maria que o acolheu. Para quem desconhece Rivera, esclareço que é uma cidade colada a Santana do Livramento, onde nasci. Apenas uma avenida, a calle Internacional, sem aduana nem controle algum, separa uma cidade da outra. Deve ser extremamente doloroso para um exilado sentar-se em um café em Rivera, olhando saudoso para a pátria longínqua e inacessível... no outro lado da rua. Os comunistas brasileiros demonizaram Getúlio Vargas, por ter deportado para a Alemanha nazista a comunista judia Olga Benario, oficial do Exército Vermelho e enviada ao Brasil para liderar a Intentona de 1935. Os comunistas demonizaram Getúlio em termos. Luiz Carlos Prestes, marido de Olga e seu protegido, aliás o vulto histórico nacional que Tarso mais admira, subiu mais tarde ao palanque de Getúlio para apoiá-lo em sua campanha à presidência da República. Para se ter uma idéia da humanidade do líder comunista, sempre é bom lembrar que foi deflorado pela alemã oficial do Exército Vermelho... aos 37 anos de idade. Ironias da História: coube agora a um judeu e comunista, o ministro Tarso Fernando Hertz Genro, justificar a deportação dos cubanos para Cuba.
OCIDENTE CEDE A FANATISMO ISLÂMICO Tenho comentado freqüentemente a rendição da Europa às práticas bárbaras dos muçulmanos. Não é só a Europa. Até mesmo as universidades norte-americanas estão se islamizando. A universidade de Michigan, em Dearborn, após debater o assunto com a Associação dos Estudantes Muçulmanos, anunciou que instalaria estações de lavagens de pés em diversos de seus banheiros, a um custo de US$ 25 mil. Quando as pias começaram a cair das paredes, foi fácil descobrir a origem do problema. Mais de 10% dos estudantes no campus são muçulmanos e, como parte das abluções requeridas antes de suas cinco preces diárias, alguns deles estavam lavando os pés nas pias. É o que leio no Terra on line. Mais de 12 universidades no país já dispõem de sistemas de lavagem de pés, muitos dos quais instalados em edifícios novos. Em alguns campi, como o da Universidade George Mason, na Virgínia, e o da Universidade do Leste do Michigan, em Ypsilanti, Michigan, até mesmo alguns dos alunos muçulmanos se surpreenderam com a instalação dos novos equipamentos - uma torneira que propicia rajada de 45 segundos de água -, no caso da Universidade do Leste do Michigan em um canto isolado do banheiro da nova união de estudantes. Blogs estão se queixando da islamização da universidade e discutem se esse plano representa forma legítima de acomodar os direitos dos alunos a praticar suas religiões ou uma forma ilegal de apoio do governo a uma religião determinada. Em uma faculdade de Minneapolis, os diretores impediram um café instalado no campus de tocar músicas cristãs em seu sistema de som, mas adotaram atitude diferente com relação ao islamismo. Não seria de espantar que dentro de alguns anos cada universidade tenha um minarete e um muezim com sua voz esganiçada chamando os crentes à prece cinco vezes por dia. Muitos distritos escolares estão discutindo a instalação de salas de oração para os estudantes muçulmanos, a oferta de comida que segue a doutrina islâmica em refeitórios e a incorporação de datas muçulmanas importantes ao calendário escolar. Como o dia sagrado do Islã é a sexta-feira, muito em breve as universidades deixarão as sextas-feiras livres para os estudantes muçulmanos. Mais um pouco, e as sextas-feiras serão também feriado para os funcionários muçulmanos de qualquer empresa. Lenta e inexoravelmente, o Ocidente vai se entregando ao fanatismo islâmico.
Segunda-feira, Agosto 13, 2007
ANTROPÓLOGOS PROTEGEM ASSASSINOS Em meu livro Ianoblefe, comentei as observações do antropólogo americano Napoleon Chagnon sobre sua experiência junto ao grupo do ianomâmi Kaobawa, na Venezuela. Diz o antropólogo: "1. Aproximadamente 40% dos machos adultos participaram do assassinato de outro ianomâmi. A maioria destes (60%) matou só uma pessoa, mas alguns homens foram muitas vezes guerreiros bem-sucedidos e participaram do assassinato de mais de 16 outras pessoas. "2. Aproximadamente 25% de todas as mortes entre machos adultos são devidas à violência. "3. Aproximadamente dois terços das pessoas de 40 ou mais anos perdeu, devido à violência, pelo menos um dos seguintes tipos de parentes biologicamente próximos: pai, irmão ou filho. A maioria deles (57%) perdeu dois ou mais parentes próximos. Isto ajuda a explicar porque um grande número de indivíduos são motivados à vingança". Para Chagnon, autor de Yanomamö (1992), sua mais insólita e impressionante descoberta é "a relação entre o sucesso militar e o sucesso reprodutivo entre os ianomâmis. Unokais (homens que mataram) têm mais sucesso em obter esposas e, conseqüentemente, têm maior descendência que os homens de sua própria idade que não são unokais. "A explicação mais plausível para esta relação parece ser que os unokais são socialmente recompensados e têm mais prestígio que os outros homens e, por estas razões, são geralmente mais aptos a obter esposas-extras através das quais têm número de filhos além da média". Chagnon nos mostra um agrupamento de indivíduos no qual a violência física, o assassinato e mesmo o infanticídio fazem parte do cotidiano. Os ataques a aldeias vizinhas para matar um ou mais habitantes e raptar mulheres constituem práticas normais para os guerreiros. A criança não desejada é morta após o parto. As mulheres são continuamente espancadas e mesmo cortadas com facões e machados e inclusive recebem flechadas em áreas não vitais, como nádegas ou pernas. Isso quando não são assassinadas. O autor nos narra o diálogo entre duas mulheres, que discutem suas cicatrizes no couro cabeludo. Uma considera que o marido da outra deve gostar muito dela, já que a espanca tão freqüentemente. Chagnon foi considerado um herege e ostracisado por seus colegas de ofício. Vejamos então um depoimento que não pode ser considerado suspeito, já que elaborado pelos defensores mais aguerridos das culturas indígenas. Em um relatório intitulado O Crepúsculo do Povo Yanomami – Sobrevivência ou genocídio?, elaborado pelo Centro de Informação da Diocese de Roraima (CIDR), a respeito dos índios do lado brasileiro, confirma a tradição de barbárie relatada por Chagnon. O documento trata da história e cultura dos ianomâmis da Bacia do rio Catrimani. Publicado em Boa Vista, no Boletim n.º 13, de janeiro de 1988, coordenado por Alberto Chirone, tem prefácio de Dom Aldo Mongiano e foi organizado pela irmã Florença A. Lindey e pelos padres Guilherme Damioli e João Saffirio. "As mães Yanomami da bacia do rio Catrimani eliminam ao nascer (elas dizem oyari, 'jogar fora') mais crianças do sexo feminino do que crianças do sexo masculino. Durante os primeiros quatro anos de vida de uma criança (quando as chances de morrer são maiores do que no resto de sua vida) as mães preocupam-se mais em criar homens do que mulheres. Conseqüentemente, mais mulheres do que homens morrem ao nascer ou nos primeiros anos de infância. Segundo o relatório, a mulher Yanomami "elimina" o recém-nascido por várias "razões culturalmente aceitas". É interessante observar a ocorrência do eufemismo eliminar, muito usado nos tempos do stalinismo, para substituir a palavra matar. Vamos às razões: 1. Defeitos físicos do recém-nascido, tais como: nanismo, polidactilismo, coluna vertebral bífida, hidrocefalia, etc. Elas acham que uma criança excepcional tem poucas chances de sobreviver. 2. A necessidade de distanciar os nascimentos. A mulher Yanomami amamenta o filho pelo menos por três anos. Por essa razão, ela não pode ter um outro filho, enquanto estiver amamentando. A razão cultural da eliminação de um recém-nascido é para aumentar a chance de sobrevivência de uma criança mais velha, ainda dependente da mãe. 3. Paternidade incerta. Se o marido suspeita que o filho não é seu, ele não vai aceitá-lo e a esposa não poderá ficar com a criança. 4. O desejo de ter uma criança do sexo masculino. Às vezes, um homem diz para a mulher que ele quer um filho homem (geralmente o primeiro filho ou depois que ele teve duas ou três filhas). Algumas mulheres eliminam a criança de sexo feminino recém-nascida, justamente para não desapontar seus maridos. 5. Quando nascem gêmeos, um deles é eliminado. Geralmente é a criança de sexo feminino ou a criança menor. A mulher Yanomami tem dificuldade em cuidar de duas crianças: é bem provável que as duas cresçam subnutridas, vindo fatalmente a morrer. Então, a eliminação de um dos bebês dá ao outro melhores chances de sobreviver. 6. O rancor da esposa contra o marido, porque ele bateu nela ou teve um caso recente com outra mulher. 