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¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV
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Tiragem
Janer Cristaldo escreve no Página Não-Oficial de Janer Cristaldo Arquivos 10/01/2003 - 11/01/2003 12/01/2003 - 01/01/2004 01/01/2004 - 02/01/2004 02/01/2004 - 03/01/2004 03/01/2004 - 04/01/2004 04/01/2004 - 05/01/2004 05/01/2004 - 06/01/2004 06/01/2004 - 07/01/2004 07/01/2004 - 08/01/2004 08/01/2004 - 09/01/2004 09/01/2004 - 10/01/2004 10/01/2004 - 11/01/2004 11/01/2004 - 12/01/2004 12/01/2004 - 01/01/2005 01/01/2005 - 02/01/2005 02/01/2005 - 03/01/2005 03/01/2005 - 04/01/2005 04/01/2005 - 05/01/2005 05/01/2005 - 06/01/2005 06/01/2005 - 07/01/2005 07/01/2005 - 08/01/2005 08/01/2005 - 09/01/2005 09/01/2005 - 10/01/2005 10/01/2005 - 11/01/2005 11/01/2005 - 12/01/2005 12/01/2005 - 01/01/2006 01/01/2006 - 02/01/2006 02/01/2006 - 03/01/2006 03/01/2006 - 04/01/2006 04/01/2006 - 05/01/2006 05/01/2006 - 06/01/2006 06/01/2006 - 07/01/2006 07/01/2006 - 08/01/2006 08/01/2006 - 09/01/2006 09/01/2006 - 10/01/2006 10/01/2006 - 11/01/2006 11/01/2006 - 12/01/2006 12/01/2006 - 01/01/2007 01/01/2007 - 02/01/2007 02/01/2007 - 03/01/2007 03/01/2007 - 04/01/2007 04/01/2007 - 05/01/2007 05/01/2007 - 06/01/2007 06/01/2007 - 07/01/2007 07/01/2007 - 08/01/2007 08/01/2007 - 09/01/2007 09/01/2007 - 10/01/2007 10/01/2007 - 11/01/2007 11/01/2007 - 12/01/2007 12/01/2007 - 01/01/2008 01/01/2008 - 02/01/2008 02/01/2008 - 03/01/2008 03/01/2008 - 04/01/2008 04/01/2008 - 05/01/2008 05/01/2008 - 06/01/2008 06/01/2008 - 07/01/2008 07/01/2008 - 08/01/2008 08/01/2008 - 09/01/2008 09/01/2008 - 10/01/2008 10/01/2008 - 11/01/2008 11/01/2008 - 12/01/2008 12/01/2008 - 01/01/2009 01/01/2009 - 02/01/2009 02/01/2009 - 03/01/2009 03/01/2009 - 04/01/2009 04/01/2009 - 05/01/2009 05/01/2009 - 06/01/2009 06/01/2009 - 07/01/2009 07/01/2009 - 08/01/2009 08/01/2009 - 09/01/2009 09/01/2009 - 10/01/2009 10/01/2009 - 11/01/2009 11/01/2009 - 12/01/2009 |
Terça-feira, Março 31, 2009
MENTIR OU NÃO MENTIR? Mentir ou não mentir? – eis uma pergunta adequada para um 1º de abril. Se bem que as mentiras desta data são em geral inofensivas, têm mais o sentido de brincadeira do que a intenção de prejudicar alguém. Verdade que muitas vezes acabam prejudicando. A imprensa nacional – e particularmente a Veja – tiveram a reputação profundamente abalada por uma dessas piadas. Aconteceu em 1983, quando a Veja endossou como verdade científica uma brincadeira lançada pela revista inglesa New Science. Tratava-se de uma nova conquista científica, um fruto de carne, derivado da fusão da carne do boi e do tomate, que recebeu o nome de boimate. Se a editoria de ciências visse esta notícia num jornal brasileiro, evidentemente ficaria com um pé atrás. Para a revista, a experiência dos pesquisadores alemães permitia “sonhar com um tomate do qual já se colha algo parecido com um filé ao molho de tomate. E abre uma nova fronteira científica". Isso que a New Science dava uma série de pistas para evidenciar a piada: os biólogos Barry McDonald e William Wimpey tinham esses nomes para lembrar as cadeias internacionais de alimentação McDonald´s e Wimpy´s. A Universidade de Hamburgo, palco do "grande fato", foi citada para que pudesse ser cotejada com hambúrguer. Os alertas de nada adiantaram. Como se tratava de uma prestigiosa publicação européia, a Veja embarcou com entusiasmo na piada. Azar do redator crédulo. 1º de Abril à parte, escritores e pensadores se dividem, alguns considerando a mentira necessária ao convívio humano, outros banindo-a para o rol dos vícios inaceitáveis. No Estadão de ontem, o psiquiatra Flávio Gikovate afirmava com todas as letras: ''A mentira é um instrumento da inteligência. As pessoas nem sempre gostam de ouvir a verdade". O que é verdade. Os partidários do “me engana que eu gosto” são milhões, haja vista a eleição de um operário analfabeto para a magistratura suprema da nação. Isso sem falar nas pessoas que mentem para si mesmas e acabam acreditando nas próprias mentiras. Pode a mentira ser necessária? Sem dúvida, e há casos em que salva vidas. Os estudiosos propõem um exemplo: você está sentado no bar da esquina. Uma mulher, desesperada, passa correndo na rua e dobra à direita. Mal some de sua vista, surge um marido – ou animal semelhante – correndo de revólver em punho. E pergunta: você viu passar uma mulher correndo? Para que lado ela foi? Se você disser a verdade, provavelmente condenou a moça à morte. Numa guerra, a mentira pode ser fundamental para uma vitória. O caso clássico é o de um falso major inglês que jamais existiu, mas cujo cadáver foi decisivo para a vitória contra os alemães na Segunda Guerra. Os aliados precisavam convencer os alemães que seu próximo objetivo não seria a Sicília. Conseguiram encontrar o corpo de um soldado que morrera de pneumonia, o que permitia sugerir a morte por afogamento. Deram-lhe o nome de William Martin, oficial dos Fuzileiros Reais, forjaram papéis que simulavam sua identidade e largaram o cadáver numa praia de Huelva, Espanha, onde certamente seria encontrado pelos nazistas. Em seu uniforme foi inserida uma mensagem de Lord Mountbatten para o almirante da esquadra, Sir Andrew Cunningham. Uma frase sugeria que a invasão ocorreria na Sardenha. "Ele pode trazer consigo algumas sardinhas — aqui estão racionadas!". No dia 19 de abril de 1943, oculto no compartimento de torpedos do submarino Seraph, o cadáver de William Martin foi discretamente jogado ao mar próximo à praia. O próprio Hitler caiu no engodo e concluiu que o ataque dos Aliados seria dirigido principalmente contra a Sardenha. Dividiu suas forças e os Aliados puderam entrar na Sicília em ritmo de passeio. William Martin, que jamais existiu, hoje é cultuado como herói na Inglaterra. Há mentiras que são muito necessárias e toda guerra não passa de um festival de mentiras. A mentira, no caso, não foi exatamente um instrumento da inteligência humana, mas da Inteligência militar. É uma arma tão legítima - e geralmente mais eficaz - quanto um fuzil ou canhão. Mas não é disto que Gikovate fala, e sim das mentiras do dia-a-dia. Segundo o psiquiatra, a sinceridade pode às vezes ser uma coisa maldosa, agressiva. No que tem toda a razão. Digamos que você tenha uma amiga que não foi exatamente favorecida pelos deuses. Ela é decididamente feia. Ora, você não pode dizer isto. Vai magoar, e talvez profundamente, uma pessoa. Mas tampouco precisa dizer que é linda. Melhor calar a boca. Nesses casos, saio pela tangente. Se ela me pergunta sobre sua beleza, tenho resposta pronta: “Não existem mulheres lindas ou feias. Existem apenas mulheres mais abraçáveis ou menos abraçáveis”. O que não deixa de ser verdade. Quando a mentira faz bem? – quer saber o entrevistador. “Quando é piedosa – diz Gikovate -. “Os médicos nem sempre contam para o doente terminal o real estágio da doença”. Aqui vou discordar do psiquiatra. Depende do paciente. Se se trata de um destes seres que viveram toda uma vida embalados por mentiras, é de fato uma crueldade revelar-lhe a única, a última e pior das verdades. Já para alguém que não teme verdades, por mais cruciais que sejam, parece-me desonesto ocultar-lhe a própria morte. A sonegação da verdade rouba-lhe a chance de deixar tudo pronto antes de partir, organizar seus papéis, testamento, vontades e informações finais. O que torna bem mais fácil a vida dos que ficam. De minha parte, na hora de partir, não quero perto de mim médico algum que partilhe da filosofia do Dr. Gikovate. Quanto às mentiras do dia-a-dia, a meu ver existem as perfeitamente inofensivas e as absolutamente prejudiciais. Digamos que você está conversando com amigos e subitamente sentiu vontade de estar só. Se você manifestar este desejo, pode melindrar alguém que vai se julgar o motivo de sua vontade de estar só. Se disser que precisa ir em casa para fazer um trabalho urgente, não está dizendo a verdade. Mas tampouco está prejudicando alguém. Pelo contrário, está sendo gentil. Mas há uma outra mentira do dia-a-dia, certamente a mais encontradiça em nossos dias, que me parece repulsiva. Volto mais tarde.
Segunda-feira, Março 30, 2009
CRISE UNE FAMÍLIA E RESSUSCITA AMOR Essa tal de crise da qual tanto se fala, pelo jeito ainda não deu as caras em São Paulo. Ou pelo menos na geografia urbana que uso. Aos fins de semana, se você vai a churrascarias imensas como El Tranvia, Pobre Juan ou Vento Haragano, se for na hora do almoço, encontrará no mínimo meia hora de espera. Veterano, chego sempre um pouco mais tarde. Nos bons restaurantes da Paulicéia – e não estou falando daqueles destinados a pessoas jurídicas, como o Fasano ou Massimo, onde a clientela em geral paga com o dinheiro do contribuinte – você vai ver todos os dias uma turba alegre, conversando, namorando, bebendo e comendo bem. Vilaboim, Vila Madalena, Pinheiros, Jardins, a rua Augusta, hoje revitalizada, continuam fervendo de gentes em busca de boa comida ou lazer noturno. Verdade que há um certo índice de desemprego entre os proles, como diria Orwell. Mas não vi nem tive notícias de nenhum restaurante fechando ou baixando os preços. Pelo contrário, novas casas estão abrindo todas as semanas. Em Paris ou Madri, você come melhor e mais barato que nesta capital que se gaba de sua gastronomia. Inclusive me consta que hoje sai barato visitar a Islândia, o país mais caro da Europa. Realistas, hoteleiros e restauradores preferiram diminuir seus lucros a perder seus investimentos. No Primeiro Mundo, a crise corre solta. Já nem falo das seis centenas de milhares de empregos que desapareceram no início do ano nos Estados Unidos. Nem no índice Down Jones, que caiu mais de 2.200 pontos desde setembro do ano passado. Segundo o New York Times, a crise está interferindo até nas relações pessoais. Curiosamente, interferindo de forma positiva. Segundo o jornal, as agências de namoro especializadas em encontrar o parceiro ideal, tanto as online quanto as tradicionais, estão anunciando que o interesse pela paquera cresceu bastante. Sites de relacionamento tiveram grandes lucros nos últimos meses, e firmas offline como a Amy Laurent International, um serviço de busca de parceiros românticos com escritórios em Nova York, Los Angeles e Miami, diz que os negócios aumentaram 40% entre os clientes do sexo feminino nos últimos quatro meses. Os motivos seriam óbvios. Pessoas desempregadas e subempregadas contam com mais tempo para surfar na Web, e os serviços de namoro online são uma forma relativamente barata de conhecer pessoas. Os programas de encontro organizados são mais baratos do que o financiamento de uma série de jantares potencialmente inúteis com pessoas desconhecidas. E pessoas solteiras – o amor é lindo! – estão buscando o conforto de um relacionamento durante períodos difíceis. Um site que registrava cerca de 80 mil encontros virtuais diários em outubro, aumentou 60%, para uma média de 130 mil encontros. Em dias bicudos, um ombro amigo para chorar as desgraças é sempre bem-vindo. Se na Paulicéia o clima está mais para último baile da Ilha da Fiscal, nos States as pessoas estão preferindo relações virtuais. Segundo Markus Frind, diretor-executivo de um site gratuito, "durante as recessões as pessoas ficam mais em casa, elas não desejam pagar contas e ir para bares. Elas conectam-se à Internet e conhecem-se no ciberespaço”. Quem ganha é o tal de amor. Segundo sites de relacionamento na Web, “à medida que os mercados de ações despencam em todo o mundo, as pessoas optam por tentar a sorte no amor online, como forma de esquecer os problemas financeiros e de economizar”. Para a psicóloga nova-iorquina Paulette Kouffman Sherman, se a recessão resultar em um desejo por relacionamento que não se baseie nas finanças pessoais do indivíduo, isso poderá representar de fato um boom para o amor. "Um indivíduo possui muitos aspectos. Focalizar-se apenas em emprego ou dinheiro é algo meio doentio". Pelo jeito, a psicóloga descobriu a América. O pensador cristão Gabriel Marcel, que passou todo o século passado clamando no deserto, filosofando sobre a supremacia do ser em relação ao ter, deve hoje estar batendo palmas em sua tumba. Nada melhor que uma boa crise para que os consumidores contumazes americanos começassem a pensar nos valores do ser. Segundo Annie Edgerton, uma atriz que mora em Manhattan, “tudo isso fez com que a pressão no sentido de impressionar os outros com dinheiro diminuísse muito. Agora dá para conhecer uma pessoa por aquilo que ela de fato é, e não pelo seu emprego, já que ela pode não estar mais empregada". Da Espanha, recebo notícias de que divorciar-se virou luxo, recurso apenas ao alcance de quem pode enfrentar uma separação. Divórcio significa duas casas em vez de uma, dois mobiliários em vez de um, despesas que não mais são assumidas em conjunto, mas agora em separado. Os casais, hoje, pensam duas vezes antes de separar-se. Mas, como escreveu o Velho, a humanidade não formula jamais senão problemas que pode resolver, “porque, se olharmos mais de perto, vemos sempre que o próprio problema só surge onde as condições materiais para resolvê-lo existem ou, pelo menos, estão em vias de aparecer”. Sobrou até para um revival de Marx: muitos dos casais que se separam, estão preferindo continuar morando na mesma casa. Segundo o El País, “a opção por viver só que prolifera em tempos de bonança vive horas sombrias na Espanha. O desemprego e as dificuldades lhe tiraram todo o encanto. Os sozinhos (ou ímpares, como são chamados na Espanha) não sofrem a crise mais que os outros. Mas a sofrem. O número dos que procuram companheiros para dividir apartamento, segundo alguns portais da internet, quase duplicou. O crescimento de domicílios unipessoais, depois de um aumento trepidante, está sendo freado. E as separações, essa fábrica de singles que trabalhou a pleno vapor com o divórcio expresso, agora baixou o ritmo, devido ao fim desse efeito e também à crise econômica”. Patricia F., catalã entrevistada pelo jornal, diplomada em filosofia e sociologia, é um exemplo típico da crise. Ganhava três 3 mil euros brutos por mês e podia morar sozinha em um apartamento alugado em Barcelona. Teve de baixar o ritmo de consumo. "Porque com o desemprego não tenho nem para a metade dos meus gastos. Cortei tudo: saía para jantar fora no mínimo duas vezes por semana e agora só saio se for a uma festa em casa de amigos. Não sou de comprar muita roupa, mas quando gostava de algo não precisava pensar. Em momentos assim você trabalha para si mesma, vive como lhe apetece, mas agora não". Os setores de hotelaria e restauração acusam o golpe. Para José Luis Guerra, presidente da Federação Espanhola de Hotelaria, "não se pode distinguir entre todos esses solteiros e o público em geral, mas a queda foi generalizada. Este ano o gasto está caindo entre 9% e 10% ao mês". Não diminuem as visitas aos restaurantes, mas sim o gasto: de dois pratos se passa a um para a dividir e da sobremesa ao café, diretamente. Uma das soluções é voltar ao ninho paterno. "Isso é algo que ocorre nas recessões, costuma servir para a coesão familiar. Porque no final, em momentos assim, é a família que ajuda”, diz José Luiz Nueno, um outro entrevistado. Quem deve estar vibrando com a crise é Sua Santidade Bento XVI e todos os papistas que há horas reclamam da dissolução familiar e de costumes. O paradoxal nesta crise é que o Primeiro Mundo está caindo na real, como se diz, e baixando o nível de consumo. Desconheço a situação no Brasil todo. Mas nesta cidade em que vivo, o clima está mais para “bebei e embriagai-vos, caríssimos, pois o reino de Deus está próximo”. Quanto mais se fala em crise, mais os paulistanos fazem festa. A tal de crise parece estar comendo pelas bordas. Nestes dias em que, santé oblige, virei abstêmio, tenho consumido não poucas latinhas daquelas abomináveis cervejas sem álcool, Kronenbier e Líber. Já ia jogando as latas ao lixo, quando Cristina, minha assessora de assuntos domésticos, me interrompeu. “Não faça isso, professor, essas latinhas eu levo pra casa”. Fiquei preocupado. Estaria pagando tão pouco a ponto de ela precisar recolher latinhas? Não era bem isso. Ela levava para o filho. Que as vendia para comprar videogames. Setenta latinhas dão um quilo. Que era vendido por três reais. Com a crise, estão pagando só um real por quilo. O moleque está então capitalizando as latinhas, à espera de dias melhores. Estranho país, este nosso. Quem tiver notícias da crise, que mas envie. Daqui de São Paulo, não consigo vê-la.
Domingo, Março 29, 2009
À SOMBRA ODIOSA DA ODIOSA COLUNA DE FERRO EMPARAFUSADA Os jornais de hoje me lembram que, nesta terça-feira próxima, a Dame de Fer está completando 120 anos. Idade respeitável para uma senhora que, centenária, mantém-se rija, esbelta e charmosa. Vivi quatro anos ao lado dela e jamais a visitei. Durante mais de duas décadas, fui e vim de Paris, sempre me contentando em olhá-la de perto, mas sem penetrar sua intimidade. Nutria até um certo orgulho: moro aqui e jamais subi na torre Eiffel. Parecia-me um tremendo lugar-comum ir a Paris e subir até seu cume. Como abomino lugares-comuns, dela sempre mantive uma respeitosa distância. No entanto, a considero simpática. Depois de existir, passou a simbolizar Paris e nada mais que isso. Não celebra nenhum combate ou vitória, não evoca nenhum massacre ou fato histórico. Não homenageia nenhum tirano ou estadista, nenhum mártir ou herói, nenhum santo ou deus. É neutra. Cada vez que a vejo, me vem à mente um velho dito francês: soit belle et tais-toi! Seja bela e cale a boca! Muda e silente, não emite mensagem alguma, nem religiosa nem política, nem filosófica nem ideológica. Contenta-se apenas em lembrar que foi erigida para inaugurar a Exposição Universal de 1889. Discreta e ao mesmo tempo escandalosa, é como se apenas dissesse, com suas luzes cintilantes: estou aqui, estou aqui, estou aqui. Havia um outro motivo, as multidões que a buscam. Subir nela significava esperar duas, três ou mais horas, em filas quilométricas ante suas quatro patas. Ora, nenhum espetáculo do mundo me faz esperar nem mesmo uma hora em uma fila. Brasileiros que me visitavam, mal chegavam logo faziam a proposta obscena: vais nos levar até a torre, não? Ok! Levar, até que eu levo. Mas não subo. Verdade que, um belo dia, eu passeava com a Baixinha pelo Trocadero. Estávamos ali, apenas passeando pela cidade, sem nada para fazer e com o dia todo pela frente. É hoje! – pensei. Não era. Multidões se espremiam em cada pata. Uma das filas era mais curta, teria apenas umas trezentas pessoas. Era a fila para subir a pé. Excusez-moi, chérie, mas não vai ser hoje. Há uns quatro ou cinco anos, viajando com a Primeira-Namorada, nos aproximamos da velha dama. Só vamos olhar de baixo – já fui alertando – porque nela eu não subo. Rumamos até o vasto espaço circundado por suas patas e, milagre, numa delas havia uma fila curtinha. De novo pensei: é hoje! Era mesmo. Em quinze minutos estávamos no topo. Confesso que não me impressionou muito. O Arco do Triunfo, embora bem mais baixo, dá uma visão bem mais esplendorosa de Paris. Se hoje a Eiffel é um fato consumado – e de um charme universalmente reconhecido – o mesmo não ocorreu nos dias de sua construção. Os ecochatos são como deus, eternos, e desde Babel sempre se opuseram aos mais belos sonhos da humanidade. No caso de Babel, o ecochato-mór foi o próprio Jeová, que não gostou do humano projeto de chegar ao céu e criou várias línguas para confundir seus construtores. Se bem que já ouvi tese inversa. Que eles falavam várias línguas e só começaram a desentender-se quando passaram a falar uma só. Conhecendo os bois com que lavro, não duvido. Nos finais do XIX, os ecochatos chamavam-se Alexandre Dumas filho – que, mediocrité oblige, foi o responsável pela criação do mito de Anita Garibaldi –, Huysmans, Guy de Maupassant, François Coppée, Leconte de Lisle, Sully Prudhomme, Charles Garnier, Gounod, etc. Em fevereiro de 1887, um violento panfleto, assinado por estes senhores, foi lançado contra o projeto de Gustave Eiffel: Nós, escritores, pintores, escultores, arquitetos, amadores apaixonados da beleza até aqui intacta de Paris, viemos protestar com todas nossas forças, com toda nossa indignação, em nome do gosto francês não reconhecido, em nome da arte e da história francesa ameaçadas, contra a ereção, em pleno coração de nossa capital, da inútil e monstruosa torre Eiffel. (...) A cidade de Paris irá então se associar por mais tempo aos barrocos, às mercantis imaginações de um construtor de máquinas, para se enfeiar irreparavelmente e se desonrar? (...) Basta imaginarmos uma torre vertiginosamente ridícula dominando Paris, como uma negra e gigantesca chaminé de usina, esmagando com sua massa bárbara a Notre-Dame, a Sainte-Chapelle, a torre Saint-Jacques, o Louvre, o Dôme des Invalides, o Arco do Triunfo, todos nossos monumentos humilhados, todas nossas arquiteturas diminuídas, que desaparecerão nesse sonho estupefiante. E durante vinte anos, nós veremos alongar-se sobre a cidade inteira, ainda comovida com o gênio de tantos séculos, como uma mancha de tinta, a sombra odiosa da odiosa coluna de ferro emparafusado. A impressão que fica deste manifesto é que a altura da torre os incomodava. Uma vez erguida, alguns fizeram marcha a ré e Gounod chegou a defini-la como um concerto nas nuvens. Longa é a jornada dos brutos até o entendimento. O curioso é que os brutos em questão constituíam a elite intelectual de Paris. O que só demonstra que nem os mais brilhantes cérebros de uma nação estão imunes a grandes equívocos. Gosto da Eiffel. Mal saímos do aeroporto, é o primeiro ícone que se nos apresenta aos olhos. Mesmo chegando pela primeira vez a Paris, temos uma impressão de déjà-vu, como se a torre pertencesse – como de fato pertence – ao imaginário universal. Mas a mais terna lembrança da elegante Dama de Ferro, eu a tenho de outras circunstâncias. Em meus dias de Gália, tive uma amiga francesa que morava na Rue de la Bourdonnais, perto da École Militaire. Jornalista, vivia em uma diminuta chambre de bonne no sétimo andar de um prédio antigo. Sem elevador, é claro. Quando entrei pela primeira vez em seu quarto, um pôster colossal, dourado e desproporcional da torre, me ofuscou os olhos. Não era pôster. Era a torre que entrava janela adentro, toda trêmula, vestida de um ouro ofuscante. Não digo que tenha sido um concerto nas nuvens. Mas foi um belo dueto, à sombra odiosa da odiosa coluna de ferro emparafusada.
