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¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV
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Tiragem
Janer Cristaldo escreve no Página Não-Oficial de Janer Cristaldo Arquivos 10/01/2003 - 11/01/2003 12/01/2003 - 01/01/2004 01/01/2004 - 02/01/2004 02/01/2004 - 03/01/2004 03/01/2004 - 04/01/2004 04/01/2004 - 05/01/2004 05/01/2004 - 06/01/2004 06/01/2004 - 07/01/2004 07/01/2004 - 08/01/2004 08/01/2004 - 09/01/2004 09/01/2004 - 10/01/2004 10/01/2004 - 11/01/2004 11/01/2004 - 12/01/2004 12/01/2004 - 01/01/2005 01/01/2005 - 02/01/2005 02/01/2005 - 03/01/2005 03/01/2005 - 04/01/2005 04/01/2005 - 05/01/2005 05/01/2005 - 06/01/2005 06/01/2005 - 07/01/2005 07/01/2005 - 08/01/2005 08/01/2005 - 09/01/2005 09/01/2005 - 10/01/2005 10/01/2005 - 11/01/2005 11/01/2005 - 12/01/2005 12/01/2005 - 01/01/2006 01/01/2006 - 02/01/2006 02/01/2006 - 03/01/2006 03/01/2006 - 04/01/2006 04/01/2006 - 05/01/2006 05/01/2006 - 06/01/2006 06/01/2006 - 07/01/2006 07/01/2006 - 08/01/2006 08/01/2006 - 09/01/2006 09/01/2006 - 10/01/2006 10/01/2006 - 11/01/2006 11/01/2006 - 12/01/2006 12/01/2006 - 01/01/2007 01/01/2007 - 02/01/2007 02/01/2007 - 03/01/2007 03/01/2007 - 04/01/2007 04/01/2007 - 05/01/2007 05/01/2007 - 06/01/2007 06/01/2007 - 07/01/2007 07/01/2007 - 08/01/2007 08/01/2007 - 09/01/2007 09/01/2007 - 10/01/2007 10/01/2007 - 11/01/2007 11/01/2007 - 12/01/2007 12/01/2007 - 01/01/2008 01/01/2008 - 02/01/2008 02/01/2008 - 03/01/2008 03/01/2008 - 04/01/2008 04/01/2008 - 05/01/2008 05/01/2008 - 06/01/2008 06/01/2008 - 07/01/2008 07/01/2008 - 08/01/2008 08/01/2008 - 09/01/2008 09/01/2008 - 10/01/2008 10/01/2008 - 11/01/2008 11/01/2008 - 12/01/2008 12/01/2008 - 01/01/2009 01/01/2009 - 02/01/2009 02/01/2009 - 03/01/2009 03/01/2009 - 04/01/2009 04/01/2009 - 05/01/2009 05/01/2009 - 06/01/2009 06/01/2009 - 07/01/2009 07/01/2009 - 08/01/2009 08/01/2009 - 09/01/2009 09/01/2009 - 10/01/2009 10/01/2009 - 11/01/2009 11/01/2009 - 12/01/2009 |
Quinta-feira, Abril 30, 2009
MENINOS PODEM ESTUPRAR À VONTADE Ontem, no Guarujá, foi preso o bancário aposentado Antonio da Paixão, de 66 anos. Ele confessou armazenar fotos eróticas de menores de idade e foi detido em flagrante. Três jovens - de 14, 15 e 16 anos - foram identificadas nas imagens apreendidas em seu computador. A polícia investiga se houve estupro. A polícia nem sabe se houve estupro e o bancário já está preso. Há mais de milhão de adolescentes grávidas no Brasil, e muitas delas com dez ou doze anos. Segundo a legislação vigente, presume-se como estupro a relação com menores de 14 anos, mesmo consensual. Os meninos que as engravidaram jamais foram condenados como estupradores.
O MILAGRE DAS TETAS CHEIAS Me conta um leitor, Vinícius Ramon: Janer, andei escutando umas histórias que me fizeram lembrar o celibato paraguaio. Acontecia, com considerável frequência, em cidades minúsculas, onde ninguém havia visto nenhuma mulher grávida, aparecerem bebês nas portas dos conventos. As freiras, caridosamente, adotavam o rebento. Para alimentá-lo, faziam uma novena pedindo a qualquer santo que algumas das freiras fosse agraciada com leite. E não é que sempre dava certo! Depois da novena uma das freiras, nunca duas, aparecia com as tetas estufadas de leite! Dizem que muitas delas iam parar no convento, pois não queriam se casar com o par sugerido pelo pai, e o convento era a única saída. Sem vocação, vinham os rebentos. Essa história é antiga, vide Soror Mariana Alcoforado.
SÓ NEGRO PODE? Leio no Estado de São Paulo notícia que não mereceu primeira página e parece ter passado despercebida pelos jornalistas. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, rejeitou um pedido do Incra para que fosse liberado o processo de seleção dos interessados no curso de medicina veterinária na Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Ele concluiu que a iniciativa, criada por meio de um convênio entre o Incra, a universidade e a Fundação Simon Bolívar, favorecia os assentados em detrimento dos demais cidadãos. "Tais dispositivos violam o estatuído no art. 206, I, da Constituição, que preconiza a igualdade de condições para o acesso e a permanência nas instituições de ensino” – afirmou o ministro. “Diversamente de outras ações afirmativas, nas quais apenas é destacado um porcentual das vagas existentes - caso das cotas, cuja constitucionalidade é objeto de impugnação perante esta corte -, o convênio celebrado pela autarquia fundiária com a Universidade Federal de Pelotas interdita o acesso de outras pessoas ou grupos ao curso de graduação". Para o ministro, o fato de a escolha contar com a ingerência das lideranças dos assentamentos "revela-se em descompasso com a norma constitucional que determina o acesso aos níveis mais elevados do ensino segundo a capacidade individual". Pergunta que se impõe: não estariam as cotas raciais em descompasso com a norma constitucional que determina o acesso aos níveis mais elevados do ensino segundo a capacidade individual?
Quarta-feira, Abril 29, 2009
Recordar é viver: A FARRA DO EXECUTIVO Aos poucos, vai-se descobrindo que todo mundo viaja no Brasil às custas do contribuinte. Por todo mundo entendam-se os funcionários do poder e eventuais amigos, porque quem está longe do poder tem de pagar para viajar. Na Folha online, escreve Fernando Rodrigues: “Enquanto deputados e senadores são massacrados em público – de maneira justa – por usarem passagens aéreas de maneira ilimitada, no Poder Judiciário continua a prática de viajar por aí com tudo pago para participar de seminários. É um costume não menos condenável do que a farra das passagens no Congresso”. E nos conta sobre ministros do STJ que participam do Congresso Nacional do Ministério Público do Meio Ambiente em um hotel de luxo em Pernambuco. Como também sobre a tentativa do STJ de organizar o seminário “O desenvolvimento em tempos de crise” no hotel Iberostar, na Bahia. Foi necessário que um deputado fosse flagrado financiando viagens para uma prostituta de luxo para se desenrolasse o fio da meada. Ora, as viagens dos ilustres magistrados não é novidade nenhuma. No Brasil, o turismo financiado pelo contribuinte é extensivo aos três poderes. E não só a eles. A verdade, caríssimos, é que neste país todo mundo – vide meu conceito de todo mundo – viaja. Viajam juízes, deputados, senadores, funcionários do Executivo. Não estou falando das viagens necessárias ao exercício de um cargo. Falo das viagens de lazer, em geral maquiadas como viagens de trabalho. Se você observa um pouco a movimentação de funcionários neste país, verá que seus congressos, eventos, encontros, colóquios e simpósios de modo geral se realizam em cidades de poderoso atrativo turístico, como Recife, Natal, Salvador, Rio, Florianópolis. Um dos destinos dos senhores magistrados, por exemplo, é Porto de Galinhas, balneário preferido por boa parte da classe média alta para seu lazer. Há dez anos, o must – pelo menos para ministros – era Fernando de Noronha. É professor viajando para vitais encontros de literatura, assistentes sociais viajando por um mundo melhor, funcionários da saúde viajando em nome da saúde nacional, sindicalistas viajando em defesa da classe operária. Isso sem falar nos fóruns sociais da vida, cujos participantes sempre recebem viagens e hospedagens do sistema capitalista... para denunciar o sistema capitalista. Curiosamente, nossos jornalistas parecem ter perdido a memória recente. Ou talvez tenham esquecido o bom hábito de pesquisar em arquivos. Ou na Internet, arquivo colossal que está ao alcance de um clique de mouse. Ao que tudo indica, ninguém mais lembra que o atual presidente do Senado, José Sarney, foi viajor entusiasta a expensas do Erário quando presidente. Que viajasse como presidente, nada a objetar. Ocorre que, em 1989, quando foi a Paris para participar das festas de 200 anos da Revolução Francesa, Sarney levou 150 pessoas a bordo de um Boeing, com todas as despesas pagas pelo governo brasileiro. Isto é, pelo contribuinte. O que talvez explique o silencioso obsequioso do presidente do Senado em relação à última farra com dinheiro público denunciada pela imprensa. O Boeing da alegria foi amplamente denunciado pelos jornais, mas nenhuma providência foi tomada para coibir tais despilfarros. Saudosos tempos aqueles, em que ninguém ligava para o que diziam os jornais. O final dos 90 foi marcado por intenso turismo à ilha de Fernando de Noronha de ministros de todas as áreas – inclusive o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro – transportados por jatinhos da FAB. Entre os turistas da época, estão ilustres figuras do panorama político atual, como José Serra, Paulo Renato, Pedro Malan. Na época, a Veja fez uma lista dos Dez Mais, arrolando os ministros que mais utilizaram aviões da FAB, em todos os tipos de viagem, desde que tomaram posse (em número de vôos): Francisco Weffort - 499 Clóvis Carvalho - 401 Raul Jungmann - 392 Paulo Renato - 290 José Serra - 267 Pedro Malan - 260 Eliseu Padilha - 246 Luiz Felipe Lampreia - 214 Francisco Turra - 141 Renan Calheiros - 121 Nada melhor que ler jornais antigos para entender o presente. Transcrevo abaixo a reportagem da Veja, datada de 19/05/99. Texto longo, mas que merece ser revisto nestes dias de corrupção explícita do Congresso. Se a moda pega... preocupava-se a revista. Pegou, e com força. E não há sinal algum no horizonte que um dia seja extinta. Voar às custas do contribuinte virou direito adquirido do poder.
Recordar é viver: A FARRA DOS MINISTROS VOADORES A ilha da fantasia Enquanto os ministros descansam à beira-mar, num paraíso no Atlântico, você paga as contas Sandra Brasil e Vladimir Neto Caro leitor: como você se sentiria se chegasse a sua casa uma conta de Brasília informando que você, como todos os outros brasileiros, precisa pagar sua parte numa despesa de férias de um servidor do governo? A cobrança nunca chegou nem vai chegar de forma explícita, mas é exatamente isso que está acontecendo. Ministros e outros altos funcionários do governo federal foram descansar e se divertir com a família em fins de semana na paradisíaca ilha de Fernando de Noronha, usando de graça aviões da FAB e lançando despesas na conta de Brasília. Tudo por baixo do pano. Ao preencher a declaração de imposto de renda, cada brasileiro teve de desembolsar sua parcela para cobrir essa mordomia oficial. Até agora, sabe-se que pelo menos seis ministros e dois ex-ministros, além do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, esticaram até Fernando de Noronha nas asas do pacote gratuito. Como alguns caíram de amores pela ilha, voltaram outras vezes, de modo que as nove autoridades fizeram, pelo menos, dezesseis viagens para lá – sempre com avião oficial e hospedagem gratuita no melhor hotel da ilha, o Hotel de Trânsito, do Ministério da Aeronáutica, um casarão com cinco quartos encarapitado no alto de um morro e de cuja varanda se descortina uma bonita paisagem. O ministro da Casa Civil, Clóvis Carvalho, já viajou a lazer para a ilha quatro vezes nos jatinhos oficiais da FAB. Uma das viagens, realizada no Carnaval passado, na qual levou a mulher, Gema, os cinco filhos, o namorado de uma filha e a namorada de um filho, ficando por lá uma semana, acabou sendo paga pelo próprio ministro. Ele não pagou pelo passeio. Mas a história acabou saindo na imprensa e o ministro mudou de opinião. Apanhado com a boca na botija, Clóvis Carvalho não teve outro jeito senão fazer um cheque pessoal de 25.000 reais, que foi depositado na conta do governo. Parecia que o problema estava contornado quando se descobriu que o circunspecto Clóvis Carvalho fizera outras três viagens de lazer ao paraíso de Fernando de Noronha – entre janeiro e fevereiro de 1996, 1997 e 1998 –, sobre as quais não deu um pio, mesmo sendo tucano de bico comprido. Para não ter de pagar a conta inteira, que poderia chegar perto dos 100.000 reais, Clóvis Carvalho preferiu silenciar para ver se colava. Não colou. Na semana passada, as três viagens secretas vieram a público. O ministro ainda não deixou claro se pagará ou não. O procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, cuja função, entre outras coisas, é ficar de olho em quem abusa do patrimônio público, também foi à ilha com a mulher e os filhos em janeiro passado. Sua visita durou dez dias, e ele pagou por ela quatro meses depois, ocasião em que foi divulgada a história da viagem gratuita de Clóvis Carvalho. Brindeiro desembolsou 18.000 reais, antes que alguém fizesse alguma cobrança. Não satisfeito com o ressarcimento, tornou seu gesto público. Exibiu o recibo de pagamento, fez uma nota à imprensa reconhecendo o erro e, na terça-feira, ainda reuniu um grupo de procuradores para pedir desculpas. Na semana passada, descobriu-se que, a exemplo do ministro Clóvis Carvalho, Brindeiro também silenciara sobre duas outras viagens à ilha a bordo de avião da FAB. Aparentemente, o procurador esqueceu essas outras excursões. Coisa errada – É preciso não perder as medidas quando se discute um assunto como esse