7. Doença grave da mãe durante o período de gravidez (sarampo, coqueluche, infecção intestinal, etc.). A mãe geralmente elimina a criança ao nascer, porque esta pode estar doente. Quem constata a prática rotineira de infanticídio na cultura ianomâmi são os próprios missionários que a defendem, o que soa um tanto estranho em militantes de uma igreja que condena o aborto. Quando publiquei estes fatos, em artigo para a Folha de São Paulo, fui execrado pela antropologia militante. Setes entidades ligadas a índios e antropólogos representaram junto ao Ministério Público acusando-me de crime de racismo e pedindo para mim cinco anos de prisão. Claro que não levaram. Comentei ontem a conivência de antropólogos com o assassinato, quando cometido por indígenas. Me referia ao caso dos 29 garimpeiros assassinados em Roraima pelos cintas-largas. A última edição de Veja nos traz um relato bem mais dramático. A reportagem fala da menina Hakani, nascida em 1995, na tribo do suruuarrás, índios que vivem semi-isolados no sul da Amazônia. Foi condenada à morte quando completou dois anos, porque não se desenvolvia no mesmo ritmo das outras crianças. Incumbidos de matá-la, seus pais prepararam o timbó, veneno obtido a partir de um cipó. Em vez de cumprir a sentença, ingeriram eles mesmos o veneno. Mas não terminaram aí as peripécias da menina. "O duplo suicídio enfureceu a tribo, que pressionou o irmão mais velho de Hakani, Aruaji, então com 15 anos, a cumprir a tarefa. Ele atacou-a com um porrete. Quando a estava enterrando, ouvia-a chorar. Aruaji abriu a cova e retirou a irmã. Ao ver a cena, Kimaru, um dos avôs, pegou seu arco e flechou a menina entre o ombro e o peito. Tomado de remorso, o velho suruuarrá também se suicidou com timbó". Hakani acabou sobrevivendo e foi tratada às escondidas por um casal de missionários, Márcia e Edson Suzuki. Hoje tem doze anos. Quando a menina foi retirada da aldeia, os Suzuki solicitaram autorização judicial para adotá-la. "O processo ficou cinco anos emperrado na Justiça do Amazonas, porque o antropólogo Marcos Farias de Almeida, do Ministério Público, deu um parecer negativo à adoção. No seu laudo, o antropólogo acusou os missionários de ameaçar a cultura suruuarrá ao impedir o asssassinato de Hakani. Disse que semelhante barbaridade era uma prática cultural repleta de significados". Veja relata ainda outros casos semelhantes. Diz que o infanticídio entre os índios foi sendo abolido à medida que estes se aculturavam, mas ainda persiste nas tribos mais remotas, com o apoio de antropólogos e a tolerância da Funai. "É praticado por, no mínimo, 13 etnias nacionais. Um dos poucos levantamentos realizados sobre o assunto é da Fundação Nacional da Saúde. Ele contabilizou as crianças mortas entre 2004 e 2006 apenas pelos ianomâmis: foram 201". Como falei em artigo anterior, não é só a Europa que está aplicando, em nome do multiculturalismo, diferentes legislações a pessoas que vivem num mesmo território. O Brasil desde há muito vem praticando esta abominação. Índio pode matar à vontade, faz parte de sua cultura. E mata com todo o apoio da antropologia nacional. Quando estes senhores serão responsabilizados por sua cumplicidade com o crime? Quando veremos um bugre na cadeia por ter matado seu filho?
Domingo, Agosto 12, 2007
ARTICULISTA AINDA VÊ GUERNICA, DE PICASSO, COMO HOMENAGEM A GUERNICA Comentando o livro A Batalha pela Espanha, na última edição de Veja, Rinaldo Gama escreve que o autor, Antony Beevor, "escapou da armadilha maniqueísta que transformou esse conflito numa luta entre democracia e civilização, simbolizadas pelos republicanos, contra o autoritarismo e a barbárie, dos quais os franquistas são sinônimo". Por republicanos, entenda-se os comunistas que quiseram fazer da Espanha uma republiqueta soviética. Ora, que os franquistas tenham sido associados a autoritarismo e barbárie, isto se vê nos livros de História do século passado. Mas desconheço autor que tenha conseguido associar os comunistas espanhóis a democracia e civilização. Como todo jornalista contaminado pelo pensamento de esquerda, Rinaldo não poderia deixar de ver em Guernica, "o horror imortalizado no quadro de Pablo Picasso, que leva o nome da cidade". Vou repetir pela enésima vez, e repetirei sempre que um jornalista repetir tal despautério.O mundo todo crê que Guernica foi um quadro pintado por Picasso em homenagem ao bombardeio da cidade basca de Guernica, embora no quadro não se encontre nem sombra de bombas, bombardeios ou cenas de guerra. Os fatos foram bem outros. Picasso havia pintado uma tela de oito metros de largura por três e meio de altura, intitulada La Muerte del Torero Joselito, plena de cores fúnebres, que iam do preto ao branco, em homenagem a um amigo seu, o toureiro Joselito, morto em uma lídia. O quadro ficara esquecido em algum canto de seu ateliê. Ao receber uma encomenda para o pavilhão republicano da Exposição Universal de Paris de 1937, Picasso lembrou do quadro. Foi quando Guernica foi bombardeada pela aviação alemã. Oportunista genial, o malaguenho não teve dúvidas: titulou o quadro como Guernica. De uma só pincelada, o vigarista espanhol traiu a memória do amigo e mentiu para a História. E até hoje não há jornal que não ponha um aposto explicativo, quando ao quadro se refere: pintado em homenagem ao massacre de Guernica pelos nazistas. Multidões desfilam ante o embuste em Madri, conduzidas por solícitos guias que acreditam ver campos de guerra em cenas de arena. Os guias não só acreditam como induzem as massas de crédulos a acreditar na versão bélica proposta por Picasso. (Esta postagem foi reescrita a partir de uma observação do leitor Roberto Vegeneroles, que observou no artigo original um equívoco de minha parte).
SOBRE DEUS E SOBRE ÉTICA (Excertos da entrevista de Richard Dawkins publicada no Estadão de hoje. Cientista britânico, Dawkins é professor de Compreensão Pública da Ciência na Universidade de Oxford e autor do ensaio Deus é um delírio, a ser lançado no Brasil na próxima quinta-feira pela Cia. de Letras) Sobre o acidente da TAM: Se eu tivesse religião, me preocuparia com o Deus que deixou uma coisa dessas acontecer. Você não? Deus sempre leva o crédito pelas coisas boas, mas nunca a culpa pelas coisas ruins. Ele deixou que a tragédia acontecesse! É incrível. Não sei se alguém sobreviveu a esse acidente, mas se for o caso, seria capaz de apostar que alguém disse: 'Vejam que maravilhoso, Deus salvou meu filho, minha filha, ou seja lá quem for.' Ninguém parece se dar conta de que esse mesmo Deus deixou todas as outras pessoas morrerem. Sobre ética: Jogar fora a religião não significa jogar fora a ética. Ética é algo completamente diferente. Qualquer um que disser que baseia sua ética na religião está quase certamente enganado. Ninguém tira seus conceitos morais da Bíblia, porque isso significaria ser a favor da escravidão, da opressão das mulheres, do apedrejamento de homossexuais etc. O que as pessoas fazem é selecionar versos da Bíblia que as agradam, mas a ética e a moral elas pegam de outro lugar. Muita gente também acredita que sem a religião todos se transformariam em pessoas más, que não haveria nada que lhes impedisse de praticar atos ruins. Se isso é verdade, essas pessoas não são realmente boas. Elas só são boas porque têm medo de serem punidas por Deus, e não acho que essa seja uma forma honrosa de bondade.
ANTROPÓLOGOS CONCEDEM A ÍNDIOS DIREITO DE MATAR Comentei na sexta-feira que a decisão da Suprema Corte italiana de adotar a sharia para julgar uma família muçulmana de Bolonha que amarrava a filha numa cadeira e a espancava podia chocar uma mente contemporânea. Mas nada tinha de original, pois diferentes leis para diferentes cidadãos estavam se tornando cada vez mais comuns em diversos países e particularmente no Brasil. Citei os casos de Paiakan, o estuprador, e de Raoni, o assassino, indígenas que mataram e estupraram e tudo ficou por isso mesmo. Paiakan foi condenado a seis anos de reclusão, é verdade, mas continua livre como um passarinho em sua imensa reserva caiapó. Raoni, o txucarramãe, nem condenado foi. Pelo contrário, foi recebido com honras de chefe de Estado por reis e presidentes da Europa. A Folha de São Paulo de hoje nos traz mais uma destas aberrações jurídicas. Refere-se ao massacre de 29 garimpeiros pelos índios cinta-largas, em Rondônia, em 2004. A investigação emperrou por falta de laudo antropológico que ateste se os índios tinham ou não discernimento de que cometiam crime. A Polícia Federal não conseguiu antropólogos que se dispusessem a fazer o trabalho. Os antropólogos se recusam a fazer parecer que ateste se cintas-largas sabiam que cometiam crime no caso do massacre de garimpeiros. Em um relatório ao Ministério Público, delegada Alessandra Borba, da PF, diz que, após dois anos, desiste de obter a avaliação. Ou seja, os índios criminosos, ao mesmo estilo de ministros, deputados e senadores, não responderão por seus crimes. Índio se civiliza. Segundo a delegada, o principal empecilho à investigação foi a resistência do antropólogo Antonio Dal Poz Neto, apontado por seus pares como o maior especialista na etnia cinta-larga do país. Ele negou-se a fazer o laudo e a orientar outros antropólogos que se dispuseram a fazê-lo, sob sua coordenação. O antropólogo alega que tem uma filha adolescente para cuidar e não pode se afastar de Juiz de Fora, onde é professor na universidade federal. Segundo a reportagem, o problema é outro. Se o laudo concluir que os cintas-largas não têm consciência do crime praticado, eles dificilmente irão a júri. Neste caso, os profissionais enfrentariam as críticas das famílias da vítimas. Se o parecer for no sentido contrário, haveria reação negativa das organizações não-governamentais defensoras dos índios. "Seja qual for o resultado, o laudo trará descontentamento. Não ignoro que é uma missão de grande responsabilidade, passível de inúmeras críticas", afirma o procurador da República em Ji-Paraná, Svamer Adriano Cordeiro, responsável pelo inquérito sobre o massacre. Ora, desde o direito romano, nemo censetur ignorarem legem, isto é, não se admite a ninguém ignorar a lei. Esse princípio está consagrado no artigo 3º da Lei de Introdução ao Código Civil. A covarde omissão dos antropólogos visa expressamente inocentar assassinos. Como conseqüência, estimula esta tendência crescente do Direito no Ocidente de estabelecer legislações diferentes para pessoas que vivem dentro de um mesmo território. Prevalecendo esta tendência - como prevalecendo está - índios poderão matar à vontade, árabes terão carta branca para cortar clitóris e lapidar adúlteras e homossexuais, negros continuarão valendo por dois em concursos. Quanto a brancos, católicos ou protestantes ou o que quer que sejam, serão prontamente incriminados à menor transgressão da lei. Leio ainda na Folha que recentemente um índio cinta-larga foi preso como mandante da tentativa de assassinato de um advogado. O primeiro laudo antropológico obtido foi no sentido de que ele não tinha discernimento do crime. Índio se civiliza. Não só mata como já aprendeu a mandar matar. Com a garantia dada por antropólogos de que não será responsabilizado por seu crime.