Sábado, Março 28, 2009
PRISÕES SURPREENDENTES NO PARAÍSO DA ILICITUDE Há muitas definições do que seja a lei. Eu prefiro a de José Hernández: La ley se hace para todos, Mas sólo al pobre le rige. La ley es tela de araña - En mi inorancia lo esplico -. No la tema el hombre rico; Nunca la tema el que mande; Pues la ruempe el bicho grande Y sólo enrieda a los chicos. Es la ley como la lluvia: Nunca puede ser pareja; El que la aguanta se queja, Pero el asunto es sencillo: La ley es como el cuchillo: No ofiende a quien lo maneja. Le suelen llamar espada Y el nombre le viene bien; Los que la gobiernan ven A dónde han de dar el tajo: Le cai al que se halla abajo Y corta sin ver a quién. Sempre faz bem ao espírito ver atrás das grades criminosos de alto coturno, detentores de grandes fortunas que do dia para a noite passam a ver o sol quadrado. Neste sentido, a prisão de Eliana Tranchesi, proprietária do shopping de mais alto luxo do país, oferece ao público uma sensação de que a lei atinge também os ricos. Junto com Tranchesi, foram presos outros sete envolvidos, entre eles seu irmão, pelos crimes de formação de quadrilha, descaminho (importação fraudulenta de produto lícito) e falsidade ideológica, por fazer constar nas faturas que a compradora das mercadorias era a importadora e não a butique. A pena para a proprietária da Daslu, de mais de 94 anos, parece à primeira vista desproporcional, dado que autores de crimes tremendos têm penas bem menores e alguns continuam livres como passarinho, como é o caso do jornalista Pimenta Neves, que matou uma colega de redação com tiro pelas costas, por uma prosaica questão de bancar o macho. Mas... mas... mas... Em crime de formação de quadrilha foi incurso o ex-ministro Zé Dirceu e, pelo que me consta, autoridade alguma cogitou de enviá-lo à prisão. Pelo mesmo crime de descaminho, foi preso em novembro de 2007 o chinês Law Kin Chong, suspeito de ser maior fornecedor de mercadorias contrabandeadas da 25 de Março. Tido como o rei do contrabando em São Paulo, em março de 2008, por obra de um habeas corpus, Chong estava tão livre como Pimenta Neves ou Zé Dirceu. Foi de novo preso em 25 de abril do mesmo ano. Dia 29 do mesmo mês estava de novo nas ruas, libertado por novo habeas. Tranchesi e seus cúmplices também. Mal passaram uma noite na cadeia. Até aí, nada surpreendente. Foram condenados em primeira instância e têm o direito de responder ao processo em liberdade. Não se pode condenar, como se está condenando, juízes que cumprem a lei. Errado não é o juiz. Errada é a lei. O fato é que a prisão de Chong em nada contribuiu para estancar o contrabando em São Paulo. Continua correndo solto, a céu aberto, não só na 25 de Março, como também na Santa Ifigênia e mesmo na Avenida Paulista, orgulho dos paulistanos. Uma ou duas vezes por ano, a Receita Federal dá uma batida nesses centros de ilegalidade, confisca 40 ou mais toneladas de muamba. No dia seguinte, o contrabando continua firme, como se a apreensão do dia anterior sequer lhe tivesse feito mossa. Na região da Santa Ifigênia, mais precisamente na rua Aurora, está instalado o 3º Distrito Policial de São Paulo. À frente de sua fachada, estão sempre estacionados três ou quatro camburões. A dez metros do último camburão, a muamba está esparramada pelas calçadas. Coibir o contrabando quando este se instala ao lado de um distrito policial é utopia de sonhador desvairado. Mais ainda: no Brasil o contrabando é mais ágil que o comércio legal. Em dezembro de 2006, Keith Beeman, o diretor mundial de propriedade intelectual da Microsoft, Keith Beeman, foi levado pela reportagem do Estadão até a Santa Ifigênia. O executivo americano se espantou ao ver que os camelôs já comercializavam o Windows Vista, o Office 2007 e o Exchange Server 2007 - novos programas da Microsoft -, que ainda nem haviam sido lançados para o consumidor final. A impressão que a Polícia Federal deixa é que contrabando não é permissível aos ricos, tanto que Chong como Tranchesi foram levados à prisão. Pobre pode contrabandear à vontade. Rico fora dos círculos do poder do Planalto não pode formar quadrilha. Político dentro do inner circle do PT, que forme quadrilhas a seu gosto. Por outro lado, salvo engano meu, o artigo 180 do Código Penal define como receptação qualificada o ato de adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte. Pena: prisão de um a quatro anos e multa. Pode alguém ignorar, depois das anteriores passagens da Daslu pelas páginas da crônica policial, que as mercadorias lá vendidas eram produto de crime? As personalidades do grand monde paulistano e nacional que por lá passaram – e posaram para fotos, como se fossem convivas do Olimpo, com Eliana Tranchesi – não seriam cúmplices da contrabandista? Financiar o ilícito não é também ilícito, como lembrava há pouco o presidente do STF? É de supor-se que empresa de tal porte tenha contabilidade. Não seria necessário esforço maior de investigação, por parte da polícia, arrolar esta lista de receptadores. Mas quem há de? Desde há muito o Brasil é um paraíso de ilicitude. Se as autoridades pretendessem de fato punir quem comete crimes, melhor seria deixar a criminalidade entregue à lei da selva e criar um pequeno presídio para que lá vivesse em segurança quem não cometeu crime algum.
CONFESSO QUE NÃO ENTENDI Independentemente do juízo que se possa fazer das sentenças do presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, há algumas semanas ele andou anunciando o óbvio, que financiar o ilícito é também ilícito. E o óbvio é algo que muito gente não quer ouvir, principalmente este governo que financia generosamente o crime. E não é que financie às ocultas, por baixo dos panos. Financia abertamente e ainda gaba-se de estar financiando movimentos sociais, quando em verdade está financiando uma guerrilha comunista, o MST. Hoje, no entanto, o ministro me confundiu. Ao rebater declaração do senador Pedro Simon, que se referiu ao STF como "arquivo morto" por nunca ter condenado nenhum parlamentar processado. Mendes respondeu que Simon é "muito dado a frases de efeito": "É bom que o senador saiba que tribunal existe para julgar e não para condenar. Tribunal existe para condenar na Venezuela, em Cuba e na antiga União Soviética... Nada contra a Venezuela, é só uma questão de independência judicial". Sempre entendi que todo julgamento implica ou condenação ou absolvição. Se o Judiciário não condena, a quem cabe condenar? Ao Executivo? Ao Legislativo? Confesso que não entendi. A resposta do ministro me confundiu. A menos que algum luminar do Direito haja elaborado alguma nova teoria a respeito das funções dos três poderes e eu ainda não tenha dela tomado conhecimento.
MOMENTOS SUBLIMES DO CORÃO Ó Profeta, em verdade, tornamos lícitas, para ti as esposas que tenhas adotado, assim como as que a tua mão direita possui (cativas), que Deus tenha feito cair em tuas mãos, as filhas de teus tios e tias paternas, as filhas de teus tios e tias maternas, que migraram contigo, bem como toda a mulher fiel que se dedicar ao Profeta, por gosto, e uma vez que o Profeta queira desposá-la; este é um privilégio exclusivo teu, vedado aos demais fiéis. Bem sabemos o que lhes impusemos (aos demais), em relação às suas esposas e às que suas mãos direita possuem, a fim de que não haja inconveniente algum para ti. E Deus é Indulgente, Misericordioso. Podes abandonar, dentre elas, as que desejares e tomar as que te agradarem; e se desejares tomar de novo a qualquer delas que tiveres abandonado, não terás culpa alguma. Esse proceder será sensato para que se refresquem seus olhos, não se aflijam e se satisfaçam com o que tiveres concedido a todas, pois Deus sabe o que encerram os vossos corações; e Deus, é Tolerante, Sapientíssimo. Além dessas não te será permitido casares com outras, nem trocá-las por outras mulheres, ainda que suas belezas te encantem, com exceção das que a tua mão direita possua. E Deus é Observador de tudo. (Sura 33:50-52)
Sexta-feira, Março 27, 2009
ONU E ISLÃ PROPÕEM IDADE MÉDIA TOTAL Sempre me reservei o direito de criticar toda e qualquer religião. Se criticamos o Estado, se criticamos filosofias e comportamentos, se criticamos artes e literatura, por que estaríamos proibidos de criticar religiões? Estariam as religiões acima de qualquer crítica? Não estão. Se isto fere suas convicções, paciência. Qualquer jornal que você leia, em algum momento, inevitavelmente, vai ferir seu modo de ver o mundo. Democracia é assim mesmo. Idade Média é outro departamento. O mesmo não pensa a Organização das Nações Unidas. Leio nos jornais que o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU) aprovou ontem uma resolução que condena a difamação religiosa e passa a considerar o ato como uma violação aos direitos humanos. O documento também pede que governos adotem leis protegendo as religiões de ataques. Diz a sura 2:191, do Corão: “Matai os infiéis onde quer que os encontreis”. Quem são os infiéis? Segundo o Islã, todos os que não são muçulmanos. Todo aquele que não aceitar Alá como deus único e Maomé como seu profeta está ipso facto condenado à morte. A ONU, em nome dos tais de Direitos Humanos, quer que os governos adotem leis que protejam os maometanos de qualquer crítica a esta incitação ao assassinato. E mais ainda: crítica nenhuma ao profeta. As leis do Ocidente podem tipificar à vontade como pedofilia ou estupro as relações de um adulto com uma menina de nove anos. Mas que jamais alguém ouse condenar como pedófilo ou estuprador um bode velho por ter deflorado Aisha... aos nove anos de idade. Aisha foi uma das onze mulheres de Maomé. Alá permite quatro, mas concedeu privilégio especial a seu profeta bem-amado. Calem-se os historiadores sobre as guerras de conquista tanto do Islã como da Igreja Católica. Isso ofende profundamente papas, cardeais, bispos, padres, aiatolás e mulás. Isso sem falar nos crentes, que se ouriçam todos mal lembramos da Inquisição. Daqui para a frente, proibido falar das fogueiras que católicos e protestantes ergueram na Europa e mesmo Além-Mar para queimar bruxas e hereges. Se os governos aderirem à vontade da ONU, cuidem-se os ateus ou crentes de outras religiões que vêm nos dogmas da Igreja de Roma ridicularias do medievo. Em alguma punição deverão ser incursos. Palavrinha nenhuma contra os absurdos pronunciamentos de um papa que envia uma mensagem de morte a um continente todo, ao condenar os preservativos. Daqui para a frente, não será mais ridículo pregar a castidade ou o uso de cilícios. Aliás, Sua Santidade que se cuide. Que não ouse citar doravante imperadores de séculos passados, como já o fez com Manuel II Paleólogo, que pedia a um interlocutor persa: "mostre o que Maomé trouxe de bom e verás apenas coisas más e desumanas, como sua ordem de divulgar a fé usando a espada". Esta lembrança feriu profundamente as meigas almas muçulmanas. É chegada a hora de banir das bibliotecas e livrarias autores como Nietzsche ou Voltaire. Ou mesmo Kazantzakis ou Saramago, que ousaram propor desenlaces diferentes aos Evangelhos. O Vaticano já pode reativar o Index Librorum Prohibitorum, onde estão catalogadas as obras dos inimigos da fé. A propósito, condene-se a monumental obra do historiador Ernest Renan, sua história do cristianismo e sua história do judaísmo. Bom também proibir qualquer história da Igreja, dos papas ou mesmo do Islã. São lembranças que podem ofender os crentes. Essa recente safra de autores ateus, como Michel Onfray, Daniel Dennet, Christopher Hitchens, Richard Dawkins, Sam Harris, pode ir se acostumando à idéia de ver seus livros recolhidos do mercado. Bom também proibir de vez a Bíblia, que considera obra do demônio o culto a qualquer outro deus que não o judaico-cristão. Cuidem-se os pastores evangélicos que atacam a macumba e a umbanda como obras do demônio. Cuidem-se também juízes, promotores e jornalistas que ousam condenar as vigarices dos evangélicos. Está na hora de libertar e absolver de toda culpa aqueles santos pastores encarcerados numa prisão dos Estados Unidos, a bispa Sonia e o apóstolo Estevam Hernandes. A prisão destes dois mártires fere profundamente a sensibilidade dos seguidores da Renascer. A resolução da ONU tem um endereço certo. Foi proposta pelos países islâmicos, que há dois anos trabalham pela aprovação de decisões para proteger sua religião. A proposta foi apresentada pelo Paquistão e copatrocinada por quem? Pela Venezuela de Hugo Chávez. Pelo jeito, o caudilho de opereta está querendo abrigar, sob as cálidas asas da ONU, seu brilhante achado, o “bolivarianismo”. Entre os que votaram a favor da resolução, além de Cuba e Venezuela, estavam países africanos e islâmicos, estes magníficos exemplos de democracia. A Europa votou contra a resolução, alegando que a medida fere a liberdade de expressão e de imprensa. Foi voto vencido, como seria de se esperar. A ONU ignorou solenemente o acórdão Handyside, de 1976, reconhecido pela Corte Européia de Direitos do Homem. Que declara: “A liberdade de expressão vale não apenas para as informações ou idéias acolhidas com favor, mas também para aquelas que ferem, chocam ou inquietam o Estado ou uma fração qualquer da população. Assim o querem o pluralismo, a tolerância e o espírito de abertura, sem o qual não existe sociedade democrática”. O que a ONU está propondo, no fundo, é uma Idade Média total. Se na Idade Média eram proibidos apenas os livros e autores que contestavam a Igreja de Roma, a entidade agora quer a proibição de qualquer livro ou autor que conteste toda e qualquer religião. Enquanto isto, o Islã, autor da proposta, continua se reservando o direito de matar os infiéis, onde quer que se encontrem. Palavra do Profeta. Allah-u-akbar!
TABULA RASA De Humberto Quaglio, recebo: Olá Janer! Saudações! Lembrei-me de você e de alguns de seus artigos publicados no blog, como o último (Afrodescendentada dividida), imediatamente após a leitura de um trecho de um parágrafo de um livro excelente que estou terminando de ler. Trata-se do Tabula Rasa – A Negação Contemporânea da natureza Humana, do psicólogo canadense Steven Pinker. O livro é recente, foi publicado pela primeira vez em 2002. Vou deixar que o autor fale por si, transcrevendo o trecho que me chamou a atenção (páginas 202 e 203 da primeira edição publicada no Brasil pela Companhia das Letras em 2004): “...embora as diferenças genéticas entre raças e grupos étnicos sejam muito menores que as encontradas entre indivíduos, elas não são inexistentes (como vemos em sua capacidade de originar diferenças físicas e diferentes suscetibilidades a doenças genéticas, como a doença de Tay-Sachs e a anemia falciforme). Hoje virou moda dizer que as raças não existem, que são puramente construções sociais. Embora isso certamente seja verdade com respeito aos escaninhos burocráticos como ‘de cor’, ‘hispânico’, ‘asiático/habitante de ilha do pacífico’ e à regra generalizante para ‘negro’, é um exagero quando falamos das diferenças humanas em geral. O antropólogo e biólogo Vincent Sarich observa que uma raça é apenas uma família imensa e parcialmente endógama. Algumas distinções raciais, portanto, podem ter um grau de realidade biológica, embora não sejam fronteiras exatas entre categorias fixas. Os humanos, tendo evoluído recentemente de uma única população fundadora, são todos aparentados, mas os europeus, como se reproduziram principalmente entre si durante milênios, são em média parentes mais próximos de outros europeus do que de africanos ou asiáticos, e vice-versa. Como os oceanos, desertos e cordilheiras impediram as pessoas de escolher seus parceiros aleatoriamente no passado, as grandes famílias endógamas que denominamos raças ainda são discerníveis, e cada qual tem uma distribuição de freqüência de genes um tanto diferente das demais.” O livro traz bastante informação sobre a questão dos ianomâmis, defendendo o Napoleon Chagnon, que você cita em seu também excelente Ianoblefe. Pinker ataca três mitos presentes há séculos no pensamento humano, especialmente caros às esquerdas do nosso tempo: o mito da mente como “tabula rasa”, sem nenhum componente inato, como se todos os seres humanos nascessem iguais e todos os traços da personalidade, do caráter, dos gostos, fosse aprendido, fosse exclusivamente advindo da cultura; o mito do “bom selvagem”, este especialmente caro às muitas bestas que no Brasil costumam ostentar o título de antropólogos; e o mito do “fantasma na máquina”, este especialmente caro aos religiosos, com suas crenças em almas e espíritos, ou seja, o de que a mente é algo mais do que o armazenamento e processamento de informações no cérebro, de que a mente não pode existir tendo como componente apenas a matéria. O autor se baseia em terreno sólido: a neurologia, a psicologia evolucionista e a biologia. Eu recomendo a leitura da obra. Tenho a forte impressão que o livro vai te agradar muito. Um grande abraço.
Quinta-feira, Março 26, 2009
AFRODESCENDENTADA DIVIDIDA Comentei ontem a questão das cotas. E reafirmei meu respeito aos negros que se recusam a entrar na universidade pela porta dos fundos. São pessoas que geralmente não têm espaço na imprensa, pois remam contra a correnteza. Verdade que, nos últimos anos, jornalistas e escritores já começaram a perceber que o sistema de cotas só serve para fomentar racismo. Mas constituem uma minoria impotente. Quanto mais que gritam e mostram o óbvio, mais o sistema de cotas avança no mundo acadêmico e já ameaça o mercado de trabalho. Assim, foi com surpresa que li ontem, no Estadão, em página nobre, artigo do advogado José Roberto F. Militão, membro da Comissão de Assuntos Antidiscriminatórios Conad-OAB/SP e ex-secretário geral do Conselho da Comunidade Negra do governo do Estado de São Paulo, títulos que à primeira vista sugerem um defensor das cotas. Militão é negro mas não caiu nesta armadilha do racismo negro. “Estamos trilhando a contramão da história" – escreve o advogado. “Sem pensar nas gerações futuras, leis e políticas públicas estão racializando o Brasil e violando os artigos 5.º e 19.º da Constituição, segregando direitos da cidadania. Não é disso que precisamos. Queremos que o Estado nos assegure o direito à igualdade de tratamento e de oportunidades, o que não equivale a privilégios raciais. (...) No caso da escassez de vagas nas universidades, não é razoável que, sem qualquer novo investimento público, sob alegação de falacioso direito racial, venha o Estado retirar vagas de brancos pobres para entregá-las a pretos também pobres, oriundos de mesma escola pública e mesmo ambiente social. Basta, portanto, a reserva de 50% das vagas por meio de critérios sociais e de origem na escola pública, suficientes para ampliar oportunidades e igualar a disputa entre os pobres. Com isso também se reduz o privilégio dos ricos”. Até aí assino embaixo. É o que venho afirmando há mais de década. O leitor, se tiver paciência, pode conferir nos jornais: depois da queda do Muro de Berlim, aumentaram consideravelmente nos jornais as alusões a raça e racismo. As motivações não exigem grande esforço intelectual para serem entendidas. São sempre as esquerdas, mais precisamente as viúvas do Kremlin, que empunham a bandeira das cotas. Tornou-se ridículo falar em lutas de classes. A antiga nomenclatura, a oposição entre proletariado e burguesia, tornou-se obsoleta. Tão absurda como a luta de classes. Desde há muito os chamados proletários querem fugir de sua classe e incorporar-se a dos então chamados burgueses. Tanto que – exceto alguma múmia perdida nos trópicos, como Niemeyer – já não ousam empregar este vocabulário. Ora, sem luta as esquerdas não sabem como respirar. Morta a luta de classes, instaurou-se a luta racial. Militão não caiu neste conto das viúvas. Mas não escapou do conto da Unesco: “A Constituição federal repudia a classificação racial e está conforme as convenções internacionais que, desde a 2.ª Guerra Mundial e desde a Declaração Contra o Racismo da Unesco, de 1950, têm reiterado o consenso de que a luta contra o racismo exige esforços estatais para a destruição da crença em raças. Isso pressupõe a necessária abstenção do Estado para não legitimar essa crença racial”. Ora, se a Constituição repudia a classificação racial, todos os sensos do IBGE são inconstitucionais, já que definem claramente as raças predominantes do Brasil: branca, mulata (no caso, chamados de pardos), pretos e índios. Ora, raça é um conceito científico e não político. Quando os Estados Unidos não aceitam que um turista ou migrante branco latino-americano se defina como branco no pedido de visto, usa-se um conceito político e não biológico. Esta política oficial americana é um dos últimos resquícios das infamantes leis Jim Crow, declaradas inconstitucionais pela Suprema Corte americana em 1954. No entanto, desde 1880, constituíram a base legal da discriminação contra negros nos Estados do Sul, proibindo até mesmo um estudante passar um livro escolar a outro que não fosse da mesma raça. Militão demonstra bom senso ao denunciar a injustiça flagrande das cotas. Mas pretende que o Estado destrua a crença em raças. Em bom português: quer que o Estado elimine o conceito de raça. A virgindade de Maria é uma questão de crença. Mas a existência de raças não. Há até algo de religioso nesta pretensão. É como se após os animais se diferenciarem a partir de raças, alguma mão divina interrompeu a evolução e decretou: depois do Homo Sapiens, não se fala mais em raça. Ora, sejamos coerentes: se não se fala mais em raças humanas, tampouco se fale em raças animais. Não existem mais dálmatas, buldogs, bassets, beagles, dobermanns, filas, chihuahuas, chowchows, cockers, malteses, pequineses, pitbulls, poodles, yorkshires, São Bernardos, rottweilers. Mas apenas cães. Urgem esforços estatais para destruir as infames denominações de raças árabe, crioula, Holsteiner, mangalarga, puros sangues ingleses, espanhóis e lusitanos, lipizzaners, appaloosa e quartos de milha, percherons, paint horses, campolinas, favacho, JB, Bela Cruz. O que existe são simplesmente cavalos. Abaixo o racismo no mundo animal! Mas os negros que abominam Militão por sua recusa em aceitar a política de cotas são os mesmos que também o abominarão por sua defesa da abolição do conceito de raça. A afrodescendentada está dividida. Se antes das cotas, os apparatchiks dos movimentos negros defendiam esta bandeira, agora é outro o trote da mula. Ser negro tem vantagens. Então é claro que raça tem de existir. Não bastasse assumir a ditatorial proposição da Unesco, o advogado encerra seu artigo com chave de ouro, citando Malcolm X: “Com sabedoria, nossas avós ensinaram: somos homens e mulheres "de cor". Elas deduziam que a cor de pretos e pardos é uma característica biológica natural, diferente do conceito de "raça negra" - uma construção social para oprimir, violar a dignidade dos humanos de cor e sonegar a inteira humanidade, conforme dizia o líder afro-americano Malcom (sic!) X”. Ora, quem foi Malcolm X? Um ativista negro americano e racista, que pregava a violência e se converteu ao Islã. Este sim acreditava em raças, tanto que defendia a separação total entre brancos e negros. Como Aiatolavo, Militão é outro que ouviu o galo cantar mas não sabe onde. No fundo, o velho e humano desejo de poder e privilégios. Quanto mais for intensificada a luta racial no Brasil, mais vibrarão as viúvas. A ditadura de uma classe foi sonho de uma noite de verão. Quem sabe uma ditadura racial? Talvez não ditadura, mas a boa e antiga supremacia racial, agora com sinal invertido? A esperança nunca morre.
Quarta-feira, Março 25, 2009
ASTRÓLOGO EXCOMUNGA APEDEUTA O caso da menina de Alagoinha nos proporcionou um colossal festival de besteiras, alimentado por pessoas que jamais tiveram um código de Direito Canônico em mãos e pouco ou nada entendem do instituto da excomunhão. Sobrou até mesmo para um doublé tupiniquim de Nostradamus e Torquemada, que se pretende ao mesmo tempo astrólogo, filósofo e cristão. No fundo, demonstra uma desperdiçada vocação para bartender, capaz de elaborar exóticos coquetéis com os mais incompatíveis ingredientes. Escreve Aiatolavo no Diário do Comércio: O sr. presidente da República mostra-se escandalizado, chocado, abalado até o fundo de seus sentimentos éticos mais nobres quando a Igreja discorda de sua singela opinião de que para proteger uma criança deve-se matar duas. Se ele fosse ateu, budista ou membro da Seicho-no-Ie, tudo o que os católicos poderiam fazer diante de seu discurso abortista seria resmungar. Mas ao defender o aborto como dever moral, ele insiste em enfatizar que o faz "como cristão e católico", o que o enquadra, sem a mais mínima possibilidade de dúvida, na categoria dos heresiarcas. Heresia, para quem não sabe, não é qualquer doutrina adversa à da Igreja: é falsa doutrina católica vendida como católica – exatamente como o discurso presidencial contra Dom José Cardoso Sobrinho. Mas, no fundo, isso não faz a menor diferença. Vamos à citação literal do que disse o Supremo Apedeuta: “Como cristão e católico, lamento profundamente que um bispo da Igreja Católica tenha um comportamento conservador como esse. Não é possível que uma menina estuprada por um padrasto tenha esse filho, até porque a menina corria risco de vida”. Ou seja, nada entendeu do que seja ser cristão ou católico. Como cristão, até que poderia manifestar-se a favor do aborto. Sempre encontrará alguma seita cristã que o admita. Como católico, não. Em 1869 – há apenas século e meio - o Papa Pio IX declarou que o aborto constitui um pecado em qualquer situação e em qualquer momento que se realize. No que vai nada de extraordinário. Lula é useiro e vezeiro em falar do que não entende. Enquadrar um analfabeto na categoria dos heresiarcas já constitui uma impropriedade óbvia e mais, um insulto a todo heresiarca que se preze. Heresias são doutrinas, não bobagens soltas ao vento por um falastrão que de religião nada entende. Neste sentido, o astrólogo sequer percebeu ter concedido um upgrade ao apedeuta. Promoveu-o a doutrinador. Mas o besteirol maior vem mais adiante. Continua o Nostradamus tupiniquim: Por seu apoio continuado e impenitente aos regimes e partidos comunistas, Lula já está excomungado latae sententiae faz muito tempo e não precisa ser excomungado de novo. A excomunhão latae sententiae, isto é, "em sentido amplo" decorre automaticamente de ações ou palavras, independentemente de sentença oficial e até mesmo de aviso ao excomungado. Ouviu o galo cantar e não sabe onde. Se o papa Pio XI definiu o comunismo como intrinsecamente mau em sua encíclica Divini Redemptoris, em 1937, isto nada tem a ver com o caso. Assim fosse, há muito estariam excluídos da comunhão da Igreja milhares de cardeais, arcebispos, bispos e padres. Ser comunista não está incluído entre os nove itens que implicam esta punição do Direito Canônico. Aiatolavo – que há horas vem demonstrando sua ignorância da doutrina que diz professar – está excomungando Lula por conta própria. Ora, não me consta que astrólogos detenham poderes excomungantes. É o roto xingando o descosido.