da mordomia oficial em Fernando de Noronha. Num país em que bilhões de dólares são torrados a todo momento para cobrir rombos que muitas vezes ocorrem por incompetência do governo, os 25.000 reais que um ministro gasta numa curta escapulida até Fernando de Noronha não representam uma soma de dinheiro tão alta assim. Há aí, no entanto, um problema de transparência, para usar uma palavra da moda. O ministro viaja e não paga. Quando o fato aparece na imprensa, ele corre ao guichê do governo e faz o pagamento. Por quê? Porque sabe que, por mais argumentos que se possa levantar a favor do seu descanso, ele fez coisa errada. Além do problema da transparência, há a questão da transferência. O ministro viaja e, sem que ninguém perceba, o governo transfere a conta aos que pagam impostos. Caracteriza-se, portanto, um comportamento que deve ser evitado. Há ministros que, se descansam à custa do Erário, ao menos assumem claramente o que fazem. São exceção, é bom que se diga logo. Raul Jungmann, da Política Fundiária, é um deles. Na semana passada, indagado sobre suas três viagens de lazer a Fernando de Noronha, entre 1996 e 1998, sempre em jato oficial e com hospedagem gratuita – para ele, bem entendido –, o ministro não se fez de desentendido, como os colegas. Disse que não paga, a menos que a Justiça o obrigue. Segundo a explicação de Jungmann, mesmo na hora do descanso um funcionário do governo pode ser acionado por uma crise qualquer. "Não somos senhores da nossa agenda. O país precisa de seus ministros a qualquer momento. Como se tira um ministro a qualquer hora de Fernando de Noronha, se não for em avião da FAB? Ou o ministro não merece ter lazer e descansar?" Está aí um servidor que não tenta tergiversar. Com essa ressalva, é bom esclarecer que Jungmann usa um raciocínio duvidoso. Se é preciso um jato da FAB para tirar um ministro de Fernando de Noronha num momento de crise, não é necessário avião oficial para colocá-lo lá no momento de lazer. "Viajem, aproveitem" – Outro flagrado em viagens de lazer à ilha foi Luiz Felipe Lampreia, ministro das Relações Exteriores, que esteve por lá durante três dias com a família no verão do ano passado. Esse é outro que não desconversa. Reconhece que era puro lazer e lamenta o que fez, sem deixar claro, no entanto, se pretende reembolsar os cofres públicos pelas despesas que causou. "Fiz uma viagem de boa-fé, sem considerar que estava abusando de minhas prerrogativas", afirma o ministro. "De minha parte, daqui em diante somente farei uso individual dos serviços da FAB se houver imperativo absoluto e não existir alternativa de vôo comercial." No meio de uma farra aérea em que a cada dia aparecem mais e mais protagonistas, mais e mais viagens, essa nova atitude do ministro Lampreia não deixa de ser uma boa notícia. O ex-ministro Gustavo Krause, do Meio Ambiente, dentre todos é o que se sente mais à vontade com seus passeios à ilha. Durante os quatro anos em que ficou no governo, do início ao fim do primeiro mandato do presidente Fernando Henrique, Krause foi três vezes ao arquipélago, duas a trabalho. É um fã de Noronha, a ponto de ter-se tornado uma espécie de agente turístico do local entre seus colegas. "Eu dizia aos ministros: 'Vão lá, viajem, aproveitem' ", conta ele. "Eu defendi que o presidente também fosse lá. Sempre defendi a ida à ilha", completa o ex-ministro. Dentro do governo, a campanha do "viajem, aproveitem" foi um sucesso. O ex-ministro Antonio Kandir, que ocupou a Pasta do Planejamento, conheceu Fernando de Noronha por insistência de Krause. "O meu caso é o mesmo de várias pessoas. Recebi o convite do Krause para ir à ilha, viajar no avião da FAB e ficar hospedado no hotel da Aeronáutica. Estive lá a convite. Não havia nenhuma indicação de que aquilo era irregular", observa o ex-ministro. Kandir não esconde, porém, certo constrangimento. Diz que vai pedir à Aeronáutica que faça as contas para reembolsar o Erário. Gustavo Krause promoveu tanto a ilha – que pertence a Pernambuco, seu Estado natal – que recebeu o primeiro título de "cidadão noronhense", o que o transformou, mesmo fora do governo, em militante da causa dos ilhéus. "Vou fazer um apelo, como cidadão da ilha, para que os ministros continuem indo lá", diz Krause. De fato, quando ministros visitam Fernando de Noronha acabam se encantando com suas belezas e fazem o que podem para ajudar. O ministro José Serra, hoje na Saúde, visitou o arquipélago a convite de Krause, em setembro de 1995, época em que era ministro do Planejamento. Mas Serra está na categoria dos que não assumem. Sua assessoria garante que a viagem foi a trabalho, para "assegurar" recursos orçamentários à recuperação da estrada que corta a ilha e ao sistema de saneamento do local. O Planejamento, no entanto, não tem nada a ver com estradas. Além disso, a estrada, batizada de Transnoronha, não chega a 8 quilômetros, aparentemente uma obra pequena demais para atrair o interesse e a presença de um ministro. Mas Serra esteve lá em companhia da mulher e um filho, desembarcando em Noronha na sexta-feira à noite e partindo de volta para o continente no domingo à tarde. De volta a Brasília, o ministro Serra, segundo sua assessoria, empenhou-se com o então ministro dos Transportes, Odacir Klein, para conseguir a verba para consertar a Transnoronha. Como Odacir Klein acabou deixando o ministério, seu sucessor no cargo, Eliseu Padilha, ficou encarregado da tarefa. E achou por bem conferir o local de perto antes de liberar qualquer verba. Afinal, a Transnoronha não era uma rodovia qualquer, tendo merecido a atenção do ministro Serra e do ministro Odacir Klein. Padilha diz que só resolveu embarcar num avião da FAB depois que viu uma reportagem na televisão dizendo que os 8 quilômetros da estrada estavam em péssimas condições. Viajou com sua mulher num fim de semana. Nessa visita, em novembro de 1997, o ministro Padilha mandou tocar a obra da Transnoronha, que àquela altura já estava se tornando a mais popular estrada brasileira entre os ministros de FHC. Em março do ano passado, Padilha voltou à ilha, dessa vez para inaugurar a obra, mas deixou sua mulher em casa. "Faço questão dentro do possível de supervisionar tanto o início como o final da obra", afirma o ministro. Um dos episódios mais divertidos nessa história das viagens a Noronha foi proporcionado pelo ministro da Educação, Paulo Renato Souza, que visitou a ilha em 1997. Ao se tornar público seu descanso em Fernando de Noronha, sua assessoria emitiu uma nota na qual deu a entender que o ministro fora convidado pelo Ministério da Aeronáutica para conhecer o local. Infelizmente, logo em seguida, a própria Aeronáutica se manifestou dizendo que jamais convidou quem quer que fosse para visitar a ilha a bordo de jatinhos da FAB. O ministro e sua assessoria não tocaram mais no assunto. Paulo Renato até poderia usar o argumento de Serra e Padilha, informando que cumpriu alguma missão oficial, mas não daria certo. De estrada não poderia falar, por mais convincente que fosse o argumento da Transnoronha. Afinal, ministro da Educação tem a ver com escola, não com rodovia. Em Fernando de Noronha, há uma escola, com 530 alunos, e uma pré-escola que atende 170 crianças. Mas o ministro nunca foi visto inspecionando essas unidades educacionais. "Se ele esteve aqui alguma vez, foi disfarçado", diz a diretora da escola Arquipélago Fernando de Noronha, Jaciane Maria Flor, que trabalha lá há quatro anos. "Estamos esquecidos aqui." Se a moda pega – Até aqui, falou-se apenas de viagens a Fernando de Noronha – mas não é só isso, não. O ministro Francisco Weffort, da Cultura, já realizou 499 viagens em jatinhos da FAB desde sua posse. É o campeão. O vice é o ministro Clóvis Carvalho, com 401 viagens. A maioria no trajeto Brasília–São Paulo, onde mora sua família. Analisando-se o conjunto das viagens da FAB, constata-se que de cada dez viagens ministeriais seis foram nos fins de semana e apenas quatro ocorreram em dias úteis. Isso mostra que os ministros gostam muito de tomar um jatinho oficial para voltar a suas residências. Pode até ser uma coisa aceitável, mas seria bom que a lei permitisse essa prática. Criado em 1956, o Grupo de Transporte Especial, GTE, com 21 aeronaves e sessenta pilotos 24 horas à disposição das autoridades, tinha o objetivo de servir aos ministros em missões oficiais, e, é claro, não em passeios. O congestionamento aéreo de jatos oficiais chegou a tal ponto que, em outubro passado, o então ministro da Aeronáutica, Lélio Lôbo, pediu aos ministros que fossem mais seletivos nas viagens. O número de requisições de avião caiu de 400 para 250 por mês. Mas em janeiro passado o novo ministro da Aeronáutica, Walter Werner Bräuer, achou que as coisas não estavam ainda muito claras, pois os pedidos de avião para viagens de caráter pessoal continuavam sendo feitos. Assim, em 18 de janeiro, o ministro Werner Bräuer distribuiu um comunicado no qual esclarecia que os aviões existem para servir às autoridades em "eventos oficiais" e para levá-las a "localidades não apoiadas por linhas aéreas regulares". Os ministros voadores alegam que não havia uma regra clara dizendo se podiam ou não usar os aviões oficiais para deixar Brasília de volta a seus Estados no final da semana, ou mesmo para viagens de lazer. Têm razão. A coisa era mesmo dúbia. Na sexta-feira passada, a pedido do presidente Fernando Henrique, o ministro Clóvis Carvalho – logo ele! – aprontou um decreto para disciplinar o uso dos aviões oficiais. No decreto ficam proibidas as viagens de caráter pessoal. As viagens de volta para casa foram autorizadas. Agora está mais claro. O ministro fica sabendo que não pode pedir um jato oficial para uma esticada à praia, da mesma forma que o contribuinte anônimo sempre soube que não está autorizado a tomar um avião da Varig, pago pelo governo, para se aventurar num passeio ao Caribe. Então, ficamos combinados. Veja, 19/05/99
AINDA A FARRA UNIVERSITÁRIA De um mestrando da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), recebo: Oi Janer, Alguns de seus posts mais recentes, especificamente os que tratavam da Planaltur, me lembraram de algo que acontece na esfera acadêmica. Quando os li pensei em escrever comentando, e agora que vejo que abordas os abusos de alguns acadêmicos me sinto na obrigação de lhe escrever isto. Talvez já tenhas conhecimento, e talvez até já tenhas escrevido sobre isso um dia mas eu não vi. Na realidade eu não sou profundo conhecedor do assunto, pois sou aluno de mestrado (na UFSC, a propósito) e o que vou falar aqui acontece com os doutorandos. O que acontece muito, e que pode ser interpretado como mais um reflexo da corrupção que permeia a nossa sociedade, e não apenas a esfera política, como muita gente gosta de fazer de conta que é o caso, é o seguinte. Os bolsistas de doutorado recebem uma bolsa cujo valor atualmente é de R$ 1800,00, e os bolsistas do CNPq, além disso recebem uma chamada "taxa de bancada" de aproximadamente R$ 400,00. Esta taxa de bancada deve ser gasta com material para estudo, como livros, canetas, lousa, fotocópias e até computadores. O doutorando recebe este dinheiro todo mês, e deve guardar os comprovantes de que está gastando esta taxa de bancada corretamente. Ao final do curso a parte do dinheiro que não foi gasta e justificada deve ser devolvida, e todo o material (que não seja de consumo como caneta, borracha, giz, fotocópias, etc) fica com a faculdade, desta forma a biblioteca interna e a estrutura dos laboratórios saem ganhando com estas aquisições. Agora, na sua maior parte, os bolsistas de doutorado praticamente consideram que a bolsa é de R$ 2200,00. Eles simplesmente usam o dinheiro como bem entendem e o material que compram nem sempre é deixado nos laboratórios. Existe um tipo de "pente fino", que examina as notas fiscais que os novos doutores utilizam para justificar seus gastos, mas a grande maioria nem precisa justificar nada, e aqueles que não têm como justificar são apenas obrigados a devolver o dinheiro (como exatamente os obrigam a isto eu não sei, talvez segurem o "título" de doutor até receber o ressarcimento, talvez não). Na minha opinião os orientadores deveriam ser responsáveis por conferir o destino deste dinheiro, e periodicamente entregá-lo. A justificativa é sempre a mesma, e não chega a ser falsa - R$1800,00 com certeza não é um valor que reflete o que uma pessoa com um título de mestre espera receber por um trabalho em período integral, então considera-se este "bônus" de pouco mais de 20% como um complemento na renda. Ao meu ver, se alguém está insatisfeito com o que recebe esta pessoa tem algumas opções: ou luta para que este valor aumente, ou vai procurar outro trabalho onde ganhe melhor. Esta taxa deveria ser utilizada exclusivamente para que os laboratórios, e conseqüentemente as pesquisas que saem de lá, sejam cada vez melhores, é algo muito valioso, mas que é mal utilizado. Os paralelos entre isto e a história da Planaltur são muito claros, mas maiores comentários críticos eu deixo para os profissionais. Um abraço.