Sábado, Agosto 11, 2007
GUERRA CIVIL ESPANHOLA ESTÁ LONGE DE ACABAR Pelo jeito, a Guerra Civil Espanhola está longe de ter acabado. Está sendo construído em Valencia um monumento em homenagem às centenas de religiosos assassinados pelos comunistas entre 1936 e 1939, que já está sendo chamado de "o santuário dos mártires valencianos". O prédio, de 3000 m2, será recoberto de ladrilhos de faiança coloridos e poderá acolher 900 fiéis. Para a Asociación por la Recuperación de la Memória Histórica (ARMH), de Valência, que se opõe à decisão da prefeitura, o santuário é uma dupla provocação. A prefeitura quer expandir o atual cemitério sobre uma gigantesca fossa comum onde, segundo o Fórum, jazem 26.500 republicanos fuzilados pelos franquistas. "Que escândalo - diz a presidente Amparo Salvador -. Nos põem obstáculos para proteger a fossa comum. Além disso, os poderes públicos oferecem numa bandeja uma basílica para honrar os mártires que, sob o franquismo, já haviam recebido uma homenagem oficial". Ou seja, honrar os comunistas que quiseram um dia fazer da Espanha uma republiqueta soviética pode. O que não pode é fazer uma homenagem às suas vítimas. Os comunistas e anarquistas espanhóis tiveram um especial cuidado em massacrar religiosos. Estima-se que 6.832 religiosos, entre os quais 4.184 padres e 13 bispos foram assassinados na época. Freiras foram violadas e mais de 160 igrejas incendiadas e depredadas. Segundo Paul Johnson, alguns padres foram queimados vivos e outros tiveram suas orelhas decepadas. Freiras tiveram os tímpanos perfurados por rosários enfiados à força em seus ouvidos. João Paulo II beatificou 471 mártires em seu pontificado. Não é de espantar que a Igreja queira render-lhes uma homenagem. Há dois anos, o Vaticano, em sua política de fabricar santos em série, deu carta branca à canonização de 250 sacerdotes da região, assassinados pelos comunistas. De uma tacada só, uma fornada de santos. Não bastasse isto, em outubro próximo 498 religiosos espanhóis serão beatificados em Roma. Bento XVI pretende acabar com a produção de santos no varejo. Agora eles serão vendidos por atacado. Haja bolandista para biografar tanto santo. A Guerra Civil, dizia, está longe de ter acabado. O governo de Zapatero quer reparações morais para as vítimas do franquismo e seus descendentes, isto é, para os traidores da Espanha. Quem fala em reparação moral está pensando em reparação financeira. Certamente embalados pelo exemplo brasileiro, os socialistas espanhóis pretenderão gordas indenizações para os celerados que um dia planejaram destruir o país. Zapatero quer também erradicar os símbolos do antigo regime - o regime que construiu a rica e próspera Espanha atual - como também mudar o estatuto do Valle de los Caídos, mausoléu dedicado a Franco, situado a 50 km de Madri. Os partidos de esquerda querem transformar a basílica em museu. Longe de mim tomar a defesa da Igreja Católica. Ocorre que todo ser que se pretenda pensante tem de um dia tomar posição ante a Guerra Civil espanhola. Eu a tomei há muito tempo. Costumo repetir - e julgo estas repetições necessárias - que com a Espanha dominada pela União Soviética, Stalin controlaria dois mares, o do Norte e o Mediterrâneo. Para derrubar Portugal bastaria um piparote e a resistência francesa seria estrangulada pelo domínio dos mares. Na esteira desta invasão, provavelmente cairia também a Inglaterra. Daí à conquista de toda a Europa Ocidental, seria questão de um ameno turismo blindado. Com Moscou imperando do estreito de Gibraltar ao de Bering, a tirania comunista teria vida bem mais longa. Europa e Ásia afundariam juntas na miséria inerente aos regimes socialistas e a praga se propagaria - como aliás se propagou, mesmo sem a vitória de Stalin - além do Atlântico. O Muro não teria caído em 89 e até hoje a Europa seria algo tão triste e pobre como foram, e ainda são, os países da finada União Soviética. Sem Franco, a Europa não seria o que é hoje, um continente rico, livre e democrático. As chagas daquele conflito de mais de meio século atrás continuam abertas. Os herdeiros do stalinismo, derrotados em toda linha no século passado, não admitem a derrota e continuam querendo, como é típico entre os comunistas, reescrever a história. Para eles, os celerados do século, toda a glória. Para as vítimas, opróbrio e olvido.
Sexta-feira, Agosto 10, 2007
ITÁLIA ADOTA SHARIA Magistrados italianos decidiram que as sevícias sofridas por uma jovem muçulmana na Itália foram "para seu bem" e que seus pais quiseram, com toda boa fé, puní-la "por seu estilo de vida não conforme à sua cultura". A notícia, que leio no Libération, vem da Itália e mostra que os juízes daquele país fundamentalmente católico estão definitivamente se rendendo ao Islã. Vamos à notícia. O caso de Fátima R., adolescente muçulmana de Bolonha, havia sido levado ao tribunal local em 2003. Em primeira instância, seus pais foram condenados por seqüestro e maus tratos. Em 2006, a Corte de Apelo reverteu o julgamente. Semana passada, a Corte de cassação confirmou a absolvição. Os juízes consideraram que a jovem havia sido espancada "não por motivos vexatórios ou por desprezo". Mais ainda: a Corte estimou que as violências não eram habituais. Que seu pai a teria espancado apenas três vezes durante toda sua vida, e isto porque "os comportamentos da jovem haviam sido incorretos". O procurador de Bolonha que havia apresentado um recurso contra a abolvição lembrou que Fátima havia sido seqüestrada e atada a uma cadeira, e depois "libertada unicamente para ser espancada por seus pais, que queriam puni-la por sua relação com um amigo e principalmente por seu estilo de vida". De nada adiantou. A Corte de Cassação julgou que nenhum delito pode ser estabelecido já que, "no decorrer dos debates, ficou claro que a jovem estava aterrorizada face às possíveis reações de seus pais. Ela não havia comparecido a seu trabalho preferindo encontrar um homem e tinha ameaçado suicidar-se". Em suma, os juízes concluíram que seu pai, sua mãe e seu irmão foram obrigados a amarrá-la para evitar que a adolescente cometesse "atos de automutilação". "É uma vergonha - diz Souad Sbai, presidente da Associação de Mulheres Marroquinas na Itália - é uma decisão digna de um país árabe onde vige a sharia. Em nome do multiculturalismo e do respeito às tradições, os juízes aplicam dois tipos de regra, uma para os italianos e outra para os imigrantes. Um pai católico, que se comportasse desta forma, seria duramente condenado". A decisão da Corte italiana pode chocar uma mente contemporânea. Mas nada tem de original. Diferentes leis para diferentes cidadãos estão se tornando cada vez mais comuns em diversos países e particularmente no Brasil. Muito antes de os juízes italianos decidirem que é legítimo a um muçulmano seqüestrar e espancar uma filha, a Justiça brasileira decidiu que índio pode matar e estuprar e isto não pode ser considerado delito. Remember Paiakan, o homem que pode salvar a humanidade, segundo a imprensa americana. Foi condenado, é verdade. Mas prisão, que é bom, nem pensar. Apesar de ter estuprado barbaramente uma menina, em cumplicidade com sua mulher Irekran, continua livre como um passarinho na reserva caiapó. Remember Raoni, o cacique txucarramãe que matou a bordunadas uma dezena de peões indefesos e foi recebido com honras de chefe de Estado por reis e presidentes da Europa. Índio pode invadir fazendas, prédios, construir barreiras em estradas, seqüestrar e instituir cárceres privados e nada disto é crime. Idem, os sem-terra. Em vestibular, um negro vale por dois brancos. Mais um pouco e os muçulmanos brasileiros terão direito de cortar clitóris e costurar vaginas à vontade. A Itália está abrindo as portas para outras práticas bárbaras do Islã. Mais um pouco e, sempre em nome do respeito às tradições culturais, serão legalizados não apenas o uso do véu nas escolas - isto é o de menos - mas também a ablação do clitóris, a infibulação da vagina, a compra de meninas como esposa, o divórcio mediante os três talaks, a proibição das mulheres trabalharem ou dirigirem carros, e quem sabe até a mesmo o lapidamento das solteiras não-virgens e das adúlteras. No que não iria conflito algum com o cristianismo. Afinal, a própria Bíblia o recomenda. Prescreve o Deuteronômio: Se, porém, esta acusação for confirmada, não se achando na moça os sinais da virgindade, levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão até que morra; porque fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai. Assim exterminarás o mal do meio de ti. Se um homem for encontrado deitado com mulher que tenha marido, morrerão ambos, o homem que se tiver deitado com a mulher, e a mulher. Assim exterminarás o mal de Israel. Se houver moça virgem desposada e um homem a achar na cidade, e se deitar com ela, trareis ambos à porta daquela cidade, e os apedrejareis até que morram: a moça, porquanto não gritou na cidade, e o homem, porquanto humilhou a mulher do seu próximo. Assim exterminarás o mal do meio de ti. Aderindo à sharia, os italianos em verdade voltam às suas tradições judaico-cristãs.