QUEM QUER COTAS, QUE AS ASSUMA NO DIPLOMA Em julho de 2006, escrevi artigo intitulado “Nazismo negro e guilda branca”, no qual comentava a nuvem de estupidez que pairava sobre o Congresso nacional naqueles dias. Não que sobre o Congresso costumassem pairar nuvens de inteligência. Mas naqueles dias a estupidez concentrou-se e ameaçava cair como chuva sobre o país todo. Dois projetos, que pretendiam mandar o Brasil de volta alguns séculos para trás, estavam sendo discutidos em Brasília. Um deles, o do senador Paulo Paim, já aprovado no Senado, queria mandar o país de volta à América racista do tempo das leis Jim Crow, ou talvez à Alemanha hitlerista ou mesmo à África do Sul do apartheid. O Estatuto da Igualdade Racial, de autoria do senador, decretava a extinção do mulato. Mais ainda, previa a identificação racial dos negros em documentos de identidade. Segundo o Estatuto, os negros passariam a ter carteirinha de negro. Curioso observar que nas décadas passadas os movimentos negros haviam concluído que raça não existia. Agora passou a existir e deve constar em documento. Como o branqueamento é bastante generalizado no Brasil, talvez fosse melhor uma tatuagem ou adereço bem visível, como Hitler instituiu na Alemanha para judeus e homossexuais. Daí o título de meu artigo. Há poucos dias, recebo irado email de um cidadão negro: Nazismo negro... Que colocação mais lamentável. Você classifica uma etnia inteira como nazista. Se esquece que muitos de nós negros que cursamos ou estamos cursando uma faculdade, não utilizamos o sistema de cotas. Em primeiro lugar, louvemos as virtudes da Internet. Escrevo um artigo há quase três anos e ainda hoje estou recebendo contestações. Isto jamais existiu no tempo do jornalismo em papel. Em segundo lugar, não classifiquei etnia alguma como nazista. Classifiquei como nazista o projeto do senador gaúcho. Sei que muitos negros não utilizam o sistema de cotas e tenho por estes o maior respeito. São pessoas que não querem ganhar no tapetão e sim entrar na universidade por seus próprios méritos. Pelos mails que recebi desde então, sei que estes leitores têm grande apreço pelos artigos que tenho escrito sobre a questão negra. Continua o irado leitor: Mas parece que você "esqueceu" dos horrores que os negros passaram e passam no país. Dia desses vi dois dos "ameaçados" de sua etnia perseguindo, a bordo de um belo carro do ano, uma senhora negra, já com as costas curvadas, pelo simples prazer de importuná-la. Casos em que minha etnia passa por situações como essa, existem aos milhões. Estranho não ver colunistas importantes comentando com tal repúdio tais casos. Não sou e nunca fui a favor dessas cotas universitárias. Sou a favor de uma cota por respeito. Uma que, utopicamente falando, reduza o desrespeito que a sua "ameaçada etnia" dispensa a esse enorme contingente, que corresponde a 5,4 por cento da população brasileira, em pelo menos 25 por cento. Para começar, nunca afirmei que os de minha etnia estão ameaçados. O leitor está colocando palavras em minha boca. Pessoas de carro perturbando transeuntes perturbam tanto negros como brancos. Ser desrespeitado no trânsito, no Brasil, nunca foi privilégio de negros. De repente, o leitor transforma um caso em milhões. Diz querer uma cota por respeito. Ora, respeito todo mundo quer, sejam brancos ou negros. Daí a cota por respeito, vai uma longa distância. Se me falar em cota por pobreza, sejam os beneficiados brancos ou negros, até posso considerar a idéia. (No fundo, nem esta a aprovo. A universidade é para os melhores e não tem por função praticar caridade). Mas por que só o negro pobre teria tal direito? O leitor brande de novo minha “ameaçada etnia”. Mas quem falou em ameaçada etnia? Meu interlocutor atribui sandices a meu artigo para melhor atacá-lo. Isso se chama desonestidade intelectual. Não tema que no amanhã, você tenha que se deparar com negros que venham a te suplantar em eficiência, dentro de uma redação de um jornal ou revista qualquer. Com relação ao termo mulato, ele deve mesmo ser extinto. Estude a etimologia da palavra e em como ela é ofensiva. Não para você é óbvio. Mas para um grande contingente, sim, ela é. E agradeça à estupidez desse congresso. Sem ela, você não poderia cometer essa leviandade de classifica-nos como o fez, chamando a nós negros de futuros nazistas. Não no amanhã, mas em meu passado mesmo, encontrei tanto na universidade como nas redações de jornais negros de grande competência profissional. Eles não entraram na universidade por cotas. Foram admitidos concorrendo lealmente com seus colegas brancos. Quanto à estupidez, sempre a deploro, jamais a agradeço. E repito: jamais chamei os negros de nazistas. Defini como nazista o projeto do senador. E defino como nazistas todos os negros que defendem a idéia de uma carteirinha de negro para beneficiar-se de vantagens. Como definiria como nazista todo branco que brandisse uma carteirinha de branco. Mas nem todos os negros participam desta loucura, já que nem todos são racistas. Amanhã volto ao assunto. Last but not least, se consagradas definitivamente as cotas, deixo modestamente minha sugestão. No diploma dos negros que entraram na universidade por este sistema, que conste em letras garrafais: ADMITIDO NA UNIVERSIDADE PELO SISTEMA DE COTAS Quem defende a idéia, que a assuma publicamente.
Terça-feira, Março 24, 2009
QUE TÊM A VER COM ATEÍSMO CRÍTICAS À BÍBLIA, À IGREJA OU AO PAPA? (I) Quando comento a Bíblia ou critico a política da Igreja ou pronunciamentos do papa, recebo uma saraivada de emails me acusando de ateu militante. Este personagem – costumo afirmar – é um religioso de sinal trocado. No fundo, no fundo mesmo, está doidinho para encontrar um outro deus qualquer, mais de acordo com suas idiossincrasias. O que explica o aparente paradoxo de certos autores que fazem do ateísmo uma profissão e, ao final da vida, convertem-se à “verdade”. São vigaristas que, tendo exaurido os ganhos de um lado do balcão, passam a faturar do outro lado. Que mais não seja, que tem a ver ateísmo com críticas à Igreja ou com a constatação de contradições insanáveis na Bíblia? Nada a ver. Leio no Journal du Dimanche, edição de domingo passado, que mais de 40% dos católicos franceses querem a renúncia do Papa, em função de seus últimos despautérios. Pelo menos 43% dos católicos franceses esperam que o Papa Bento XVI renuncie, ou se aposente, contra 54% que não desejam que isso aconteça (3% não se pronunciaram), de acordo com o Institut français d’opinion publique (IFOP). Ou seja, não são os malvados ateus que estão cansados com o papado de Bento XVI, mas o próprios católicos. Outros dados da pesquisa: A proporção de católicos franceses que desejam a saída de Bento XVI chega a 47% entre os não-praticantes, mas cai para 31% entre os católicos praticantes. Interrogados sobre se a Igreja Católica deve "modificar seu discurso e suas posições para levar em conta as mudanças que se apresentaram na sociedade e nos costumes", uma ampla maioria dos católicos franceses estima que "sim", sobretudo, no que diz respeito aos métodos anticoncepcionais. Segundo a pesquisa, 85% desejam que a Igreja modifique sua posição sobre a contracepção (75% entre os católicos praticantes); 83% esperam que faça o mesmo sobre o aborto; 77%, sobre o casamento entre divorciados; e 69%, sobre a homossexualidade. Por último, 49% dos católicos franceses consideram que o Sumo Pontífice não defende "muito bem" os valores do catolicismo. O fato é que a Igreja está há muito dividida. Segundo Phillippe Portier, especialista em catolicismo contemporâneo e diretor de Estudos do Grupo Sociedades, Religiões e Laicidade da Escola Prática de Altos Estudos da Sorbonne, há múltiplas igrejas no interior da grande Igreja. “Os bispos e o Papa tentam produzir uma unidade mas se chocam com a vontade de pluralidade desejada pelos próprios católicos. Os católicos hoje se organizam conforme suas próprias concepções de fé, independentemente de um aparelho que não consegue mais lhes controlar”. Por mais que Sua Santidade declare a excomunhão de quem aborta, considere doentes passíveis de cura os homossexuais ou condene o preservativo, católicos – que não pretendem renunciar à sua condição de católicos – nem ligam ao que Bento ou a Igreja dizem. E continuam praticando aborto, fazendo sexo como e com quem bem entendem e usando preservativos. A autoridade que a Igreja de Roma exercia sobre seus fiéis há apenas meio século, de lá para cá foi corroída pelo tempo. Ou seja, criticar a Igreja ou seu líder há muito deixou de ser atitude de ateu. Se a pesquisa do IFOP fosse feita no Brasil, teríamos certamente resultados ainda mais surpreendentes.
QUE TÊM A VER COM ATEÍSMO CRÍTICAS À BÍBLIA, À IGREJA OU AO PAPA? (II) Quanto à Bíblia, não é preciso ser ateu para nela ver um livro cheio de contradições. Todo e qualquer estudioso sério do cristianismo não as nega. Para o leitor atento, as incoerências começam já no início do primeiro livro, o Gênesis. No primeiro capítulo, versículo 1: 27, temos: Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. 28 Então Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a. Já no segundo capítulo, versículo 2: 21, a história muda: Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre o homem, e este adormeceu; tomou-lhe, então, uma das costelas, e fechou a carne em seu lugar; 22 e da costela que o senhor Deus lhe tomara, formou a mulher e a trouxe ao homem. De repente, surge um elemento novo, a costela. Isso sem falar que o pecado de Adão e Eva, segundo um consenso universal, seria o sexo. Mas sem sexo, como frutificar e multiplicar-se? Ou Jeová estava um tanto confuso naqueles dias primevos, quando tudo ainda era caos, ou o hagiógrafo ouviu mal. Ora, se o Livro começa se contradizendo em seus primeiros dois versículos, pode-se imaginar o que vem pela frente, nos outros 72 livros (pelo menos da Bíblia católica), escritos ao longo de 1300 anos, a partir de tradições orais. O mínimo que se pode dizer é que foi irresponsavelmente editorado, sem a revisão de um bom controlador de texto. Por falar em Gênesis, estudiosos contemporâneos têm visto a fusão de dois livros distintos em um só, resultante da existência anterior de dois deuses, Jeová e Elohim. O Gênesis seria então obra de pelo menos dois redatores, designados pelos estudiosos como o redator javista e o redator eloísta. Jeová é mais antropomórfico, apresenta-se aos homens, entrega pessoalmente as tábuas da lei a Moisés. Elohim, que seria um outro deus, oriundo das tribos do Norte, é mais distante e impessoal. Não fala muito com os homens, manifesta-se geralmente através de arautos. O redator final da obra fundiu Jeová e Elohim, daí a incongruência de diversos momentos do Livro. Em Êxodo, 3:6, lemos, em uma antiga versão francesa da Bíblia: “Je suis l’Élohim de tes pères, l’Élohim de d’Abraham, l’Élohim d’Isaac, l’Élohim de Jacob”. Em determinado momento, surge a expressão l’Élohim des Élohim, o que nos sugere um deus que é singular e plural ao mesmo tempo. Para eludir as contradições os tradutores modernos omitiram o incômodo Elohim. Nas versões mais recentes, lemos: “Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó”. Diga-se de passagem, a tendência dos tradutores é eliminar definitivamente também o Jeová, ficando apenas com a palavra Deus. É uma forma de driblar as contradições. Não é minha pretensão deitar erudição sobre a Bíblia, livro que – modestamente – conheço bastante bem. Mas apenas salientar que o estudo de suas contradições está longe de ser preocupação de ateus. É preocupação de todo estudioso que tenta entendê-la. Sou ateu, simplesmente. Nunca convidei ninguém a participar de minha descrença. Sou ateu como sou gaúcho, brasileiro, e nunca louvei as supostas virtudes da gauchidade ou da brasilidade. Sou ateu da mesma forma que gosto de vinhos, livros, mulheres ou viagens. São características de minha personalidade que naturalmente determinam meu modo de ver o mundo e minhas opções na vida. Mas não sou nem nunca fui ateu militante. Deixo isto para os sedentos de Deus.
LEITOR ME CORRIGE Ô, Janer, Em que mundo você vive,rapaz? Eu costumava tocar uma “violinha” com a galera nos fins de semana e o violão mais caro que já tive a oportunidade de tocar ,e já toquei muitos, custava R$ 850,00, violões de R$ 8000,00 ficavam na vitrine das lojas apenas para atraírem nossos olhares cobiçosos. Ninguém, a não ser que seja um profissional ou tenha muito dinheiro, dá R$ 8000,00 num violão, ainda mais no Brasil. No mais, quaisquer R$ 500,00 dá pra comprar um instrumento razoável e “tirar” um som legal. De qualquer forma concordo que o desfalque é doloroso. Ramos Ok, Ramos. Mas o STF não especificava o valor do roubo. Violão por violão, pode ser o de um profissional ou o de um seresteiro sem maiores pretensões. Mas, como você mesmo diz, mesmo um violãozinho barato constitui um desfalque doloroso. E este é o cerne da discussão.
Segunda-feira, Março 23, 2009
RECÓRTER TUCANOPAPISTA NÃO LÊ OS MOMENTOS SUBLIMES DO LIVRO Em sua defesa obstinada do indefensável, escreve hoje em Veja o recórter tucanopapista hidrófobo: “Vocês sabem: militares israelenses são estúpidos assim. Quando precisam dar uma ordem ilegal, eles a escrevem. Em breve, alguém encontrará uma outra mais ou menos nestes termos: “Matar velhas e crianças”. É o fim da picada!” Não precisa. Já está escrito no Livro que determina a fé e as leis de Israel. Em Números 31, por ocasião do massacre dos midianitas, Moisés ordena: 14 E indignou-se Moisés contra os oficiais do exército, chefes dos milhares e chefes das centenas, que vinham do serviço da guerra, 15 e lhes disse: Deixastes viver todas as mulheres? 16 Eis que estas foram as que, por conselho de Balaão, fizeram que os filhos de Israel pecassem contra o Senhor no caso de Peor, pelo que houve a praga entre a congregação do Senhor. 17 Agora, pois, matai todos os meninos entre as crianças, e todas as mulheres que conheceram homem, deitando-se com ele. Ou em II Crônicas 36: 15: E o Senhor, Deus de seus pais, falou-lhes persistentemente por intermédio de seus mensageiros, porque se compadeceu do seu povo e da sua habitação. 16 Eles, porém, zombavam dos mensageiros de Deus, desprezando as suas palavras e mofando dos seus profetas, até que o furor do Senhor subiu tanto contra o seu povo, que mais nenhum remédio houve. 17 Por isso fez vir sobre eles o rei dos caldeus, o qual matou os seus mancebos à espada, na casa do seu santuário, e não teve piedade nem dos mancebos, nem das donzelas, nem dos velhos nem dos decrépitos; entregou-lhos todos nas mãos.
VIGARICE COM DINHEIRO PÚBLICO INVADE A GASTRONOMIA NACIONAL Em novembro de 2002, há mais de seis anos portanto, escrevi: "Em reação aos bárbaros costumes dos homens do Norte, surgiu na Itália, em 1989, o movimento Slow Food, criado pelo jornalista e gastrônomo Carlo Petrini. O ponto de partida do movimento foi a inauguração, no mesmo ano, de um Mc’Donalds na Piazza di Spagna, em Roma. É de supor-se que de gastronomia Carlo entenda. Como jornalista, não parece se dar bem com as palavras. Para começar, italiano sendo, batiza seu movimento no linguajar dos bárbaros. Por que não Lento Mangiare? Já denotaria então, na própria denominação, a origem italiana desta reação civilizada. Em suma, o movimento foi bem recebido até nos Estados Unidos e o New York Times considerou-o como uma das melhores idéias do ano em 2001. O Slow Food já tem suas representações no Brasil, com grupos ativos em Porto Alegre, Rio e Belo Horizonte e em formação em São Paulo e Salvador. "Ora, nada há de novo no Slow Food, prática que sempre existiu. Há séculos vem sendo cultuado nessas casas soberbas, que nos esperam sempre de portas abertas, nas ruas e vielas de qualquer capital do Ocidente. E não só nas capitais. Verdade que, nas pequenas cidades brasileiras, cafés e restauração são geralmente um desastre. Mas em qualquer aldeia européia que se preze, lá está aquele oásis acolhedor, que nos refrigera como leque no verão e nos aquece como um útero no inverno. Não é preciso organizar o orgânico. Não há propriamente um contra-ataque aos restaurantes Fast Food, como reivindicam os adeptos do Slow Food. O Fast Food, isto sim, foi um ataque aos hábitos de bem comer. "Defender a tal de Slow Food é mais ou menos fazer o papel de M. Jourdain, que fazia prosa sem o saber. Nós, adeptos dos antigos restaurantes, desde há muito praticamos a restauração lenta, sem necessidade alguma de nominá-la em língua de bárbaros. Se você, leitor, for um dia convidado a participar da coisa, não caia nessa estratégia de marqueteiros. Vai acabar pagando mais caro pela griffe, por algo que já sem griffe não é exatamente barato. Isso sem falar nessa deplorável falta de dignidade, a de batizar o que seria uma iniciativa italiana na língua do invasor". Leio no Estadão de ontem sobre a versão tupiniquim da antiga moda: “Por todo o País já são 19 centros Convivium - onde se praticam seus preceitos. Três deles ficam em São Paulo - um na capital e os outros dois em Campinas e Piracicaba. No mundo todo são mais de mil”. Mas não se trata mais de apenas comer com vagar. A versão brasileira introduziu um toque vegetariano ao que de vegetariano nada tinha. Segundo a reportagem, “o ponto alto da filosofia Slow Food é incutir o prazer de comer bem a todos. Mas, para isso, se faz necessário defender a cultura dos alimentos”. Ora, o que significa comer bem para os tais de conviviuns? É consumir alimentos orgânicos e regionais e degustações de alimentos em risco de extinção. “Esses produtos constam de um catálogo mundial chamada A Arca do Gosto. São 750 alimentos ameaçados no mundo todo, incluindo alguns brasileiros: arroz vermelho, babaçu, bergamota montenegrina, farinha de batata-doce Krahô, marmelada de Santa Luzia, pirarucu, umbu, palmito juçara, guaraná nativo sateré-mawé, feijão canapu e castanha de baru”. Que tem a ver isso com o comer com vagar? Onde estão as carnes, aves, caça, frutos do mar? Não existem mais peixes no mercado além do pirarucu? Ou para ser Slow Food, os alimentos agora precisam ser ameaçados? E o bom e velho boi, os cordeiros, os frangos e porcos, será que perderam seu lugar na mesa? Desde quando Slow Food é sinônimo de produtos em via de extinção? Integrantes do movimento criaram um menu especial a partir desses alimentos. "É uma dificuldade terrível, porque são produtos de diferentes partes do País, perecíveis e caros para transportar. Nos últimos dois anos, no entanto, conseguimos fazer a Semana Slow, onde não apenas preparamos um menu mas colocamos os produtos à venda", diz Margarida Nogueira, que faz parte da comissão da Arca e inaugurou em novembro de 2000 no Rio o primeiro Convivium brasileiro. Ou seja, a tal de Arca não ouviu nem metade da missa. O que no fundo não passava de uma reação italiana ao fast food americano, no Brasil virou uma espécie de culto a frutas e vegetais. Me lembra um pouco uma nutricionista que certa vez me forneceu uma lista de alimentos que me seriam saudáveis. Só havia quase frutas e mais da metade delas, se eu quisesse saber do que se tratava, teria de ir ao dicionário. Claro que nem quis saber do que se tratava. No Brasil nada se perde, tudo se corrompe. Mais uma picaretagem invade a restauração nacional. Aliás, o país está se tornando reserva de caça de chefs que têm seus restaurantes às moscas em Paris, mas pelo fato de terem um restaurante em Paris, cobram fortunas por pratos que antes de parecerem comida mais parecem ikebanas. Como crédulos é o que nunca falta para vigaristas, é até possível que dona Margarida encontre sua clientela. Ao ler a notícia, suspeitei de dinheiro público no projeto. Lá está: nove dos alimentos inerentes ao Slow Food tupiniquim “fazem parte das Fortalezas, projetos feitos desde 2004 com grupos de pequenos produtores, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, para protegê-los”. É natural que um vigarista queira vender seus peixes podres, isto faz parte de seu ofício. O que espanta é que um jornal como o Estadão os compre.
Domingo, Março 22, 2009
PARA LIVRAR-SE DA PECHA DE SOLTAR RICOS, STF LIBERA PEQUENOS FURTOS Da mesma forma que o Bento em Roma, os magistrados do Supremo Tribunal Federal parecem viver em um hipotético Olimpo, longe da História, do cotidiano e dos demais mortais. Recente decisão da Corte confirma isto. Leio na Folha de São Paulo que furtos de pequeno valor não devem ser considerados crimes, conforme já se manifestaram todos os ministros do STF em julgamentos do tribunal. Levantamento do próprio Supremo mostra que em ao menos 14 casos julgados em 2008, a Corte considerou insignificantes os delitos praticados. Claro que punir o roubo de um shampoo ou de uma galinha com um ano de prisão é uma distorção do Direito. Já tivemos o caso de uma empregada doméstica, Maria Aparecida, que mal sabia assinar seu nome, permaneceu mais de onze meses na prisão. Ela foi acusada de tentativa de furto de um xampu e um condicionar, no valor de R$ 24,00 de uma farmácia de São Paulo. Um morador de rua, no Rio de Janeiro, passou seis meses na também por furtar um shampoo, no valor de R$ 13,00. Foram casos como estes que levaram os ministros do STF a defender a aplicação do princípio da insignificância. Ainda segundo a Folha, ao analisar habeas corpus que chegaram à Corte, os ministros mandaram arquivar ações penais que corriam na primeira instância, mandando soltar aqueles que ainda estavam presos por casos como o furto de um violão, de um alicate industrial, entre outros. Esta conduta não deve ser obrigatoriamente seguida pelos demais magistrados do país, mas constituem uma clara sinalização às instâncias inferiores para que deixem de aplicar penas em casos de crimes considerados bagatelas, isto é, de baixo valor. Caso contrário, suas decisões serão revertidas quando chegarem ao STF. Tudo muito humano, tudo muito coerente. Claro está que há algo errado no ordenamento do jurídico do país quando uma doméstica passa um ano na prisão pelo furto de um shampoo e um jornalista de renome permanece livre como um passarinho após ter matado uma colega com um tiro pelas costas. Ocorre que vivemos no mundo real, e não na torre de marfim do STF. A decisão da Suprema Corte pode gerar uma onda de pequenos furtos que infernizariam a vida de todo mundo, particularmente nas grandes cidades. Se pequenos roubos não são mais passíveis de punição, lojas e supermercados serão depenados de boa parte de suas mercadorias. Nada impede que um assaltante ataque um cidadão na rua e lhe exija dez, vinte, cinqüenta ou mesmo cem reais. São bagatelas. Pelo menos para o Supremo. Para um pobre diabo que ganha um salário mínimo é um desfalque e tanto. Um gangue que imponha pedágio a adolescentes – como tantas que existem perto das escolas – não estaria cometendo crime algum se depenasse os alunos de seus trocados para gulodices. É claro que estas gangues terão conhecimento da decisão do STF. O Supremo mandou soltar um ladrão que estava preso por ter furtado um violão. Ora, um violão não é exatamente uma bagatela. São instrumentos que podem custar de oito mil a trinta mil reais. Fiquemos com os mais baratos. Para um músico bem sucedido, oito mil reais é argent de poche. Para um operário que tem alguma habilidade para a coisa e gosta de fazer a viola chorar num botequim, é um desfalque e tanto. O STF pretenderia mostrar que não são apenas os ricos com acesso a advogados que conseguem decisões favoráveis no tribunal. O presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, recebeu críticas em 2008 por ter mandado soltar por duas vezes o banqueiro Daniel Dantas. Para compensar a soltura de Daniel Dantas, os juízes vão onerar o cidadão comum, já escorchado pelas chantagens dos flanelinhas e cambistas. A Folha teve acesso aos processos dos considerados crimes de bagatela. O furto de uma garrafa de catuaba, uma garrafa de conhaque, um saco de açúcar e dois pacotes de cigarro, produtos com valor de R$ 38, por exemplo, chegaram ao STF no ano passado. Em outro caso, os ministros julgaram o furto de uma carteira com documentos e R$ 80 em espécie. O absurdo destas ocorrências não está tanto no valor dos furtos, mas no fato de que tais questões tomem o tempo de juízes que deveriam estar julgando as disputas jurídicas verdadeiramente relevantes da nação. Já tive notícias até de briga de vizinhos que chegou ao Supremo. O que deveria ser resolvido numa delegacia de polícia, acaba atulhando a pauta da mais alta corte jurídica do país. Em vez de negar o caráter criminoso de tais fatos, melhor fariam os meritíssimos se se negassem a receber tais processos. O problema não está no Direito Penal. É distorção do Direito Processual. Ora, vivemos em um país onde a ilicitude é a regra. Quando os pequenos ladrões e assaltantes souberem que o ilícito agora é lícito, será cada mais vez mais inviável sair às ruas. Enquanto isso, um camponês que mata um tatu para alimentar a família é enquadrado como autor de crime hediondo, sem direito a fiança ou liberdade provisória. Ter um passarinho em casa pode também significar um bom tempo de molho na prisão. Isto, o STF não vê.