Terça-feira, Abril 28, 2009
BISPO EMÉRITO BRASILEIRO CUMPRIMENTA BISPO EMÉRITO PARAGUAIO POR SEUS DOTES DE EMÉRITO REPRODUTOR Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque andavam desgarradas e errantes, como ovelhas que não têm pastor. (Mateus 9:36) Baita bispo, Don Fernando Lugo, el semental de la Pátria! Onde boleia a perna vai deixando filho feito, como se diz lá no Sul. Caudilho como Sua Eminência não foi jamais sonhado nem mesmo pela imaginação fértil de Roa Bastos, Garcia Márquez, Alejo Carpentier ou Andrés Rivera. Nem mesmo pelo esperpêntico Don Ramón del Valle-Inclán. Príncipe da Igreja, bispo emérito de San Pedro, presidente do Paraguai e pai de três filhos, segundo as primeiras notícias. De seis ou nove, segundo outras fontes. De dezessete, segundo a oposição. Um bispo-presidente com dezessete filhos ficção alguma concebeu. Só mesmo a realidade da América Latina. Ou talvez só mesmo o Paraguai. Difícil imaginar que em algum outro país do continente um prelado conseguisse eleger-se presidente. O bispo emérito de San Pedro, ao manter relações com uma menina de 16 anos, transgrediu o Código Penal, ao cometer estupro segundo a legislação de seu país. (Hoje ainda, talvez para salvar o que pode ser salvo, a moça declara que a relação ocorreu aos 26 anos. Melhor não arriscar a mandar para o cárcere quem lhe provê seu sustento). Como religioso, transgrediu o Código Canônico, ao desobedecer a seu voto de castidade, professado não ante os homens, mas ante seu Deus, se é que Don Fernando nele acredita, o que muito me espantaria. Como cidadão, só reconhece – ou reconhecerá – sua prole, ainda indeterminada, sob a ameaça de exames de DNA. Curiosamente, tem recebido a solidariedade até mesmo de seus colegas de cetro. Assim como um dia o cardeal Evaristo Arns escreveu uma terna missiva ao ditador Fidel Castro, Dom Tomás Balduíno, bispo emérito de Goiás, saiu em defesa do emérito prevaricador. Caro Amigo Presidente Fernando Lugo, (...) E minha manifestação, depois ter ponderado com alguns irmãos e irmãs, é em primeiro lugar para dar-lhe os parabéns, fazendo eco à declaração do meu amigo e bispo Mons. Mário Melano Medina, seu compatriota, pelo seu ato de "valentia e sinceridade" ao reconhecer a criança. Uno-me também ao bispo metodista emérito Federico Pagura ao expressar-lhe, também em carta aberta, sua solidariedade: "ante tu decisión de hacer públicas tus relaciones com tu compañera, y tu compromisso de assumir plenamente tu responsabilidad de padre". Continue assim, caro Irmão, coerente com a inspiração evangélica, ao testemunhar, com clarividência e humanidade, o inestimável valor do relacionamento entre o homem e a mulher. Pelo jeito, o bispo de San Pedro terá de multiplicar por três, ou seis – ou talvez dezessete – seu ato de valentia e sinceridade. E os senhores bispos terão de manifestar solidariedade, tantas outras vezes quantas forem as conquistas de Don Fernando, ante sua decisão de tornar públicas suas relações com suas companheiras, assim no plural. Não sei se os digníssimos prelados notaram, mas ao manifestar solidariedade ao colega em apuros estão fazendo a apologia da poligamia. O que não deixa de ser um progresso, numa instituição que até hoje não aceita o casamento de sacerdotes. Se Don Fernando pretendeu “testemunhar, com clarividência e humanidade, o inestimável valor do relacionamento entre o homem e a mulher”, que o fizesse como défroqué, e não antes de largar a batina, como de fato ocorreu. Que me conste, nada tem de coerente com a inspiração evangélica o gesto de um pastor que sai emprenhando a torto e a direito suas ovelhas desgarradas e errantes. Ó tempora, ó mores! Morro e não vejo tudo. Religiosos fornicando urbi et orbi existem às pampas. Mas jamais imaginei, em minhas seis décadas de existência, ver um bispo cumprimentando outro por sua paternidade. Não bastasse um prelado fazer salamaleques ao reprodutor paraguaio, um ex-vice governador de São Paulo, homem que por ofício deveria zelar pelo cumprimento da lei, que mais não fosse do Código Penal, saiu ontem em defesa da lascívia episcopal. Falo de Cláudio Lembo, aquele mesmo senhor que cunhou a expressão “elite branca”, a responsável pelos males de São Paulo. Terá sido o inspirador do Sumo Apedeuta, quando este culpou os “brancos de olhos azuis” pela mazelas do mundo. Hoje, o ex-vice parece dedicar seu ócio a proferir as mesmas sandices que o bispo emérito de Goiás. O debate é intenso. Os meios de comunicação preenchem expandem espaços para noticiar o inusitado: um bispo pai. A análise do episódio permite inúmeros ângulos de observação. Certamente, o mais sensível sob o ponto de vista das pessoas é aquele da intimidade. Pode a vida privada das pessoas - mesmo que ocupem altos cargos - ser esmiuçada sem qualquer constrangimento? É pergunta que se impõe. Na contemporaneidade, como doença endêmica, surgiu o deplorável vício de violação da privacidade das pessoas, tornando-as passíveis de uma exibição danosa. Ora, por ocasião do artigo de Lembo, a mãe do filho do bispo ainda não havia alegado ter 23 anos quando do início da relação. Lembo raciocina a partir da primeira informação, a de que tinha 16. Pretende então o ilustre detrator das elites que construíram este país que estupro pertença à vida privada das pessoas, que não pode ser esmiuçada? Pretenderá que não se possa comentar a vida sexual de um sacerdote? Assim sendo, todo estuprador e todo padre pedófilo estaria ipso facto protegido por um escudo de privacidade. Belo argumento para um advogado brandir em defesa de seu constituinte: “A promotoria está invadindo a privacidade de meu cliente". Tanto um dirigente de um país quanto um padre – ainda mais se tratando de um bispo – não podem abrigar-se no direito à privacidade para sair espalhando filhos impunemente pelo mundo. Se até a mulher de César tem de parecer honesta, com mais razões César tem de ser e parecer honesto. Que mais não seja, para que tais filhos sejam protegidos pela legislação, eles terão de vir a público para reclamar seus direitos. “Há uma procura diabólica de novos filhos para o presidente – escreve Lembo –. Uma caça a mais um membro para a prole em franco crescimento. Nada moralista. Simplesmente, a presença de um manifesto sadismo. Sadismo coletivo”. Ora, não há caça nem sadismo. Os filhos estão surgindo por iniciativa das mães. Mas obviamente a imprensa – e muito menos a opinião pública – não manteria a fleugma ante escândalo de tal porte. Pela primeira vez no Ocidente se tem um bispo como presidente. Além de bispo, pai de muitos filhos. Não pretende Lembo que os jornalistas renunciem a trinchar tal prato. Lembo lança a pergunta: “a imposição do celibato, em pleno século XXI, condiz com os atuais costumes e com as novas exigências da nova cultura do corpo?” Claro que não condiz. Mas isto é idiossincrasia do Vaticano, teimosia dos papas. Enquanto a Igreja de Roma não aceitar o casamento de seus padres, proibido está. Convivi com muitos padres em minha juventude, e dos mais excitadinhos. Não conseguiram suportar o jugo do celibato e tomaram a decisão correta. Largaram a batina e o sacerdócio. Se alguém acha que tenho algo contra a poligamia, em muito se engana. Sempre fui polígamo e sempre me senti bem assim sendo. Acontece que não sou religioso, nunca fiz voto de castidade e não participo dos valores cristãos ou católicos que vêem na monogomia o modelo familiar eleito pelo Eterno para comportamento de suas criaturas. Cada um escolhe sua cruz. Quem escolheu batina que a honre.
Crônica antiga: BOLSISTAS EM TURISMO NO EXTERIOR * Comentei, em post anterior, a corrupção universitária dos bolsistas que vão ao exterior pesquisar e voltam de mãos vazias. O leitor Felipe Svaluto me envia esta notícia do UOL, datada de 04/09/2006: SECRETÁRIO DO MEC ESTÁ INADIMPLENTE COM A UNIÃO O secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (MEC), Ricardo Henriques, é um dos 659 ex-bolsistas que estão inadimplentes com a União. A dívida se deve ao custeio de curso de pós-graduação strictu sensu (mestrado ou doutorado) pela Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (Capes). Henriques deixou de ser bolsista da Capes em 1998. Ele ficou na França, por quatro anos, fazendo doutorado de economia na Universidade de Paris, às custas do financiamento do governo. No entanto, apesar de ter concluído todas as disciplinas, não chegou a defender a tese, requisito obrigatório exigido pela instituição a todos que recebem a bolsa. De acordo com o MEC, o secretário fez um pedido de prorrogação e deve apresentar o trabalho final até 2008. Até a manhã de hoje (4/9), o nome do secretário ainda constava no Cadastro Informativo dos Créditos não Quitados de Órgãos e Entidades Federais (Cadin) devido a essa pendência. Segundo a assessoria de comunicação da Capes, o processo de prorrogação é legal e está em andamento. Assim que eles receberem a última documentação, irão providenciar a regularização de Henriques junto ao Cadin. A defesa da tese é uma das exigências, tanto da Capes quanto do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico (CNPq), para que a bolsa de estudos para o exterior seja concedida. O aluno também não pode abandonar o curso sem apresentar uma justificativa e tem que voltar para o Brasil, permanecendo, no mínimo, o mesmo tempo que ficou fora do país. Caso contrário, é obrigado a ressarcir às instituições. O governo gasta R$ 100 mil por cada bolsista que passa quatro anos no exterior fazendo doutorado. Além dos custos com as mensalidades e taxas universitárias, o valor inclui passagens aéreas para o aluno, cônjuge e filhos, US$ 1,1 mil mensais para despesas pessoas e US$ 200 mensais para cada dependente, podendo ter até quatro. O Tribunal de Contas da União (TCU) está analisando 43 casos de ex-bolsistas do CNPq e já condenou 118 da Capes a pagar R$ 18 milhões ao governo. Se todos os beneficiados do CNPq forem obrigados a ressarcir o instituto, os cofres públicos receberão R$ 4,7 milhões. Em levantamento da Capes e do CNPq foram encontrados 659 ex-bolsistas que não reembolsaram os dois órgãos. Isso gerou um desfalque de R$ 97,6 milhões nos cofres públicos. Dos quase 700 nomes encontrados, apenas 73 estão no Cadin. Valiosa, a informação do Svaluto. Eu a desconhecia. De qualquer forma, duvido que os 118 inadimplentes da Capes devolvam R$ 18 milhões ao governo. Além disso, devem ser bem mais que 659. Em meus dias de professor em Florianópolis, denunciei amplamente na imprensa esta corrupção na Universidade Federal de Santa Catarina, que eu chamava de UFSCTUR, a mais barata e confortável agência de turismo do país. Reproduzo abaixo resposta a um leitor, que já publiquei neste blog, em 2005. Só a UFSCTUR havia enviado 73 privilegiados turistas para Europa e Estados Unidos. Multiplique isto pelo número de universidades do país e tenha uma pálida idéia do volume deste fluxo turístico. (*) Só para lembrar que a farra universitária vem de muito longe e precede a dos deputados e senadores. Esta crônica foi publicada em 07/08/2007.
Segunda-feira, Abril 27, 2009
ADENDO DO GABRIEL Do leitor Gabriel, a respeito da crônica "CNPq financia o melhor turismo", recebi: Vou adicionar mais duas barbaridades à tua lista. Em primeiro lugar, professores que aposentam-se e tornam a fazer concurso. Como têm uma produção enorme (mais pela idade se não pela competência), os alunos que se formaram não têm como competir e ficam desempregados enquanto o estado paga dois salários para um velhaco. Em segundo lugar, professores que usam os equipamentos e bolsistas da universidade para promover negócios próprios, promovendo uma competição absolutamente injusta com empresários que precisam pagar salários, impostos e equipamentos. A mídia olha muito para o topo, mas o comportamento anti-social permeia toda a sociedade brasileira.
RESPOSTA AO DR. BARGHINI Dr. Barghini: Como afirmei em meu artigo, não tive acesso à sua tese. Minhas considerações foram tecidas a partir de suas declarações sobre seu trabalho à Folha de São Paulo. Soou-me um tanto bizarra sua afirmação de que “os ribeirinhos e os caboclos sabem que a luz atrai insetos". Ora, Dr, quem não sabe disso? Não é preciso ser ribeirinho ou caboclo para se chegar a tal conclusão. Qualquer cidadão urbano que abra a janela de seu apartamento e deixe uma luz acesa numa noite quente sabe disto, sem maiores pesquisas nem metodologias acadêmicas. Considero que uma tese de doutorado há de resultar em uma observação original, ainda não formulada, sobre a área de estudos. Tampouco me parece adequado submeter a uma banca a prosaica observação de que doze pessoas foram contaminadas pelo mal de Chagas por causa de uma lâmpada inadequada que iluminava uma revenda de caldo de cana. Isto é questão pertinente aos serviços de saúde de uma comunidade. De qualquer forma, acredito que sua tese seja uma útil colaboração a esses mesmos serviços. A questão é outra. Tal pesquisa tem de ser objeto de um longo doutorado? Não me parece ser o caso. Será necessário coletar insetos para provar que insetos são atraídos pela luz? Inseto coletado não prova atração alguma. Mas a questão mesmo ainda é outra, e não é de hoje que a discuto. E sim desde meus dias de magistério universitário, quando vi em meu departamento professores em idade provecta postulando mestrados e doutorados. Para quê? Para aumentar sua aposentadoria? Para pendurar o diploma na parede para contemplação de filhos e netos? Para ostentá-lo como louros ganhos ao fim da vida? Creio inclusive ter prolongado a vida de um de meus orientandos, ao dissuadi-lo de persistir em uma tese impossível. Era cinqüentão e cardíaco e vivia sob estresse permanente, por pressão acadêmica. Mostrei-lhe por A + B que sua tese 1° - não tinha sentido; 2º - não o levaria a lugar nenhum e, pior que tudo, 3º - estava minando sua saúde. Ele foi-me grato e respirou aliviado. Sobreviveu mais quatro anos, tranqüilos e sem maiores sobressaltos. Em verdade, vou um pouco mais longe. Questiono não apenas os doutorados em idade provecta, mas o doutorado em si. Considero mais uma perversão universitária, à qual são obrigados professores que às vezes não têm pendor algum para pesquisa. Por que um professor há de ser cientista? Isso sem falar que toda banca é uma farsa. Toda tese já está aprovada quando chega à banca. Então, para que todo aquele teatro? Para que os examinadores exibam suas plumas e exerçam seu poder sobre o examinando? Além do mais, qual o destino das teses senão o pó das bibliotecas? Em 2005, a Capes previa investir R$ 3,26 bilhões em seis anos para passar de oito mil para 16 mil titulados ao ano. O Plano Nacional de Pós-Graduação apresentado pela Capes ao então ministro da Educação, Tarso Genro, propunha a aplicação nos seguintes seis anos de R$ 1,66 bilhão a mais em bolsas e fomento de pós-graduação, o que permitiria passar dos atuais oito mil doutores titulados por ano para 16 mil em 2010. O plano “será acolhido integralmente", disse Genro na ocasião. Se foi, não sei. Faço votos de que não tenha sido. Ora, para que queremos 16 mil doutores? Dezesseis mil doutores constituem alguma prioridade para o país? Não bastassem os jornalistas e engenheiros formados que trabalham de taxistas ou fiscais do trânsito, teremos doutores conduzindo táxis ou aplicando multas nas ruas. Sempre formados à custa do contribuinte. O que me lembra um pouco Fidel Ruz Castro – aliás Dr. Honoris Causa pela Universidade Federal de Santa Catarina – respondendo às acusações de que em Cuba até as universitárias tinham de prostituir-se: - Nada disso. Ocorre que em Cuba até as prostitutas têm grau universitário.
RESPOSTA DE ALESSANDRO BARGHINI Prezado editor, Um amigo me informou de um comentário sobre meu trabalho sobre os insetos, que acabei lendo no seu blog. O texto é divertido, e apresenta uma série de informações obvias sobre o impacto da iluminação sobre os insetos que, como escreveu, estamos careca de saber. Pena que não leu o trabalho, antes de criticá-lo, porque provavelmente não escreveria de forma irônica sobre o tema. Honestamente, não considero que seja necessário fazer um doutorado para escrever um texto científico. Existem, porém, dois pontos que me induziram a realizar um trabalho acadêmico. O primeiro ponto é que, como planejador no setor energético, sempre alertei as empresas sobre o tema, mas não encontrei resposta. As empresas consideram que eles devem apenas fornecer a energia elétrica aos consumidores, depois o modo de usá-la é problema dos próprios consumidores. Não é essa minha visão, acredito que, quando é feita eletrificação em área rural, as empresas deveriam alertar os consumidores sobre os riscos da iluminação, e os meios para preveni-los. O segundo ponto é que procurava mecanismos de minimizar o impacto da iluminação artificial (afinal a iluminação é importante e não podemos simplesmente cortá-la) e, para isto, era necessário realizar testes com diferentes tipos de lâmpadas, diferentes filtros, com coleta de insetos. Existem trabalhos que um pesquisador independente pode realizar, outros exigem cooperação de instituições de pesquisa. Realizando um doutorado acadêmico foi possível obter a colaboração do IPT e do Museu de Zoologia da Universidade se São Paulo. Inclusive foi possível obter a licença de coleta de inseto por parte do IBAMA, e dessa forma não ser acusado de biopirataria. Toda a coleção de lepidópteros está hoje armazenada no museu de Zoologia da USP. O resultado da tese, se tiver a curiosidade de consultá-la, é algo mais que uma simples alerta sobre o perigo da iluminação artificial. Em primeiro lugar é uma resenha da literatura médica, indicando as doenças nas quais existem provas que a iluminação artificial afeta a difusão (fato em geral não conhecido ou até negado). Em segundo lugar são mostrados mecanismos com os quais reduzir a atração. Indicando inclusive o tipo de filtro a ser utilizado para minimizar a atração. Essa informação é inédita na literatura científica internacional. Com um trabalho acadêmico espero finalmente conseguir sensibilizar as empresas elétricas a estudar melhor o tema, para que não se repitam fatos como o surto de Santa Catarina, quando 12 pessoas foram contaminadas pelo mal de Chagas a causa de uma lâmpada inadequada que iluminava uma revenda de caldo de cana. Atenciosamente Alessandro Barghini
Domingo, Abril 26, 2009
SÃO GABEIRA, ÚLTIMA ESPERANÇA DA NAÇÃO Estou profundamente comovido com as entrevistas do deputado Fernando Gabeira, tanto na Veja online como na TV Globo, sobre a farra das passagens aéreas. Como se nada tivesse a ver com o assunto, o impoluto verde que desviou passagens para uma de suas filhotas visitar outra filhota no Haway deita falação sobre decadência institucional, renovação do Congresso, prática patrimonialista, julga fundamental a transparência e mais ainda, se julga no dever de lançar luz na Casa onde gira bolsinha. Atribui a desmoralização do Congresso à volta de Sarney e Renan Calheiros, jamais à sua cumplicidade com a corrupção. Pelo contrário, diz ter-se sentido aliviado depois de admitir que usou passagens aéreas indevidamente, diz que ninguém é santo, aponta saídas para o resgate da imagem do Poder Legislativo e ressalva que o Congresso não resistiria se fosse exposto inteiramente à luz do dia. “Ou o Congresso acaba com as práticas ilegais ou se transforma numa instituição fantasma”, diz o bravo deputado, em sua entrevista a Augusto Nunes. Augusto Nunes, por sua vez, desanca Orlando Silva. Enquanto levanta a bola para Gabeira chutar, faz ironias com o ministro dos Esportes, com alusões à sua cara de réu: “Sou muito conservador para fazer viagens internacionais, mas é difícil você não viajar uma vez a cada dois meses para cumprir alguma agenda”, anda avisando o ministro Orlando Silva com voz de quem deve e cara de réu. Decerto desconfiado de que a devassa nas partidas e chegadas dos deputados federais se estenderá ao Poder Executivo, o ministro do Esporte resolveu decorar o que dirá na hora do interrogatório.”Eu já fui presidente do Conselho de Ministro das Américas”, ensaia o campeão de milhagem aérea. Foi por isso que conheceu o continente em que nasceu. E o que o levou a paragens mais remotas? “Nas Olimpíadas, fui para Pequim e depois voltei para o Brasil, aí fui para os Jogos Paraolímpicos pouco tempo depois”, exemplifica, caprichando na imitação de velocista no fim da corrida. “Isso acaba consumindo muita energia, é muito cansativo. Mas ao mesmo tempo muito prazeroso quando vemos os resultados”. Os resultados ainda são invisíveis. O que se pode ver com nitidez é o tamanho do desperdício em moeda estrangeira. Gabeira, decididamente, não tem cara de réu. Pelo contrário. Apesar de participar da mesma corrupção da qual participaram seus pares, ostenta cara de juiz, de última esperança de moralização da Casa ... da Mãe Joana. Réu, autonomeou-se de repente juiz. É espantosa a cumplicidade dos jornalistas em relação a Gabeira, o jornalista que condenava dois colegas por requererem uma bolsa-ditadura, enquanto enviava seu pedido exigindo o mesmo da Comissão de Anistia. O que me lembra antiga crônica do gaúcho Ney Messias, “A Mosca e a Vaca”, publicada nos anos 70, por ocasião da suspensão do recesso parlamentar, decretado em dezembro de 1968 pelos militares. Troque a palavra recesso por desmoralização e a crônica parece ter sido escrita ontem.