Quinta-feira, Agosto 09, 2007
KOBE NUNCA MAIS Há uma nova sofisticação no mundo da gastronomia, a carne kobe, oriunda do Japão e chamada de "ouro vermelho" por seu preço. Leio na Veja que comer um bife de Kobe pode custar até 800 dólares em Nova York e um hambúrguer feito com carne wagyu, o boi japonês chega, a 80 dólares. Que criadores de bois dos Estados Unidos e da Austrália passaram a mimetizar o modelo de criação japonês para abastecer consumidores encantados com a maciez do bife e dispostos a pagar o que se pede por ele nos restaurantes. Que o wagyu já chegou ao Brasil, que já ocupa o quarto lugar de produtor de carne kobe no mundo. No Japão os bois recebem uma dieta especial, à base de cerveja e saquê, e massagens diárias para espalhar a gordura. Alguns criadores usam música clássica, acupuntura e tapetes térmicos. Nas primeiras referências que tive sobre o assunto, li que os bois costumam ouvir Beethoven. O que já me soou um pouco à sofisticação besta de novo rico, algo no estilo de chá com ouro em pó. A característica principal da carne kobe é o nível de marmoreamento, o grau de gordura entre as fibras que, segundo um amigo gastrônomo, pode chegar a 60%. Em São Paulo, o bife kobe pode ser encontrado no Rubaiyat, a 95 reais cada. Consta que um prato semelhante no restaurante nova-iorquino Nello's tem o preço de 750 dólares. O preço relativamente barato do bife - se comparado aos preços internacionais - se deve à criação de gado wagiu em fazendas em Minas Gerais. Os cuidados com os bois também não seriam os mesmos que os dispensados no Japão. Num destes fins-de-semana, passei com minha filha no Rubaiyat, em busca de um cochinillo, para matar as saudades da Espanha. Até então não sabia que o bife kobe já havia chegado até nós, imaginava que seria mais uma daquelas sofisticações de milionários que é preciso viajar para conhecer. Bom, estava no cardápio. A ocasião faz o glutão. Deixei o cochinillo para uma futura incursão. Vamos ver o que é isto que isto é, como dizem os franceses. Que mais não seja, sempre gosto de degustar algo que não conheço. A carne é de uma maciez extraordinária. Lembrou-me um pouco as açordas alentejanas, pedaços de pão num meio líquido, muito apropriadas para culturas de desdentados. Só lembrei, nada a ver carne com pão. A carne mais aproximada em matéria de maciez que já experimentei é a do cordeiro patagônico, que me foi apresentado em pleno mar, quando navegava pelo Estreito de Magalhães, rumo a Ushuaia. Ou talvez o cordero lechal espanhol, que tem apenas poucas semanas de vida e se alimenta só de leite materno. Ou ainda o cordero pascual, já mais taludo e não tão tenro, mas que nasce pastando tomilho, ou seja, já vem temperado desde as células. O kobe, devo convir, é mais macio. O problema é justo sua virtude mais propalada, o tal de marmoreamento. É extremamente gorduroso. Colesterol na veia. Não vale o que se paga. Gaúcho, acabei conhecido mais um tipo de boi. Gastronomia também é cultura. Mas saí do Rubaiyat olhando compungido para os cochinillos expostos numa grande mesa, com a dolorosa sensação de quem traiu a mulher amada com uma aventureira qualquer. Kobe, acho que nunca mais. Pelo menos enquanto tiver ao alcance da mão cochinillos, corderos patagónicos, lechales y pascuales.
SOBRE CAPITÃES-DO-MATO O cronista tucano-papista Reinaldo Azevedo escreveu hoje em seu clipping diário da imprensa nacional: "Tarso serviu de capitão do mato de Fidel, o senhor de escravos". A expressão foi usada ontem por João Nemo, em seu artigo "O Capitão do Mato", no MSM - http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=5969&language=pt O cronista tucano-papista nem se preocupou em corrigir a grafia em seu clipping diário. É o dono do matagal É guardião do embornal É o chefe da guarnição. Ele é da casa real Ele é quem briga com o mal Ele é o meu Capitão ... (Paulo César Pinheiro/Vicente Barreto)
LEITURAS NA MADRUGADA "Aqueles para os quais a palavra dele foi revelada estavam sempre sozinhos em algum lugar remoto, como Moisés. Também não havia ninguém por perto quando Maomé recebeu a palavra. O mórmon Joseph Smith e a cientista cristã Mary Baker Eddy tinham audiências exclusivas com Deus. Temos de confiar neles como repórteres - e você sabe como são os repórteres. Eles fazem qualquer coisa por uma matéria". Andy Rooney
Quarta-feira, Agosto 08, 2007
TRAFICANTE REGALA SAIA JUSTA A MANDALETE DE CASTRO O Supremo Tribunal Federal (STF) está aguardando a comunicação da prisão do narcotraficante colombiano Juan Carlos Ramirez Abadía para definir se dá preferência ao pedido de extradição dos Estados Unidos ou ao processo que o criminoso responde na Justiça Federal de São Paulo por lavagem de dinheiro. O pedido de extradição de Abadia feito pelos Estados Unidos está no STF desde 31 de julho e foi distribuído para o ministro Eros Grau em 2 de agosto. Considerado o maior traficante ativo no mundo desde a morte de Pablo Escobar, também colombiano, foi preso em função do processo que responde no Brasil. É acusado de 315 assassinatos e sua fortuna é avaliada em 1,8 bilhão de dólares. Se condenado, cumprirá pena de três a dez anos de reclusão. Pode ser beneficiado a qualquer momento com habeas corpus, pois crime de lavagem de dinheiro pode ser respondido em liberdade. Até agora o STF não se pronunciou sobre o pedido de extradição. Os mesmos pudores não tiveram as autoridades brasileiras no caso dos boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que fugiram da delegação cubana durante os jogos do Pan. Castro nem precisou pedir a extradição dos pobres diabos. O fiel mandalete de Castro e, coincidentemente, ministro da Justiça no Brasil, Tarso Genro, mandou-os incontinenti de volta ao Gulag caribenho. Segundo o ministério da Justiça, os próprios atletas, em depoimentos, declararam que não desejavam refúgio, pois disseram "amar o seu país, seus familiares, não ter problemas políticos ou religiosos, bem como são personalidades em Cuba". Tarso Genro chegou a afirmar que os dois cubanos "quase imploraram" para voltar. Ao que tudo indica, não combinaram bem a história com o Comandante Máximo, que acaba de acusá-los no Granma de ter abandonado o combate pelo socialismo. Além do mais, Castro já os proibiu de participar em competições. Fim de carreira para os dissidentes. O cinismo do mandalete de Castro é de estarrecer. Se não desejavam refúgio, porque fugiram? Por que fugiriam para logo depois pedir para voltar, tendo perfeita consciência das punições que voltar implica? Se quase imploraram para voltar, por que precisaram ser presos e deportados? Em matéria de mentir, o comunista Tarso Genro arrisca superar logo logo seu mestre, Joseph Vissarianovich Djugatchivili, mais conhecido como Stalin, o de aço.