Sábado, Março 21, 2009
PAPA NA ÁFRICA TROCA SEIS POR MEIA DÚZIA Aconteceu em 87, em Madri. Eu assistia a uma aula de cultura espanhola no Instituto de Cooperación Iberoamericana (ICI), ministrada por um professor extremamente cioso de sua hispanidade. Alguém falou da cultura francesa e ele foi fulminante: “Ustedes saben cual es número de brujas, videntes y cartomantes que hay en Francia? Y después ellos se pretienden herederos de la razón cartesiana”. Não pude deixar de dar meu pitaco: - Pero, Profesor, en vuestra España tán moderna y llena de luces, son millones los que creen en un Diós nacido de una palomita! Silêncio constrangedor na aula. Ele ficou perplexo, quase apoplético, mudou de assunto e continuou falando como se nada tivesse ouvido. Me ocorre esta lembrança a propósito da visita de Sua Santidade a Angola. Quero mudar de assunto, mas o homem não me deixa. Do alto de seu autismo e de sua condição de vice-deus, pediu aos católicos da África que combatam a superstição, a bruxaria e os maus espíritos existentes em regiões da África. E que ofereçam o Evangelho às pessoas “desorientadas, que vivem no terror”. Não sei se Bento notou, mas está concitando os angolanos a uma guerra religiosa. Bruxaria e maus espíritos fazem parte dos cultos animistas. Em nome de uma religião supostamente superior, o papa pede a todo um continente que não mais acreditem em Epilipilia, o deus da caça das florestas equatoriais, nem em Kaggen, outra entidade superior dos bosquímanos e também deus da caça, nem em Gaub, representante das forças do mal, nem em Tsui-Goab, demiurgo e chefe do povo, senhor do raio e das chuvas, que faz as plantas crescer. Muito menos em Nzambi-Karunga, deus dos hereros angolanos, senhor do tempo e mestre dos infernos, para angolanos e namíbios. Quer que os zulus esqueçam Unkulunkulu, que os zagas deixem de venerar Ruwa, que os bantus abandonem Mulunga. Que verdades oferece sua santidade em troca das superstições africanas? Nada mais que outras superstições adotadas pela Europa: a crença numa mãe virgem, num homem que é deus, que ressuscitou dos mortos, as promessas de vida eterna e de um paraíso inexistente ou, na pior das hipóteses, no fogo lento do purgatório ou no fogo eterno dos infernos. Está trocando seis por meia dúzia. Às pessoas “desorientadas, que vivem no terror”, oferece o terror do castigo eterno. Mas sobre o melhor ainda não contei. Joseph Ratzinger está preocupado com o sacrifício dos meninos de rua considerados bruxos. Logo quem! O cardeal e ex-prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, sucessora do Santo Ofício. Se em nossos dias alguém ainda não lembra do que seja o Santo Ofício, explico. Era a denominação popular, na Idade Média, da Santa Inquisição, criada pela Igreja Católica Apostólica de Roma. Que levou à fogueira milhares de pessoas – em geral mulheres – acusadas de bruxaria. A instituição foi inclusive adotada de bom grado pelos protestantes. Bento bem que podia escolher tema menos espinhoso e constrangedor para seu périplo pelo continente negro. Não há idéia precisa do número de mulheres acusadas de bruxaria que foram queimadas pela Igreja na Idade Média. Segundo Henry Charles Lea – autor do excelente Histoire de l’Inquisition au Moyen Âge – não se queimava mais bruxas individualmente. Eram queimadas aos magotes, tanto por católicos como por protestantes. Um bispo de Genebra queimou quinhentas em três meses. Média de mais de cinco por dia. Um outro bispo de Bamberg, seiscentas. Um bispo de Würzbourg, novecentas. Oitocentas foram condenadas de uma só vez pelo Senado de Savóia. Um tratado jurídico escrito por Frei Nicolau Emérico (1320 – 1399), da Ordem dos Pregadores e grande Inquisidor de Aragão, intitulado O Manual dos Inquisidores, regulamentava a tortura para obter confissões de hereges e bruxas. Uma outra obra, de autoria dos dominicanos Heinrich Kramer e Jacobus Sprenger, o Malleus Maleficarum (Martelo dos Bruxos), dedicava-se exclusivamente aos crimes de bruxaria. Se em nossos dias a tortura é escondida nos porões das ditaduras, naqueles radiosos dias do Medievo era regulamentada publicamente por autoridades eclesiásticas. Muitos eram os métodos para descobrir se uma mulher era bruxa. Os mais populares eram as chamadas ordálias, ou juízos de Deus. Eram de uma simplicidade e eficácia extraordinárias. A acusada era amarrada pelos braços e pernas e jogada num rio. Se não afundasse, era óbvio que era feiticeira: a água, elemento puro, não aceitava a bruxa, elemento impuro. Era então enviada à fogueira. Se afundasse, era porque a água, elemento puro a considerava também pura. Morria afogada. Mas pelo menos sua alma estava salva. Uma outra ordália era carregar nas mãos, de um ponto a outro, por uma distância de cerca de dez metros, um ferro em brasa. Se a infeliz tivesse as mãos queimadas, era óbvio que era bruxa ou herege. Se não as queimasse, ficava claro que era inocente. A Igreja já se desculpou – com quase quatro séculos de atraso, é verdade – pela condenação de Galileu Galilei. Mas jamais se desculpou pelas atrocidades da Inquisição. Pedir perdão seria igual a condenar dezenas de papas e isto o Vaticano jamais fez nem jamais fará. Ratzinger, herdeiro e guardião da tradição inquisitorial, preocupa-se em Angola com o sacrifício de meninos acusados de bruxaria. Haja cinismo e falta de tato.
REPUBLIC OF SHRIMPS, DEI GAMBERI, DE LAS GAMBAS OU DES CREVETTES? Ainda as palavras. Vários leitores estranharam quando, ao falar do Cameroun, escrevi: “que a imprensa brasileira insiste em traduzir por República dos Camarões”. Um deles me afirmou conhecer uma habitante do país que jurava de pés junto ser República dos Camarões, em português. De minha parte, já li artigo de um diplomata do Cameroun, lotado em Brasília, reclamando com veemência da tradução brasileira. Um outro leitor escreve: Eu já ouvi foi um torcedor camaronês na época de uma das Copas do Mundo, reclamando da mesma coisa. Na Enciclopédia Britannica, que eu julgo confiável, mais que a Wikipedia, com certeza, encontrei o seguinte texto: The country's name is derived from Rio dos Camarões (River of Prawns)—the name given to the Wouri River estuary by Portuguese explorers of the 15th and 16th centuries. Camarões was also used to designate the river's neighbouring mountains. Until the late 19th century, English usage confined the term the Cameroons to the mountains, and the estuary was called the Cameroons River or, locally,the Bay. In 1884 the Germans extended the word Kamerun to their entire protectorate, which largely corresponded to the present state. Permanece minha dúvida. Para Costa do Marfim temos em inglês, Cote d’Ivoire. Em francês, Côte d’Ivoire. Em espanhol, Costa de Marfil. Em italiano, Costa d’Avorio. Seguíssemos a mesma norma, teríamos para Camarões, respectivamente, Republic of Shrimps (ou of Prawns, já que o camarão seria de rio), République des Crevettes, Republica de las Gambas, Repubblica dei Gamberi. Se a Britannica traduz Rio dos Camarões por River of Prawns, por que não usaria o mesmo critério para demoninar o país? No entanto, não é assim. Em inglês temos Cameroon, em francês, Cameroun, em espanhol Camerún e em italiano Camerun. Me parece muito inviável que, do ponto de vista lingüístico, Camarões tenha derivado para estas denominações. Que mais não seja, no site em português da embaixada do país, lá está: Embaixada da República do Cameroun no Brasil. A Secretaria de Comunicação da Universidade de Brasília (UNB) fala em República de Cameroun. No Portal Consular do Ministério das Relações Exteriores, temos: “República do Cameroun (em francês) ou Cameroon (em inglês). Em português é constantemente referido como República dos Camarões”. Ou seja, nem a embaixada do país nem o MRE põem a mão no fogo por Camarões. A meu ver, a tradução usual brasileira foi mais uma dessas versões canhestras que invadem a língua e são adotadas pela imprensa. Quando trabalhava na Folha de São Paulo, sugeri ao responsável pelas normas de grafia do jornal que a Folha teria poder suficiente para consertar este erro. "Agora é tarde" - me respondeu.
PALAVRAS, PALAVRAS... São misteriosas, as palavras. Às vezes, imaginamos que são modernas e são no entanto antiqüíssimas. Sempre tive sororité como um achado das feministas francesas. Nada melhor do que ter leitores atentos. De Ilha Solteira, SP, Aloísio Celeri me alerta: Janer, Sobre "sororidade", que eu não conhecia, curiosamente o Houaiss não a registra. Em inglês, ela existe desde 1532: http://www.etymonline.com/index.php?term=sorority. Abraços. Lá está: sorotity: "body of women united for some purpose". Mais ainda, vem do latim sororitas, "sisterhood, of or pertaining to sisters". O que resta saber é se o sororité não foi uma dedução espontânea das viragos gaulesas. Pode acontecer. Grato, Aloísio.
Sexta-feira, Março 20, 2009
SORORIDADE CONTAMINA O PARLAMENTO EUROPEU O movimento feminista começou empunhando uma bandeira interessante, a libertação da mulher do jugo masculino. Logo logo descambou para o ridículo. Isto começou provavelmente com Simone de Beauvoir que, em O Segundo Sexo – livro que contaminou gerações de cabeças ocas – afirmava que uma mulher não nasce mulher. Se torna mulher. Daí a afirmar que não havia diferença alguma entre homem e mulher foi um passo rapidamente transposto. A histeria feminista acabou invadindo os vernáculos. Homens deixou de ser genérico de homens. Tornou-se quase obrigatório – quando se falava dos seres humanos em geral – usar a expressão homens e mulheres. Os políticos, como bons demagogos, logo adotaram a moda. Na França, ninguém mais se dirigia aos franceses, mas aos franceses e francesas. Político algum hoje no Brasil se dirige aos brasileiros em geral. Mas aos brasileiros e brasileiras. O politicamente correto passou a dominar o idioma. No país da Simone, o ridículo chegou a tal ponto que as feministas pretenderam trocar o “liberté, egalité, fraternité” por “liberté, egalité, sororité”. Quando eu imaginava que feminismo era um fenômeno do passado, surge na Espanha a soror Bibiana Aído, ministra da Igualdade, que num excesso de sororidade falou, ano passado, em seu primeiro comparecimento à Comissão de Igualdade no Congresso de Deputados, em “miembros y miembras”. Ante o pasmo de seus interlocutores, explicou que o lapso fora provocado por sua recente visita a uma cúpula na América Latina, “onde se utiliza uma terminologia similar”. Se reconheceu o lapso, não descartou a hipótese de que a expressão poderia ser incluído no vernáculo. Protesto indignado de Gregorio Salvador, da Real Academia Española: “Isto só pode ocorrer a uma pessoa carente de conhecimentos gramaticais, lingüísticos e de todo tipo. A língua é um sistema econômico de expressão e o masculino, neste caso, vale como termo neutro que serve para masculino e feminino”. Para o acadêmico, a ministra da Igualdade deveria deixar de fazer piadas e ocupar-se em resolver problemas de desigualdade preocupantes que há na Espanha, como as dificuldades que têm os pais em algumas comunidades para que seus filhos estudem castelhano. Se na Espanha Bibiana foi relegada ao ridículo, Bruxelas o retomou. Imbuído de uma mescla de feminismo e linguajar politicamente correto, o Parlamento Europeu está propondo um rígido manual de estilo acabar de uma vez por todas com o uso sexista da língua. É o que leio no El País. O Grupo de Alto Nível sobre Igualdade de Gênero e Diversidade da Câmara européia não chega ao ridículo do “miembros y miembras”, mas não fica longe disto. Não se deverá mais falar em todos os membros do Comitê, mas em “cada membro do comitê”, o que pelo menos elude o masculino. Em suas orientações específicas para o espanhol, o gíficas para o espanhol, o grupo recomenda que, em vez de usar-se “os andaluzes”, que aparentemente exclui as andaluzes, se empregue a forma mais ecumênica de “o povo andaluz”. O rídiculo não fica nisto. Não se deve mais falar em médicos, palavra que deve ser deslocada por uma perífrase: as pessoas que exercem a medicina. A intolerável palavra homem deve ser a todo custo evitada e substituída por expressões não excludentes do sexo feminino, como as pessoas, a gente, os seres humanos ou a espécie humana. Nada de homem médio, mas pessoas comuns. Nem as crianças escapam do stalinismo lingüístico. Não se fala mais em “los derechos del niño” (em português diríamos criança), mas nos direitos da infância. Aeromoças e pilotos se convertem em pessoal de vôo. As mulheres da limpeza são agora pessoal da limpeza. A palavra senhorita é eliminada, por sexismo em relação a senhor, palavra que não designa um estado civil. Senhorita deve então ser chamada de senhora. Assim, em um vôo, jamais diga “por favor, aeromoça, me traga um uísque”. O correto é: “por favor, pessoal de vôo”. Nem o inglês, língua que pouco se importa com o gênero, escapa. Como em fireman (bombeiro) consta a palavrinha maldita – man – deve-se agora dizer firefighter, o que luta contra o fogo. É espantoso que nesta Europa agressivamente ameaçada pela islamização de suas próprias leis, pela invasão de migrantes famintos e, presentemente, por uma crise que está gerando desemprego em massa, o Parlamento Europeu se dedique a discutir o sexo dos anjos. Não tivesse Bibiana Aido se precipitado com sua trouvaille, hoje suas “miembras” não soariam tão ridículas. Que viva la España, que ainda resiste.
Quinta-feira, Março 19, 2009
DIAS DE BROWNING A síndrome de Down está virando gênero literário, escrevi outro dia. Pelo jeito, vai virar também filão cinematográfico. Estava previsto ser transmitido nesta quinta-feira, na Grã-Bretanha, pelo canal 3 da BBC, um documentário sobre Otto Baxter, 21 anos, portador da síndrome. Sua mãe, Lucy Baxter, está promovendo uma campanha para que Otto consiga ter todas as experiências que outros jovens de sua idade têm, inclusive sexo. Não vai ser fácil. Raras vezes estive perto de um portador da síndrome. Nestas raras vezes, os vi como seres patéticos, comoventes, extremamente afetivos. Ou quem sabe faltos de afeto, que é a outra face da moeda. Em meu bairro, eles abundam. Quando os vejo na rua, inevitavelmente me salta a exclamação: e ainda há quem acredite em Deus! Imagino que seja um carga pesada para um pai e uma mãe descobrir o mal em um filho que nasce. Merecem nosso afeto? Muito mais que qualquer outro. Daí a encontrar pessoa normal que os aceite sexualmente vai uma longa distância. A mãe de Otto está ajudando o filho a espalhar cartazes procurando companhia, e abriu uma página na internet para que o filho possa fazer contatos em busca de um relacionamento sexual. Ora, mesmo entre pessoas normais, não é normal espalhar cartazes buscando companhia. Não é assim que se faz e a moça devia ter consciência disto. Quanto a contatos na Internet, poderá conseguir até mesmo sexo virtual. Já é algo. Sexo de fato, jamais. Todo ser humano, mesmo os portadores de Down, deveria ter consciência de suas limitações. Quando não a têm, é normal que sofram mais do que já sofrem. Seria como pedir para um homem desprovido de pernas a mesma vida dos que têm duas. Há males irremediáveis no mundo e a melhor filosofia é aceitá-los com todas suas seqüelas. Ou partir. Também é uma hipótese. A mãe de Otto, pelo jeito, quer os holofotes da mídia. Mas os holofotes não lhe trarão parceira alguma para o filho. Esta é uma das nobres funções da prostituição, proporcionar refrigério aos desvalidos. Lucy já pensou no assunto. É com certo tom de ameaça que anuncia estar disposta a pagar uma prostituta para que o filho possa experimentar sua primeira relação sexual. "Discutimos se ele deveria ir a Amsterdã (onde a prostituição é legalizada). Eu absolutamente consideraria essa possibilidade", diz. Se as desumanas jovens britânicas não aceitarem o filho como namorado, a mãe apelará ao horrível recurso do sexo venal. Deveria ter considerado a idéia há muito tempo, em vez de nutrir no filho falsas esperanças, que só tornarão mais amarga sua vida. Não seria difícil encontrar uma profissional sensível que tratasse do Otto discretamente, longe da mídia. Mas Lucy Baxter queria que seu filho levasse uma vida comum, "que ele fizesse as mesmas coisas que qualquer outra pessoa, por isso fiz questão que ele fosse para uma escola comum", disse ela em entrevista à BBC. Ora, Otto não é comum. É incomum. É claro que estaria melhor servido em uma escola especial. A mãe insiste: "Tive trabalho com as autoridades, que queriam que ele fosse a uma escola especial, mas acredito que ele tem direito a ter as mesmas oportunidades que qualquer outra pessoa". Acontece que não tem. Nem pode ter. Ter as mesmas oportunidades seria poder ser médico, professor, político e mesmo – por que não? – deputado ou primeiro-ministro. Claro que isto não é dado a um Down. O coitado do Otto já está até acreditando na hipótese: "Eu realmente quero. Estou numa missão para encontrar uma namorada. O motivo é que eu quero ter sexo. Estou procurando namoradas em todo lugar". Mais realista seria ir a Amsterdã. Se bem que na Grã-Bretanha não faltarão profissionais que realizem seu sonho. A mídia parece ter exaurido o exibicionismo erótico e está apelando a um outro tipo de exibicionismo, o do sofrimento alheio. Há pessoas exibindo a própria morte nas telas. Aconteceu também na Grã-Bretanha. Em fevereiro passado, Jade Goody, uma ex-participante do Big Brother britânico – em país culto também tem baixaria – acometida de câncer terminal na coluna cervical, já calva em função da quimioterapia, casou-se em frente às câmeras. O evento foi oferecido à emissora que pagasse mais pela exibição. O objetivo de Goody seria nobre, destinar o dinheiro à educação de seus filhos. Mas não se pode deixar de ver um mórbido exibicionismo no espetáculo. Goody quer agora morrer ao vivo, com perdão pelo paradoxo. Se antes o grande público se satisfazia com pornografia – que, bem ou mal, é uma celebração da vida – temos agora voyeurs para um outro tipo de shows, o show da morte. Que deve ocorrer nas próximas semanas. Cultores da morte, estejam a postos ante suas TVs. Tudo isto me lembra um dos filmes mais marcantes que já vi em meus dias de Estocolmo: Freaks, do cineasta americano Tod Browning. Talvez mais sinistro que Uma arma para Johnny, de Dalton Trumbo. O filme é de 1935 e só poderia ser realizado nessa época, quando as pessoas disformes eram aproveitadas para exibição em circos. E é em um circo que transcorre a ação do filme. Assistimos a um desfile de monstros que vivem harmoniosamente entre si. Um humor sinistro percorre o filme o tempo todo. Há o homem-tronco, que não tem pés nem braços, “caminha” com movimentos peristálticos da barriga e acende um cigarro com a boca. Uma mulher sem braços que toma vinho segurando a taça com o pé. O mais patético é talvez um par de siamesas, unidas pelos quadris. Ocorre que uma delas casa e a outra – como só poderia ser – tem de acompanhá-la em seus enlevos com o marido. Mais trágico ainda: uma é alcoólatra. Quando bebe, a outra também se embriaga. Na época, Browning não agradou. Como o público não estava preparado para tal choque, o cineasta recebeu críticas negativas e foi boicotado nos cinemas. O filme foi banido em vários países do mundo e hoje só pode ser encontrado em cinematecas. Pelo clima que observo em nossos dias, está na hora de ressuscitar a obra de Tod Browning. Tem tudo para fascinar multidões. O distinto público já está preparado.
Quarta-feira, Março 18, 2009
PAPA AUTISTA LEVA MENSAGEM DE MORTE AO CONTINENTE AFRICANO Há quem julgue que minhas repetidas críticas à Igreja Católica decorrem de algum trauma de minha adolescência, quando era católico. Nada disso. É claro que tive noites de pânico com as ameaças de inferno e purgatório e sofri o que hoje considero um atentado aos direitos humanos, a humilhação da confissão. Mas tudo isso passou e não deixou nem mossa em meu espírito. Concentro as críticas na Igreja Católica, porque é a Igreja que está no poder. Não foram evangélicos nem judeus nem espíritas que criaram a Inquisição. Foi a Igreja Romana. Não foram evangélicos nem judeus nem espíritas que criaram o PT, que apóiam e sustentam a guerrilha dos sem-terra. É a Igreja Católica. Não são evangélicos nem judeus nem espíritas que estão caindo como abutres sobre a menina de Alagoinha, sua família e os médicos que a salvaram. É a hierarquia da Santa Madre. Isso sem falar em Sua Santidade. Há horas quero esquecer o pastor alemão, mas ele não me dá esse prazer. Alguns papas já passaram por minha vida e confesso jamais ter visto padre tão inábil, déspota e mesmo ignorante dos artigos da fé que devia conhecer a fundo. Os leitores que me perdoem, mas não posso deixar passar de mão beijada a última sandice do Sumo Fazedor de Pontes. O que mais tem feito, em verdade, são muralhas que cada vez afastam mais a barca de Pedro de nossa era. Segundo o Bento, o problema da Aids não pode ser resolvido pela distribuição de preservativos e o uso destes só serve para agravar o problema. Disse isto no vôo que o levava a Iaundé, capital do Cameroun – que a imprensa brasileira insiste em traduzir por República dos Camarões – justo um dos países africanos mais devastados pela peste. Há dois anos, os infectados somavam 510 mil, contra 43 mil em 2004. Não por acaso, o Cameroun é um país de forte influência católica, onde esta religião é professada por 40% de seus nacionais. Dos 39,5 milhões de acometidos pela doença no mundo, 25 milhões estão na África subsaariana. (Estes dados são de 2006). Desde há muito se sabe que a propagação da Aids no continente negro se deve em boa parte à influência da Igreja, que proíbe a seus fiéis o uso de preservativos. O cachimbo entorta a boca. Habituado a professar dogmas e convicções na base do credo quia absurdum, não soa estranho a Bento um absurdo a mais ou um absurdo a menos. Desta vez, exagerou. Se o fato de desexcomungar um negacionista – que tinha sido excomungado não por ser negacionista, diga-se de passagem - provocou celeuma no mundo todo, com esta declaração o papa chegou perto da unanimidade. É muito fácil afirmar que Deus é três em um ou que Maria é virgem. Não há como fazer perícia. Já afirmar que preservativos só servem para agravar o problema da Aids é bem mais complicado. Sua Santidade desafia a medicina e o bom senso. Fora a Cúria Romana e alguns gerontes da hierarquia vaticana, que por dever de ofício devem apoiar o papa, ninguém endossa esta grossa potoca do Bento. Em reportagem do Libération, os protestos se acumulam. Para Béatrice Luminet, responsável pela Médecins du Monde, esta palavras são “gravíssimas quando se vê o impacto que este tipo de mensagem pode ter na África, onde vivem dois terços dos soropositivos do mundo. Elas terão evidentemente um impacto em termos de perturbação das mensagens de prevenção, particularmente sobre o continente africano onde o catolicismo é mais influente. Pregar a abstinência é fora da realidade”. Os comunistas há décadas andam de namoro com o Vaticano, mas o secretário nacional do Partido Comunista Francês (PCF) foi mais longe: “as palavras pronunciadas pelo papa para inaugurar sua primeira viagem ao continente africano podem ser qualificadas de irresponsáveis e criminosas”. Para Jean-Luc Romero, presidente de uma associação francesa contra a Aids, se trata de “uma mensagem de morte endereçada aos africanos”. Já Alain Juppé, ex-primeiro-ministro francês e católico praticante, considera que “este papa começa a ser um verdadeiro problema, pois vive em uma situação de autismo total”. Em verdade, a culpa não é exatamente do Bento, mas da ojeriza secular ao corpo e ao prazer nutrida pela Igreja Católica. João Paulo II preconizava o mesmo. Desde há muito defendo, para espanto de muitos leitores, a denúncia da política vaticana ao Tribunal Penal Internacional ou à Corte de Haia. Porque o que a Igreja de Roma está promovendo, em bom português, chama-se genocídio. Impávido, isolado na torre de marfim vaticana, Bento XVI só vê a abstinência e a fidelidade conjugal como solução à Aids. Aposta numa inexistente condição angelical do ser humano e quer conduzir os sofridos africanos a uma morte atroz.
Terça-feira, Março 17, 2009
QUANDO FÉ PRODUZ SOFRIMENTO (I) Quando celebrei o sumiço de meu tumor, de um leitor que se assina Kleber, recebi mensagem das mais cristãs: “Na garganta pode ser um sinal do Divino que você tanto nega. Um aviso para que você pare de falar besteiras a Seu respeito”. Em princípio, o leitor é um cristão coerente. O Divino é um deus ciumento e cioso do respeito à sua deidade. Pune com morte, tortura e sofrimentos até mesmo quem nele não crê. Não precisa nem ofender. Basta descrer. Continuando, o leitor carece de razão. Nas última crônicas, quase não tenho falado sobre o Divino. Tenho apenas reproduzido suas divinas palavras. Se elas ferem o senso de humanidade contemporâneo, paciência. Estão lá no Livro. Nada posso fazer. De qualquer forma, o Divino do Kleber se revelou incompetente. Este câncer, tirei de letra. Que mande outro, se não quiser ficar desmoralizado, ante até mesmo o próprio leitor que me escreve imbuído de tanto amor. Confesso que não me inquietei nem um pouco ao descobrir o tumor. Primeiro, todo homem tem sua hora e minha vida foi bem vivida. Se tivesse de partir agora, já teria sido de bom tamanho. Claro que sempre esperamos por mais uns dias. Em meu caso, pelo menos enquanto puder viajar, beber, namorar e comer, quero ficar. Quando estiver impossibilitado disto, bom, aí é hora de fazer as contas e dizer tchau pros amigos. Tampouco me inquietei porque, analisado bem o tumor, intuí que a hora não havia chegado. Quais são minhas chances? - perguntei ao médico. Altas, me disse, algo em torno a 95%. 100% só com Deus. Tive de discordar. Com Deus, doutor, é zero por cento. Dele ninguém escapa. Escreveu Jean Rostand, biólogo: “Quem mata um é assassino, quem mata milhões é conquistador, quem mata todos é Deus”. Em meio a isso, tenho recebido inúmeras mensagens de regozijo, de leitores que me querem bem. Gratíssimo, caros. No que depender do Divino do Kleber, ainda me resta um bom tempo para divertir-me às custas dos crentes. Não tenho medo da morte. Tem medo quem acha que vai encontrar tribunais no Além. Como sei que não há tribunal nem coisa alguma, partirei tranqüilo. Quando quiser chegar, que chegue. Ficarei triste, apenas isto. Triste porque a festa da vida vai continuar e dela estarei ausente. Talvez até mesmo chore, como chorei um dia em Madri, ao perceber que dali a duas horas estaria voando para longe de Madri, isto é, abandonando as madriles, el vino y las canciones. Sim, acho que será mais ou menos assim. Quem parte, descansa. Sofre é quem fica. Pena que hoje ninguém mais morre lúcido. Morremos todos sedados. Morresse com meus sentidos despertos, gostaria de ter uma banda mariachi cantando em torno a meu leito funerário. Mujeres muy lindas, rechulas de cara, así son las hembras en Guadalajara. En Jalisco se quiere a la buena porque es peligroso querer a la mala, por una morena echar mucha bala y bajo la luna cantar en Chapala. Ou talvez ao som de tangos, de preferência na voz de Libertad Lamarque: Adiós muchachos, compañeros de mi vida, Barra querida de aquellos tiempos. Me toca a mi hoy emprender la retirada, Debo alejarme de mi buena muchachada. Adiós muchachos. Ya me voy y me resigno... Contra el destino nadie la talla... Se terminaron para mí todas las farras, Mi cuerpo enfermo no resiste más...