A MOSCA E A VACA Ney Messias Não sei quem é o deputado Geraldo Freire, mas vejo que ele é esplêndido como deputado que se esqueceu do resto. Comentam os jornais que este parlamentar, indagado sobre se sabia alguma coisa acerca do recesso parlamentar, respondeu: “Não sei dizer nada. Ainda não pude habituar-me à idéia do recesso. Venho diariamente à Câmara, como se tudo estivesse normal”. Depois citou um filme do Gordo e do Magro, em que o Magro, durante uma guerra, foi posto de sentinela na fronteira da Alemanha com a Alsácia. Veio a paz e esqueceram de comunicar a novidade ao Magro que, depois de vinte anos, foi encontrado em seu posto, caminhando de um lado para o outro. E o deputado Geraldo Freire conclui: “Estou como o Magro, na minha trincheira. Esta sala... o edifício do Congresso! Ainda não me dei conta do recesso”. Isso é admirável. Dizem que o pingüim chocas os seus ovos nas patas, e que se alguém substitui os ovos por pedrinhas, ele continua chocando sem se aperceber de que não conseguirá descascar pingüins: heroísmo cego da maternidade que choca. Há ainda o caso dos místicos mergulhados nas suas visões transindividuais: com as mãos fechadas não notam o crescimento das unhas nem a passagem do tempo, motivo pelo qual as unhas crescem e atravessam a palma das mãos e vão sair triunfantes no dorso. São casos heróicos como o do Magro posto de sentinela durante vinte anos, sem saber da paz. Tudo isso me lembra a parábola da mosca encharcada de metafísica. “Esta sala... esta cadeira... o edifício do Congresso! Ainda não me dei conta do recesso” – eis o que uma mosca metafísica bem que poderia pensar indefinidamente. Querem a história da mosca? Pois vou contá-la. Ela estava pousada na grama do campo, a pensar na definição do indefinível, quando a vaca veio e comeu a grama em que ela sonhava. A divina mosca não interrompeu suas meditações. Quando foi engolida estava pensando no elã vital de Bergson, e em suas relações com a enteléquia de Driesch. Quando passou pela garganta da vaca, sem saber de nada a não ser dos seus transcendentes pensamentos, meditou em que, segundo os ensinamentos de Aristóteles em seu tratado De Anima, Plotino chama a inteligência de “nous poiêticos”, o que quer dizer mente ativa, distinguindo-a do “nous patéticos”, o que quer dizer mente passiva. Embora toda a escuridão em que estava mergulhada, a mosca de heróica metafísica continuou pensando: atrás do universo material, de que nosso corpo faz parte, Plotino e os antigos pensadores da Índia divisam a torrente da vida cósmica que se manifesta no Universo, e da qual o Universo é a expressão. Tudo isso não passa – pensava a mosca – de longe de Heráclito e dos estóicos, a razão imanente do fluir perpétuo das coisas. Mas os estóicos, que professavam um singular panteísmo, faziam do “Logos” ou da “razão seminal” como eles diziam, a causa primária da existência. A mosca mal sentiu um baque surdo que sacudiu toda sua estrutura entomológica e continuou pensando: talvez estivesse na “razão seminal”, estóica, a “natureza naturante” de Jacob Boheme, que é o Deus que demarrou da “natureza inaturada” para acabar sendo, como todas as moscas, e os demais seres menos importantes da escala animal, a “natureza naturada”, que está perto do júbilo do ser, que é a alegria dos entes que perderam a transcendência mas que ganharam o gozo do pecado e a suprema possibilidade da reconciliação que decorre das paixões dominadas e dos instintos refreados. Pensava nisto a mosca quando abriu os olhos para o mundo aqui e agora do real. Viu então, com espanto, que a vaca já ia longe: viu-a de costas, sacudindo o rabo, no gesto magnífico da plena exoneração. Mas continuou pensando: “o processo mediante o qual, segundo Plotino, o “Uno” se manifesta através do “Nous” e do “Logos” não possui caráter cronológico, mas lógico. É um processo eterno, a processão criadora, a que corresponde, na natureza naturada, o contraprocesso da ascenção reintegradora”. É como se pensasse: “esta sala... esta cadeira... o edifício do Congresso! Ainda não me dei conta do recesso”, enquanto a vaca se sumia no horizonte, que por acaso não é horizonte algum.
MOSCA TONTA OU MOSCA CÍNICA? Ney Messias escrevia para um público culto, capaz de entender sua fina e ferina ironia. Como a mosca do Ney, Gabeira hoje não se dá conta da total desmoralização, tanto do Congresso como de seu mandato. Fala com a serenidade dos justos, como se a farra das passagens tivesse acontecido no Paraguai e não em Brasília, com Dom Fernando Lugo e não com ele. Como se a produção excrementícia do Congresso se abatesse sobre a cabeça de todos seus pares, mas jamais sobre a sua. Pelo jeito, não viu a vaca sacudindo o rabo e se julga puro de toda imundície. O deplorável em tudo isso, é ver jornalistas fingindo acreditar nos bons propósitos de um corrupto como tantos outros. Mais ainda, confesso. A coragem foi refugiar-se naqueles outros corruptos, que defendem abertamente o direito à corrupção. Até mesmo o experiente William Wack, no debate na Globo, foi condescendente com a farsa. Fora este que vos escreve, só ouvi duas outras vozes na grande imprensa que não engoliu as potocas do impoluto deputado. Uma foi João Ubaldo Ribeiro, no Estadão: "Mas o que me surpreendeu mesmo, nessa do Gabeira, foi ele ter contado uma história, na qual ele revela que acha que nós é muitíssimo mais burro que nós é. Disse que, quando veio à frente e revelou que também era agente de viagens, como tantos de seus colegas, arranhou sua imagem política espontaneamente. Quem engoliu essa deve filiar-se ao Alimárias Anônimas mais próximo de sua casa. Claro que o verdadeiro arranhão aconteceria se ele não se antecipasse à revelação, que viria mais cedo ou mais tarde. Aí é que seria chato mesmo e ele, astutamente, se antecipou para eludir o constrangimento, mas acha que pode tapear a gente com outra conversa. Quer dizer, esse negócio de ter certeza de que todo mundo aqui é cretino ou fronteiriço deve ser um vírus que dá lá no Congresso e que acabou pegando o Gabeira também". Outra foi Cora Rónai, em O Globo: “Para nós, cariocas, que tanto nos orgulhávamos de ter um parlamentar como Fernando Gabeira e tanto nos empenhamos na sua campanha à prefeitura, fica, além de tudo, o gosto amargo da decepção. Nunca pensei, aliás, que pudesse usar essa palavra — decepção — em relação a um político, mas aí está. Continuo achando que, apesar de tudo, existe uma grande distância entre ele e a maioria dos seus pares, mas não há como negar a mancha na sua biografia, ou a dúvida entre o seu eleitorado. O que mais ele fez que apenas ainda não veio à tona? Do que mais vai se arrepender depois do flagra?” Para meu gosto, Cora foi muito gentil.
Sábado, Abril 25, 2009
CNPq FINANCIA MELHOR TURISMO Em fevereiro passado, o CNPq anunciou a cobrança dos bolsistas que não voltaram para o Brasil. Os casos analisados em 2008 somam R$ 22 milhões. Alguns estudantes desistiram do curso. O CNPq pretende reaver cerca de R$ 22 milhões referentes a 65 bolsas de estudo concedidas a universitários que estudaram em outros países, mas que não concluíram a pós-graduação ou não voltaram ao Brasil. Muitos dos processos são de bolsas concedidas há anos, no entanto, só em 2008 foram finalizados e encaminhados ao Tribunal de Contas da União. Desde 2002, a CGU recebeu processos do CNPq que totalizam cerca de R$ 71 milhões (valor corrigido). Com o recurso, seria possível pagar 300 bolsas no exterior. Na ocasião, manifestei meu ceticismo aos bons propósitos do CNPq. Se um bolsista, tendo concluído seu doutorado, recebe boa oferta de trabalho no Exterior, qual instância, humana ou divina, o obrigará a ressarcir a União? Terá seus bens executados no Exterior? Será pedida sua extradição? Qualquer destes procedimentos custará bem mais caro que o valor da bolsa. Na ocasião, o Estado de São Paulo citou o caso do advogado Cláudio Rollemberg, de quem estão sendo cobrados R$ 608 mil (em valores corrigidos). O advogado foi para a França em 1991 fazer um mestrado em direito internacional. Até hoje, 18 anos após a obtenção da bolsa, ainda não conseguiu elaborar um ensaiozinho de 400 ou 500 páginas. Mas não pretende devolver um centavo à União. Só entregará sua tese quando conseguir elaborá-la e estamos conversados. Devo, reconheço, mas não pago. Sua atitude é a mesma dos deputados e senadores, que declararam não saber que não podiam levar mulher, filhos, sogras e amantes para Paris e Miami. Diz que quando assinou o contrato não foi avisado de que poderia ser obrigado a devolver os valores caso não cumprisse as obrigações. "Todo mundo entendia que era gratuito, que era uma questão ideológica". Leio hoje na Folha Online que o TCU condenou a pesquisadora Ana Maria dos Santos Carmo a devolver R$ 489 mil ao CNPq, por descumprir um compromisso firmado com a instituição. Nada menos que US$ 223 mil, ao câmbio de hoje. A estudante não retornou ao Brasil após concluir seus estudos de pós-doutorado nos Estados Unidos, em química de solos, custeados pelo conselho. Carmo alega a falta de emprego em sua área de trabalho. Até se dispõe a pagar o montante, desde que parcelados em US$ 100 mensais. Em apenas 2.230 meses, a dívida estaria quitada. Ou seja, em pouco mais de 185 anos, os cofres públicos seriam ressarcidos. Proposta generosa, não chega sequer a dois séculos. O CNPq não gostou e sugeriu à moça outro parcelamento, de US$ 860,36 mensais. Não vai levar. Nesses termos, a pesquisadora prefere não pagar. E daí? Irá o CNPq entrar com um processo de cobrança internacional? Vai constituir advogado nalgum Estado americano para executar a devedora? Pedirá aos Estados Unidos a extradição da universitária inadimplente? Segundo o TCU, Carmo garantiu que, concluído o curso, retornaria ao Brasil. Garantiu como? Disse “te juro que eu volto”? Ou assinou um termo de compromisso? A verdade é que a farra da bolsa no Exterior é tão ou mais vasta que a farra das passagens aéreas e o Estado não tem meios de coibi-la. A cobrança do CNPq é meramente retórica. Na quinta-feira, eu comentava outra anomalia da universidade brasileira, a dos doutorandos carecas, pessoas que defendem tese já em idade de aposentar-se. A Folha noticiava – como se fosse um caso de suscitar admiração – o caso de um senhor que concluiu mestrado aos 63 anos e doutorado aos 68. Ora, segundo o TCU, o retorno exigido dos pesquisadores tem como objetivo disseminar e aplicar os conhecimentos adquiridos pelo estudante em benefício da sociedade brasileira. Como vai um professor em idade de aposentadoria aplicar os conhecimentos adquiridos em benefício da sociedade brasileira? A nortear-se pelos critérios do TCU, todo professor que defende tese e logo se aposenta também deveria devolver o que nele foi investido. Estes não são poucos no universo acadêmico nacional. Postulam o título para garantir uma aposentadoria mais gorda. A farra com o dinheiro dos contribuintes que hoje fazem os parlamentares há muito vem sendo feita junto ao CNPq. Se deputados e senadores, que representam o eleitorado brasileiro, não estão nenhum pouquinho propensos a devolver o dinheiro gasto em turismo aos cofres públicos, por que razões devolveria o despendido em uma bolsa um profissional que não representa nada, nem mesmo a entidade que o enviou ao Exterior? O CNPq fala em 65 bolsistas inadimplentes. A cifra é tímida. Escândalos no Brasil são como filhos de bispo, escrevi ontem. Você puxa um e vem uma fieira. O Estado tem bolso grande e ninguém cuida. Por outro lado, que moral tem um Estado - cujos credores estão morrendo às dezenas de milhares, sem que lhes seja pago o que Estado deve – para exigir cobrança de quem quer que seja? Este Estado não tem moral nem mesmo para cobrar o Imposto de Renda. Eu não sonego porque não posso. Mas considero que sonegar, neste país nosso, é legítima defesa do patrimônio. Há um clamor nacional contra os deputados e senadores turistas. Que vai dar em nada, é claro. Mesmo que sejam cortadas as passagens aos familiares, amigos e prostitutas, nada impede que o parlamentar continue viajando a pretexto de congressos, viagens de observação e estudos por países cuja língua desconhece e não tem interesse algum em conhecer. O turismo de luxo virou objeto de desejo e nossos representantes, afinal de contas, são seres humanos, como se justifica o ex-bispo presidente do Paraguai, Dom Fernando Lugo, el semental de la Pátria. Acontece que o Congresso é a bola da vez dos jornalistas. As viagens se tornaram constrangedoras para os senhores deputados. Hoje, quem quiser conhecer as prestigiosas capitais do Primeiro Mundo, seus monumentos, restaurantes e gastronomia, melhor fará se optar pelo magistério universitário. É a fórmula mais confortável de viajar pelo mundo sem pagar um vintém do próprio bolso.