MINISTRO DEMONSTRA FALTA DO QUE DIZER Uma das primeiras e brilhantes providências em matéria de segurança aérea do novel ministro da Defesa, Nelson Jobim, será diminuir o número de passageiros por vôo, para aumentar o espaço destinado destinado a cada um. O ministro diz medir 1,90 m de altura e sentir-se muito desconfortável quando voa. Da parte que nos toca, eventuais clientes das empresas aéreas, comovidos. Mas restam algumas perguntas. Se o ministro medisse um metro e meio, teria a mesma preocupação? Por outro lado, o espaço das poltronas será aumentado em todos os vôos que aterrissam ou decolam dos aeroportos nacionais? Terão a Iberia, Air France, Lufthansa, British Airways, de modificar seus espaços internos? Terá o ministro cacife para tanto? Ou a decisão diz respeito apenas às aeronaves das empresas nacionais? Se assim for, a concorrência seria facilitada às empresas estrangeiras, que poderão transportar mais pessoas por vôo. E os beneficiados seriam apenas a minoria que voa por empresas nacionais? Por que não pensar maior e acabar com essa excrescência de primeira classe - geralmente usada por políticos cujas passagens são pagas pelo contribuinte - e assim tornar os aviões mais espaçosos para todos? De qualquer forma, resta a pergunta final: em que a diminuição de assentos vai contribuir para a segurança aérea? O que se vê, na verdade, é um advogado em cujas mãos foi jogado um abacaxi e não sabe como descascá-lo. Como se sente na obrigação de dizer algo, diz qualquer coisa. Ou seja, a solução do caos aéreo no país está a anos-luz de ser resolvido.
AERONAVE DA TAM ATROPELA MERCADOR DE CARNES FINAS Por esta Oscar Maroni não esperava. O Airbus da Tam caiu-lhe literalmente na cabeça. Dono da boate Bahamas e do hotel de 11 andares que atrapalharia pousos no aeroporto de Congonhas, teve sua prisão preventiva decretada e está foragido da Justiça. "A partir do momento que a prisão preventiva é decretada e a pessoa não se apresenta, ela é considerada foragida da Justiça", afirma o promotor José Carlos Blat, responsável pelo pedido de prisão. Para Blat, a prisão é necessária "não é só por conta das zombarias ou das afrontas às autoridades, mas porque existem indícios de crimes graves". Segundo o promotor, o processo correrá normalmente, mesmo que Maroni não se apresente à Justiça. Foi preciso que a França fabricasse um Airbus, que o Airbus tivesse problemas nos reversores, que os pilotos não tivessem conseguido gerir esse problema, que a pista de Congonhas fosse curta, que o avião despencasse sobre um prédio da TAM e que morressem 199 pessoas para que a Justiça descobrisse que Maroni era um criminoso. Não tivesse a França fabricado um Airbus, não tivesse o Airbus problemas nos reversores, tivessem os pilotos conseguido gerir esse problema, não fosse a pista de Congonhas curta demais, não tivesse o avião despencado sobre um prédio da TAM e matado 199 pessoas, Oscar Maroni seria ainda um próspero empresário, até hoje caitituado pelo grand monde da política e das finanças. Nesta São Paulo onde se estima existirem 4.400 pontos de prostituição - todos pagando a devida caixinha a policiais - um promotor se empenha em pedir a prisão do proprietário de um deles. Falta ainda pedir a de outros 4.349, calculados por baixo. O crime de Maroni foi ter declarado à imprensa que sua boate operava com prostituição de luxo, modelos, universitárias e mulheres casadas. Não fosse esta franqueza, continuaria sendo o empresário melhor sucedido da área. Milhares de outros proxenetas no Brasil devem estar dando graças ao deus dos proxenetas por não terem tido a péssima idéia de instalar um prostíbulo sob a rota dos aviões da TAM.
Terça-feira, Agosto 07, 2007
PEQUIM REGULAMENTA OCEANOS DE SABEDORIA Em abril passado, recebi mail do monge Gensho, que fazia observações a uma crônica minha, afirmando que no budismo não há reencarnação. "Encarnações, como a palavra indica - dizia o monge -, implica que algo entra em um corpo, e não é isto que o budismo ensina, e sim que por um corpo se manifestar ele gera a noção de uma identidade, de um eu, e este eu se pensa algo separado, isto cessa inteiramente com a morte. Os textos budistas que eventualmente usam a palavra reencarnações, por erro semântico, transferiram ao budismo um conceito que a este não pertence, e que o destaca de todas as outras grandes religiões". Fiquei me perguntando se não há várias linhas nas tradições budistas. Afinal, no excelente Religiões – História, tradições e fundamentos das principais crenças religiosas, antologia coordenada por Michael D. Coggan e publicada recentemente pela editora Publifolha, leio algo um tanto distinto. No capítulo dedicado ao budismo e assinado por Malcolm David Eckel, temos: "As idéias budistas tradicionais sobre a morte baseiam-se na antiga doutrina indiana do samsara, traduzido como reencarnação, transmigração ou simplesmente renascimento, mas que significa literalmente rotação de uma vida à outra. Na época de Buda, a religião indiana passou a ver a existência como cíclico: a pessoa nasce, envelhece, morre e renasce em outro corpo, começando todo o processo de novo. O renascimento pode se dar sob a forma humana, divina, animal ou de entidade; ou também se pode renascer para ser punido no inferno". Ora, este renascimento, a meu ver, pouco difere do que se entende por reencarnação. De qualquer forma, na ocasião, respondi ao monge Gensho que enviasse mail urgente para o Tenzin Gyatso, mais conhecido como Dalai Lama, que anda pelo mundo todo se proclamando a 14ª reencarnação do Buda. Dalai Lama, em bom português, quer dizer oceano de sabedoria. Respondeu-me então monge Gensho: "Trata-se de um erro de tradução, um erro no uso de uma palavra que tem significado diferente no budismo. Se vc ler os livros deste líder (apenas do budismo tibetano ressalve-se) verá que ele mesmo ao louvar-se nos sutras budistas, defende a doutrina budista de não alma (anatman), significa que não há partícula individual que sobreviva a morte. O uso da palavra reencarnação aí, tem o mesmo peso da palavra sucessor usada pelo Papa quando se diz sucessor de Pedro. "No caso do Lama Tenzin, 14º sucessão dentro de sua ordem (Gelugpa), que iniciou por volta de 1400. Buda é muito mais antigo, morreu em 483 AC, e por definição Shaquyamuni Buda era um homem e se extinguiu, falar em reencarnação de Buda é contrariar o próprio conceito do que é um Buda. O buda da compaixão, a que os budistas tibetanos se referem, é um conceito mítico, um mito que representa a compaixão, não um personagem real. "Não é necessário escrever a ele já que seus próprios textos explicam isto. O erro é da interpretação etnocêntrica. Que não é privilégio ocidental. Num texto antigo, budista, os cristãos são descritos como realizando um ritual antropofágico em que comem a carne e bebem o sangue de seu Deus, é lógico que vêem isto como uma superstição bárbara. Repare que ao colegiado budista brasileiro pertencem mestres budistas tibetanos e seguidores do Dalai Lama que apóiam a carta que lhe enviei com esclarecimento sobre o que realmente os budistas pensam". Até pode ser, meu caro Gensho. Com duas ressalvas. A primeira é que, segundo o dogma da transubstanciação da carne, os cristãos de fato realizam um ritual antropofágico. Ao ingerir o pão e o vinho, o católico está ingerindo o corpo e sangue reais do Cristo, e não um símbolo do corpo e do sangue. É dogma decretado na 13ª sessão do Concílio de Trento, no dia 11 de outubro de 1551. Católico que pensar diferentemente incorre em heresia. Em segundo lugar, seria melhor que Tenzin Gyatso desautorizasse seus seguidores a falar de 14ª reencarnação do Buda, pois assim é universalmente conhecido. Melhor ainda, seria oportuno que o oceano de sabedoria Tenzin Gyatso avisasse também o governo chinês e seu gabinete para Assuntos Religiosos. Pois a partir de 1º de setembro próximo, todo candidato à reencarnação (ou qualquer que seja a palavra adequada) de um Buda vivo tibetano deverá ter o aval do governo chinês e do supracitado gabinete. Ou seja, Pequim quer regulamentar a produção de Budas. Os "Buda vivos" - continua a notícia - são pessoas reconhecidas como reencarnações de líderes ancestrais do budismo ou do próprio Buda. Localizados na população, em geral viram líderes de grande influência na comunidade. O objetivo da lei é aumentar o poder de Pequim sobre o Tibete e limitar a influência de Tenzin Gyatso, que vive exilado na Índia desde 1959. Em 1995, o Dalai Lama havia indicado um garoto de seis anos como reencarnação de Panchen Lama, o segundo "Buda vivo" mais importante. Após a escolha, o menino desapareceu. Parece-me que está na hora de explicar aos chineses que se trata de um erro semântico. Pois os oceanos de sabedoria, no Tibete, estão se transformando em profissões de alto risco.