QUANDO FÉ PRODUZ SOFRIMENTO (II) Em meio a isto, leio no El País de hoje notícia das mais significativas sobre como os crentes enfrentam a morte. “Um estudo publicado em 2006 mostrava que rezar por alguém não melhorava seu estado de saúde. O trabalho, feito nos Estados Unidos, foi apenas uma aproximação mais à interferência (ou não) entre a fé e a ciência. Mas há outros parâmetros que abrigam esta influência. Os especialistas em medicina paliativa sabem que as pessoas com um profundo sentimento religioso suportam melhor o mal-estar dos últimos dias. Mas isto pode voltar-se contra elas. Uma nova investigação demonstrou que as pessoas mais crentes são mais inclinadas a prolongar artificialmente suas vidas”. João Paulo II que o diga. Vice-Deus e líder da cristandade, na hora do Jesus-está-chamando apelou à medicina de ponta e aferrou-se o quanto pode a esta boa e velha terra. O corpo pedia para partir, mas seu espírito se manteve sempre apegado a esta nossa vil matéria. Verdade que, lá em seus estertores, acabou pedindo água: “Deixai-me encontrar o pai”. Sempre entendi que todo cristão coerente deveria sentir-se feliz ante a perspectiva de sua morte. É a tão esperada chance de encontrar-se com o criador. Mas não é que vemos à nossa volta. Em A Peste, pela voz de Paneloux, Camus escreve: “Há muito tempo, os cristãos da Abissínia viam na peste um meio eficaz, de origem divina, de se obter a eternidade. Aqueles que não haviam sido atingidos se enrolavam nos lençóis dos pestíferos para terem a certeza da morte. Sem dúvida, este desejo furioso de saúde não é recomendável, pois denota uma deplorável precipitação, bem próxima do orgulho. Não se deve ser mais apressado do que Deus. Tudo o que pretende acelerar a ordem imutável, estabelecida de uma vez por todas, conduz à heresia. Mas este exemplo, pelo menos, traz sua lição. Para nossos espíritos mais clarividentes, faz luzir este brilho delicado de eternidade que jaz no fundo de todo sofrimento. Esta luz ilumina os caminhos crepusculares que conduzem à libertação. Ela manifesta a vontade divina que, sem falhar, transforma o mal em bem". Submissão total. Mas isso lá na Abissínia. Não é o que vemos nos dias contemporâneos. Já nem falo do Vice-Deus. Mas o vice-presidente da República, homem profundamente crente, sempre que vê pela frente a Indesejada das Gentes, vai correndo em busca de excelência médica. Diz não temer a morte. Mas faz tudo para evitá-la. Como dizia Dom Sebastião: “morrer, sim. Mas não já!” Volto à reportagem. A pesquisa foi feita no Dana-Farber Cancer Institute, e consistiu no acompanhamento da evolução de 345 pessoas com câncer terminal. O tempo médio de sobrevivência foi de 122 dias. A principal descoberta foi que os pacientes que se definiam como mais religiosos se submetiam mais vezes a tratamentos como respiradores artificiais e outras técnicas agressivas, que não têm capacidade curativa mas servem para prolongar a agonia. Segundo o coordenador da pesquisa, Andrea C. Phelps, do Beth Israel Deaconess Medical Center (Boston), “um tratamento agressivo ao final da vida quando se tem câncer associa-se amiúde com uma pior qualidade de morte, o que pode representar um efeito negativo para as pessoas mais religiosas”. Confesso que jamais tive muito convívio com a Indesejada das Gentes. Viajar é fugir da morte. Ou talvez das mortes. Quando meu pai morreu, eu estava em Lisboa. Quando foi a vez de minha mãe, eu perambulava por Segóvia. A única morte que vi de perto, e isto já próximo aos sessenta, foi a de minha Baixinha. Sem esperanças nem temores em relação ao Além, há muito ela me pedia que, caso sofresse de uma dessas doenças que reduz uma pessoa a vegetal, eu a levasse até a Suíça, onde a eutanásia já era legal. Não foi preciso. Antes de partir, com um sorriso lindo que me fez chorar, ela sussurrou: "não tenho medo da morte". É o que, ateu, também peço. Mas já não se precisa ir à Suíça. Há muito médico no Brasil, com suficiente senso de humanidade, para desligar o paciente na hora adequada. Ao arrepio da lei, é claro. Melhor assim. Prolongar o gozo é ótimo. Mas não vejo sentido algum em prolongar o sofrimento. Já o crente, morre em meio a dúvidas. Viaja rumo ao desconhecido. Terá mesmo o tal de julgamento? Será que fui justo o suficiente para ser absolvido? Mesmo que mereça a salvação, quanto tempo ficarei em banho-maria no purgatório? E se não merecer? Vou queimar pela eternidade? O pobre diabo se apega então a qualquer segundo de vida, para protelar a passagem. Fé torna-se sinônimo de tortura. Encontrar o Divino, sim. Mas não já!
Segunda-feira, Março 16, 2009
ONU ADERE À MINHA PROPOSTA Para não dizer que jamais fumei um cigarro, lá pelo meus oito ou nove anos cheguei a pôr um na boca. Dei uma tragada, não gostei, joguei-o fora. E até hoje não entendo essa gente que diz ter sido coagida a fumar pela propaganda. Ora, em meu clã todos os varões eram fumantes. Nasci vendo faroestes onde não lembro se quem fumava mais era o mocinho ou o bandido. Como qualquer brasileiro, fui exposto à toda carga publicitária da indústria do tabaco. E nunca me ocorreu fumar. Drogas, muito menos. Para não dizer que nunca fumei maconha, em Estocolmo, lá por 71, em uma festinha de brasileiros em uma residência universitária, me passaram um bagulho duas ou três vezes. Para não bancar o estraga-prazeres, dei duas ou três tragadas. Estariam no quarto uns dez barbados e três suequinhas adolescentes. Eu era o único a falar sueco. Perguntou-me uma delas: - Vocês, brasileiros, são todos assim? - Como assim? - Ficam fumando maconha, olhando para o próprio umbigo e não conversam? Expliquei à adorável lourinha nórdica que eu não era brasileiro. Era gaúcho. E não era assim, gostava de conversar. Convidei-as para um vinho em meu quarto. Toparam. Deixamos a brasileirada entretida com o próprio umbigo. Chez moi, bebemos toda a noite. Não digo até sol nascer, já que era verão e sol não nascia. Não nascia porque não se punha, ora pois! Foi um de meus mais belos dias em Estocolmo, beber uma noite toda com as meninas, enquanto os panacas se enfurnavam em seus silêncios no quarto ao lado. Foi esta a única vez em que senti o cheiro da marijuana. Não gostei e nunca mais pensei no assunto. O que não me atraía na erva, creio não ser tanto seu consumo, mas seus consumidores. Todos gregários, encerrados em si mesmos e, via de regra, sem um pingo de vida inteligente. Mais do que a droga, dela me afastaram seus cultores. No entanto, desde sempre defendi a liberação das drogas. Penso que devem ser vendidas em farmácias ou casas especializadas, como em Amsterdã. Quem quiser, que as consuma. Que sejam advertidos dos riscos à saúde e à vida. E quem quiser morrer, boa viagem. A liberação tem uma vantagem imediata, desmonta as quadrilhas do tráfego. Aliás, de um carioca, ouvi um argumento insólito: “não é conveniente. A bandidagem vai se voltar para os seqüestros”. Não creio. Seqüestro não é tão simples como vender drogas na esquina. Exige logística, negociação, clandestinidade. Riscos demais. Além disso, não conta com a cumplicidade do seqüestrado. Quanto à droga, no Brasil e em muitos países do mundo, há muito deixou de ser clandestina. Na Espanha, onde vivi um ano – e onde as drogas são proibidas -, vi maconha e cocaína sendo vendidas, à noite, em cada esquina, com a mesma nonchalance com que se vende bilhetes de loteria. Na Plaza del Angel, em pleno casco viejo, e ao lado de algumas tascas que adoro, chocolate era vendido como pipoca. (Chocolate é – ou era – a gíria madrilenha para maconha). Vi gente se picando em plena luz do dia em praças e fontes, e certamente não estavam injetando insulina. Nos jornais, li notícias de vizinhos que chamavam a polícia para ver montes de seringas acumuladas em pátios de prédios. Em suma, todo mundo sabia onde estava a droga. Menos a polícia. Como aqui. Para toda e qualquer pessoa que quiser consumir drogas, basta ir até a esquina e informar-se onde ela é vendida. Se é que já não sabe. Já devo ter contado um caso emblemático que presenciei em São Paulo. Em meus primeiros anos na cidade, morei próximo à rua Canuto do Val, notório ponto de comércio de drogas, controlado por traficantes nigerianos. Ninguém ignorava o fato no bairro. Nem o barbeiro, nem taxistas, nem quitandeiras, nem donos de restaurantes. Muito menos a vizinhança. Isso foi em 1990. Lá por 95, numa transversal, a Francisco Martins, surgiu um bar noturno, o Máfia Nigeriana. Era a sede da máfia da Canuto do Val. Bom, só no ano 2.000 a polícia descobriu – certamente a contragosto – que ali operava uma ativa quadrilha de traficantes. Que hoje mudou-se para uma esquina em prosa e verso cantada, a da Ipiranga com a São João. A afrodescendentada migrou toda para lá e opera à luz do dia, frente aos transeuntes e viaturas de polícia que por ali passam. Ou seja, discutir a legalização da droga no Brasil é hipocrisia. Há muito está legalizada. Pelo jeito, estamos fazendo escola. Leio na última Veja que, semana passada, uma reunião da Comissão de Entorpecentes da ONU em Viena, definiu os princípios da política antidrogas internacional para os próximos dez anos. “O impressionante – diz a reportagem - não é o plano para o futuro, mas o balanço da última década. A tentativa de criar um mundo livre de drogas, proposta na reunião da ONU de 1998, foi um fracasso. Estima-se que 210 milhões de pessoas, ou cinco em cada 100 adultos, usaram algum tipo de droga ilícita nos últimos doze meses. A proporção mantém-se inalterada desde a década passada”. E sempre será um fracasso. A capilaridade do tráfego é tal que não há polícia que o reprima. Além do mais, os traficantes contam com uma cumplicidade importante, a dos consumidores. Os clientes do tráfico parecem ainda não ter-se dado conta de que, a cada baseado que consomem, estão financiando a criminalidade. Não há quem ignore que toda e qualquer rave é movida a ecstasy, nem mesmo os pais dos adolescentes que delas participam. Só a polícia ignora. Ou seja, até as ditas boas famílias já aceitam o consumo de drogas por seus rebentos. Impotente, a ONU está pensando na menos pior das soluções, a liberação. E tende a adotar a solução brasileira, o “liberou geral”. Ou, se quisermos dar-lhe mais importância, a do falecido Nobel de Economia, Milton Friedman, que já defendia a legalização das drogas na década de 70. A esta tese, aderiu inclusive o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Segundo seus defensores, "os governos poderiam taxar e regulamentar o comércio de drogas, tirando-o das mãos dos traficantes e diminuindo a violência associada à disputa por mercados consumidores. Com esse dinheiro, financiariam programas de tratamento de dependentes e educariam seus cidadãos sobre os malefícios dos entorpecentes”. A diferença entre esta proposição e o quadro brasileiro é que entre nós a droga continua - pelo menos teoricamente - proibida por lei. O governo não recebe taxa alguma e o lucro todo é das máfias. Por esta razão, o mais ferrenho adversário da legalização das drogas é o próprio tráfico. Polícia e demais autoridades, em nome da moral e dos bons costumes, apóiam a posição dos traficantes. De graça não há de ser.
MENSAGEM DO FOREST Caro Janer Cristaldo, obrigado por este seu belo artigo. Nada mais singelo e completo ao mencionar as idiotices da igreja católica ao longo dos séculos. Eu tenho postado alguns comentários a respeito desse aborto e até já desafiei o bispo de Olinda a discutir teologia comigo, uma vez que esses imbecis se julgam donos de todo o conhecimento. A desamoralização dessa instituição tacanha não mais podemos medir. Nos Estados Unidos os casos de pedofilia cometidos por padres é assustador, e nunca vi um desses bispos dizer uma só palavra contra esses tarados. Nunca foram e nunca serão excomungados. Depois de tudo, excomunhão e nada são a mesma coisa. Roma está perdendo fiéis em grande quantidade a cada ano, pois ninguém suporta tanta baboseira que vem da boca desses nefastos sacerdotes. A igreja de Roma deve tomar vergonha na cara e parar de se meter em assuntos seculares. Ou ela está embriagada e pensando que a maléfica Inquisição ainda vigora? Um abraço, Harry de Forest
Domingo, Março 15, 2009
REVIRAVOLTA: VATICANO RETIRA APOIO AO ARCEBISPO DO RECIFE E segue o baile no galpão, como se diz em meus pagos. Está longe de chegar a um final a affaire da menina de Alagoinha. O caso dividiu águas e está provocando cisão na Igreja de Roma. Que não se espere um cisma, a Santa Sé está hoje muito desmoralizada para bater pé em torno de seus princípios. Mas uma menina de nove anos conseguiu trazer à tona a obstinação de uma instituição medieval, cega na defesa de sua doutrina absurda, e o descompasso desta doutrina com o mais comezinho humanismo laico contemporâneo. Leio no El País de hoje que o presidente da Academia Pontifícia para a Vida, Rino Fisichella, reprovou na capa do Osservatore Romano, jornal oficial do Vaticano, o arcebispo de Olinda e Recife por ter declarado a excomunhão da mãe e dos médicos que praticaram aborto na menina de Alagoinha. Fisichella vai mais longe: defende os médicos excomungados por levar a cabo a interrupção da gravidez. "São outros os que merecem a excomunhão e nosso perdão, não os que te permitiram viver e que te ajudaram a recuperar a esperança e a confiança”, disse, dirigindo-se diretamente à menina. Para o arcebispo italiano, o caso ganhou as páginas dos jornais só porque o arcebispo de Olinda e Recife se moveu apressadamente para declarar a excomunhão. Lamenta ainda as conseqüências do episódio: “ressentiu-se a credibilidade de nosso magistério, que a muitos pareceu insensível, incompreensível e privado de misericórdia”. Resumindo: a Cúria Metropolitana apoiou o anúncio da excomunhão pelo arcebispo. Altas autoridades vaticanas, inicialmente, endossaram este apoio. Em oposição ao Vaticano, a CNBB a reprovou. O Vaticano faz agora marcha a ré, fecha com a CNBB e reprova a atitude do bispo. Mas ninguém imagine que o cardeal Fisichella condene o instituto da excomunhão. O que ele condena é a pressa de Dom José em anunciar o fato. “O aborto não espontâneo sempre foi e continua sendo condenado à excomunhão. Não era necessário, a nosso juízo, tanta urgência em dar publicidade a um fato que se dá de maneira automática”. Na verdade, o cardeal se desdiz. Se antes afirmava que não merecem a excomunhão “os que te permitiram viver e que te ajudaram a recuperar a esperança e a confiança”, na frase seguinte afirma que estes estão mesmo excomungados. O pecado do arcebispo foi abrir a boca. Bastou uma anônima menina ter engravidado por estupro nos grotões do Nordeste para embatucar a Igreja, ora dividida em torno à questão. No fundo, a teimosia vaticana. Para defender um dispositivo introduzido há século e meio em um código canônico – que não tem força alguma de lei em sociedades laicas – entra em confronto não só com o mais comezinho senso de humanidade contemporâneo, mas também com a legislação brasileira. Como a Igreja está vendo seu rebanho mermar no mundo todo, seus sacerdotes tentam salvar pelo menos alguma coisa do naufrágio. Daí o vai-e-vem de pronunciamentos das autoridades religiosas, que não conseguem mais sustentar o obsoletismo de Roma.
Sábado, Março 14, 2009
QUANDO PURPURADOS APELAM À MENTIRA Me desculpem os leitores, mas esta novela estou acompanhando com gosto. Nada a ver com as bobagens da rede Globo. É novela das boas, da vida real. Tem estupro, aborto, Código Penal, padres, bispos, arcebispos, Cúria, CNBB, Vaticano, Código Canônico. Melhor ainda, não tem roteiro. Nas novelas da Globo, o roteirista sempre arranja um jeito de agradar o público. Sem roteirista, os personagens desta novela têm de encontrar suas próprias saídas, que estão longe de agradar a todos. Nas novelas televisivas, o roteirista sempre tenta encontrar alguma lógica. Nesta novela, “A Menina de Alagoinha”, há uma montanha de lógicas que se anulam umas às outras. O que se vê, antes de mais nada, é uma instituição que se pretende dona da verdade recuando ante a reação indignada do século. Se a Igreja levou quinhentos anos para reabilitar Joana d’Arc e quase quatro séculos para desculpar-se ante Galileu, hoje o Vice-Deus se desdiz de janeiro para fevereiro. Em carta endereçada aos bispos de todo mundo, o papa Bento XVI acaba de admitir publicamente que o Vaticano cometeu erros e gerou turbulência no interior da Igreja Católica no episódio da suspensão da excomunhão de clérigos ultraconservadores, um dos quais negou abertamente o Holocausto. Atribuiu sua mancada ao fato de “não ter buscado dados na internet antes de decidir pela reabilitação do religioso acabou por gerar tensões”. Ora, se o Vaticano pensa usar a Internet como fonte, teremos declarações no mínimo surpreendentes de Sua Santidade nos anos a vir. De qualquer forma, é prazeroso constatar que a infalibilidade pontifical, neste ano da graça de 2009, tem prazo de validade de um mês. Em terras brasílicas, um arcebispo no Recife anuncia a excomunhão dos responsáveis pelo aborto de uma menina de nove anos, o Vaticano o apóia e a CNBB o desautoriza. É o tipo de novela que me apraz e qual não perco nenhum capítulo. Quem dá explicação, já perdeu a discussão. Dado o clamor nacional e mesmo internacional suscitado pela atitude desumana da Igreja em relação à menina de Alagoinha, padres, bispos e arcebispos estão se explicando desesperadamente nas páginas dos jornais. A cada explicação, se enrolam cada vez mais. A Cúria Metropolitana de Olinda e Recife, fortaleza de Dom José Cardoso, tomou obviamente a defesa do chefe: “Todos os esforços desta Arquidiocese foram no sentido de salvar a vida das três crianças". Não é verdade. Em nome da preservação da vida dos fetos, a Cúria pouco se importava que a mãe morresse. Tentando remendar o irremendável, em entrevista para a Veja desta semana, diz Dom José: “Então, não é lícito, para salvar uma vida, eliminar a vida de dois inocentes. O fim não justifica os meios. Eu posso ter uma finalidade ótima, salvar a vida daquela menina grávida. O meio para chegar lá pode ser usar todos os recursos da medicina. Mas nunca, jamais, eliminar a vida de um inocente para salvar a vida de outro. O aborto é um crime nefando”. Ora, se não se pode eliminar a vida de um inocente para salvar a vida de outro, tanto faz salvar um como o outro. Ou os nascituros terão prioridade? Sobre isto, o Código Canônico é silente. Diz a nota da Cúria que “a penalidade da excomunhão é aplicada automaticamente aos adultos - não à menina de nove anos - com a finalidade da conversão de quem praticou o aborto, pois é missão da Igreja levar todos à salvação”. Ocorre que quando padres falam de salvação, estão falando da salvação eterna. Na Idade Média, os inquisidores torturavam com carinho os hereges, para salvar-lhes não o corpo – afinal, este já estava destinado à fogueira – mas pelo menos a alma. Sublime amor à humanidade! Dom José e seus defensores não pensam diferentemente. Diz ainda a nota que “esta disciplina foi estabelecida pela Santa Igreja desde o século I e é mantida desde então, conforme diz o catecismo da Igreja Católica no número 2271, promulgado oficialmente pelo Papa João Paulo II: "Este ensinamento não mudou, continua invariável, o aborto direto, quer dizer querido como um fim ou como um meio, é gravemente contrário à lei moral". Não é verdade. O catecismo pode afirmar tal bobagem, mas a História o desmente. A proibição do aborto não foi estabelecida no século I, mas em pleno século XIX, mais precisamente em 1869, quando o papa Pio IX declarou que o aborto constitui um pecado em qualquer situação e em qualquer momento que se realize. Até então, prevalecia a tese do hilomorfismo, defendida por Santo Agostinho, que diferenciava o "feto animado" do "não-animado" . Enquanto não tivesse forma humana e orgãos básicos o feto não seria, ainda, um ser humano. Não teria alma , porque a alma é a forma do corpo. Esta tese foi adotada em 1312 , pelo Concilio de Viena. Em 1588, Sixto condenou o aborto em todos os casos e os puniu com a excomunhão. Mal transcorreram três anos, Gregório XIV voltou à teoria do hilomorfismo e restabeleceu o conceito do Concílio de Viena. Ou seja, esta intromissão da Igreja na vida secular, em verdade, data de apenas século e meio. Os bispos de Olinda e Recife estão precisando de algumas liçõezinhas primárias de História. Os padres, bispos e cardeais, em verdade sabem disto. Mas omitem este fato. O Vaticano fecha com a nota da Cúria. Para o chefe do Conselho Pontifício para a Família, do Vaticano, Gianfranco Grieco, "a Igreja nunca pode trair o seu anúncio, que é defender a vida desde a concepção até a morte natural, mesmo em face de um drama humano tão forte como o da violência contra uma criança". Já para o cardeal Giovanni Battista Re, presidente da Comissão Pontifícia para América Latina, "o verdadeiro problema é que os gêmeos concebidos eram pessoas inocentes, que tinham o direito inegável à vida. A Igreja sempre defendeu o direito à vida e deve continuar a fazê-lo, sem adaptar-se às modas de cada época ou ao oportunismo político". Desta forma, dois altos próceres da cúria vaticana manifestaram seu apoio ao purpurado de Recife. A Comissão Nacional dos Bispos do Brasil, após uma primeira declaração covarde, na qual condenou o estupro mas preferiu nem tocar no assunto da excomunhão, agora volta à carga. E desautoriza tanto o Vaticano, como Dom José e a Cúria Metropolitana. O secretário-geral da CNBB, Dom Dimas Lara Barbosa, disse que a mãe da menina não está excomungada, pois agiu sob pressão e com o objetivo de salvar a vida da filha. "Não temos elementos para dizer qual médico está excomungado e qual não está. Depende do grau de consciência de cada um", disse ainda Dom Dimas. Segundo o secretário-geral, estão excomungados somente os profissionais "conscientes e contumazes" na prática do aborto. Quer dizer, fica o dito pelo não-dito. O arcebispo anuncia a excomunhão, o Vaticano a aprova e a CNBB a anula. Está faltando liderança firme no pedaço. Segundo a CNBB, Dom José não poderia ter afirmado o que afirmou. Falando do estupro, diz Dom Dimas: “quem o comete está fora da comunhão e em grave pecado mortal. Não sabemos até que ponto é um doente mental. Se, além de muita maldade, tem também uma doença. Mas essa pessoa se exclui da comunidade e da comunhão com Deus. Está na Bíblia, que é mais que o direito canônico”. Através de um sutil jogo de palavras – “excluído da comunhão com Deus” – , o bispo dá entender que a excomunhão está no Livro. Ora, não está. Não existe na Bíblia a palavra excomunhão. É coisa da Igreja. Pecador pode não estar em comunhão com Deus. Mas se todo pecador fosse um excomungado, a Igreja toda se reduziria a um punhado de santos, se é que isto existe. Sem falar que santo também peca. Já o arcebispo tenta também tirar o seu da reta na entrevista na Veja. E a conclui com um sofisma que clama aos céus desmentido. “A diversidade de opiniões é permitida na Igreja. Agora, quando se trata de dogmas, a Igreja não pode admitir que se discorde. Quem não aceita esses dogmas está fora. E não adianta um católico dizer que, porque uma lei brasileira permite tal coisa, ele pode fazer essa coisa, como é o caso do divórcio, e ficar tranquilo. Fica não”. Ninguém estava discutindo dogmas. Discutia-se o aborto. Logo, Dom José deve estar se referindo ao aborto. De uma tacada só, o safado arcebispo coloca aborto e divórcio como dogmas. Ora, nem aborto nem divórcio constituem matéria de dogma, são apenas interdições da doutrina da Igreja e do Código Canônico. Quando purpurados apelam à mentira para safar-se da esparrela em que se meteram, a Igreja já não tem mais autoridade alguma para pronunciar-se a respeito do que quer que seja.