Sexta-feira, Abril 24, 2009
CASA-DA-MÃE-JOANA DECIDIRÁ QUANTO, COMO E ONDE GASTAR Mal escrevi a crônica abaixo e a Câmara deu marcha a ré. A decisão de Miguel Temer, no sentido de proibir passagens para familiares, prostitutas de alto bordo e amigos de parlamentares, durou menos do que duram as rosas. Pressionado pelos congressistas, o presidente da Casa (da Mãe Joana?) desistiu de seu ato administrativo e optou por encaminhar um projeto de resolução que terá de receber o aval do plenário. "Vocês viram que deu confusão. A aprovação no plenário dá legitimidade". Conseguirão as vestais Pedro Simon e Fernando Gabeira impedir a marcha da poderosa locomotiva da alegria? Demonstrarão os congressistas ter ainda algum resquício de vergonha na cara? Ou decidirão que vergonha na cara é algo obsoleto, inadequado aos tempos que correm e ficam vetadas as disposições em contrário? Suspense. Mas não muito. Conhecendo os bois com que lavro, a decisão não será de surpreender. Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ontem superou o número de viagens de Fernando Henrique ao Exterior – e isso que falam 20 meses para o término de seu mandato - criticou hoje o uso irregular de passagens aéreas de deputados e disse o Congresso precisa colocar um fim na farra dos bilhetes pagos com dinheiro público. O PT, que apelidou o ex-presidente de Fernando Henrique Viajando Cardoso, sequer comemorou o feito do Líder Máximo. Com sua visita hoje à Argentina, Lula emplaca 348 dias no Exterior, um dia a mais que o tucano. Mas Lula não depende de verbas do Congresso bancadas pelo contribuinte. Ele, que já dispunha de um avião presidencial, comprou um outro, flamante de novo – também bancado pelo contribuinte, é verdade – para seu uso particular. Segundo Lula, é preciso chegar a um final nisso. Isto é, nas viagens dos deputados e senadores. Quanto às suas viagens, ni pensar.
ENQUANTO ISSO, NA ACADEMIA... Escândalos no Brasil são como filhos de bispos. Basta puxar um e surge uma dúzia. Desta vez, não escapou sequer a sedizente ala ética do Congresso. Enquanto o impoluto deputado Fernando Gabeira faz pesquisas para lembrar se pagou passagens para uma de suas filhas ou para as duas, mais uma vestal põe suas barbas de molho. Desta vez, o não menos impoluto senador Pedro Simon, que goza entre seus pares a fama de levar vida monástica: - Nesses 26 anos, fiz uma viagem à Europa, eu e a minha mulher. Uma viagem em 26 anos. Sem um extra, sem diária, sem coisa nenhuma. Usei as passagens que eu tinha. Se isso está errado, eu até reponho, mas nunca ninguém me disse isso. Ora, será preciso dizer a estas velhas cortesãs da política nacional que não foram eleitos para brindar seus familiares com turismo em Paris, Madri, Nova York ou seja lá onde for? O senador está perplexo. Só fez uma viagem. Uminha só será pecado? Não será permissível nem mesmo a um monge visitar Paris? Mas o senador, em sua honestidade, se dispõe a reparar sua falta. “Se isso está errado, eu até reponho”. Santas intenções. Ocorre que o Congresso está longe de considerar que fazer turismo às custas do contribuinte é errado. E se não está errado, o probo senador não tem porque repor. Leio na Folha de São Paulo de ontem que o Senado aprovou, na quarta-feira, e a Câmara prometeu adotar medidas que proíbem a emissão de passagens aéreas para parentes e terceiros, as viagens para o exterior e determinam a divulgação na internet dos bilhetes usados. Estas medidas foram anunciadas pelo presidente da Câmara, Michel Temer, para amenizar a reação da opinião pública contra a farra das passagens. Mas concedem uma anistia para os excessos cometidos até agora. Parece que acabou-se o que era doce. Quem gozou das mordomias, gozou. Quem não gozou ficou na mão. Probidade só daqui pra frente. Digo “parece que acabou-se” porque ainda não se sabe se acabou mesmo. A Câmara prometeu... Ora, promessas de deputados são cantigas para ninar pardais. Ainda mais quando é para restringir os próprios privilégios. O deputado Ciro Gomes, paulista radicado no Ceará e presidenciável nas próximas eleições, indignou-se com os bons propósitos de seus nobilíssimos pares. Expressou o que todos gostariam de expressar, mas preferiram ficar silentes: "Até ontem era tudo lícito, então por que mudou? É um bando de babaca". O mesmo devem ter dito os senhores de escravos quando a escravidão foi abolida. "Até ontem era tudo lícito, então por que mudou? É um bando de babaca". O deputado Sílvio Costa, de Pernambuco, também não gostou do anúncio do presidente da Casa e pretende recorrer em plenário caso seja aprovado o ato da Mesa que acaba com o uso da cota para parentes. E a sagrada instituição da família como é que fica? "Não é justo que mulher e filhos não possam vir a Brasília. Quer dizer que agora eu venho para Brasília e minha mulher fica lá? Assim vocês querem que eu me separe. É preciso acabar com essa hipocrisia. Ou a Câmara tem a coragem de falar a verdade ou cada dia vamos apanhar mais". Foi vivamente aplaudido. Que mais não seja, mesmo que mais não possam levar familiares pagos “pelo meu, pelo seu, pelo nosso”, nada impede que os ilustres representantes do povo continuem ilustrando o espírito com turismo de luxo. Um convite para observar uma conferência da OEA em Nova York, a pesca do atum na Noruega, a produção de bananas nas ilhas Canárias ou de azeite nas ilhas gregas, isto é gentileza que sempre se descola. A PLANALTUR tem longo futuro pela frente. Enquanto a imprensa escolhe o Congresso como bola da vez, no mundo acadêmico a farra corre solta. Uma passagem até as antípodas, para apresentar em Tóquio um vital comunicado de vinte minutos... sobre Literatura Comparada. Outra a Paris para discutir as relações subterrâneas entre o teatro de Nelson Rodrigues e Jean Genet. Ou a Londres para discutir a capital influência de Sterne na obra de Machado. Se o universitário for mais audacioso poderá propor uma pesquisa da poesia iídiche e ladina nos países que acolheram askenazis e sefarditas. Dá um belo tour, de Lisboa e Madri a Praga e Budapeste, mais algumas capitais de permeio. Tudo isso com hospedagem e restauração, é claro. No Congresso, turismo soa à corrupção. No mundo universitário atende por intercâmbio acadêmico. Mas a universidade é o Santo dos Santos, onde jornalistas não podem penetrar. O Santo dos Santos era uma sala do Templo de Salomão onde ficava guardada a Arca da Aliança. Era onde se realizava anualmente uma cerimônia de sacrifício expiatório de um cordeiro sem mácula pelos pecados dos judeus. Esta sala ficava separada do templo por uma cortina de linho. Segundo a lei de Moisés, somente ao sumo sacerdote era permitido entrar no Santo dos Santos, e ele tinha que ser cerimonialmente purificado antes que pudesse falar com Deus.
Quinta-feira, Abril 23, 2009
Perversões uspianas: O DOUTORANDO CARECA O caso não é pessoal. Para que disto ninguém duvide, transcrevo o que escrevi em 2001: “Entre as muitas anomalias da universidade brasileira estão os mestrandos quarentões. Aquela iniciação à pesquisa, pela qual o candidato deveria optar tão logo terminasse o curso superior, é adiada para uma idade em que do acadêmico já se espera obra consolidada. Pior mesmo, só os doutorados de terceira idade. Marmanjos de cinqüenta e mais anos, em idade de aposentar-se, postulando um título que só vai servir para pendurar junto com as chuteiras. (...) Mestrado não é para carecas. Já um doutorando, este deveria defender sua tese no máximo aos trinta e poucos, para que sua experiência em pesquisa possa ser útil ao ensino e à sociedade. Que mais não seja, é patético ver um homem já maduro humilhando-se, ao tentar iniciar-se em metodologias que devia desde jovem dominar. Na universidade brasileira, o doutorado nem sempre é visto como início de uma carreira, mas como louro a coroar a calva do acadêmico quando este está prestes a usar pijamas. Quem paga tais vaidades senis? Como sempre, o contribuinte”. Terça-feira passada, leio notícia na Folha de São Paulo sobre um senhor que concluiu mestrado aos 63 anos e doutorado aos 68. Doutorado para quê? Para aposentar-se? Ou para pendurar o diploma na parede para contemplação dos netos? Uma tese de doutorado deveria servir como instrumento de magistério futuro a um professor, não como troféu de caça. Se há nove anos eu já considerava uma anomalia um mestrando careca e considerava que um pesquisador deve doutorar-se aos trinta e poucos, eis que os jornais hoje me apresentam o doutorando careca, mais uma das tantas perversões da universidade brasileira. No caso, a USP. Pode parecer comovente – como comovem essas vovós que terminam um curso de Direito aos 80 – um senhor em idade provecta submeter-se a uma banca que julgará sua produção intelectual. Banca esta composta naturalmente por professores mais jovens – aos 68 já estariam aposentados -, arrogantes como todos os PhDeuses, que submeterão o doutorando à ditadura do método e à humilhação da censura de um júri. Alessandro Barghini – o doutor em questão - era conhecido por seus colegas como um competente técnico, especialista em planejamento energético. Graduou-se em Ciências Políticas na Universidade de Roma em 1964. Aos 24 anos, portanto, idade adequada para uma graduação. Voltou à universidade com 60 anos e concluiu este ano sua tese de doutorado sobre a influência da luz artificial na vida silvestre. Seu trabalho como especialista em planejamento energético o levou a diversos lugares do mundo. Motivado por observações de uma temporada de trabalho do Equador e nas ilhas Galápagos, descobriu a América. "Lá, eu trabalhava de dia na parte elétrica e, à noite, no tempo vago, eu observava aves e insetos. Havia uma ave que ficava esperando os insetos baterem na luminária e caírem para comê-los. Ela preferia ficar atrás das lâmpadas a vapor de mercúrio, que atraem mais insetos." Não li a tese do novel doutor e posso estar cometendo injustiça. Mas não me parece que seja necessário ir até as Galápagos ou ao Equador para descobrir que luzes artificiais atraem insetos. Qualquer criança no campo ou nos centros urbanos está careca – falo agora metaforicamente – de saber disso. “Os ribeirinhos e os caboclos sabem que a luz atrai insetos", diz Barghini. Ora, nossos sambistas também sabiam. Canta Avelino Moreira: Trocaste o meu samba E a lua do morro Pela luz da cidade Segue o teu caminho Mariposa Já que esta luz te embriaga Mas nunca te esqueças Mariposa Que toda a luz se apaga Ou Adoniran Barbosa: As mariposa quando chega o frio Fica dando volta em volta da lâmpida pra se esquentar Elas roda, roda, roda e dispois se senta Em cima do prato da lâmpida pra descansar Verdade que a linguagem não é lá muito acadêmica, nem os métodos destes observadores serão muito científicos. Claro que também sabiam que luz atrai mosquitos e muriçocas, mas mosquitos e muriçocas nada têm de poético e não é gentil compará-los à mulher amada. Mas decididamente não precisaram ir tão longe para descobrir o que está perto. Dr. Barghini descobriu indícios de que a iluminação artificial perto de áreas selvagens contribui para espalhar doenças como malária, mal de chagas e leishmaniose. Ora, se iluminação artificial atrai insetos que transmitem tais doenças, não é preciso ser nenhum Einstein para concluir que a iluminação artificial perto de áreas selvagens contribui para espalhar doenças como malária, mal de chagas e leishmaniose. O óbvio dispensa o aval de qualquer banca. Não tenho preconceitos contra doutorandos idosos. Tenho pós-conceitos, o que é diferente. Se alguém quer investir cem mil dólares em si mesmo, para depois pendurar um diploma na parede - ou no currículo - tudo bem. O problema é quando o contribuinte, e particularmente o contribuinte de país pobre, entra com esse montante para satisfazer uma vaidade. Um dos grandes pesquisadores da história nacional, Hélio Silva, fez excelente trabalho de historiador sem jamais ter defendido tese. Diga-se de passagem, era proctologista de formação. Honestamente, não entendo alguém concluindo um doutorado em idade de aposentadoria.
O EXTRAORDINÁRIO REPÓRTER Lula tem a fama de ser o Teflon da política brasileira. Nele nada gruda, nem os escândalos que avaliza, nem as bobagens que profere. Mas pelo menos recebeu a comenda por parte da imprensa. Não é, no entanto, o único em quem nada gruda na política nacional. Por mais alta que seja sua aprovação entre os eleitores, nunca conseguiu erguer-se à condição de reserva moral da nação. Fernando Gabeira sim. Nenhuma das besteiras que cometeu em sua vida – nem seu passado terrorista, nem seu requerimento da bolsa-ditadura ano passado, nem as viagens de sua família com dinheiro do contribuinte – gruda em seu nome. Pelo contrário, continua sendo visto como um dos raros exemplos de honestidade no universo político tupiniquim. Não bastasse isto, na Folha de São Paulo de ontem, Clóvis Rossi o promove a grande jornalista. “Sou um admirador de Fernando Gabeira desde muito antes de seu envolvimento com a política partidária. É um extraordinário repórter, escreve muitíssimo bem -e quem, como eu, vive há 45 anos de fazer reportagens e escrever (não tão bem quanto ele), só pode admirar os mestres. Na política, ele manteve alta a cota de admiração, pelo que diz, pelo que faz, pelas teses que levanta, pela combinação de sensatez e firmeza com que as defende”. Tanta sensatez e firmeza que já fez pelo menos três meas culpas de suas mancadas. Renegou seu passado terrorista, a serviço da pior ideologia do século, embora tenha preservado a fama de combatente pela democracia. Renunciou ao bolsa-ditadura, que havia requerido, mas preservou sua imagem de líder impoluto. Arrepende-se publicamente de ter financiado com dinheiro do contribuinte as viagens de suas filhas, mas continua como vítima da “cultura da Casa”, como escreve Rossi. Tadinho do Gabeira. Não sabia que a cultura da Casa era corrupta. Mas voltemos ao extraordinário repórter, como o define Clóvis Rossi, que “escreve muitíssimo bem - e quem, como eu, vive há 45 anos de fazer reportagens e escrever (não tão bem quanto ele), só pode admirar os mestres”. Esta afirmação só demonstra uma coisa: que Rossi nunca teve de revisar um texto de Gabeira. Eu e meus colegas de Folha tínhamos de copidescá-lo diariamente, quando era correspondente em Berlim. Já vivíamos na era da informatização, mas ainda não havia Internet. Cada despacho seu, enviado por telex, era visto com extremo desconforto pelo jornalista que o recebia para revisar. O brilhante correspondente não tinha noção alguma de acentuação. Para Gabeira, acentos eram como sal. Eles os jogava sobre o texto, sem preocupar-se onde caíam. O que exigia um trabalho exaustivo do redator que o recebia: cada palavra com acento tinha de ser corrigida. Fosse isso não era nada. Sua frase era boa, seu texto fazia sentido. O problema é que o texto final, o que chegava ao leitor, nada mais tinha que ver com Gabeira. Conto isto em meu livro Como ler jornais (http://www.ebooksbrasil.org). Como o livro é antigo e dele poucos devem lembrar, volto ao assunto. Guerra da Iugoslávia, 1991, nos dias de independência da Croácia. Eu trabalhava na editoria de Internacional, da Folha de S. Paulo. Nosso correspondente responsável pelo Leste europeu mandava suas matérias de Berlim, que isso de cobrir guerras no front é muito arriscado. Por volta das três horas da tarde, começava a enviar seus despachos, a partir do noticiário dos jornais da manhã. Isto é, os jornais haviam sido redigidos ontem, os fatos ocorridos anteontem e o leitor brasileiro os leria amanhã, com pelo menos três dias de atraso. As agências noticiosas, mais ágeis, nos enviavam notícias fresquinhas. A nós, redatores, cabia substituir o lead da reportagem por material mais quente. Lá pelas cinco da tarde, o despacho enviado caíra para o pé do texto. Quando o correspondente informava que os iugoslavos planejavam um ataque, nós já tínhamos os alvos destruídos e os aviões de volta às bases. A cobertura da guerra, em verdade, era feita da redação na alameda Barão de Limeira, em São Paulo. Que, de certa forma, estava mais próxima dos fatos que o correspondente na Alemanha. O texto todo era redigido na redação. Começávamos a atualizar a matéria pelo lead e Gabeira ia descendo rumo ao pé. Muitas vezes não sobrava sequer uma linha do despacho original. Mas a matéria saía assinada por Fernando Gabeira, "enviado especial". Como era feita esta cobertura? O redator recebia um punhado de despachos, que iam sendo renovados a toda hora pelo boy que os retirava do telex. (Eram ainda os dias do telex). Havia matérias quentes das agências, que tinham seus correspondentes no campo de batalha, reportagens frias que davam o clima local, análises de especialistas e informes sobre a repercussão dos fatos nas diferentes capitais do mundo. Cabia ao redator juntar todos esses relatos e criar uma história coerente. Fossem os textos assinados ou não, os fragmentos aproveitados pelo redator eram todos atribuídos ao “correspondente de guerra”, comodamente instalado em Berlim. A segunda edição do jornal, a que circularia no dia seguinte apenas em São Paulo (na cidade), era fechada lá pela 01h da manhã. Como os redatores da Internacional eram ágeis, o leitor paulistano pelo menos tinha uma visão muito atualizada da guerra, graças ao mestre (apud Rossi) Fernando Gabeira. Ocorre que o texto que chegava ao leitor não era de Gabeira. Era nosso. Gabeira deveria sentir-se muito surpreso se lesse sua matéria publicada, falando de fatos dos quais ele, o suposto autor do texto, nunca ouvira falar. Mas nunca reclamou, como seria de se esperar de um jornalista honesto. Este é o extraordinário repórter louvado por Clóvis Rossi.