Segunda-feira, Agosto 06, 2007
AIATOLICES DO MANOEL Futebol nunca foi meu tema preferido, mas o caso em questão transcende o futebol. Um diretor do Palmeiras, José Cyrillo Júnior, referindo-se a um jogador do São Paulo, andou afirmando que futebol não é coisa para gay. O jogador quis processar criminalmente o cartola e teve de ouvir a sentença do juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, da 9ª Vara Criminal de São Paulo, que, entre outras pérolas, afirmava que "o futebol é jogo viril, varonil, não homossexual". Lembra ainda o Meritíssimo que o hino do Internacional consagra esta condição: "Olhos onde surge o amanhã, radioso de luz, varonil, seguir sua senda de vitórias"... A primeira pergunta que nos ocorre é que será então o futebol feminino? Pelo jeito, não deve ser futebol, afinal é jogado por fêmeas. A segunda é se o juiz entende português. Varonil, no hino do time gaúcho, é o amanhã. Nada a ver com atletas. Na decisão que rejeita a queixa-crime, disse ainda o Meritíssimo: "Se fosse homossexual, poderia admiti-lo, ou até omiti-lo, ou silenciar a respeito. Nesta hipótese, porém, melhor seria que abandonasse os gramados". O aiatolá Khomeiny não faria melhor. Ou mesmo a administração Bush, que já fala em perguntar sobre as preferências sexuais no formulário para o visto de entrada nos Estados Unidos. Se alguém é homossexual - ou heterossexual ou bissexual ou seja lá o que for em matéria de sexo - ninguém tem nada a ver com isto. O que se pede de um jogador de futebol é que jogue com competência. Clube de futebol não é Exército, onde ainda se finge - em nome de sei lá qual suposta virilidade - que no Exército não há homossexuais. É espantoso que, em pleno século XXI, um juiz manifeste tais sandices. Estivéssemos em um país islâmico, onde a civilização ainda não chegou, até que se entenderia. Se prevalecesse o pensamento do aiatolá Manoel, melhor seria então que deputados homossexuais abandonassem o Congresso, que jornalistas homossexuais abandonassem o jornalismo, que professores homossexuais abandonassem o magistério. Ousaria tanto o magistrado? Ou só o futebol tem de ser viril? Serão as atletas do futebol feminino varões travestidos em donzelas? Sempre entendi que tal fúria contra homossexuais esconde um desejo latente de confraternizar com o mesmo sexo. Melhor que o Manoel lesse o Fernando: O amor é que é essencial. O sexo é só um acidente. Pode ser igual Ou diferente. O homem não é um animal: É uma carne inteligente, Embora às vezes doente.
Domingo, Agosto 05, 2007
SANTO NOVO PARA BREVE Leio no Estadão que há 27 anos os devotos do padre José de Anchieta buscam o milagre que falta para canonizá-lo. Beato desde junho de 1980, quando o papa João Paulo II lhe deu as honras dos altares, não conseguiu virar santo até hoje, por falta de um milagre. Espanhol das Ilhas Canárias, onde nasceu em 1534, de pai basco e mãe judia, José de Anchieta estudou tupi para evangelizar os índios de Pindorama. Isto é, para substituir suas crenças nativas pelas "verdades" do cristianismo. Junto com o padre Manuel da Nóbrega, foi um dos fundadores de São Paulo de Piratininga, onde os jesuítas abriram uma escola na colina que tem hoje o nome de Pátio do Colégio. É um dos desmentidos mais contundentes à afirmação de Bento XVI de que a Igreja não exerceu influência alguma nas culturas autóctones da América Latina. Segundo o padre César Augusto dos Santos, vice-postulador da causa de canonização de Anchieta, "agora, dependemos de um milagre novo, ocorrido depois da beatificação, em 1980, para Anchieta ser declarado santo". Padre César passa dia e noite em busca de uma cura capaz de convencer o Vaticano e costuma visitar doentes em hospitais, sempre a pedido das famílias, para lhes sugerir que recorram à intercessão de Anchieta na esperança de um milagre. "Roma quer cura inexplicável, algum fato extraordinário que só vai ser considerado milagre depois de ser examinado por uma equipe de peritos, nem todos católicos". Padre César não precisa se preocupar muito. Após lançado seu apelo em um órgão de grande divulgação, os milagres saltarão como cogumelos após a chuva. Depois de um primeiro milagre, o segundo sempre surge. Inelutavelmente. Como médico venal é o que não falta para negar a ciência e atestar milagre, em breve o Brasil terá mais um santo. Espanhol, é verdade. Mas como tem alguma ligação com o Brasil, já serve. O que importa é mais um ícone para satisfazer ao desejo popular de crendices.
AINDA BERGMAN Comentei que meus companheiros de geração temiam afirmar que não gostavam dos filmes de Bergman. Da leitora Lúcia Fagundes, recebo: Janer amei o que você escreveu sobre Ingmar Bergman. No começo da minha faculdade de matemática, minhas amigas me convidaram p/ assistir um filme do Ingmar Bergman. Eu odiei, achei uma coisa muito triste demais, como venho de família pobre, já tinha conhecido bem o que era tristeza, e queria ir no cinema p/ me divertir ou no máximo aprender coisas que eu não sabia. Mas você era meio que proibida de falar mal desse cara, era como falar mal de Deus. Era rotulada de burra, alienada e outras asneiras, Você hoje me deixou feliz, pois definiu exatamente o que ele era, um jigolô das tristezas humanas. Eu vivi na Suécia, os suecos foram trabalhadores e inteligentes o suficiente p/ resolverem os problemas financeiros deles, e podiam e podem ainda se dar ao luxo de discutir o sexo dos anjos. Aí vem uns muares, caprinos eqüinos chamados de intelectuais aqui no Brasil,dizer que p/ você ser inteligente tem que gostar de Jean-Luc Godard, Ingmar...Tenha a santa paciência! Com todo o respeito ao trabalho do cara,tem coisa mais alegre e interessante na Suécia, que Ingmar.
Sábado, Agosto 04, 2007
BRASIL ENVIA DOIS CUBANOS PARA A PRISÃO Os países europeus foram pródigos em conceder asilo político aos brasileiros que fugiam do golpe de 64. Não só os países europeus, como até mesmo Cuba e Argélia. É claro que raros foram os que buscaram asilo em Cuba e Argélia. Brasileiro não é besta. A maioria preferiu as cidades esplendorosas do mundo capitalista, como Estocolmo, Berlim, Paris, Londres. O asilo foi concedido não só a pessoas condenadas pela justiça brasileira, como também a pessoas procuradas pelos militares e até mesmo, a pessoas que nem eram procuradas pelos militares, mas que acharam naquele momento histórico uma excelente oportunidade para uma estada na Europa patrocinada pela generosidade européia. Concedeu-se asilo não só a opositores ao regime militar, mas a criminosos que mataram e seqüestraram embaixadores. Asilar-se era algo tão fácil que até eu, que nada tinha a ver com a coisa, recebi proposta de asilo na Suécia. Fora até o Departamento de Imigração renovar minha permissão de estada. O policial, ao saber que eu era jornalista e provinha do Brasil, já foi me oferecendo os generosos subsídios do Estado sueco, que eram na época cerca de quatro mil coroas, salário de sonho para não fazer nada. Recusei. Contando essa história a alguns brasileiros, só me faltou ser linchado. Mas eu não era refugiado político, ora bolas. Havia saído pela porta da frente de meu país, e pela porta da frente pretendia voltar. Reproduzo abaixo como transcrevi, literAriamente, este episódio em Ponche Verde. Em 28 de agosto de 1979, o general Figueiredo sancionou a Lei nº 6.683, de iniciativa do governo, que concedia ampla anistia aos exilados, excetuando de seus benefícios "os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal". (Que mais tarde acabaram voltando e hoje ocupam altos cargos no governo). Eu morava em Paris na época. O clima na Maison du Brésil, encrave das esquerdas brasileiras na França, entrou em luto. Era o fim das mordomias. Com a anistia, terminavam as mordomias. Só pode ser golpe da direita, suspiravam, esperançosos, os exilados. Os dois boxeadores cubanos que abandonaram a delegação de seu país durante os jogos do Pan 2007, acabam de ser presos e serão deportados para Cuba. "Eles estão sem documentos. Essa já é causa suficiente para serem deportados", explicou o delegado federal Felício Laterça, responsável pelo caso. Seria muita ingenuidade crer que as autoridades cubanas permitissem que membros de sua delegação andassem com passaportes no bolso em uma excursão ao exterior. "Um homem é corpo, alma e passaporte", dizia Stephan Zweig. Passaporte é liberdade. Ora, tais decisões um delegado não toma sem autorização expressa do governo. É claro que a ordem de deportação parte de instâncias superiores. Alegou-se que os dois cubanos pediram para voltar. Mentira berrante. Se pediram para voltar, não há razão alguma para serem deportados. Além do mais, é insensato pensar que alguém arriscaria seu futuro fugindo do país onde, apesar dos pesares, goza dos privilégios conferidos a atletas, para depois pedir para voltar... para a cadeia. Não tem sentido. O Brasil, cujos refugiados políticos tiveram generosa acolhida em diversos países do mundo, hoje manda para a prisão dois cubanos que viram no Brasil uma melhor alternativa para suas vidas. O delegado explicou que já foi solicitado ao governo cubano que adquira as passagens de volta, e providencia os passaportes dos atletas. Mas, caso Cuba não banque a viagem, o delegado disse que o governo federal pode ter de pagar. A pressa é tanta em livrar-se dos cubanos, e o Brasil é tão subserviente a Cuba, que o governo pagará até mesmo suas voltas. Outra foi a atitude ante um terrorista das Farc, o colombiano Camilo Collazzos, também conhecido como Olivério Medina, Padre Medina ou "el Cura Camilo", preso no Brasil em agosto de 2005 pela Polícia Federal. A Colômbia pediu a extradição de Collazzos. Uma frente composta pelo PT, PSOL, PCB, PCdoB e UNE fez campanha pela soltura do colombiano, que acabou recebendo asilo político definitivo. O senador Suplicy não poupou esforços para impedir a extradição do terrorista colombiano. O caso dos cubanos é mais absurdo, afinal Cuba sequer chegou a pedir a extradição dos dois. O Brasil se adiantou a qualquer pedido cubano. No que não há nada de espantar: os cubanos não trouxeram 5 milhões de dólares para o PT. PT, PSOL, PCB, PCdoB, UNE e senador Suplicy moverão uma palha para livrar os dois cubanos da prisão que os espera?