E O OSCAR DA CARA-DE-PAU... ... vai para ... Tarso Fernando Herz Genro, doublé de ministro da Justiça e capitão-de-mato, por sua carta enviada à página dos leitores da Veja desta semana: "Em relação à matéria publicada por VEJA na edição 2103 ("Bolsa-baderna", 11 de março), quero deixar claro que não emiti juízo sobre os homicídios que ocorreram em Pernambuco imputados a integrantes do MST. O que afirmei foi que a reforma agrária ainda está em andamento no país e que as ações do MST, em diferentes momentos, são feitas de maneira mais arrojada. Respondia, assim, a uma pergunta genérica sobre o crescimento da violência por parte dos movimentos sociais. A violência no campo, seja originária das ações dos sem-terra, seja de grileiros ou de jagunços, deve ser combatida sem trégua pelas autoridades policiais e judiciais. Jamais partiria do Ministério da Justiça qualquer condescendência em relação a qualquer tipo de homicídio". Tarso Genro Ministro da Justiça Ou o ministro está acometido de amnésia ou confia que os leitores sofram de amnésia. Em janeiro passado, o apparatchik de São Borja que afirma que "jamais partiria do Ministério da Justiça qualquer condescendência em relação a qualquer tipo de homicídio", conferiu a condição de refugiado político ao terrorista italiano, julgado e condenado na Itália, em última instância, por quatro assassinatos.
Sexta-feira, Março 13, 2009
JOÃO CARLOS BARBOSA, INSUSPEITO PRECURSOR Não sou chegado a vinhos rosés. Champanhe rosé, tudo bem. Vinho, nunca. Aliás, não sou adepto nem dos brancos. Sempre entendi, no entanto, que os rosés tinham uma elaboração especial e dependiam de certas uvas. Hoje, além da guerra contra o álcool na Europa, uma nova discussão está tomando corpo no continente. Pode-se misturar tinto e branco para fazer rosé? Segundo o Libération, a Comissão de Bruxelas respondeu sim. Quanto à França, ainda hesita. Em janeiro passado, em Bruxelas, a França aprovou com seus homólogos dos Vinte-e-sete um projeto de regulamentação européia autorizando a mistura de tinto e branco para produzir rosés. O que atualmente é proibido na Europa, exceção feita dos champanhes. Aí entra a guilda dos produtores franceses de rosé, cuja pressão deve levar a França a recuar de sua posição junto a Bruxelas, sem que isso se torne muito evidente. O voto definitivo da questão será dado no dia 27 de abril, na capital belga. A Alemanha votou contra a disposição, o que permitiria à França sentir-se menos isolada para voltar atrás. Será interessante ver o desfecho desta guerra, em um continente cujos países são extremamente ciosos de seus vinhos, queijos e cervejas. Enfim, entro na discussão para evocar um episódio de meu passado. Há uns bons trinta anos, hospedei em Paris um bom amigo do Sul. Já falei dele em crônica passada. Ganhara uma bolsa em Lyon de uma dessas instituições católicas que pretendem reformar o mundo e, principalmente, a América Latina. (As esquerdas francesas adoram fazer projetos para continentes alheios). Gauchão generoso, para mostrar um pouco do Sul brasileiro, uma vez por mês reunia seus trocados e oferecia um churrasco a seus professores e colegas de curso. Logo foi chamado pela instituição que o financiava. Teria de acabar com os churrascos ou abandonar o curso. Surpreso, o gaúcho queria saber as razões da alternativa: não haviam gostado do churrasco? Nada disso. O churrasco estava excelente. Mas ao apresentar um churrasco como prato típico do Sul do Brasil, para pessoas que só se permitiam consumir no dia-a-dia um transparente bifinho de boi, dava aos franceses uma imagem contraproducente do país. - “Te convidamos para que possas comover a burguesia francesa falando sobre a miséria no Brasil” - disseram seus anfitriões -. “Mas como vamos convencer um francês de que se passa fome no Brasil, quando apresentas o churrasco como prato nacional?” O gaúcho foi devolvido a Porto Alegre. Em seu lugar, receberam bolsa dois nordestinos, bem ao estilo morte-e-vida-severina. Assador emérito, o amigo que protagonizou este episódio se chamava João Carlos Barbosa. Era gaúcho daqueles que não se fazem mais, e sua memória ainda vaga pelas ruas de Porto Alegre. A nova discussão francesa me trouxe a memória deste bom amigo. Certa vez, me mostrou como se elaborava um rosé. Pegou um tinto e um branco e os despejou em partes iguais em uma taça. Considerei aquilo como suma heresia e pus na conta de piada de gaúcho. Em verdade, eu estava diante de um precursor.
O OSCAR DO CINISMO... ... do Mídia sem Máscara vai para... Heitor de Paola: "Portanto, esta dona Escóssia não é católica, só pensa que é. E também não tem nem idéia do que seja Inquisição e de quando ocorreu. A Inquisição medieval não matou ninguém, dona Escóssia, era exatamente isto: inquirição, discussões intermináveis sobre a boa Doutrina e a filosofia que fizeram do medievo uma das épocas intelectualmente mais férteis da história humana".
Quinta-feira, Março 12, 2009
A PERGUNTA QUE NINGUÉM FAZ A história da menina estuprada de Alagoinha é um desses casos em que os fatos parecem ter-se reunido para conspirar contra concepções dogmáticas. Algo mais ou menos como o episódio dos náufragos dos Andes. É permissível comer carne humana? A queda daquele Fairchild, em 1972, nas montanhas geladas da cordilheira, com um time uruguaio de rugby, mostrou que a resposta é: depende das circunstâncias. A gravidez decorrente de estupro de uma menina de nove anos é algo semelhante. Por mais que alguém condene o aborto, é desumano condená-lo nessas circunstâncias. Em função disso, o caso ganhou as páginas da imprensa internacional. Particularmente porque um arcebispo declarou excomungadas as pessoas que, de uma forma ou outra, participaram do aborto ou o apoiaram. Não fosse isso, o caso permaneceria ignorado entre os milhares de estupros de menores que ocorrem no país. Dom Lourenço Fleichman, outro príncipe da Igreja, quer saber o que a imprensa e o mundo têm a ver com isso: “No fundo, o mundo não tem nada com isso. Essas pessoas excomungadas não foram presas, não foram demitidas do trabalho, nem prejudicadas em nada em sua vida natural. Apenas, tendo feito um ato que fere a legislação moral da Igreja, receberam a pena prevista no Direito. O que esses jornalistas têm que ver com isso? Com que direito se levantam para condenar? Eles sim é que não têm autoridade nem competência para tratar desse assunto. Deviam ficar calados, mas a perseguição contra os critérios naturais que regem a moral católica leva-os a participar desse massacre à Igreja”. O mundo tem muito a ver, Eminência. Se o mundo nada tivesse a ver com um estupro, viveríamos em uma sociedade de bárbaros, onde ninguém se comove com o sofrimento alheio. Não é o caso. E mais do que o mundo, a imprensa tem a ver com o assunto, sim senhor! Como teve a ver com a excomunhão dos bispos ordenados pelo arcebispo Marcel Lefebvre, por João Paulo II. Ou com a anulação da excomunhão por Bento XVI. No dia em que a imprensa nada tiver a ver com fatos – e particularmente com fatos momentosos – a imprensa perde sua função, a de noticiá-los. Com que direito nos levantamos para condenar? Com aquele mesmo direito da imprensa de condenar tanto ditaduras como corrupção, tanto massacres como perseguições religiosas. Se a imprensa não tem o direito de condenar um bispo obscurantista, então tampouco tem o direito de condenar perseguições a religiosos, cristãos ou de qualquer outra crença. Aí Dom Lourenço – aposto! – mudaria o tom de sua arenga: por que a imprensa não fala nisso? O arcebispo acha que os jornalistas não têm autoridade nem competência para tratar do assunto. Autoridade, a temos de sobra, é a autoridade de qualquer ser humano que se indigna contra os sofrimentos provocados pelo obscurantismo. Quanto à competência, verdade que nem todos os jornalistas a tiveram. Mas muito menos os religiosos. “Deviam ter ficado calados” – diz o príncipe furibundo. Ora, se alguém deveria ter ficado calado, era o arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho. Se os médicos e a família da menina – as autoridades que autorizaram o aborto parecem ter sido esquecidas por Dom José – estavam excomungados latae sententiae, excomungados estavam e isto não tinha porque vir a público. Padre nenhum divulga à imprensa a quantos pai-nossos e ave-marias foi condenado a rezar o pecador que se confessa. Por que tornar pública a excomunhão? Pelo jeito, só para reforçar a autoridade de uma Igreja à qual quase ninguém hoje confere autoridade alguma. Em sociedades avançadas, uma excomunhão é motivo de riso. Mas em sociedades incultas, excomungado é uma pecha que pode ser difícil de carregar pelo resto da vida. Além do mais, se excomungadas estão todas as mães que abortam e pessoas que facilitam o aborto, então uma boa metade dos católicos do país também estão excluídos da Igreja. Dom José prefere não tocar no assunto. Diminuiria consideravelmente o número do rebanho, o número de freqüentadores das missas... e o total dos dízimos. Fora as bobagens que proferiu a respeito das leis de Deus – leis que existem só no bestunto de quem crê – Dom José está coberto de razão. Nada mais fez senão revelar o que a Igreja pensa e determina sobre o caso. As acusações devem ser endereçadas, isto sim, a essa máfia de padres misóginos que é o Vaticano, responsável pelo desumano, inútil e obsoleto Código Canônico. Como muitas almas sensíveis – ainda encontradiças nas redações – não ousam denunciar a Igreja de Roma, descarregaram todo opróbrio sobre o aiatolá de Olinda e Recife. Em defesa da instituição à qual serve, ao considerar que duas criancinhas foram mortas – o que está longe de ser consenso entre leigos ou cientistas - Dom Lourenço brande o bíblico “não matarás”. Mas este mandamento deve ser visto em seu contexto. Jeová o dirige à sua tribo, à tribo de Israel. Não matarás os de tua raça. Não matarás um judeu. Quanto às outras tribos, pode-se matar à vontade, como aliás Jeová ordena diversas vezes no Pentateuco. Em crônica passada, eu comentava a ordem de prisão, pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) do ditador Omar al-Bashir, responsável pelos massacres no Sudão. Ora, existisse o TPI nos tempos bíblicos, Jeová mereceria não uma, mas dezenas de condenação à prisão. “É impressionante a lógica dessa gente: uma menina de nove anos talvez morra.... vamos matar os seus dois filhos inocentes para que ela não morra. Literalmente é jogar fora o bebê com a água do banho....” – vocifera Dom Lourenço. Ora, a lei o permite. Como o permite em todas as nações civilizadas do Ocidente. Só em um grotão inculto do Nordeste tais despautérios encontram terreno fértil. Nas metrópoles do Sul, seriam vistos como atitudes ridículas. Se a lei não proíbe, crime não é. Isto é o que não entra na cabeça dos aiatolás. Embora vivam em país laico, comportam-se como se vivessem em teocracias. Estão negando a legislação nacional e não ocorre a nenhuma autoridade expulsá-los do país. Leis de Deus... Onde estão escritas tais leis? Na Bíblia? Ocorre que a Bíblia não é reconhecida em país algum do Ocidente como Código Penal coercitivo, ao qual todos os cidadãos devam obedecer. Não querendo bancar o advogado do diabo, há uma pergunta que jornalista algum fez: as duas meninas vinham sendo estupradas sistematicamente. Por que razões não houve queixa alguma à polícia? Por que o escândalo só eclode quando vem à tona uma gravidez? PS – Não deixe de ler o curto e lúcido artigo de Rapahel Piaia, “Em defesa do arcebispo”, em Zéfiros, blog novinho em folha - http://zefirosblog.wordpress.com
Quarta-feira, Março 11, 2009
ABAIXO BABEL! Segundo o Atlas de las lenguas en peligro en el mundo, a cargo de uma equipe de 20 lingüistas dirigidos pelo australiano Christopher Moseley, existem hoje no mundo 6.700 línguas, e metade delas corre o risco de desaparecer antes do fim do ano. O Atlas, apresentado recentemente em Paris pela UNESCO, revela que desapareceram recentemente 2.500 idiomas, entre eles o “manês” da ilha britânica de Man, extinto em 1974 com a morte de Ned Maddrell, seu último falante; o “assaax”, da Tanzânia, extinto en 1976; o “ubyh”, da Turquia, desaparecido en 1992 com a morte de Tefviic Esenc e o “eyak” do Alaska, extinto em 2008 com a morte de Martle Smith Jones. O Atlas expõe outras curiosidades, por exemplo, que um total de 199 idiomas contam com menos de dez falantes e 176 outros têm um número de falantes compreendido entre dez e cinqüenta. Segundo a Unesco, as guerras e as migrações fizeram com mais de 200 idiomas se extinguissem nas três últimas gerações. Nada menos que 538 línguas estão em “situação crítica”, 502 “seriamente em perigo” e 607 “em situação vulnerável”, conforme a classificação da UNESCO de distintos graus de vitalidade. Juventude é a época de proferir bobagens. Jovem tendo sido, claro que proferi as minhas. Na época, eu considerava que quando uma língua morria, a humanidade se tornava mais pobre. A frase, que provavelmente li em algum lugar, era bonita e cheia de efeito. Mas, cá entre nós, para que queremos línguas faladas por dez ou cinqüenta pessoas? Existirão professores nessas comunidades minúsculas para a transmissão de tais línguas? Porque despender esforços no aprendizado, já não digo de uma língua, mas de um código secreto por poucos partilhado, quando tais esforços poderiam ser encaminhados a uma língua cujos falantes possam se comunicar com o mundo? Que perde a humanidade com a morte do manês, do assaax, do ubyh ou do eyak? Para que servem essas línguas faladas por um só falante, além de monólogos? Se um homem falando sozinho uma língua de cultura já é um tanto ridículo, que qualificativo podemos atribuir a quem fala uma língua que só ele entende? Estamos à margem da insanidade. Verdade que, nestes dias, há jovens criando línguas para consumo próprio. Como exercício intelectual, passa. Mas só serve para anotações secretas de algum diário, nada mais. Que literatura, que ciência, que saber, pode produzir uma língua falada por um punhado de gatos pingados? A UNESCO faz um chamado especial frente a esta situação. “Este processo só pode ser freado se os governos e as comunidades falantes tomam medidas urgentes”. Considera ainda que se as línguas são instrumentos primordiais das expressões culturais do ser humano, a tarefa de salvaguardar as línguas em perigo de desaparição seja crucial para a manutenção da diversidade cultural no mundo. Como salvar uma língua de um, dez ou cinqüenta falantes? Impondo-a a currículos de alunos que jamais precisarão delas? Baixando decreto promovendo a língua moribunda a idioma nacional? Os desocupados da Unesco que me desculpem, esta causa é perdida. Se as civilizações morrem, por que não morreriam as línguas? A causa pode servir para a organização de congressos, colóquios e mordomias outras, que rendem a especialistas do nada viagens de turismo, hospedagens em bons hotéis e excelente restauração. Pois para isso serve a maioria dos congressos e colóquios nestes tempos de Internet. Segundo o Atlas, paradoxalmente, as regiões ou países onde há maior diversidade lingüística, como a Melanésia, a África subsahariana, a América do Sul, a China e a Indonésia, são aquelas onde há mais tendência à desaparição dos idiomas. O curioso é que os autores do Atlas não chegam à conclusão que salta aos olhos: quanto mais línguas têm um país, mais subdesenvolvido é. Você não encontra país desenvolvido que fale mais de três ou quatro línguas. Segundo antropólogos, na época do descobrimento, falava-se no Brasil cerca de 1.078 línguas indígenas. A cifra é tão suspeita como aquela que pretende existirem na época cinco milhões de índios. Que recursos tinham na época aqueles gatos pingados portugueses para levar a termo estes recenseamentos? Devido à política linguística do Estado português e em seguida do brasileiro - continuam os defensores da diversidade de línguas - de reduzir o número de línguas por meio do deslocamento lingüístico, isto é, de sua substituição pela língua portuguesa, a maior parte dessas línguas desapareceu ou está em vias de extinguir-se. Ora, é graças a esta uniformidade lingüistica que finalmente surgiu um país. Que, bem ou mal, existe como nação. Imagine um país onde se falam mais de mil línguas. A comunicação entre todos os cidadãos se torna inviável. Estes mesmo antrópologos pretendem que, hoje, no Brasil, sejam faladas mais de cem línguas. Grossa bobagem. No Brasil fala-se uma língua. E uma boa centena de códigos secretos, se quisermos. O relatório cita como exceção o guarani no Paraguai. Uma vez incorporado à Constituição Paraguaia, o número de falantes passou de 3,6 milhões em 1992 para 4,4 milhões, dez anos mais tarde. O exemplo não procede: 3,6 milhões de falantes não é o mesmo que dez ou cinqüenta falantes. Além do mais, o Paraguai mal tem seis milhões de habitantes. Ou seja, uma boa metade do país já falava a língua indígena. Há muito deixei de ser jovem. Considero hoje que língua é um idioma que tem atrás de si um Exército, Força Aérea e Marinha. Se não tiver, não é língua. É dialeto. Bascos, catalães, ocitanos, napolitanos, sicilianos que me desculpem. Morte à essas línguas inúteis, inoperantes! Que sobrevivam as mais fortes, que produziram melhor cultura! Se o planetinha ficasse reduzido a umas quinhentas ou seiscentas línguas, as comunicações seriam bem menos complicadas.
Terça-feira, Março 10, 2009
CASO DE ALAGOINHA REVELA ANALFABETISMO DA IMPRENSA Quanto mais se escreve sobre o aborto da menina de Alagoinha, mais se evidencia o analfabetismo de boa parte da imprensa, não apenas sobre catolicismo, mas também sobre Direito. Primeiro, se pretendeu que estupro fosse razão para excomunhão. Não é. Agora se pretende que houve um incesto. Leio coluna de um jornalista gaúcho que já foi policial: “E sei também que a vontade dessa menina estava viciada desde que foi estuprada pelo padrasto. A minha experiência policial em Tapes, durante alguns anos, mostrou-me que as inúmeras filhas estupradas por seus pais ignoravam que o incesto de que eram alvo era ilícito, sequer infamante. Elas faziam sexo com seus pais porque acreditavam que era normal fazer sexo com seus pais, tal o grau de sua ignorância e alienação em seu meio rural distante da civilização”. Para começar, não houve incesto algum no caso. Padrasto não é pai. Duvido que este jornalista ousasse falar em incesto, em 1992, quando Woody Allen, aos 57 anos, casou-se com sua enteada, Soon-Yi, de 21. A affaire foi anunciada urbi et orbi e não me consta que alguém tenha acusado Allen de incesto. O que para um astro de Hollywood é uma ousadia, para um pobre diabo pernambucano é crime. Verdade que isto não seria permitido no Brasil, onde a sogra não pode casar-se com o genro, nem o padrasto com a enteada. Mas se Allen quisesse viver nas condições do que se chama “união estável”, lei alguma impediria este relacionamento. Continuando: pasmem os leitores, mas incesto não constitui crime no Brasil. Pode ser eticamente mal visto pela sociedade, mas crime não é. Se a relação for com menor de 14 anos, presume-se estupro, mesmo que a relação tenha sido consensual. Mesmo assim, já há precedentes legais. Em 1996, o ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), absolveu um encanador acusado de estupro de uma menina de doze anos, em Minas Gerais. A menina afirmou em depoimento ter consentido com a relação sexual. “Pintou vontade” — disse. Uma legislação vetusta, que considera estupro toda relação — consentida ou não — com menores de quatorze anos, havia encerrado no cárcere o infeliz que aceitou a oferta. Se decorrer de violência, temos de novo estupro, tenha a vítima nove ou vinte e nove anos. Mas se a moça for maior de idade e a relação tiver sido consentida, só podemos desejar a pai e filha bom proveito e muitas felicidades. É espantoso constatar que um jornalista, que já foi policial, ignore a legislação sobre o assunto.
MAIS UMA VESTAL DENUNCIA O PMBD O senador Pedro Simon, do PMDB gaúcho, pelo jeito gostou do Ibope obtido por seu colega de bancada, o senador Jarbas Vasconcelos e passou a descer a lenha no partido que o acolhe: "O problema do PMDB - grave, mais do que os outros -, é que o PT é um partido que quer chegar ao governo, o PSDB é um partido que quer chegar ao governo e, no PMDB, a cúpula se vende por qualquer dois mil réis e não quer chegar no governo, quer pegar um carguinhos", disse o senador. Por que raios então dá o aval de seu nome ao partido corrupto? A verdade é uma só, disto sabia outro vigarista, o Darcy Ribeiro: "O Senado é o paraíso". Quem não quer uma boquinha no paraíso, mesmo sob a legenda de num partido corrupto?
Segunda-feira, Março 09, 2009
COMO PODE A FRANÇA VOLTAR À ANTIGA, BOA E VERDADEIRA FÉ Comentei, mês passado, o inquietante estudo divulgado pelo Instituto Nacional Francês do Câncer (INCA), que demoniza o álcool como fator cancerígeno. Na relação entre o que comemos e bebemos – dizia a pesquisa - e as possibilidades de vir a ter um câncer, o álcool é o primeiro a sentar-se nos banco dos réus. Na referência álcool-câncer não existiria dose protetora. As pequenas e repetidas doses seriam as mais nocivas, segundo os cientistas, que desaconselhavam até mesmo uma taça diária de vinho. Comentando isto com os médicos que nestes dias me cercam, ouvi risos e comentários cépticos. Espero que a medicina nacional não se paute tão cedo pela pesquisa do INCA. Mas a guerra contra o vinho na França está tomando proporções alarmantes. Leio no Der Spiegel que um projeto de lei proposto pela ministra da Saúde francesa ameaçou acabar com as degustações de vinho no país. Mas um protesto em massa por parte dos negociantes de vinho conseguiu alterar a lei no último momento. Roselyne Bachelot, a ministra através da qual emerge o escândalo na Europa, em uma proposta que ela escreveu para a reforma do sistema hospitalar francês, também inseriu um artigo cujo objetivo era combater o alcoolismo. Conseguiu desafetos em duas frentes. Por um lado, médicos e enfermeiras tomaram as ruas para expressar sua indignação com os corte draconianos de funcionários e a concomitante lucratividade do sistema de saúde enfatizada pelo projeto de reforma. Por outro, teve de enfrentar a fúria dos negociantes de vinhos da França. É que no artigo 24 de sua proposta, em vez de perseguir os alvos tradicionais do Ministério da Saúde, como o câncer, o Alzheimer ou a falta de doadores de órgãos, Bachelot pretendeu limitar o consumo de álcool pela juventude francesa. O alvo da ministra foi o consumo ilimitado de bebida nos chamados "Open Bars", onde adolescentes podem beber o quanto quiserem por um preço único pago na entrada. Mas a redação da lei foi infeliz, ao pedir a proibição da "oferta de bebidas alcoólicas de graça ou por um preço único". A ministra não se deu conta de que, assim formulada, a lei proibiria as amostras grátis das lojas de vinhos dos shoppings. Pior ainda: seria proibida a degustação nos inúmeros festivais de vinho da França. Só faltou os vendedores de vinho saírem pelas ruas cantando a Marseillese. Que bem poderia ter uma versão mais adaptada aos novos tempos: Allons enfants de la patrie, le jour de boire est arrivé. O projeto de lei foi visto como um atentado às tradições culinárias da França. Falou-se inclusive em "ataque à cultura". Óbvio. Vinho também é cultura. Os jornais franceses foram inundados por páginas inteiras de anúncios que consideravam a ofensiva antialcoolismo como "um novo passo em direção à proibição". O protesto foi assumido por prefeitos, líderes regionais e parlamentares de todo o país. Na noite de quinta-feira, a ameaça foi conjurada. Segundo o Spiegel, depois de um longo e aquecido debate que colocou os legisladores antiálcool contra os defensores das tradições da mesa francesa, um acordo foi feito à 1h30 da sexta-feira. A consumação livre por um preço fixo será banida no futuro, mas as degustações de vinho nos supermercados, chateaux e festivais podem continuar. Se o Senado concordar. Se não concordar, creio que sempre há uma solução. Há dois anos, eu comentava um estudo segundo o qual só um francês entre dois ainda se declara católico. E só um católico entre dois crê em Deus. A conclusão é que se a imagem da Igreja e do papa continuam boas, a esmagadora maioria dos fiéis toma distância em relação ao dogma e permanece aberta ao diálogo com outras religiões. Reside neste impasse hoje vivido pela “fille ainée de l’Église” – como já foi definida a França – a chance de uma volta à fé cristã. Se algum católico ainda lembra da doutrina da transubstanciação do pão e do vinho, está ciente de que na missa come-se a carne de Cristo e não um símbolo da carne de Cristo. Bebe-se o sangue de Cristo e não um símbolo do sangue de Cristo. E quem nisto não crer é herege. Segunda a encíclica Ecclesia de Eucharistia, no capítulo 1 § 15, lemos: “Pela consagração do pão e do vinho se opera a transformação de toda substância do pão na substância do corpo do Cristo nosso Senhor e de toda a substância do vinho na substância de seu sangue; esta transformação, a Igreja católica a chamou justa e exatamente de transubstanciação”. A solução não é nem simples, é simplória. Basta aos incrédulos franceses voltar à boa fé católica. Um vez consagrado pelas mãos mágicas do sacerdote, o vinho não é mais vinho, é sangue. Como lei alguma proíbe beber sangue na França, poder-se-ia conclamar os sacerdotes do país a multiplicar o número de missas pelo país, transformando o vinho proibido em bebida legalmente potável. Teríamos missas nos parques e praças, nas grandes avenidas e boulevards, nos cafés, cabarés e restaurantes e, por que não? – até mesmo nas igrejas. Sem falar que poderíamos degustar o sangue divino das mais diferentes cepas: Cabernet, Sauvignon, Cabernet, Chardonnais, Gamay, Merlot, Mourvedre, Pinot noir, Pinot gris, Carignon, Syrah, Semillon. Poderíamos ter uma Eucaristia de terroir: Saint Emilion, Médoc, Chablis, Margaux, Gewurztraminer, Pomerol. E, por que não, Champagne? Champagne também é vinho, logo é transubstanciável. Teríamos, aposto, um surto de vocações sacerdotais e a volta daquele país de hereges ao redil do bom pastor. Se bem conheço os franceses, as conversões eclodiriam aos montes, como cogumelos após a chuva. Sua Santidade Bento XVI parece não ter percebido esta oportunidade de ouro de converter à verdadeira fé um país hoje tão longe de Deus.