Quarta-feira, Abril 22, 2009
SÓ FALTA O EXÉRCITO De Charlie, um de meus interlocutores de blog e Orkut, recebo: A “polícia indígena” eu conheci de perto. Na verdade, tive a oportunidade de trabalhar ombro a ombro com bugres armados com cacetetes rudimentares, ou tacapes, em operações policiais dentro da reserva. E isso não aconteceu nos confins da floresta amazônica, onde só é possível chegar de barco depois de dias de viagem. Aconteceu no noroeste do Rio Grande do Sul, no município de Tenente Portela onde existe uma reserva dos índios Kaingangs (literalmente, “moradores do mato”). E sim, eles tinham um minúsculo xadrez onde jogavam os indivíduos mais problemáticos. Se não me engano, isto configura crime de cárcere privado. Mas as autoridades, policiais e políticas, do município e da região, fazem vista grossa aos milicianos. Eu, policial civil, precisava de autorização para entrar na reserva, dada ou pelo cacique ou pelo “capitão” – o chefe da força policial clandestina. A reserva de Ten. Portela não é a única que possui uma milícia privada, trabalhei também com "índios policiais" em Miraguaí.
EXCELÊNCIAS QUEBRAM O PAU NO STF Ministro Joaquim Barbosa, dirigindo-se ao presidente da Corte, ministro Gilmar Mendes: - Saia à rua, ministro Gilmar. Saia à rua! Faça o que eu faço. Vossa Excelência não está na rua não. Vossa Excelência está na mídia destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro. É isso. Ministro Gilmar Mendes, respondendo a seu par, ministro Joaquim Barbosa: - Vossa Excelência não tem condição de dar lição a ninguém. Réplica da Excelência Joaquim Barbosa: - E nem Vossa Excelência. Vossa Excelência me respeite. Vossa Excelência não tem condição alguma. Vossa Excelência está destruindo a Justiça desse País e vem agora dar lição de moral em mim? Vossa Excelência não está falando com os seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar. Respeite! Responde Excelência Mendes: - Ministro Joaquim, Vossa Excelência me respeite.
ETNIA TICUNA SE OUTORGA PODER DE POLÍCIA Diz a Constituição Federal em seu artigo 144: A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos: I - polícia federal; II - polícia rodoviária federal; III - polícia ferroviária federal; IV - polícias civis; V - polícias militares e corpos de bombeiros militares. Isso é o que diz a Constituição. O mesmo não pensam os índios da etnia ticuna, que há quatro meses criaram sua própria polícia para combater o crime na aldeia Umariaçu, a 1.105 km de Manaus. É o que nos conta hoje o Estado de São Paulo. As armas usadas pelos “policiais” indígenas são palmatória, chicotes e cassetetes. Eles usam fardamento com logotipo de dois cassetetes e um facão do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), design e nome criados por eles mesmos. Os detidos são levados a uma prisão de 1,5 metro quadrado. “Os índios estavam cansados da omissão do poder público e resolveram tomar a iniciativa para proteger sua gente e suas terras”, disse o dirigente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Jecinaldo Sateré. Na semana passada, Sateré foi a Tabatinga para reunir-se com pajés da aldeia Umariaçu. “Pediram apoio para a delegacia, e anteontem encaminhamos a carta ao Ministério da Justiça e ao governo do Amazonas”, conta. Eles pedem a legitimação da delegacia, treinamento para os “policiais” e pagamento, já que todos são voluntários. Há alguns anos, quando cheguei em Higienópolis, um judeu foi assassinado por um assaltante em frente a uma sinagoga. Os moradores do bairro, em grande parte de ascendência judaica, cansados da omissão do poder público, reuniram-se e decidiram criar um serviço de segurança privado para a vigilância das ruas. Houve consenso dos síndicos de condomínios e boa parte dos condôminos, ciosos de suas vidas e seus bens, aceitaram tranqüilamente pagar uma taxa para a manutenção do serviço. Se bem me lembro, na época a taxa era de 50 reais por unidade domiciliar e muitos dos habitantes do bairro já haviam começado a pagá-la. O que não contavam era com a pronta reação dos eternos defensores dos tais de Direitos Humanos. Alegando que poder de polícia é de competência do Estado, moveram mundos e fundos e conseguiram vetar a solução encontrada pelo bairro. A idéia de uma segurança privada foi pras cucuias e as taxas já pagas foram devolvidas. É óbvio que estes senhores não dirão uma palavra sequer de protesto contra esta nova modalidade de segurança, não prevista na Constituição, a polícia indígena. O que os ticunas estão criando, no fundo, é uma milícia, que não encontra amparo legal nas leis do país. Bastante diferente da intenção dos higienopolitanos, que jamais pensaram em uma delegacia, muito menos em prisões de metro e meio quadrado. Queriam apenas prevenir assaltos e proteger suas posses, como fazem os bancos ou serviços de transporte. Não estavam pedindo a legitimação de uma força policial, muito menos dinheiro ao governo. O fato é que o Estado brasileiro há muito delegou aos cidadãos os cuidados com a própria segurança, prova disto é a proliferação de grades – muitas eletrificadas – cercando casas e prédios de todas as cidades do país. Isto se permite aos “brancos”, que trabalham, pagam seus impostos e querem segurança para si e para os seus. O que não podem é contratar seguranças. Quanto aos índios, estes podem criar delegacias nas aldeias, ao mesmo título que qualquer Estado ou município. Mais ainda: os funcionários destas delegacias não serão escolhidos por concurso público, como é normal no país. Os “policiais”, no caso, serão índios. A posição da Secretaria de Segurança do Estado de Amazonas é de “não reconhecimento da delegacia, que é uma forma de milícia e está fora da lei”. Há duas semanas, eu comentava o novo estatuto indígena que está sendo tramado nos corredores mais que escusos do Congresso. Segundo o novo texto, para condenar um indígena, a Justiça precisará avaliar se o ato praticado está de acordo com os usos e costumes da comunidade indígena a que pertence e se o índio tinha consciência de que cometia uma ilegalidade. Os ticunas, entusiasmados com o que lhes é acenado por defensores dos tais de direitos indígenas, pelo jeito pretendem poupar este trabalho à Justiça. O que falta saber é por qual justiça se orientarão os novos policiais. Por aquela justiça que considera o assassinato um crime? Ou por aquela outra, que considera um dever enterrar crianças vivas, caso sejam gêmeos, filhos de mães solteiras ou apresentem um defeito congênito? Os bugres estão excitados com os novos tempos, a ponto de reclamarem em um hospital a alta de uma criança para matá-la na aldeia, em obediência a suas tradições milenares. Exigem agora uma polícia própria. Mais um pouco e pretenderão uma força militar própria. Enquanto isso, o cidadão urbano é impedido de contratar seguranças para a proteção de próprio bairro.
TAM PERDE OLIGOPÓLIO Em janeiro passado, comentei uma decisão da ANAC que liberava gradualmente as tarifas aéreas a partir daquele mês, o que resultaria na liberdade total de preços a partir de 2010. A TAM, com a cobertura do SNEA (Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias), questionou na Justiça a decisão da ANAC e juiz é o que não faltou para defender a manutenção de uma economia socialista no país, aquela economia que pretendia revogar a lei da oferta e da procura. Na sentença que suspendeu o desconto, o desembargador Jirair Meguerian argumentou que a resolução da Anac gerava “efeitos imediatos e catastróficos para as companhias aéreas brasileiras e para o mercado em geral, além de favorecer a prática do dumping pelas companhias internacionais, que valem-se de subsídios governamentais e poderão praticar tarifas muito inferiores àquelas praticadas pelas empresas nacionais”. Na época, a Anac, que propunha a liberação de tarifas, aventava redução de até 80% no prelo dos bilhetes (uma passagem de ida-e-volta para a Europa sairia por U$174). A meu ver, isto é um tanto inviável. Mas quem deve decidir isto é o mercado e não um juiz. Hoje, os jornais nos trazem boas notícias. A liminar obtida pelo SNEA caiu. As manobras oligopolistas da TAM fracassaram. A partir de hoje, está liberado o preço das passagens internacionais em vôos para os EUA e Europa. A medida passa a viger tão logo seja publicada no D.O.U. Inicialmente, o desconto será de até 20% abaixo do piso estabelecido pela Anac. Em julho, os descontos passam a 50%. Três meses depois, em outubro, as companhias aéreas poderão oferecer preços até 80% mais baixos e, finalmente, a partir de janeiro de 2010, a tarifa será totalmente liberada. Ou seja, quem quiser partir em julho estará mais ou menos liberado das tarifas praticadas durante a estação alta. Isto se alguma empresa se habilitar a tanto. Mas a decisão da ANAC tem algo de utópico ao prever preços até 80% mais baixos. Não creio que alguma empresa se mantenha em pé cobrando U$ 174,00 por uma travessia oceânica de ida-e-volta. Assim fosse, talvez estimulasse os mãos-de-vaca de Brasília, os deputados e senadores que adoram viajar às custas do contribuinte, a pagar de seu próprio bolso o turismo de seus familiares. A Varig, que durante décadas afastou os brasileiros do Exterior, já morreu. A TAM, se insistir em sua política de preços altos, irá pelo menos caminho. Que a agonia lhe seja breve.
Terça-feira, Abril 21, 2009
VOE PLANALTUR, A AGÊNCIA MAIS EM CONTA “A naides tengás envidia; es muy triste el envidiar; cuando veás a otro ganar a estorbarlo no te metas: cada lechón en su teta es el modo de mamar.” (Consejos del viejo Vizcacha, Martín Fierro) Neste Brasil ninguém morre de tédio, costumo afirmar. Em qualquer órgão público onde alguém descubra um só caso de corrupção, você vai puxando o fio e descobre que não é apenas um caso, mas quatro ou cinco. É quando uma certa inquietação toma conta da guilda. Você puxa mais um pouco a fieira e lá vem a corporação toda pendurada. Que é que é que fiz de errado? – perguntam-se as inocentes alminhas. Afinal, todo mundo não faz isso? Você olha mais a fundo no balaio e descobre que corrupção era a regra e retitude, se é que ainda existe, é exceção. Descobriu-se, cá e lá, que alguns deputados e senadores desviavam verbas destinadas a passagens para turismo de parentes e amigos. Os jornais investigaram mais a fundo e concluíram que não eram alguns deputados e senadores, mas quase todos. Quase todos, por enquanto. Não seria de surpreender que fossem todos. Até mesmo o presidente da Câmara, Michel Temer, Temer admitiu ter viajado com sua mulher à França e com seu irmão à Bahia. Afirma que usou a cota porque "havia o entendimento de que era um crédito do parlamentar". A Câmara tem um Conselho de Ética, órgão responsável por julgar eventual quebra de decoro dos deputados. Pois descobriu-se que esse Conselho emitiu pelo menos 35 passagens para o exterior em seus próprios nomes ou no de terceiros, incluindo parentes, amigos e funcionários, para destinos como Londres, Paris, Milão, Miami e Buenos Aires. A União tem um órgão cuja função é fiscalizar a aplicação do dinheiro público, o Tribunal de Contas da União. No ano passado, a despesa com passagens aéreas para os nove ministros do TCU chegou a R$ 720.344,38, o que representa aumento de 45,2% em relação a 2007 e corresponde a uma média de R$ 80 mil anuais por integrante da corte. Neste imenso Boeing da alegria onde todo mundo viaja, nem mesmo as reservas morais da nação resistiram ao apelo da Europa maravilhosa. Até mesmo o impoluto Fernando Gabeira admite que destinou passagens a uma de suas filhas. Protógenes Queiroz, o campeão da luta contra a corrupção nas altas esferas, recebe passagens da deputada Luciana Genro, a paladina gaúcha que combate governo e partidos em nome da honestidade. Ontem, assistimos ao espetáculo comovente de ver um calejado senador chorando em plenário. Mesmo morando em apartamento próprio em Brasília, o senador Gerson Camata e a mulher dele, a deputada Rita Camata, ambos do PMDB do Espírito Santo, recebem auxílio-moradia do Senado e da Câmara. No total, são R$ 6.800 por mês para o casal. Segundo o senador, de R$ 3.800 brutos, ele paga contas de condomínio (R$ 1.100) e de gás (R$ 75,46), entre outros gastos. A deputada não disse quais são as despesas dela. Os dois moram no mesmo local. Em verdade, o senador teve de admitir morar em imóvel próprio na capital para rebater uma denúncia maior, de um ex-assessor, de que alugava o seu apartamento para uma embaixada para receber o auxílio-moradia. "Eu preciso até provar que moro no meu apartamento, o que é uma coisa incrível", afirmou. Para livrar-se de uma calúnia, o ilustre senador teve de admitir participar da corrupção. A que ponto chegamos. É de cortar o coração. Se todos os digníssimos representantes do povo e seus fiscais fazem, por que não o fariam até mesmo deputados cujos mais nobres ideais são terminar com os privilégios das elites? É o caso de Nazareno Fonteles, do PT piauiense, que emitiu cinco bilhetes em nome de terceiros para Miami. Alguém ainda lembra deste senhor? Eu lembro. É aquele que, há cinco anos, apresentou no Congresso, o nobilíssimo projeto de Lei Complementar, que estabelecia um limite máximo de consumo aos brasileiros e a tal de Poupança Fraterna. Para que se tenha uma idéia do espírito generoso do deputado, transcrevo os itens iniciais de seu generoso projeto: O Congresso Nacional decreta: Art. 1º Fica criado o Limite Máximo de Consumo, valor máximo que cada pessoa física residente no País poderá utilizar, mensalmente, para custear sua vida e as de seus dependentes. § 1º O Limite Máximo de Consumo fica definido como dez vezes o valor da renda per capita nacional, mensal, calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, em relação ao ano anterior. Art. 2º Por um período de sete anos, a partir do dia primeiro de janeiro do ano seguinte ao da publicação desta Lei, toda pessoa física brasileira, residente ou não no País, e todo estrangeiro residente no Brasil, só poderá dispor, mensalmente, para custear sua vida e a de seus dependentes, de um valor menor ou igual ao Limite Máximo de Consumo. Art. 3º A parcela dos rendimentos recebidos por pessoas físicas, inclusive os que estejam sujeitos à tributação exclusiva na fonte ou definitiva, excedente ao Limite Máximo de Consumo será depositada, mensalmente, a título de empréstimo compulsório, em uma conta especial de caderneta de poupança, em nome do depositante, denominada Poupança Fraterna. Da proposta do sublime Nazareno resultava que seriam poupadores na Poupança Fraterna – isto é, seriam confiscadas – todas as pessoas que tivessem, em 1999 e a preços daquele mesmo ano, rendimentos mensais superiores a R$ 5.527,00. É o tipo da proposta que jamais encontrará acolhida entre seus pares, para os quais 5 mil reais é argent de poche. Quanto a passagens a Miami, bom, passagem não é rendimento. É apenas um instrumento para o adequado exercício da deputação. No caso, enviar amigos a Miami. Os tempos são bicudos e o turismo internacional se ressente da crise. Se você gosta de cultivar o espírito e agraciar o estômago nas lojas e restaurantes da Europa e Estados Unidos e hoje não está conseguindo viajar, tome uma providência urgente ano que vem. Candidate-se a deputado ou senador e goze - você, sua mulher, sua sogra, seus filhos, suas amantes - das regalias da PLANALTUR, a agência de turismo mais em conta nestes dias de recessão. Se antes existia um vazio legal quanto à existência da generosa agência, agora ela foi legalizada. Voe tranqüilo, sem a desagradável sensação de estar sendo financiado pelo contribuinte. Em verdade, está. Mas agora é legal, digno e justo. Mas o caso mais insólito, sem dúvida alguma, é o do deputado Fernando Gabeira, eleito pela imprensa nacional como uma espécie de reserva moral da nação. Continuo abaixo.