ENTREVISTA COM UM POLICIAL DA IMIGRAÇÃO SUECA - Profissão? - Jornalista. - Nacionalidade? - Brasileira. - Ah! Então o senhor quer asilo político? Oh não, jag ska tacka nej, como pode muito bem ver Herr Konstapel, nesse formulário peço apenas uma permissão de estada, agradeço a generosa oferta, que aliás é pertinente. Meu país vive uma ditadura, sei disso, os dias não são os melhores para quem pensa e escreve o que pensa. Mas antes de fugir de ditaduras, Herr Konstapel, estou fugindo do país todo, fujo exatamente daquilo que para vossos patrícios é sinônimo de charme e exotismo, fujo do carnaval e do futebol, do samba e da miséria, da indigência mental e da corrupção, quero tirar umas férias do subdesenvolvimento, viver em um território onde o homem sofre os problemas da condição humana e não os da condição animal. Muito antes de os militares tomarem o poder, min Herr, eu já não suportava os civis. Veja o Sr., meu povo morre de fome e todos sorriem felizes e desdentados quando um time de futebol bate outro, se bem que a coisa não é assim tão tétrica como a pinto, veja bem, lá também existe luxo, requinte, hotéis que talvez fizessem inveja aos de vosso rico país, mansões de sonho isoladas da miséria que as envolve por arames farpados, guardas e cães, há cronistas sociais que acendem charutos com notas de cem dólares e homens catando no lixo restos de podridão para comer. E não fujo só do Brasil, Sr. Policial Superdesenvolvido, fujo também de minha condição de jornalista, pertenço a uma classe que se pretende de esquerda e entorpece multidões com doses cavalares de ... futebol. Em minha cidade - não sei se o chateio com estes dados - há questão de uma década um sociólogo calculou em trinta mil o número de prostitutas, só não sei se havia repertoriado em suas estatísticas meus colegas de ofício. Penso até mesmo que a profissional de calçada tem mais dignidade, ela aluga por instantes o corpo, mantendo o espírito livre, enquanto nós vendemos corpo, alma e opiniões, o mais livre dos jornalistas não é livre coisa alguma, o jornal pertence ao chefe, nossos pensamentos também, os mais nobres ele os joga na cesta de lixo, publica os lugares comuns humanísticos na página dos editoriais e posa de liberal. Sim, sei que isto não vem caso neste pedido de permissão de estada, bosätningstillstand como dizem os senhores, é que para expor minhas razões tenho de dar-lhe uma idéia do Brasil, pretensão aliás inviável, já que nem eu entendo aquele país. Foi lá pelos amos 60, Herr Konstapel, nos carros e vitrines lia-se AME-O OU DEIXE-O! - Love it or leave it? Exato, isso mesmo, estávamos copiando vilmente os macartismos ianques, nem em matéria de totalitarismo somos originais. Tomei a coisa como indireta, fiz as malas e deixei-o. Nada nem ninguém me obrigava a sair, senão minha íntima disposição de trocar a barbárie pela civilização. Trouxe de meu apenas um livrinho, o Sr. quer ver? Não, não é nenhum tratado do Marighela, aliás o manual de guerrilha urbana dele está aí nas livrarias, em sueco mesmo, talvez como insinuação aos jovens Svenssons que um dia pretendam rebelar-se contra esta tirânica social-democracia que financia até mesmo sua própria contestação, não, não é nada disso, são os poemas de Fernando Pessoa, não sei se o conhece, em caso negativo é uma pena, Pessoa é um grande poeta, até mesmo Herr Konstapel há de convir. Sei, os senhores deixam bíblias nos quartos de hotel para homens solitários, mas bíblias me dizem cada vez menos, min Herr, e que mais não seja me reservo o direito de escolher as minhas. Zanzei de sul a norte por este continente, Sr. Policial Poliglota, já que não pretendia voltar a meus pagos queria saber onde seria melhor ficar. Talvez o paraíso não exista, li em algum lugar, mas a Suécia era sua mais perfeita aproximação. Vamos pois ficar perto do paraíso. Não, Herr Konstapel, não quero asilo político. Saí de meu país pela porta da frente, jamais lutei contra o regime, pelo simples fato de jamais tê-lo aceito. Não pertenço nem pertenci a igrejas políticas ou ideológicas e como sozinho não poderia mudar regime algum, mudei de país. Concordo que se exige uma certa coragem para lutar contra um exército, mas mais coragem é preciso, e nisso Her Konstapel mais uma vez há de convir, para falar de si mesmo. Lutando contra o obscurantismo empunhamos um ideal nobre, em todo e qualquer lugar do mundo alguém nos dará apoio, o senhor mesmo não está sendo tão solícito em me oferecer asilo? Falar de si mesmo não comove International Amnesty nenhuma, a menos que o assunto seja tortura. Angústias existenciais não catalisam movimentos de opinião, e ainda passamos por narcisos. Não quero, repito, asilo político. Sua Generosidade pode reservar esta cota do humanismo sueco ao que dela realmente precisam. Eu peço muito mais, quero asilo cultural e espiritual, não estou fugindo do DOPS ou SNI, quero é fugir de meu país e de meu passado, não consigo mais respirar em um território, ainda que imenso, onde um analfabeto que chuta uma bola ganha milhões e um pesquisador temde fazer bicos para comprar livros, quero fugir dos jornais que fazem uma tragédia em torno à unha quebrada de não sei qual vedete de não sei qual time, enquanto clero e governo se locupletam às custas de uma massa faminta. Quero fugir dos negros, Herr Konstapel, sim, dos negros, não é que tenha preconceitos, aliás fujo também dos brancos, refiro-me a pretos e brancos que passam fome o ano todo para comprar lantejoulas e paetês que ostentarão por alguns dias de carnaval onde cantam as saudades de um império que os escravizava, quero deixar para bem longe de mim, quero enterrar para sempre aquele imenso bordel gerido por canalhas, e se fossem apenas canalhas não era nada, é que além de canalhas são incompetentes, não sei se o Sr. entende as razões que me trouxeram a humildemente pedir acolhida em vosso paraíso. - If you have money, you are welcome! Quanto a isto não se preocupe, Sr. Controlador do Frágil Equilíbrio do Mercado de Trabalho, essa frase já ouvi, se jamais lavei pratos para meus patrícios, se nem mesmo como em casa para não ter de lavar o que sujo, não serão os Svenssons que terão os seus pratos limpos por minhas mãos. Não pertenço à Confraria Internacional dos lavadores de pratos, e não por preconceitos quanto a trabalhar com as mãos, nada disso, em minha infância mãos sem calos sempre foi estigma de vergonha. Mão de vigarista, dizia Canário, quando via uma mão de pele fina e bem tratada, assim como as suas ou as minhas. Herr Konstapel jamais ouviu falar de Canário? Claro que não. Pois é um homem admirável, lhe asseguro, ainda não disse isso a ele, mas um dia talvez volte à minha terra só para fazer isto. Mas, voltando aos pratos, penso que vosso reino, min Herr, tem algo melhor a oferecer-me do que o nobre ofício de diskare, e não vai nenhuma ironia neste nobre, todo trabalho dignifica, sei disso, e se os suecos se recusam a lavar o que sujam não será por preconceito, certamente, mas talvez porque iugoslavos e turcos e árabes e latinos têm vocação inata para o ofício, senão jamais viriam buscar vossas divisas. Neste meu giro pela Europa, e nestes poucos meses que vivi em vosso país, fiz observações rápidas, é verdade, mas creio que pertinentes, sobre os grandes destinos das nações. Noto que os austeros e dignos homens do Norte são desde o berço inclinados às ciências e às artes. Já os homens do Sul parecem sentir-se mais à vontade empunhando uma britadeira ou limpando as ruas das bostas de vossos cães. Não poderíamos conceber, e nisto mais uma vez há de convir Herr Konstapel, um Svensson da gema lavando pratos para iugoslavos ou marroquinos, não que estes seres do Sul não mereçam comer em pratos limpos, nada disso, mas os homens do Norte são antes de tudo atraídos pelas preocupações maiores do espírito e como também desde o berço sou inclinado a tais abstrações, Herr Konstapel pode ficar tranqüilo, não estou aqui para perder meu tempo lavando vossa louças, nem clandestina nem legalmente, no dia em que sentir fome junto meus trapos e vou passar fome junto aos meus. (Capítulo de Ponche Verde)
Sexta-feira, Agosto 03, 2007
SOBRE A INUTILIDADE DA PSICANÁLISE Alguns leitores não gostaram muito de minha crônica sobre Bergman. Consideram que defini como vigarice o que de fato é uma ciência. Ora, essas questões para mim foram resolvidas há uns bons 30 anos. O que tenho a dizer está em dois livros importante da época: Ilusões da Psicanálise, de A. da Silva Mello, e principalmente Psicanálise - a Mistificação do Século, de Edward R. Pinckney e Cathey Pinckney. Cito este último: "O melhor meio de refutar a psicanálise, não apenas por não ser ciência como também por não ter êxito terapêutico, consiste em se avaliar a eficácia do método. Aqui estão duas das poucas provas já realizadas. A primeira, pela Associação Psicanalítica Americana (e revelada apenas aos membros em reuniões fechadas), demonstrou que menos de um terço dos que haviam "completado" a análise poderiam ser considerados curados! O chocante, nesse relatório, é já se ter provado que mais de um terço de todas de todas as pessoas, com qualquer forma de doença mental, se recuperam sem qualquer tratamento. O chefe do grupo, que vez a investigação, declarou que Associação Psicanalítica “não reivindica utilidade terapêutica para os métodos psicanalíticos". "Outra defesa da psicanálise apareceu num manual médico. O autor se referia a 595 pacientes, com reações neuróticas, que foram psicanalisados. Afirmava que 97 por cento ficaram curados ou melhorados. Enterradas em suas estatísticas, estavam duas pequenas informações no sentido de que apenas 306 (metade dos tratados) haviam completado a análise e, dos que a terminaram (289), apenas dois terços (210) puderam ser seguidos para avaliação. Assim, dos 595 pacientes originais, 400 (quase 70 por cento) estavam automaticamente eliminados antes de ser feita a avaliação - fazendo com que os algarismos finais do autor, ainda que impressionantes, fossem absolutamente falsos! O coeficiente correto de eficácia deveria ter sido 25 por cento. No fim de seu relatório, que visava documentar a melhora acarretada pela psicanálise, o autor admitiu: "nós (psicanalistas) não temos padrões pelos quais aferir o grau de melhoria". Quando se sabe que pelo menos 70 por cento dos neuróticos melhoram sem qualquer tratamento, qual é o valor da psicanálise?"