Domingo, Março 08, 2009
ARCEBISPO OBSCURANTISTA TEVE MAIS CORAGEM QUE JOVEM RECÓRTER PAPISTA Adoro quando surgem na mídia personagens como Dom José Cardoso. Eles são divisores de água. É como se Torquemada emergisse das trevas medievais para advertir que a Igreja não é essa coisa com ar de modernosa que os padres vendem. Mas sim uma instituição eterna e inflexível, que se muda nas aparências não muda em sua essência. Os Dons Josés da vida são aqueles pelos quais o escândalo vem à tona. De repente, o arcebispo lembra algo que ninguém mais, nem bispos nem mesmo o papa, quer lembrar. Que aborto é motivo de excomunhão para um católico. Mais ainda: que a excomunhão é automática, nem precisa ser decretada. Estava tudo tão bem assim, não é verdade? As católicas abortavam e continuavam se considerando membros do Corpo Místico de Cristo, como se nada tivesse acontecido. Da mesma forma, médicos e enfermeiras e pais que apoiavam a decisão da mãe. Não se sentiam nem de longe proibidos de receber os sacramentos, se é que alguém ainda se interessa por isto. O que está dizendo agora o arcebispo? No fundo, está afirmando, neste país de um milhão de abortos anuais, que uma boa metade dos fiéis da Igreja não mais podem considerar-se fiéis da Igreja. Se considerarmos ainda os países do Ocidente onde o aborto é legal, podemos aventar que uma boa metade dos católicos do mundo todo está excluída do seio da Santa Madre. Melhor o Vaticano revisar suas cifras quando gaba-se das dimensões de seu rebanho. Precisava Dom José vir a público e anunciar o óbvio, logo agora que Sua Santidade deve estar se arrancando as cãs por ter revogado uma excomunhão de João Paulo II? A própria CNBB, toda cheia de dedos, condenou em nota o aborto. Mas não disse uma palavrinha sobre a excomunhão. Para que mexer nessas coisas que se supunham sepultadas pela passagem do tempo? Mutatis mutandis, o mesmo ocorreu quando um ministro do STF declarou que é ilícito financiar o ilícito. Precisava um estraga-prazeres anunciar tal obviedade? Logo agora que o Estado sentia-se à vontade financiando as invasões e depredações dos sem-terra? Alguém perguntou? Melhor Gilmar Mendes ficasse calado. Dom José disse apenas uma bobagem, que mostra sua vocação teocrática, mesmo vivendo em um Estado laico: que as leis de Deus prevalecem sobre as leis dos homens. Ora, de fato só existem as leis dos homens. As leis de Deus só existem no bestunto de quem crê. Fora isto, o príncipe da Igreja está pleno de razão. O que me diverte nesta história é que tais gestos mexem com os dois neurônios dos supostos humanistas que se pretendem ao mesmo tempo católicos. O caso mais hilário é o do recórter tucanopapista hidrófobo da Veja. Em sua coluna de hoje, o Tico entrou em conflito com o Teco. O recórter está tentando conciliá-los, mas seu esforço não convence ninguém. Como desculpas esfarrapadas exigem não pouco blábláblá, gastou nada menos que 12.601 toques para tentar unificar o que não pode ser unificado. Por um lado, o recórter precisa defender sua fé. Toma então a defesa do sacerdote obscurantista. Que apesar de obscurantista, não deixa de ter razão. Como pretenso humanista, não pode apoiar a vontade cruel da Igreja, que quis proibir a interrupção de gravidez de uma menina de nove anos estuprada pelo padrasto. Que faz então o papa-hóstias? Dá uma no cravo e outra na ferradura. Fala da "demonização a que foi submetido d. José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife. Raramente se viu um outro caso em que as luzes foram tão servis às trevas. Já escrevi o que penso do caso. A síntese pode ser esta: “o bispo escolheu o caminho do rigor que confunde em vez do da compreensão que esclarece. E eu sou paulino: é preciso distinguir flauta de cítara.” Apanhei de muitos católicos porque, disseram, acabei condescendendo com o aborto; apanhei de muitos anticatólicos porque, disseram, tentei proteger o bispo e os princípios da religião”. É o que dá estar em cima do muro, companheiro. A situação pode ser confortável. Mas recebe-se pedras dos dois lados. Para o recórter, o bispo é autoridade na Igreja e tem a obrigação de aplicar o Direito Canônico. “Assim como um (sic!) governantes, juízes e legisladores têm de fazer valer a Constituição — inclusive quando ela não nos agrada. O jornalismo também de um quê de sacerdócio. Está obrigado a dizer a verdade”. O problema é quando o Direito Canônico conflita com a legislação de um país. Vaticano e teocracias à parte, só existe a legislação laica. Isso de leis divinas é coisa de padres misóginos ou muçulmanos fanáticos, com perdão pela redundância. Que faz então o jornalista-sacerdote com a verdade? É simples. Divide-a em duas partes e aceita ambas, como se uma nada tivesse a ver com a outra. Ao mesmo tempo em que dá razão a Dom José, o recórter tenta sair pela tangente: “A religião é uma área da experiência humana onde dilemas éticos se revelam em toda a sua complexidade. Na esfera das leis, é possível encontrar o justo. Na da religião, às vezes, resta apenas o caminho do mal menor. Já afirmei que compreendo, sim, a decisão da família e me solidarizo com a sua dor, o que me rendeu críticas aos montes”. Ou seja: Dom José tem razão. Mas a lei também. Para o recórter, o que se quer é transformar os católicos nos novos judeus do mundo. “Comprei um briga e tanto quando compreendi a decisão da família daquela pobre menina e afirmei que, no caso, o perdão seria mais elucidativo do que a excomunhão. E compro outra, agora, quando acuso o fato de dom José estar sendo alvo de um preconceito estúpido, que tem como alvo não o arcebispo de Olinda e Recife, mas a própria Igreja Católica, o que não é novo — e se torna cada vez mais freqüente”. Não comprou briga nenhuma. Quis conciliar seu obscurantismo com seu pretenso humanismo e não conseguiu convencer ninguém. Não há, no Brasil, preconceito algum contra a Igreja Católica. Preconceito existiria se a condenássemos sem saber o que a Igreja Católica é. Ora, nós a conhecemos muito bem e sua atitude em relação ao aborto jamais nos surpreendeu. Contra a Igreja Católica temos, isto sim, pós-conceitos. Em suma: um arcebispo obscurantista e decrépito, lá dos grotões do Nordeste, tomou posições claras, sem ambigüidade alguma. Teve a coragem que o jovem e valente recórter da metrópole não teve.
Sábado, Março 07, 2009
STALIN, O ETERNO Stalinismo, para mim, é um fenômeno eterno. Josiph Vissarionovitch Djugatchivili é apenas uma de suas manifestações, certamente a mais bem sucedida. Por stalinismo entendo aquele desejo de poder absoluto, que não admite contestações. Uma visão de mundo inflexível, que não dá lugar a nenhuma outra. Neste sentido, a meu ver, o primeiro stalinista da História foi Paulo. Exato, aquele de Tarso, em verdade o criador do cristianismo. Cristo morreu como uma mosca tonta, sem saber muito bem o que estava acontecendo. É Paulo, com sua visão de mundo inflexível e intolerante, com suas viagens para a difusão da nova doutrina, quem de fato cria o cristianismo. Que melhor seria entendido se fosse chamado de paulismo. Sem Paulo, as palavras do Cristo sequer teriam atravessado o Jordão. Stalin matou com gosto e quanto mais matava mais admirado e poderoso se tornava. (Paulo, para felicidade de seus contemporâneos, jamais teve o poder em suas mãos). Seu mínimo desejo era uma ordem. Foi endeusado por boa parte dos escritores do século passado e, mesmo após a revelação de todos seus crimes – coisa de 20 milhões de cadáveres – ainda hoje há quem o venere. Sem ir mais longe, ficando cá entre nós, sumidades como Oscar Niemeyer e Ariano Suassuna. A lista de intelectuais que o incensaram demandaria páginas e páginas. Alguns nomes, entre milhares: Nikos Kazantzakis, André Gide, Bertold Brecht, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Annie Kriegel, Louis Aragon, Henry Barbusse, Romain Rolland, Heinrich Mann, Paul Eluard, Vaillant-Couturier, Roger Garaudy, Henri Léfebvre, Rafael Alberti. Na América Latina, sem querer esticar muito a relação: Pablo Neruda, Otávio Paz, Jorge Amado e Graciliano Ramos. Vejamos esta declaração de amor do mais vendido dos escritores brasileiros em O Mundo da Paz, uma ode aos piores tiranos do século, Lênin, Stalin e Envers Hodja. O livro é de Jorge Amado e foi retirado do mercado após as denúncias de Kruschev no XX Congresso dos PCUS. “Vós sabeis, amigos, o ódio que eles têm — os homens de dinheiro, os donos da vida, os opressores dos povos, os exploradores do trabalho humano — a Stalin. Esse nome os faz tremer, esse nome os inquieta, enche de fantasmas suas noites, impede-lhes o sono e transforma seus sonhos em pesadelos. Sobre esse nome as mais vis calúnias, as infâmias maiores, as mais sórdidas mentiras. ‘O Tzar Vermelho’, leio na manchete de um jornal. E sorrio porque penso que, no Kremlin, ele trabalha incansavelmente para seu povo soviético e para todos nós, paras toda a humanidade, pela felicidade de todos os povos. Mestre, guia e pai, o maior cientista do mundo de hoje, o maior estadista, o maior general, aquilo que de melhor a humanidade produziu. Sim, eles caluniam, insultam e rangem os dentes. Mas até Stalin se eleva o amor de milhões, de dezenas e centenas de milhões de seres humanos. Não há muito ele completou 70 anos. Foi uma festa mundial, seu nome foi saudado na China e no Líbano, na Rumânia e no Equador, em Nicarágua e na África do Sul. Para o rumo do leste se voltaram nesse dia de dezembro os olhos e as esperanças de centenas de milhões de homens. E os operários brasileiros escreveram sobre a montanha o seu nome luminoso”. Fora excrescências como Niemeyer, hoje já se tem no Brasil uma boa idéia de quem foi Josiph Vissarionovitch Djugatchivili. Tanto que stalinistas como Tarso Genro, Luís Fernando Verissimo, Chico Buarque ou Zuenir Ventura já não ousam evocar seu nome luminoso. Verdade que a USP e boa parte das universidades brasileiras, em seus cursos de humanidades, continuam cultuando o stalinismo. O fato é que árvore velha não dobra, quebra. Professores que fizeram carreira montados no marxismo não irão, do dia para a noite, renegar todas suas obras. É pedir demais a um ancião. Sempre considerei a América Latina um dos últimos redutos do stalinismo. Os Estados Unidos, desde há muito, se vacinaram contra este sarampo. A Europa, por sua proximidade com a URSS, teve informações de primeira mão sobre os massacres do déspota. Mas os intelectuais da América Latina, sempre a reboque do que se pensa no Primeiro Mundo, até hoje não se livraram da peste. Com a queda do Muro, supus que os antigos países socialistas seriam os primeiros a descartar definitivamente Stalin, afinal seus cidadãos sofreram na pele as agruras do socialismo soviético. Países como a Hungria e Polônia, por exemplo, desde antes de 1981, já tomavam suas distâncias com relação a Moscou. Assim sendo, é com surpresa que leio notícia da EFE, segundo a qual defensores dos direitos humanos na Rússia estariam preocupados com a simpatia que Stalin ainda desperta em muitos russos, apesar de ter morrido há 56 anos, e chegaram a pedir um programa de desestalinização. "Enquanto não existir um reconhecimento geral da brutalidade colossal, da extrema imoralidade do regime stalinista e de suas trágicas consequências, não poderemos nos desenvolver com normalidade", disse Liudmila Alexeyeva, líder do Grupo Helsinque de Moscou. Segundo a ativista, os dados dos sociólogos são preocupantes e "a popularidade de Stálin aumenta entre os jovens, que não sabem como foram esses tempos". Em verdade, o fenômeno não é novo. Mesmo após as denúncias de Kruschev e a queda do Muro, havia russos saudosos do tirano. Estes pertenciam às gerações mais velhas que, bem ou mal, usufruíam algumas benesses do regime. Que esta velharada que perdeu seus privilégios chorasse a ausência do Paisinho dos Povos, se entende. Mais difícil é entender a juventude contemporânea louvando o monstro. A causa é, a meu ver, uma só, a falta de circulação de informação. As biografias de Stalin já chegaram até o Brasil, cujos editores sempre foram reticentes em publicar qualquer coisa que destronasse o deus soviético. O culto a Stalin hoje, entre os jovens russos, deve ter muito do culto irresponsável à Che Guevara no Ocidente. Meninos bobos que nada conhecem da História presente o endeusam como endeusariam a um ícone qualquer de sucesso na mídia. Não consigo acreditar que, tendo os jovens russos acesso à uma boa biografia de Stalin, ainda conseguissem cultuá-lo. Seja como for, Stalin não é efêmero. Em uma sociedade pouco esclarecida, mais dia menos dia sempre surge um candidato a Tzar Vermelho. Tivemos Castro em Cuba e atualmente Chávez na Venezuela. Ocorre que nem Cuba nem Venezuela têm o território – e muito menos o prestígio histórico – da Rússia. Suas tiranias ficam então confinadas a ilhotas do continente. Isso sem falar que os tempos são outros. O fantasma do comunismo já não ronda continentes. No Brasil, temos projetos de stalinzinhos, tipo Tarso Genro, João Pedro Stédile ou Jaime Amorim. Mas estes têm vôo curto. No país de hoje, já não há mais lugar para este tipo de tirano. Mas sempre é bom estar atento. O fenômeno é eterno.
Sexta-feira, Março 06, 2009
VATICANO E CNBB SE INSURGEM CONTRA LEGISLAÇÃO BRASILEIRA Não poucos leitores se escandalizaram pelo fato de que o padrasto estuprador da menina de Alagoinha, a 230 km de Recife, não foi excomungado pelo arcebispo Dom José Cardoso. Nem poderia sê-lo. A excomunhão, de modo geral, se estende a transgressões contra a fé. De estupro, decididamente, o Código Canônico sequer cogita. Seja como for, tanto a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), como o Vaticano, deram total apoio às declarações do aiatolá de Olinda e Recife. Ao final do comunicado da CNBB, os bispos afirmam que não concordam com o desfecho da história "de eliminar a vida de seres humanos indefesos". O chefe do Conselho Pontifício para a Família, do Vaticano, Gianfranco Grieco, por sua vez, apoiou a decisão da Arquidiocese de Olinda e Recife de excomungar os responsáveis pelo aborto da menina. "A Igreja nunca pode trair o seu anúncio, que é defender a vida desde a concepção até a morte natural, mesmo em face de um drama humano tão forte como o da violência contra uma criança", disse. O que estes senhores não entenderam é que a lei brasileira faculta o aborto em caso de estupro. O mais grave neste caso não é exatamente a atitude desumana da Igreja. Por muito menos que um aborto, o Vaticano já mandou cristãos para a fogueira. O mais grave é que tanto o Vaticano como a CNBB, do alto de suas arrogâncias, estão se insurgindo contra a legislação brasileira. Dom José tenta eximir-se da pecha de excomungador. “Está escrito no Código Canônico, o catecismo da Igreja Católica, que está difundido no mundo inteiro e no Brasil também. Eu apenas relembrei que quem comete aborto já está excomungado. Não fui eu, dom José, que apliquei essa penalidade. É uma penalidade latae sententiae (automática)”. O fato é que tem razão. Em abril passado, eu comentava que esta punição canônica se aplica geralmente a questões de fé, tais como apostasia, heresia, cisma, profanação das espécies consagradas, violência física contra o Romano Pontífice, absolvição do cúmplice, consagração episcopal sem mandato pontifício, violação do sigilo sacramental, tentativa de celebração da Eucaristia ou de absolvição sacramental e violação do sigilo sacramental. Mas um cânon especial, o 1398, é dedicado ao aborto: Qui abortum procurat, effectu secuto, in excommnicationem latae sententiae incurrit. Ou seja, quem provoca o aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae. O Código Canônico vai mais longe. Segundo o comentário ao cânon 1398, nenhuma exceção é feita quanto aos motivos do aborto. A excomunhão atinge, portanto, também os que realizam o aborto no caso de estupro da mulher, de deformidades do feto ou de perigo de vida da mãe. E atinge por igual a todos os que, a ciência e consciência, intervêm no processo abortivo, quer com a cooperação material (médicos, enfermeiras, parteiras, etc), quer com a cooperação moral verdadeiramente eficaz, como o marido, o amante ou o pai que ameaçam a mulher, obrigando-a submeter-se ao procedimento abortivo. O que Dom José está dizendo, mas preferiu não dizer com todas as letras, é que uma boa metade dos católicos brasileiros está excomungada. Até aí, problema da Igreja e de seu rebanho. O que não se admite é que sacerdotes vulturinos, em nome de séculos de obscurantismo, neguem a legislação do país onde vivem. Se isto não é crime, há uma lacuna em nosso Código Penal.
TPI CONDENA PRÁTICAS BÍBLICAS EM CARTUM O Tribunal Penal Internacional (TPI) expediu mandado de prisão contra Omar al-Bashir, presidente do Sudão, por crimes de guerra e contra a humanidade cometidos nos últimos seis anos na região sudanesa do Darfur. Nesse espaço de tempo, o conflito entre os rebeldes e as milícias árabes armadas por Cartum já provocou 300 mil mortos e quase três milhões de refugiados e de deslocados internos, dizem os números das Nações Unidas. Segundo os jornais, os métodos de combate usados pelas forças do governo do Sudão e pelas milícias árabes apoiadas por Cartum contra tribos da região do Darfur são uma coleção completa de quase todos os crimes que podem ser praticados numa guerra - estupros, pilhagem, destruição de residências, deslocamentos populacionais forçados e assassinatos. O jornal britânico The Guardian entrevistou um militar desertor do Exército sudanês, identificado apenas como Kajabier, de 34 anos. Ele descreveu os crimes cometidos por ele e por um batalhão de outros 400 militares em abril de 2003, em diversos vilarejos de Darfur, na fronteira entre o Chade e o Sudão. "Não deixem sobreviventes", foi a ordem dada pelo coronel Samir Jaja a seus homens. "Estuprem as mulheres, matem as crianças. Não deixem nada para trás." Cá entre nós, a atitude do TPI está me parecendo uma odiosa perseguição a pessoas que nada mais fazem senão seguir edificantes exemplos bíblicos, ordenados pelos patriarcas do cristianismo. O que o coronel Samir Jaja ordenou em nada difere do que ordenou Moisés na guerra contra os midianitas. Lemos em Números, 31:14: “E indignou-se Moisés contra os oficiais do exército, chefes dos milhares e chefes das centenas, que vinham do serviço da guerra, 15 e lhes disse: Deixastes viver todas as mulheres? 16 Eis que estas foram as que, por conselho de Balaão, fizeram que os filhos de Israel pecassem contra o Senhor no caso de Peor, pelo que houve a praga entre a congregação do Senhor. 17 Agora, pois, matai todos os meninos entre as crianças, e todas as mulheres que conheceram homem, deitando-se com ele. 18 Mas todas as meninas, que não conheceram homem, deitando-se com ele, deixai-as viver para vós”. O mesmo fez Samuel na guerra contra os amalecitas. Lemos em Samuel 15: 3: “Vai, pois, agora e fere a Amaleque, e o destrói totalmente com tudo o que tiver; não o poupes, porém matarás homens e mulheres, meninos e crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos”. A Bíblia é até hoje o livro que embasa toda a cristandade, e Moisés e Samuel estão entre seus mais nobres varões. Bíblico patriarca pode mandar massacrar à vontade. O que não pode é um coronel africano imitá-lo.
Quinta-feira, Março 05, 2009
AIATOLÁ DE OLINDA E RECIFE DEFENDE ESTADO TEOCRÁTICO Ao justificar a excomunhão dos responsáveis pela interrupção de gravidez da menina estuprada em Recife, o arcebispo dom José Cardoso Sobrinho disse que, aos olhos da Igreja, o aborto é crime e que a lei dos homens não está acima das leis de Deus. Temos aiatolá ao Nordeste. Dom José pertence a essa estirpe vulturina que – em pleno Ocidente e em pleno século XXI – ainda acredita em um Estado teocrático, onde a lei de Deus se sobrepõe à lei dos homens. Ora, não existe lei de Deus alguma, a não ser para os que nele crêem. A única lei que existe, em Estados democráticos, é a lei dos homens. Textos bíblicos não têm poder coercitivo algum, no que se refere a cidadãos. Isso sem falar que a Bíblia não proíbe o aborto. A alusão mais condenatória que nela encontramos está em Êxodo, 21:22: “Se alguns homens brigarem, e um ferir uma mulher grávida, e for causa de que aborte, não resultando, porém, outro dano, este certamente será multado, conforme o que lhe impuser o marido da mulher, e pagará segundo o arbítrio dos juízes”. No máximo uma multa, algo muito menos grave que uma excomunhão. Diga-se de passagem, como comentei em texto anterior, foi há apenas século e meio que a Igreja Católica passou a condenar o aborto. Dom José representa aquela face abominável do monoteísmo, das religiões que se julgam detentoras do deus único e senhor de todos os homens. Em nada difere dos aiatolás iranianos ou dos mulás árabes, para os quais os textos sagrados constituem leis às quais devem submeter-se todos os cidadãos. Ora, vivemos em Estado laico. Teocracia hoje, Vaticano a parte, é coisa de muçulmanos. Que a Igreja proíba o aborto a seu rebanho, nada contra. Mas o fato é que este rebanho pouco está ligando a tais proibições. Conforme pesquisas da Universidade de Brasília e da Universidade Estadual do Rio (UERJ), com apoio do Ministério da Saúde e Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), 46,4 % das mulheres que abortam são católicas. Segundo o Código Canônico, uma boa metade dos católicos brasileiros está ipso facto excomungada. Além do mais, em seu ímpeto de proferir aiatolices, Dom José sequer se preocupou em saber se os responsáveis pelo aborto da menina pertenciam à Igreja Católica. Pois só pode ser excomungado quem a ela pertence. Mas não se preocupem os excomungados. Seus nomes não irão para a Serasa, nem serão privados de direitos de cidadão. As penas que atingem o excomungado são de outra natureza. A excomunhão é uma censura pela qual se exclui a alguém da comunhão dos fiéis e não pode consistir mais que na privação dos bens de que dispõe a Igreja, isto é, os bens espirituais ou anexos aos espirituais, mediante os quais a Igreja ajuda os fiéis, em nome de Deus, a conseguir a salvação. Por isso, a exclusão da comunhão dos fiéis representa um significado eminentemente canônico, isto é, a privação de todos os meios de que dispõe a Igreja e a comunidade dos fiéis para a salvação. A excomunhão proíbe receber os sacramentos, exceto a penitência e a unção dos enfermos, e celebrar ou administrar os sacramentos e sacramentais. Alguns dos excomungados por Dom José celebrava ou administrava sacramentos? É de supor-se que não. Recebia sacramentos? Não sabemos, mas provavelmente não. O aiatolá de Olinda e Recife perdeu uma excelente oportunidade de manter a boca fechada.
FRANCESES REAGEM E CONVIDAM AO CÂNCER Comentei mês passado um estudo publicado pelo Instituto Nacional Francês do Câncer (INCA), que relacionava diretamente o câncer ao álcool. A pesquisa chegava a conclusões radicais. Na referência álcool-câncer não existiria "dose protetora". Com seus efeitos invisíveis, as pequenas e repetidas doses seriam as mais nocivas. O estudo apontava para uma das mais tradicionais práticas da Gália e desaconselhava o todo consumo diário de vinho. Ia ainda mais longe: "o consumo de bebidas alcoólicas está associado a um aumento do risco de se sofrer câncer de boca, faringe, laringe, esôfago, cólon e reto, mama e fígado". O risco aumenta 9%, no caso de câncer de cólon e reto, se for consumida uma taça ao dia. Esse risco chegaria inclusive a 168% para os cânceres de boca, faringe e laringe. Você consegue imaginar um francês sem, não digo uma taça, mas meia jarra de vinho no almoço? Eu não consigo. Na ocasião, lavrei meu protesto. Se o estudo tivesse fundamento, mais da metade da França, Espanha, Itália e Portugal já teriam sido dizimadas pelo câncer. Os vinicultores franceses, pelo que li, nada disseram contra o documento do Inca. Mas reagiram a seu modo. Leio hoje que a França está lançando um órgão para promover o enoturismo. Promover a visita a vinícolas seria parte de um plano de cinco anos, para modernizar a indústria de vinhos francesa e fazer que ela fique mais competitiva no mercado mundial. Confesso que esse tipo de turismo, apesar de simpático, não me agrada. Já visitei algumas caves na França e não achei muita graça em degustar vinhos, geralmente em pé, junto a um bando de turistas. Vinho é algo que se consome entre amigos. Não costumo beber com desconhecidos. Isso de visitar vinícolas é prática do turismo de massa, e desse turismo sempre fugi. Não será uma visita a uma cave que me fará apreciar vinhos mais do que aprecio. De vinhos, gosto nos restaurantes, preferentemente com muita gente alegre à minha volta. Nos últimos quinze ou vinte anos, tenho viajado exclusivamente para visitar cafés e restaurantes. Sempre curto, é claro, a arquitetura das cidades, seus logradouros e, fora bares, visito algumas livrarias. Mas o objetivo da viagem é um só: sair de um café ou restaurante e ir a outro café ou restaurante. O leitor desavisado dirá que sou um alcoólatra. Nada disso. É que adoro aqueles cafés, particularmente quando decorados com mármores ou madeiras. São ambientes que não encontro aqui. Se falar que tenho o hábito de ler em bares. Nos últimos três anos, fui a Bruxelas com um único objetivo: passar alguma horas num café que adoro, o Metropole. Feita esta visita, posso voltar. Quando admito a médicos que bebo – e a perguntinha é inevitável – faço uma longa introdução. Para mim, beber não é só beber. O ambiente há de ser agradável, a mesa deve ter toalhas, pelo menos quando a bebida for vinho, e preferentemente há de ser de madeira. Chope, topo até em mesa de plástico, embora as deteste. Vinho, jamais. Aqui em São Paulo, aos sábados e domingos freqüento um boteco simpático, mas cujas cadeiras e mesas são de plástico. Nele, só tomo alguma caipira ou chope introdutórios. Para o vinho, me desloco para algum local decente. O que me agrada na bebida, além de suas qualidades organolépticas, é o entourage. As taças hão de ser no mínimo de vidro, como também a garrafa. Parece ser redundante dizer isto, mas tenho notícias que já existem vinhos embalados em tetrapaks, com uma torneirinha. Nutro profunda lástima pelo pobre diabo capaz de consumir esta excrescência. Conta também a elegância das taças, a cor da bebida, a pessoa com quem se está. Beber sozinho não é exatamente um desprazer. Mas acompanhado sempre é melhor. Religiosos e moralistas dirão que estas sofisticações são recursos que o demo usa para tentar os mortais. Que seja! Ou bebo em bom ambiente, ou não bebo. Esta é uma das coisas que abomino no Estados Unidos. Beber no bico da garrafa, para mim, é o cúmulo da barbárie. Copos de plástico, também. O francês é preciso: pede-se un verre. Que quer dizer copo, ou mesmo taça, mas já especifica o material: vidro. Amigos me falam que já existe na França o “verre en plastique”, uma aporia conceitual. A barbárie ianque já deve estar chegando por aquelas plagas. Nos dias em que andei em Nova York, quase virei sóbrio. Eu anotava no mapa os bares onde poderia beber em copos de vidro. Se os copos eram de plástico, nem entrava. Me desviei um bocado. Em suma, queria dizer que não acho graça alguma em visitar uma cave, cercado por uma malta de turistas. Em todo caso, a reação dos franceses é oportuna. A proceder o estudo do INCA, a França está nos convidando para degustar câncer. Sórdidos, os gauleses. Amém!