GABEIRA, O VERDE IMPOLUTO Comecei a sentir que o tempo em um distante ano dos 80, quando lecionava na UFSC, em Santa Catarina. Eu ia para a universidade de ônibus quando, a meu lado, ouvi uma confidência surpreendente de uma aluna para outra: - Eu conheci um cara que viveu 64. Não foi um tapa na cara, mas o que senti soou mais ou menos como se fosse. Naquele momento, me dei conta que minha geração já passara, que minha memória era depositária de acontecimentos históricos e que não pertencia mais àquele mundo a meu lado. Em 64 eu tinha 17 anos e, bem ou mal, estava envolvido nos acontecimentos de então. Digo isto para introduzir Gabeira no assunto. Porque se há jovens que sequer têm idéia do que foi 64, certamente tampouco terão idéia de quem foi Gabeira ou do que fazia nos anos 60. Bolchevista e terrorista, Gabeira, se alguém não mais lembra, militava no movimento terrorista MR-8, responsável pelo seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969. Gabeira é também um dos responsáveis pela sobrevida política dessa excrescência chamada José Dirceu, que foi banido do país em troca da libertação de Elbrick. Após o seqüestro, Gabeira foi fazer turismo ideológico em Cuba, foi depois para o para o Chile e acabou caindo na social-democracia sueca, onde, ao que tudo indica, tornou-se mais cordato. Mas nada justifica seu passado. O seqüestro do embaixador ocorreu no final dos anos 60. Gabeira era jornalista e, por uma questão de ofício, pessoa bem informada. Ao aderir a um movimento stalinista, já era grandinho suficientemente para ter plena consciência das purgas de Stalin nos anos 30, dos gulags, da affaire Kravchenko, das denúncias de Kruschov no XX Congresso do PCUS, em 1956. Se optou pelo terrorismo, não foi por falta de informação. Ano passado, ao ter notícias das bolsas-ditadura recebidas por Ziraldo e Jaguar – isso sem falar nas milhares de outras – Gabeira deitou verbo contra os dois vigaristas do Pasquim. Pois não é que a Folha de São Paulo nos noticiou, em maio passado, que seria julgado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça um pedido seu para que a União considerasse o tempo em que foi exilado, na época da ditadura militar, para efeitos de aposentadoria. Entusiasmado com o dinheiro fácil das bolsas-terrorismo, Gabeira deixou cair a máscara de neoimpoluto e mostrou ao que vinha. Ao mesmo tempo em que se sentia moralmente obrigado a denunciar os colegas de vigarice. Na ocasião, afirmou não ter condições de demonstrar no que trabalhou. “Eu pedi para contarem, para efeito de aposentadoria, os anos que passei no exílio. Foram nove anos. Não tenho condições de demonstrar claramente que eu trabalhei. Os dois jornais em que trabalhei, o Binômio e o Panfleto, foram empastelados. O Diário da Noite e o Última Hora fecharam. Para pedir aposentadoria, preciso disso”. Precisava mas nem precisava. No mês anterior, fora contemplado com uma bolsa-terrorismo o gaúcho Diógenes Oliveira, militante petista gaúcho e ex-secretário de Transportes da Prefeitura de Porto Alegre, que conseguiu uma indenização retroativa de R$ 400 mil e rendimento mensal vitalício de R$ 1.627,72 por, supostamente, ter sido obrigado a abandonar, em 1966, o emprego que tinha na Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul (CEEE). Diógenes, hoje sessentão, integrou a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e participou de vários atentados terroristas. Foi preso e exilado em 1969, voltando ao País em 1979. Coincidentemente, o mesmo ano em que Gabeira volta ao Brasil, após ter degustado o amargo caviar do exílio no paraíso nórdico. Diógenes, na verdade, não perdeu o emprego na CEEE por perseguição política, "por ser sabedor de que a Polícia Política do Regime Militar tinha conhecimento de suas atividades e que, em conseqüência, estava preste a ser preso", como alega. A CEEE enviou um ofício à Comissão de Anistia desmentindo. E afirmou que Diógenes abandonou o emprego. Mesmo assim, foi regiamente indenizado e bem aposentado. Gabeira, o impoluto, queria na época indenização pelos dias bem vividos no paraíso social-democrata. Se a moda pegasse, todo lavador de pratos que saiu do Brasil naqueles anos iria querer o seu. Por outro lado, as novas gerações já estão imbuídas da consciência de que investir em terrorismo sempre garante uma velhice tranqüila. Ante o ridículo – e a incongruência – de seu pedido, o impoluto deputado acabou desistindo da bolsa-terrorismo. Mas só desistiu após ter sido flagrado pela imprensa. Agora, resvalou de novo. Foi flagrado desviando passagens para viagens de sua filha ao Exterior. Pego com a boca na botija, Gabeira não perdeu no entanto a complacência de seus colegas de jornalismo e é visto, até hoje, como arquétipo de honestidade. Gabeira afirmou que discursará da tribuna da Câmara amanhã, quarta-feira. Disse que vai reconhecer um erro e iniciar uma batalha na Casa. Sem ser católico, parece ter intuído muito bem o sacramento da confissão. Basta pedir perdão pelos pecados e a absolvição é automática. Mas não se dá por achado. Admite o erro de ter cedido passagens da cota a que faz jus como deputado para que familiares viajassem ao exterior. Mas pretende convencer a direção da Câmara a modificar as regras que disciplinam o uso das passagens, com as quais presenteou sua filha. Promete devolver o valor gasto aos cofres públicos e não mais se fala no assunto. "No meu caso, há um ou dois bilhetes para familiares", disse. "Vou falar como um deputado que errou. Mas que não se compromete com o erro". Um ou dois bilhetes? Se foram tão poucos, como não lembrá-los? Que mais não seja, não poderia perguntar à filha? Ela certamente lembra. É bom que o deputado pesquise a fundo sua generosidade familiar, financiada pelo contribuinte. Pode ocorrer que sejam mais as passagens. Gabeira não precisou a data ou o destino das passagens aéreas nem informou quem as utilizou, para proteger a privacidade das pessoas, porque, segundo ele, elas "não sabiam que era irregular". Santa inocência, a destes filhos que ignoram que o pai lhes paga passagens que são irregulares. O deputado disse considerar "inaceitável" a decisão da Mesa da Câmara na semana passada, ou seja, a decisão de legalizar definitivamente doação de bilhetes para parentes, assessores e correligionários dos deputados e senadores, para que a imprensa não mais reclame. Mas o probo deputado só considerou a decisão inaceitável após ser flagrado cometendo a irregularidade que agora o escandaliza. Repete-se a estratégia de quando pediu a bolsa-terrorismo. Em um acesso – tardio, é verdade – de escrúpulos, o ex-terrorista diz que tentará mudar as regras pela via conciliatória. Se for malsucedido, cogita recorrer ao STF. "Senão abandono o mandato, termino o mandato discretamente e vou abandonar a política". Melhor que a abandone logo, porque as mordomias para parentes e companheiros já foram sacramentadas. O Congresso tem uma noção muita rígida – e inamovível – de direitos adquiridos. Não voltará atrás. Claro que não vai abandonar coisa nenhuma. Gabeira não desconhece a curta memória das gentes. Sabe muito bem que daqui a um ano não se fala mais no assunto. E continuará gozando da inexplicável e paradoxal reputação de reserva moral da nação.
JORNAL ESPANHOL CRIA BRASIL NEGRO Coube ao El País de hoje, em sua edição online, dar ganho de causa aos apparatchiks dos movimentos negros na guerra racial deflagrada no Brasil. BRASIL YA NO ES UN PAÍS DE BLANCOS Na linha fina: Los negros y mulatos brasileños son mayoría, con un 49,6% - Esta población, sin embargo, continúa discriminada Segundo a notícia, o Brasil deixou de ser um país de brancos. A maioria de seus quase 200 milhões de habitantes, 49,6%, é negra ou mulata, enquanto que os brancos são 49,4%. O resto são principalmente indígenas. “Y dentro de unos años, la población negra llegará al 54% , según un estudio de la Universidad Federal de Río de Janeiro” – continua o correspondente do jornal. Em um passe de mágica, omitiu o mulato, jogado de repente na bacia das almas, sem que nem mesmo estivesse em oferta. Ora, segundo o IBGE, a população negra do Brasil, em 99, era de apenas 5,4%. O contingente de mulatos, citado pelo jornalista no primeiro parágrafo da notícia, mas logo omitido no seguinte, era de 39,9%. De “Brasil já não é um país de brancos”, passa sem pudor a uma população negra que seria de 54%. O que é incorreto. Esta seria a população conjunta de negros e mulatos. Pergunta que se impõe: por que mulato é necessariamente negro? Sendo oriundo de brancos e negros, é tanto branco como negro. Em termos politicamente corretos: o mulato é tanto afrodescendente como eurodescendente. Segundo o diretor da UFRG, A. Paixão, “o Brasil já não é um país majoritariamente branco, portanto necessitamos uma política de diversidade”. A declaração do professor aponta, obviamente para mais cotas. Ou seja, quer estimular o surgimento de um ódio racial que jamais existiu no Brasil. É a importação da odiosa política da one drop rule, até hoje vigente nos Estados Unidos: só existem pretos e brancos. Mulato não tem direito à existência. A grande virtude do país, a miscigenação, da qual o alto contingente de mulatos do país é a prova mais evidente, é apagada da história. Luta de classes morta, luta racial posta, costumo afirmar. Se assim for, os brancos bem que poderiam aproveitar o azo. Se somos minoria, que nos sejam concedidos aqueles direitos hoje atribuídos às minorias étnicas. Cotas para brancos, urgente!