Quinta-feira, Agosto 02, 2007
ESMOLA VICIA INDÍGENAS Índios das aldeias Bororó e Jaguapiru, dentro da Reserva Indígena de Dourados, Fizeram oito reféns, ontem pela manhã, e deixaram o local à noite. A desocupação aconteceu por volta de 19 horas, depois que libertaram os reféns, entre eles três professores de artesanato e quatro funcionários do setor de segurança da reserva. É o que noticia o Estado de São Paulo. É claro que índio algum será responsabilizado por seqüestro ou cárcere privado. Segundo o cacique Lucas Paiva, um dos líderes da invasão, a tribo está passando fome porque acreditou no programa que fornece cestas básicas para os moradores da reserva. Há três meses as cestas de alimentos não estariam sendo entregues. Por outro lado, segundo o cacique Luciano Arévalo de Oliveira, os índios que trabalham no corte de cana têm de onde tirar o sustento da família, o que não acontece com os quase 12 mil índios que vivem na reserva de Dourados. O cacique Luciano aponta a solução. Se os índios trabalhassem, não estariam passando fome. Esmola vicia.
APEDEUTA APELA A POPULISMO O Supremo Apedeuta em nada se incomodou com os escândalos que permearam seu desgoverno, desde a CPI dos bingos até o mensalão, passando pelo dinheiro nas cuecas e até mesmo pela manutenção em Brasília de um bordel para uso de seu ministro da Fazenda, Antonio Palocci. O que verdadeiramente parece incomodá-lo, são as vaias. Afinal, um salvador da humanidade não pode ser vaiado. Tendo discursado contra as ditas elites em suas campanhas presidenciais, uma vez presidente tornou-se elite. Mas continua a discursar contra as elites, como se delas não fizesse parte. Como se seus ministros não fossem elite. Em discurso na terça-feira passada, a esquizofrenia veio à tona. Como não admite ser vaiado pelos pobres que pretende representar, atribuiu a vaia aos ricos: "Os que estão vaiando são os que mais deveriam estar aplaudindo, porque são os que mais ganharam dinheiro no meu governo. A parte pobre da população é que deveria estar zangada. É só ver o quanto ganharam os banqueiros, os empresários". Como se algum banqueiro ou empresário fosse abandonar seu trabalho ou seu conforto para vaiar um presidente. Que mais não seja, ninguém vaiaria quem lhe dá dinheiro ou poder. Vaia-se quando se está insatisfeito. Se estão satisfeitos os beneficiados com o Bolsa-Família, o mesmo não se pode dizer de uma classe média que paga impostos e vê seus impostos se escoando pelo ralo da corrupção e das esmolas eleitoreiras. Lula na verdade quer ressuscitar a finada luta de classes, instrumento que foi muito eficaz no século passado, quando utilizado pelos comunistas para tomar o poder. Quer jogar pobres contra ricos e negros contra brancos. O recente movimento "Cansei" já está sendo acusado de ser liderado pela elite branca, brilhante achado de outro esquizofrênico, o governador de São Paulo, Cláudio Lembo, que sempre foi branco e sempre foi elite e pretende agora distanciar-se de suas origens. O que Lula e Lembo estão afirmando é que, para criticar o governo, é preciso exibir atestado de pobreza. Classe média ou classe alta não têm direito algum à crítica. O Apedeuta irritou-se a tal ponto com as vaias que não faltou nem mesmo um discreto apelo a uma rebelião popular. Do fundo de sua alma de bruto, irrompeu o desejo de uma ditadura populista: "Não pensem que vão deixar o Lula dentro do gabinete. Estou realizando essa solenidade em lugar fechado porque é um ato institucional. Não estou fazendo comício. Mas se alguns quiserem brincar com a democracia, sabem que ninguém neste país consegue colocar mais gente na rua do que eu". É o que resta saber. Lula já começa a fugir de atos públicos. Não parece ter o perfil de quem consiga botar muita gente na rua.
O DIREITO DE VISITA A CÃES JÁ É NOSSO Eu subestimava o Brasil. Imaginava que um dia ainda iríamos imitar essa tolice de Primeiro Mundo, a disputa na Justiça do direito de visitar um cachorro. Vanderley Vaselesk me informa: Meu caro Janer: Aqui o Vanderlei. Trabalhei sete anos no fórum.Já houve aqui no Rio, pelo menos um caso de regulamentação de direito de visita para um cachorro, e aliás era um dos maiores processos da 14ª vara de família onde eu trabalhava. Como você vê, já começamos a importação.
Quarta-feira, Agosto 01, 2007
OPOSIÇÃO AO PT FORNECE ARGUMENTOS AO PT Havia um wishful thinking no ar, de que a responsabilidade pelo acidente em Congonhas fosse culpa do governo Lula. Mesmo quando a Veja publicou reportagem antecipando a divulgação dos dados das caixas-pretas e mostrando que um erro humano estava na origem do desastre, não faltou quem dissesse: é apenas mais uma hipótese. Furo de hoje da Folha de São Paulo mostra definitivamente que houve um erro humano, eventualmente associado a alguma pane no computador. Nada a ver com o PT. A caixa-preta do Airbus-A320 da TAM que caiu em São Paulo no dia 17 indica que houve erro do piloto na operação da alavanca de aceleração das turbinas, além de captar o desespero dos pilotos em tentar frear o avião no solo. Embora menos provável, uma pane no computador do avião também não pode ser descartada, isoladamente ou em conjunto com o provável erro humano. A Folha teve acesso aos dados, que chegaram ontem ao Congresso em um CD-ROM com cerca de 60 arquivos de dados e áudio. A primeira falha, cuja hipótese havia sido antecipada pela Folha na semana passada, ocorreu pouco antes do pouso, quando o manete de controle do motor direito foi mantido numa posição de aceleração. Deveria estar em ponto morto, como o outro manete. Ao pousar, os sistemas eletrônicos interpretaram esse procedimento como um desejo do piloto de acelerar. As duas turbinas passaram a acelerar automaticamente. Os freios aerodinâmicos não foram acionados. O freio automático dos pneus também não funcionou. Pode ter contribuído para a aceleração anormal um segundo erro: apenas o manete da turbina esquerda foi colocado na posição de reverso máximo. Essa turbina estava com o reversor, equipamento que auxilia a frenagem ao inverter o fluxo de ar na turbina, funcionando - a outra, não. (...) Perdendo o controle, o piloto então tentou parar o avião pressionando os dois pedais à sua frente, freando os pneus do trem de pouso. Ao mesmo tempo, com as mãos, segurou o quanto pôde o mecanismo interno que controla a direção da bequilha, a roda da frente do equipamento. Mas as turbinas continuaram a acelerar. Quem me lê, sabe muito bem o que penso do PT. Longe de mim defender estes neostalinistas. Mas atribuir ao PT culpas que não são do partido é o mesmo que defendê-lo. Hoje, desde Lula a Marco Aurélio Garcia, desde Marta Suplicy a Mercadante, enfim, toda a cúpula petista, devem celebrar com muitos top-top-tops o açodamento da imprensa. Não por acaso, a sedizente filósofa Marilena Chaui logo veio a público para afirmar que a imprensa montou um cenário de golpe de Estado durante a cobertura do acidente com o avião da TAM em São Paulo."A grande mídia foi montando, primeiro, um cenário de guerra e, depois, de golpe de Estado", disse a petista em artigo publicado no site de Paulo Henrique Amorim. Para Chauí, "a invenção da crise aérea simplesmente é mais um episódio do fato da mídia e certos setores oposicionistas não admitirem a legitimidade da reeleição de Lula". Daí a afirmar que o mensalão foi uma "construção fantasmagórica" da mídia, foi apenas um passo. Em suma, o entusiasmo antipetista de alguns jornalistas só está dando argumentos para o PT posar de vítima.
SE SERVE DE CONSOLO... ... um avião com 160 passageiros está esperando para decolar, desde ontem, no aeroporto de Arlanda, em Estocolmo, em razão de problemas técnicos. A Suécia está perplexa.
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