Quarta-feira, Março 04, 2009
NADA A COMENTAR Pelo menos três leitores enviam-me o artigo abaixo para comentar: "IGREJA QUER IMPEDIR NA JUSTIÇA ABORTO DE MENINA DE 9 ANOS A arquidiocese de Recife e Olinda entrou com um pedido no Ministério Público para tentar impedir o aborto de uma menina de 9 anos grávida de gêmeos na capital pernambucana. A Igreja afirma que condena qualquer tipo de morte e alega também que a mãe da menina não sabia o que estava assinando quando autorizou a interrupção da gestação. A menina de 9 anos, que foi supostamente estuprada pelo padrasto, está grávida de aproximadamente quatro meses de gêmeos. Segundo o Instituto Materno Infantil de Pernambuco (Imip), onde ela esteve internada até esta terça-feira, a gravidez é de alto risco para a criança devido à sua estrutura física (a menina tem 36 kg e 1,36 m). A arquidiocese afirmou que parte de um princípio da moral cristã que condena qualquer tipo de morte. O hospital não quis comentar o assunto". Em verdade, o pedido da arquidiocese sequer chegou ao MP. Após a divulgação do aborto, realizado durante a madrugada de hoje, os advogados da arquidiocese de Olinda e Recife desistiram da medida depois da divulgação do fato. Comentar o quê? Não há nada a comentar. A Igreja, esta associação de misóginos com tendência à homossexualidade, jamais entenderá o que é ter filhos ou mesmo ser mãe. Como pode ser sensível a problemas de família quem nunca constituiu família? Fosse um padre o pai da menina, talvez entendesse melhor seu drama. O que a Igreja quer, é aproximar o padrasto estuprador da estuprada. Sem o aborto, as crianças nascerão. E o pai poderá reivindicar o direito de visita a elas. É uma forma de unir, de maneira legal, o criminoso e a vítima. Em nome de seus dogmas ou quase dogmas – a questão do aborto não é dogma – a Igreja sempre foi cruel com as pessoas que sofrem. Sem ter a mínima piedade pelo sofredor. Afinal, a verdadeira vida não está aqui na terra, mas nos céus, após a morte. Ocorreu há pouco. Foi o caso de Eluana Englaro, que comentei no mês passado, mulher de 38 anos, que há dezessete estava em coma. Seus pais obtiveram permissão do Supremo Tribunal da Itália para cessar a administração de alimentos e deixar a mulher partir. A Igreja foi contra e o próprio Berlusconi pegou carona nessa cruzada insana, para revogar a decisão judicial e assim permitir que Eluana sofresse pelo resto de seus dias. Por sorte, Eluana apressou-se em morrer tão logo a alimentação foi cortada. Não morresse, estava arriscando a uma nova decisão judicial, que a manteria viva, mas sempre em coma. O Vaticano considerou o gesto piedoso dos pais como um “abominável assassinato”. Mesmo assim, não terminaram os problemas para os pais de Eluana. Já são mais de 50 os processos levantados no Ministério Público italiano contra o pai de Eluana Englaro e a equipa médica da Clínica La Quiete, em Udine, que pedem responsabilidades pela morte de Eluana. Em um dos processos, com 13 páginas, apresentado por uma associação pró-vida chamada “Comité para a Vida e Verdade”, Beppino Englaro é mesmo chamado a responder por homicídio voluntário. Ou seja, os pais da moça ainda arriscam ir para prisão, por libertá-la de uma prisão mil vezes mais cruel que qualquer outra. A Igreja é isso mesmo. Com o mesmo amor e compaixão com que os inquisidores torturavam um cristão, para salvar-lhe ao menos a alma – já que o corpo estava decididamente destinado às chamas – os sádicos sacerdotes contemporâneos condenam a não morrer quem já não mais vive. Mais uma vez repito: doutores da Igreja, como são Tomás e santo Agostinho, eram favoráveis ao aborto. Segundo o aquinata, só haveria aborto pecaminoso quando o feto tivesse alma humana o que só aconteceria depois de o feto ter uma forma humana reconhecível. Para o Doutor Angélico, como o chamam os católicos, a chegada da alma ao corpo só ocorre no 40º dia de gravidez. A posição de Aquino sobre o assunto foi aceita pela igreja no Concílio de Viena, em 1312. Isso sem falar que foi só em pleno século XIX, em 1869 mais precisamente, que o Papa Pio IX declarou que o aborto constitui um pecado em qualquer situação e em qualquer momento que se realize. Ou seja, por 1.800 anos, a Igreja nada teve contra o aborto. Por teimosia de um papa, proferida há apenas século e meio, d. José Cardoso Sobrinho, o arcebispo de Olinda e Recife, quis condenar ao sofrimento e eventualmente à morte, uma menina de nove anos. Por sorte, os fetos já foram expelidos. Segundo d. José, os responsáveis pelo aborto estão excomungados da Igreja Católica. Ao padrasto estuprador, não foi imposta excomunhão alguma. Ele permanece no seio da Santa Madre. E só poderia ser assim. Estupro não é passível de excomunhão. Não há nada de novo a comentar.
Terça-feira, Março 03, 2009
HOSANAS À SIEMENS NAS ALTURAS! No hospital Sírio-Libanês, onde estou sendo cuidado, também está se tratando uma atriz chamada Mara Mazan. Pelo que me dizem os jornais, ela tem algum papel numa novela chamada Caminho das Índias. Sei disto porque li a notícia em algum site, já que não tenho conhecimento algum da tal novela e muito menos da atriz. O que me chamou a atenção, no caso, foram as declarações sobre sua doença. Após completar um ano de sua operação, na qual retirou um tumor maligno do pulmão direito, a moça continua fazendo sessões de quimioterapia a cada 21 dias. Mas o tratamento no Sírio-Libanês, pelo que diz a atriz, de pouco ou nada lhe serve ou serviu. "Fui curada somente com oração. O nódulo desapareceu do meu peito", afirmou. Sua cura, Mazan atribui a Deus. "Não tenho nenhuma religião, mas sou fiel a ele, pois resolveu me dar uma segunda chance para continuar me divertindo com meus amigos aqui na Terra." A atriz foi curada, não pela excelência tecnológica do hospital, nem pela competência de seus médicos e técnicos, e sim por uma entidade espiritual, encarnada por um tal de Edson de Queiroz, através de um uma cirurgia espiritual. Ao ser interrogada por que optou por este método e não pelo convencional, diz a atriz: - Antes de eu tirar o tumor de meu pulmão, eu já havia sido operada espiritualmente pelo Doutor Fritz (incorporado por Edson Queiroz), indicado pela minha amiga e cantora Alcione. Os tumores que existiam em meu pulmão diminuíram consideravelmente e, quando a equipe do médico Riad Yunis fez a retirada do tumor maligno, não houve nenhum tipo de complicação. (...) Foi uma coisa surreal, mas muito bacana. O meu tratamento foi inteiramente realizado na base da oração. Fiquei sentada em uma cadeira e começaram a rezar. Logo eu comecei a sentir meu corpo dormente, como se tivesse sido anestesiada. Entrei em alfa e depois vomitei um líquido verde, parecendo a personagem Sarah, de O Exorcista. O repórter quer saber se houve alguma intervenção cirúrgica. O médium chegou a usar algum instrumento para fazer a operação? - Ele não usou absolutamente nada. Antes de eu entrar neste sono profundo, foi colocada em meu seio uma gaze umedecida com água purificada espiritualmente. Nada além disso. Eles ficaram rezando por horas e quando acordei o nódulo não existia mais. Então resta a pergunta: por que retirou o tumor com uma equipe do hospital e por que continua fazendo quimioterapia? Estou cansado desta malta de crentes, que diante de uma doença grave, reza e se encomenda a Deus, ao mesmo tempo em que busca medicina de ponta. Se não conseguem sobreviver, seus próximos atribuem a morte à medicina. Se se salvam, a vida é atribuída a Deus. Conheço não poucos destes espécimes. Que uma atriz inculta da rede Globo profira tais sandices, até que se entende. Mas já as ouvi de universitários que, por exigências profissionais, deveriam ser pessoas cultas. Inclusive uma médica, boa amiga minha, assistiu certa vez uma das cirurgias do Dr. Fritz, cujo espírito teria baixado em um notório vigarista, Zé Arigó. Ele teria passado a mão na barriga de um crente, feito um corte do qual saía sangue, e voltou com a mão cheia de fragmentos semelhantes a vísceras. Depois, passou a mão de novo na barriga, e o local ficou limpo, como se nem tivesse sido cortado. Ela acreditou piamente no que vira. Isto é, num truque barato de prestigitador. Arigó levava escondidas na mão vísceras de galinha, riscava a barriga com sangue, empurrava a mão e voltava com o "mal" extraído do paciente. Claro que não fica nenhum corte, pois não houve corte algum. Uma das mais lindas de minhas vizinhas me trouxe água de uma fonte milagrosa, não lembro se de Lourdes ou de Fátima. Tomei, água não faz mal. Além do mais, presente de moça bonita a gente não desdenha. Estava até me perguntando se me tratava em hospital ou se esperava pelo efeito da água. Agora, vivo uma dúvida atroz: terá sido realmente o Sírio-Libanês que me curou? Ou quem sabe a água da moça? Quando damos entrada em um hospital, há sempre duas perguntinhas no formulário de admissão: você tem religião? Qual? Acho que faltam mais algumas. Você crê no poder de Deus para curar doenças? Acredita em cirurgia espiritual? Se a resposta fosse sim a estas duas perguntas, eu mandaria incontinenti o crente entregar-se a Deus e à cirurgia espiritual. Se Deus cura, pra que hospital e boa medicina? É redundante e só faz sofrer. Se você vai usar de toda nossa ciência para depois atribuir a cura ao Dr. Fritz, então consulte logo o Dr. Fritz e não perca tempo conosco. Considero profundamente ofensivo à medicina ser curado por médicos dedicados e alta tecnologia e atribuir a cura a Deus. Aconteceu com minha mulher. Quando adoeceu, círculos de oração foram organizados no país todo. Deus a curará – diziam. “Estamos gastando nossos créditos junto ao Poderoso” – disse-me um casal católico. Ninguém mencionava o tratamento sofisticado, caro e doloroso, ao qual ela estava sendo submetida. Quando morreu, mudou o papo. A medicina falhou. Deus tinha outros planos para ela. Mas agora ela finalmente está sendo feliz. Se morrer era ser feliz, por que não rezavam então para que morresse logo, e assim atingisse mais depressa o estado de felicidade? Aconteceu agora comigo. Cá e lá, amigas me telefonavam: “sei que não acreditas nisso, mas vou rezar por ti”. Que rezem, então. É um gesto simpático, que denota afeto e além do mais não posso proibir ninguém de rezar. Quando anunciei minha cura, não deu outra: - Graças a Deus! – exclamaram minhas boas amigas rezadeiras. Graças a deus, um catzo! Graças à medicina de ponta e à excelência do corpo médico – e também dos físicos - do Sírio-Libanês. Além da competência, fui tratado com um carinho como se eu fosse, não um cliente, mas um amigo de todos. E graças, muito especialmente, à Siemens e à sua metodologia IMRT - Intensity Modulated Radiotherapy - Radioterapia com Intensidade Modulada, uma tecnologia avançada de radioterapia. O aparelhinho, um acelerador linear de última geração, que custa um milhão de dólares – mais outro milhão pelas instalações e softwares – cura determinados cânceres com mais eficiência e menores danos que as técnicas anteriores. O leitor poderá ver o instrumento aqui: http://www.siemens.com.br/templates/coluna1.aspx?channel=2124 Quem atribui a Deus sua cura, após ter sido tratado em hospitais de excelência, deveria ter seu nome posto numa lista negra e jamais ser aceito em hospital algum. Que apele a Deus, ao Dr. Fritz, ao Queiroz. Mas que não ofenda o esforço continuado dos cientistas em desenvolver cada vez melhores instrumentos de cura.
Segunda-feira, Março 02, 2009
APEDEUTA DÁ CONSELHO A MINISTRO DO SUPREMO Ao comentar as declarações do presidente do Supremo Tribunal Federal, sobre o financiamento público de movimentos que comentem ações ilegais, Lula desconversou: "É inaceitável a desculpa de legítima defesa para matar quatro pessoas. É inaceitável. Portanto deverão ser apuradas as devidas responsabilidades", afirmou na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), em São Paulo. Ora, não era bem isto que o presidente do STF dizia. Ele se referia ao financiamento de invasão de terras e às invasões de terra. Diz Lula: "Os sem-terra existem no Brasil desde a década de 70, já atingiu maioridade e portanto sabe o que é legal e ilegal. (...) O que é ilegal, certamente todos nós sabemos que pegaremos o preço". Pelas declarações dos líderes do MST, como também de ministros petistas, nem os primeiros nem os segundos ainda sabem o que é legal ou ilegal. O governo simplesmente se sobrepõe à lei, declarando que o ilegal – a invasão de terras – é legal. E não tem pago preço algum por suas ilegalidades. Mestre em sair das enrascadas nas quais se mete através de arabescos colaterais, o ex-pau-de-arara ainda ousa dar conselhos ao Judiciário: "Quero crer que o Gilmar tenha dado opinião como cidadão brasileiro. Quando houver um processo, acho que ele deve dar a posição em seu voto". Traduzindo em bom português o que o presidente não ousou proferir em bom português: se Gilmar Mendes, enquanto cidadão, quiser afirmar que é crime financiar o crime, nada obsta. Mas como juiz tem de assumir posição diferente: votar tendo em mente que não é crime invadir terras, muito menos financiar o crime. Quando um presidente da República, semi-analfabeto, dá conselhos a um ministro de uma suprema corte, algo vai mal no país.
PAÍS DE CORAÇÃO GRANDE OFERECE ASILO AO TERROR Barack Obama deve encontrar-se com o Supremo Apedeuta no final deste mês. Não é de duvidar que Obama peça a Lula para receber alguns dos terroristas presos pelos americanos – e sem direito à defesa – em Guantánamo, isto é óbvio. Quintal serve para isso mesmo, jogar as tralhas que já não mais interessam e só incomodam. Até aí, estamos no campo da normalidade. O que não se esperava é que o ministro de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, já esteja oferecendo o país, antecipadamente, sem que sequer algum desejo tenha sido manifestado, para receber os terroristas que constituem um embaraço para os Estados Unidos. O Brasil, além de servir como lixão de pneus usados da América Latina e da Europa, está começando a dar asilo aos terroristas condenados na Europa. Ora, terrorista a mais terrorista a menos, tanto faz como tanto fez. O que não se pode é conceder asilo a refugiados do paraíso cubano. Do paraíso, por definição, ninguém foge. Se o governo concedesse asilo aos pobres diabos que fogem de Cuba em busca de futuro, estaria negando o caráter paradisíaco da ilha. E isto o PT jamais negará. Está em seu sangue. "Por uma perspectiva de direitos humanos, eu seria favorável (a receber prisioneiros)", afirmou Vannuchi. Subserviência total, antecipada, antes mesmo que os Estados Unidos aventassem a hipótese. Em nome dos direitos humanos, bem que poderia também abrir as portas do país a Bin Laden, como sugeriram os italianos, por ocasião da negativa de extraditar Cesare Battisti. Afinal, este mesmo PT que está no poder vibrou com o atentado às torres gêmeas. Por que não homenagear o autor intelectual do feito, concedendo-lhe um merecido refrigério? Segundo o relator da ONU contra a Tortura, Manfred Nowak, que consultou os governos dos países sul-americanos sobre a possibilidade de que esses estados também recebam os prisioneiros, a proposta não foi bem aceita. A entidade Human Rights Watch também defende que o Brasil se apresente como um dos países para receber prisioneiros de Guantánamo. "A responsabilidade é de todos", afirmou o diretor da entidade, Kenneth Roth. "Uma atitude como essa demonstraria o interesse do Brasil em resolver problemas globais", afirmou. Mesquinharia dos países sul-americanos. Ainda bem que resta no continente um país de coração grande, capaz de abrigar até mesmo o rebotalho de todas as nações. Falar nisso, alguém acredita que Bin Laden ainda esteja vivo? Que um homem com problemas renais - e submetido constantemente a hemodiálise, pelo que se sabe - consiga manter-se a salvo nas montanhas, mesmo perseguido pela maior potência do planeta? Me reservo o direito à dúvida. O fato é que manter Bin Laden vivo serve tanto aos americanos quanto aos terroristas. Os americanos continuam tendo um pretexto para praticar todo e qualquer desmando em nome do combate ao terror. E os terroristas mantém erguida uma bandeira que os unifica e os infla de orgulho. Bin Laden vivo é útil para muita gente.
Domingo, Março 01, 2009
GILMAR CLAMANTIS IN DESERTO Não bastasse o comissário do povo Tarso Genro e demais ministros terem se manifestado veladamente contra a afirmação do ministro Gilmar Mendes, de que é crime financiar o crime, Clóvis Rossi, o decano dos cronistas da Folha de São Paulo, parece ter tido hoje uma recidiva de seu passado de esquerda. Lembra aquele bracinho do Dr. Strangelove, no filme de Kubrick, que insiste em se erguer em uma saudação ao Führer: “Por fim, uma dúvida: matar alguém, como em Pernambuco, é crime, claro. Mas invadir terras é também crime ou é a única maneira que um movimento social voltado para a reforma agrária tem para chamar a atenção para a sua agenda?” O que o cronista está afirmando é que crime deixa de ser crime quando serve para chamar a atenção sobre um problema social. Fica como sugestão ao PCC. Se quiser chamar a atenção sobre a violência nas favelas, basta matar alguns cidadãos e estas mortes estão justificadas. Afinal, serviram para alertar sobre um problema social. Com Clóvis Rossi concorda Jaime Amorim, um dos líderes da guerrilha católico-comunista que invade, depreda e mata no Brasil. No Estadão de hoje, declara: ''O ministro Gilmar está muito distante da realidade''. No que não deixa de ter razão. O ministro parece ter esquecido que, graças a leniência do governo com a bandidagem, invadir terras, hoje, não é mais visto como crime por largas camadas do país. O ministro, de fato, está longe da realidade. Quis apenas aproximar-se da lei. Daí o escândalo provocado. Onde se viu um ministro do Judiciário afirmar que financiar o crime é crime? O líder guerrilheiro vai mais longe e inova em matéria de Direito. Não é de duvidar que crie jurisprudência: “A ocupação de terras é uma ferramenta, um instrumento de luta legitimado há muito tempo pela sociedade, usado para reivindicar a reforma agrária, para forçar o governo a cumprir o que está inscrito na Constituição. É também uma forma de denunciar a permanência do latifúndio”. Jaime Amorim, Clóvis Rossi, um mesmo combate. Aprendi em direito que há duas formas de revogação de uma lei. Uma delas é quando a lei cai em desuso. Ora, que me conste o direito de propriedade, se um dia foi abolido na União Soviética, na China ou em Cuba, no Brasil ainda não foi. Muito menos caiu em desuso. Tivesse caído, qualquer pessoa poderia pensar em integrar ao seu apartamento o do vizinho. E aí prevalecerá a lei do mais forte, estado anterior ao Estado. Fora isto, uma lei só pode ser revogada por outra lei. Esta revogação pode ser total ou parcial. Para Amorim, quem revoga leis é o que ele chama de sociedade. Digo o que ele chama de sociedade porque, para a sociedade como um todo, a licitude da invasão de terras está longe de ser um consenso. A sociedade da qual Amorim é aquela parcela petista ou comunista – ou similares – do país todo, que simpatiza com a transgressão às leis. Como afirmei em crônica passada, o alerta do ministro não passará de um arroubo de retórica, um sonho de uma noite de verão. Ficará o dito pelo não-dito e o governo continuará financiando serenamente a bandidagem. Se é a sociedade quem revoga leis, os mais delicados que me desculpem, mas aborto e tráfico de drogas há muito foram legalizados no Brasil e não nos avisaram. Como o apóstolo, Gilmar Mendes clama no deserto.
VATICANO REEXCOMUNGARÁ O BISPO DESEXCOMUNGADO? Há no mundo todo pessoas negando os fatos mais óbvios. Há quem negue que a terra seja redonda. Quando criança, participei deste clube. Eu apresentava a meus professores um argumento que me parecia incontestável. Apanhemos uma laranja – dizia eu do alto de meus oito ou nove anos -. Coloquemos nela uma formiga. Se a formiga for descendo, acabará ficando de patas para cima. Como é que não temos notícia de que ninguém no mundo, nem mesmo nossos antípodas, vivam de pernas para cima? Na época, não tínhamos ainda as fotos de satélites. Se os professores continuavam insistindo naquela bobagem, a meu ver era porque não tinham espírito crítico. Há quem negue que o homem foi à Lua, há quem negue os gulags de Stalin e os massacres de Mao. Mais recentemente, fez sucesso na Europa um livro que negava o atentado terrorista ao Pentágono, no 11 de setembro. Há quem negue o afundamento do Altalena por Yitzhak Rabin, ou pelo menos o justifique. Por que cargas d’água então é considerado crime negar o Holocausto em vários países da União Européia? Ora, quem faz tal afirmação já está suficientemente punido pelo ônus do ridículo. Negar o Holocausto é uma opinião estúpida, mas opinião. Para punir-se do nazismo, a Europa chegou a criar a figura repulsiva do crime de opinião. Bento XVI, em mais uma de suas já proverbiais mancadas, levantou há pouco a excomunhão de quatro bispos excluídos do seio da Santa Madre, por decisão de João Paulo II, por terem sido ordenados pelo arcebispo dissidente Marcel Lefebvre. Ocorre que entre estes quatro bispos estava o britânico Richard Williamson. Que nega que as câmaras de gás nazistas tivessem sido usadas para exterminar judeus, e afirma que no Holocausto não morreram seis milhões de pessoas, mas entre 300 mil e 400 mil. Escândalo em Israel e na Europa. Na Alemanha, houve católicos abandonando a Igreja romana em função deste gesto precipitado do Bento. Pressionado pela opinião internacional, o Vaticano exigiu retratação do bispo britânico. Que inclusive chegou a ser expulso da Argentina, logo da Argentina, porto acolhedor de tantos oficiais nazistas. No final do mês passado, o bispo pediu perdão perante Deus a todas as almas que ficaram honestamente escandalizadas pelo que disse. "Posso dizer verdadeiramente que lamento ter dado estas declarações. Além disso, se soubesse com antecipação todo o dano e os ferimentos que provocariam, especialmente à Igreja, mas também aos sobreviventes e entes queridos das vítimas de injustiça sob o Terceiro Reich, não as teria feito", completou o bispo. Pediu perdão mas, astutamente, não se retratou. Se pensava enganar as raposas engalanadas do Vaticano, Williamson em muito se enganava. O Vaticano considerou insuficientes e equívocas suas desculpas. Avaliou que a carta divulgada pelo bispo "não parece respeitar as condições estabelecidas em uma nota da Secretaria de Estado de 4 de fevereiro, que exige que se retrate absoluta, inequívoca e publicamente de sua posição sobre Holocausto", afirmou Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé. Que mais quer o Vaticano? Que um homem mude suas convicções só porque o Vaticano quer? Ora, se Richard Williamson quiser enfrentar algum tribunal europeu por ter ferido uma lei discutível, mas lei, isto é opção sua. Mas o Vaticano não tem poder algum para obrigar um homem a renunciar à sua opinião, ainda que errônea. A menos que conserve reflexos da Idade Média, quando atrás de cada recomendação sua pairava a sombra da Inquisição e das fogueiras. O impasse está lançado. Se Williamson não se retratou até agora, é improvável que o faça amanhã. Estaria se desmoralizando. Resta ao Vaticano uma solução, reexcomungar o bispo excomungado por João Paulo e desexcomungado por Bento. Aí quem se desmoraliza é o Vaticano. Suspense. Esperemos os próximos capítulos desta emocionante novela vaticana.
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