Segunda-feira, Abril 20, 2009
A CORAGEM ASILOU-SE NA POESIA ARGENTINA Quando escrevi Ianoblefe, em 1994, o assassinato de crianças indígenas pelos pais ou parentes era praticamente desconhecido no Brasil. Internacionalmente, a denúncia era antiga e foi trazida a público pela primeira vez pelo antropólogo americano Napoleon Chagnon, em seu livro Yanomamö - The fierce people, que vendeu mais de um milhão de exemplares, desde 1970, quando foi publicado. O escândalo não chegou aqui por uma razão das mais simples. Chagnon estudara os hábitos de uma tribo ianomâmi da Venezuela, onde vivera por cinco anos. Até então não se falava em ianomâmis no Brasil. A palavrinha só surgiu entre nós na década de 70, mais precisamente em 1973, quando uma fotógrafa de nacionalidade indefinida – ora é romena, ora é suíça – Claudia Andujar, a serviço de uma fundação americana, a Guggenheim, resolveu criar uma nação ianomâmi no Brasil. Divulgou mundo afora idílicas fotografias de indígenas de quatro tribos distintas, na fronteira com a Venezuela, aos quais batizou genericamente como ianomâmis. A fotógrafa, em verdade, ianomamizou uma babel de tribos que pouco ou nada tinham a ver entre si. A ficção tomou força na imprensa internacional e os “ianomâmis” passaram a “existir”. Quando Brasília se deu conta de que o reconhecimento de grupos indígenas requeria capacitação em Antropologia, o mal já estava feito: a fotógrafa havia criado uma nação. Cabe lembrar que a profissão de antropólogo, como a de prostituta ou psicanalista, não estão regulamentadas por lei no Brasil. Mesmo assim, em 1992, por um punhado de linhas na mídia internacional, o então presidente Fernando Collor de Mello avalizou a ficção de Andujar, entregando três Bélgicas a dez mil índios (ou talvez menos da metade disso), que só passaram a ser ianomâmis a partir de 1973. Milagre do jornalismo eletrônico: jamais se construiu uma nação em tão pouco tempo. Em seu ensaio, onde estuda grupos ianomâmis na Venezuela, Chagnon descreve um povo primitivo que faz a guerra para obter as mulheres do inimigo morto. Seu estudo em nada fecha com as imagens angelicais da fotógrafa Claudia Andujar. Falando de sua experiência junto ao grupo do ianomâmi Kaobawa, diz o antropólogo: "Entre os mais significativos resultados de minha análise estão os seguintes fatos, que demonstram a natureza e a extensão da violência entre o povo de Kaobawa dentro de uma perspectiva regional: "1. Aproximadamente 40% dos machos adultos participaram do assassinato de outro ianomâmi. A maioria destes (60%) matou só uma pessoa, mas alguns homens foram muitas vezes guerreiros bem-sucedidos e participaram do assassinato de mais de 16 outras pessoas. "2. Aproximadamente 25% de todas as mortes entre machos adultos são devidas à violência. "3. Aproximadamente dois terços das pessoas de 40 ou mais anos perdeu, devido à violência, pelo menos um dos seguintes tipos de parentes biologicamente próximos: pai, irmão ou filho. A maioria deles (57%) perdeu dois ou mais parentes próximos. Isto ajuda a explicar porque um grande número de indivíduos são motivados à vingança. "A mais insólita e impressionante descoberta, que foi discutida e debatida na imprensa e nos jornais acadêmicos, é a relação entre o sucesso militar e o sucesso reprodutivo entre os ianomâmis. Unokais (homens que mataram) têm mais sucesso em obter esposas e, conseqüentemente, têm maior descendência que os homens de sua própria idade que não são unokais. "A explicação mais plausível para esta relação parece ser que os unokais são socialmente recompensados e têm mais prestígio que os outros homens e, por estas razões, são geralmente mais aptos a obter esposas-extras através das quais têm número de filhos além da média". Claro que Chagnon foi excomungado do círculos da antropologia e chegaram a acusá-lo de chegar nas aldeias atirando, para mostrar que era mais feroz que os ianomâmis. Transcrevi estas conclusões de Chagnon em Ianoblefe. Quando publiquei uma síntese de meu livro, na Folha de São Paulo, em 1994, fui acusado de racista e denunciado no Ministério Público Federal, por sete entidades ligadas a antropólogos e missionários, pelo crime de racismo. Claro que a representação morreu na casca. Hoje, quinze anos depois, é de conhecimento público que não só os supostos ianomâmis criados por Andujar, como também diversas outras tribos no país, têm o infanticídio como recurso usual para matar crianças nascidas com deficiências, filhos de mães solteiras ou gêmeos. Já existem inclusive diversas fundações no país que denunciam esta prática infame. Em função de meu recente artigo – “A quem interessar possa” -, recebi mensagens de apoio e links para sites que se propõem a lutar contra o infanticídio nas aldeias. Curiosamente, tanto nestas mensagens como nos sites, encontro apenas comiseração pelas crianças. Nenhuma acusação aos assassinos. É como se o infanticídio fosse uma espécie de fatalidade da vida na selva, algo como uma praga agrícola ou peste bovina, pela qual não há responsáveis visíveis. Não ouvi, nas mensagens que recebi, nenhuma acusação aos bárbaros que cometem tais crimes, nenhum apelo ao Estado para trancafiar na prisão tais criminosos. Pelo jeito, as entidades defensoras das criancinhas, ainda acreditam no mito rousseauneano do “bon sauvage”. Chamar de criminoso um índio que mata, hoje, é arriscar a ser processado por racismo. Afinal, estrangular ou enterrar crianças vivas faz parte de suas sagradas tradições culturais. Não é de hoje que o selvagem é mitificado no Brasil. A ficção vem desde o século XIX, quando o índio era em prosa e verso cantado, como um guerreiro valente e puro, em suma, um poço de virtudes. Para Gonçalves Dias, por exemplo, o índio era uma pobre vítima do monstro europeu: Não sabeis o que o monstro procura? Não sabeis a que vem, o que quer? Vem matar vossos bravos guerreiros, Vem roubar-vos a filha, a mulher! Os tempos mudam. Hoje, tanto europeus como americanos se unem na defesa dos bravos guerreiros que matam suas crias indefesas. Se quisermos encontrar coragem para denunciar a barbárie e crueldade de certas tribos nossas, temos de voltar mais de um século atrás e recorrer a um poeta nosso vizinho. Falo de José Hernández e do poema maior deste continente, Martín Fierro, de 1872. Lá está retratado, um século antes de Napoleon Chagnon, o fierce people que habitava a pampa argentina. Antes que sejam proibidas – o que não me espantaria – reproduzo algumas coplas de Fierro que definem o selvagem de sua época. PS – Ianoblefe pode ser baixado de http://www.ebooksbrasil.org
O ÍNDIO SEGUNDO FIERRO Allá no hay misericordia ni esperanza que tener, El indio es de parecer Que siempre matar se debe, Pues la sangre que no bebe Le gusta verla correr. El índio pasa la vida robando o echao de panza. La única ley es la lanza a que se ha de someter. Lo que le falta en saber lo suple con desconfianza. Odia de muerte al cristiano, hace guerra sin cuartel. Para matar es sin yel, es fiero de condición. No golpea la compasión en el pecho del infiel. Es tenaz en su barbarie, no esperen verlo cambiar, el deseo de mejorar en su rudeza no cabe. El bárbaro sólo sabe emborracharse y peliar. Todo el peso del trabajo lo dejan a las mujeres. El indio es indio y no quiere apiar de su condición, ha nacido indio ladrón y como indio ladrón muere. Y son, por ¡Cristo bendito!, lo más desaciaos del mundo. Esos indios vagabundos, con repunancia me acuerdo, viven lo mesmo que el cerdo en esos toldos inmundos. Naides puede imaginar una miseria mayor, su pobreza causa horror. No sabe aquel indio bruto que la tierra no da fruto si no la riega el sudor. Y son, por ¡Cristo bendito!, lo más desaciaos del mundo. Esos indios vagabundos, con repunancia me acuerdo, viven lo mesmo que el cerdo en esos toldos inmundos. Naides puede imaginar una miseria mayor, su pobreza causa horror. No sabe aquel indio bruto que la tierra no da fruto si no la riega el sudor.
Domingo, Abril 19, 2009
McAFEE APOSTA NO APOCALIPSE Essa agora! Depois da influência da flatulência das vacas sobre o efeito estufa e da brilhante descoberta do Instituto Francês do Câncer (INCA) de que uma taça de vinho por dia é fator cancerígeno, de que picanha também dá câncer, sou informado de que ao usar a Internet estou emitindo CO2 para a atmosfera. A notícia, que leio em jornais franceses, é um pouco diferente. Segundo pesquisa coordenada pelo editor do antivírus McAfee, os spams estão na origem da emissão de 17 milhões de toneladas de CO2, ou seja, 0,2% das emissões mundiais, o que equivaleria às emissões de 1,5 milhões de lares americanos. Um resultado obtido com o cálculo da energia anual necessária à criação, envio, recepção, estocagem, consulta e eliminação de spams nos dá a cifra estonteante de 33 bilhões de Kws. Mais de um terço dos 80 bilhões de kWh gerados pela gigantesca represa de Três Gargantas na China durante um ano. De onde deduzo que, se spam polui, o uso honesto da Internet também. Afinal, criamos, enviamos, estocamos, consultamos e eliminamos emails. Eu, que jamais tive carro nem crio gado, imaginava-me relativamente inocente da poluição do planetinha. Digo relativamente inocente porque nunca faltará um ecochato para provar que, pelo simples fato de estar habitando, comendo e bebendo, estou sendo prejudicial à saúde de Mãe Gaia. Claro que a pesquisa não previu em seu cálculo os bilhões de Kws que economizamos ao eliminar o transporte físico de documentos e correspondência, isso sem falar no que é despendido na produção de papel para jornais e livros, economia que só a Internet permite. Pelo jeito, para vender seu antivírus, a McAfee está apostando na mesma fichinha das viúvas do Kremlin, o apocalipse. É espantoso que uma poderosa empresa da era informática faça terrorismo neoludita. Salvemos o planeta. Precisamos voltar à época do velho papel e da máquina de escrever, do transporte de documentos por malotes, do envio de cartas que precisavam ser transportadas por carros, navios, aviões. No fundo, até que vou gostar. Ando com saudades de cartas. Só recebo atualmente impressos de bancos, empresas, pizzarias. Mas só no fundo. Tenho baús de cartas da era do papel, que me fazem entrar em pânico na hora de classificá-las. Jogá-las fora? Impossível, são testemunhos de minha própria vida. Sem falar que hoje são objetos de museu, que jamais voltarei a receber. À revelia do terrorismo neoludita das empresas de antívirus, vou continuar poluindo serenamente Mãe Gaia.
QUEM DERA! Leitor me corrige: Quem dera ..."falecido senador Paulo Paim"... este pedaço de frase fosse verdade, principalmente antes da palavra autoria. []s! George Minhas escusas. Confundi com o Adão Pretto, outro gato do mesmo balaio. Para que o lapso não se multiplique, vou revisar a postagem. Obrigado, Jorge!
Sábado, Abril 18, 2009
NEGROS E JUDEUS: QUANDO A RAÇA VIRA IDEOLOGIA (I) O racismo negro avança. Ser negro, no Brasil, está deixando de ser uma característica de raça e se tornando questão de ideologia. No início desta semana, os jornais noticiavam o caso de uma mulata, estudante de pedagogia em Santa Maria (RS), que perdeu sua vaga por não ser considerada parda. A UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) alegou que a estudante não se enquadrava na cota que pleiteava. Tatiana Oliveira, 22 anos, declarou à Folha de São Paulo sentir-se vítima de preconceito após ter sua matrícula no curso cancelada. Ela, que afirma ter pai pardo e um avô negro, candidatou-se à vaga pelo sistema de cotas, declarando-se parda.A universidade, que destina parte de suas vagas para alunos cotistas, não considerou a estudante parda e retirou-lhe a vaga. Desde o dia 7 de abril, ela deixou de ir às aulas. "Disseram que eu não era parda. De que cor eu sou então? Branca é que não", disse Tatiana ontem ao jornal. A decisão é estranha, logo neste Brasil onde até o IBGE, hoje, considera que os cidadãos de cor preta ou parda que se identifiquem como negros podem ser chamados de negros. Avançam os esforços dos apparatchiks negros para exterminar com o mulato no Brasil. Está sendo introduzida legalmente no Brasil a classificação ianque, que só consegue ver pretos e brancos em sua sociedade e nega a miscigenização. Este sórdido projeto é antigo, fruto da exportação dos conflitos raciais dos Estados Unidos para um país onde o negro sempre conviveu bem com o branco, tanto que o mulato constitui um contingente considerável da população. Mal foi eleito, o Supremo Apedeuta saiu arrotando urbi et orbi que o Brasil era a segunda nação negra do mundo, depois da Nigéria. Até mesmo uma pessoa aparentemente culta, como Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores, prestou-se a corroborar o sofisma safado: “Como declarou o presidente Lula, o estreitamento das relações com a África constitui para o Brasil uma obrigação política, moral e histórica. Com 76 milhões de afrodescendentes, somos a segunda maior nação negra do mundo, atrás da Nigéria, e o governo está empenhado em refletir essa circunstância”. Ora, segundo o IBGE, no censo de 1999, a população negra do Brasil era de apenas 5,4%. Com o acréscimo de 39,9% do contingente de mulatos, o Brasil estaria perto de ser definido como um país majoritariamente negro, como aliás é hoje considerado por muitos americanos e europeus. É o efeito de um monstrengo jurídico, de autoria do senador Paulo Paim, o projeto de lei n° 3.198/2000, também chamado de Estatuto da Igualdade Racial. Já foi aprovado pelo Senado e, segundo me consta, tramita em regime de prioridade na Câmara dos Deputados. De uma só tacada, Paulo Paim extermina legalmente os mulatos do território pátrio: “Para efeito deste Estatuto, consideram-se afro-brasileiros as pessoas que se classificam como tais e/ou como negros, pretos, pardos ou definição análoga”. Se ainda não passou pela aprovação dos deputados, já está fazendo estragos no mundo universitário. O cancelamento da matrícula de Tatiana foi uma decisão administrativa da universidade gaúcha, que adotou um modelo de checagem dos argumentos dos candidatos. No caso da reserva racial, o controle da universidade se baseia em entrevista do candidato aprovado feita por uma comissão constituída por professores, técnicos da universidade, estudantes e representantes da comunidade. Ativistas de organizações pró-direito dos negros também participam das entrevistas. Ou seja, a cor do candidato já não atesta sua etnia. Nas entrevistas, são feitas perguntas, tais como se a pessoa já se declarou negra ou parda em ocasiões anteriores ou se já foi vítima de preconceito. Tatiana jamais foi vítima de preconceito, como tantos outros milhões de negros ou mulatos neste Brasil multi-racial. "Me perguntaram se eu tinha sofrido algum preconceito por causa da minha cor até então e eu disse que não, falei a verdade. Estou sofrendo preconceito agora, da universidade", afirmou. "É uma injustiça." A UFSM reagiu. Segundo o pró-reitor de graduação Jorge Cunha, "as ações afirmativas objetivam dar oportunidade de entrar na universidade a quem não teve por causa da discriminação ou da pobreza, e não para oportunistas que se descobrem momentaneamente negros ou pardos”. O pró-reitor argumenta que ter antepassados negros ou pardos não é o suficiente para ingressar nas vagas reservadas. No fundo, no fundo mesmo, está exigindo que o candidato, além de ser negro ou pardo, odeie a raça branca. Se não se sente discriminado, não é negro, por mais que sua pele o ateste. Este procedimento de um racismo às avessas parece ter surgido no vestibular de 2004 da UNB (Universidade Nacional de Brasília). Na ocasião, foi instituído um comitê de “psicologia racial”, que submetia os vestibulandos, mesmo os notoriamente negros, a uma entrevista gravada, transcrita e registrada em ata, na qual, entre outros tópicos, o candidato era questionados acerca de seus valores e percepções: "Você tem ou já teve alguma ligação com o movimento negro? Já se sentiu discriminado por causa da sua cor? Antes de se inscrever no vestibular, já tinha pensado em você como um negro?" Os inquisidores também perguntavam se o candidato já havia participado de algum movimento negro ou se tinha namorado alguma vez alguma mulata". Traduzindo em bom português: se não tem ligações com movimento, se não se sentiu discriminado, se não pensou ser negro, se não namorou uma mulata, apesar de ser negro não é negro. A moda está chegando ao Rio Grande do Sul, Estado onde o racismo quase inexiste. Diga-se de passagem, foi o único Estado da União que, apesar da maioria branca, elegeu um negro como governador. A Bahia, Estado majoritariamente negro, até hoje só teve governadores brancos.
NEGROS E JUDEUS: QUANDO A RAÇA VIRA IDEOLOGIA (II) A questão é antiga e sempre ocorre quando uma ideologia assume coloração racista. Aconteceu em Israel, em 1966, quando um incidente obrigou a Alta Corte de Israel a definir, com precisão, quem era ou não judeu. Segundo o Dictionnaire Encyclopédique du Judaïsme, publicado sob a direção de Geoffrey Wigoder - de onde extraio os episódios a seguir -, historicamente a definição de judeu é concebida, segundo as leis da Halakhah (ramo da lieratura rabínica que trata das obrigações religiosas às quais devem se submeter os judeus), para a qual é judeu toda pessoa nascida de mãe judia, ou pessoa convertida ao judaísmo nas condições estabelecidas pela Halakhah. Já para os caraítas, uma dissidência do judaísmo que não aceita o Talmud, basta que o pai seja judeu. Os judeus reformistas também aceitam a descendência patrilinear. Há ainda definições exóticas, como a de Jean Paul Sartre, para quem é judeu aquele que é considerado como tal pelos não-judeus. O problema surgiu com a lei do Retorno, que dá a todo judeu o direito de imigrar para Israel e receber automaticamente a cidadania israelita, sem precisar ser naturalizado. Em sua formulação original, a lei não dava nenhuma indicação que permitisse saber quem era ou não judeu. O critério era semelhante ao inicialmente exigido aos negros para se beneficiar do sistema de cotas na universidade brasileira, a auto-declaração. Foi quando um certo irmão Daniel, judeu polonês convertido ao catolicismo e monge da Igreja romana, voltou para Israel. Oswald Refeisen (seu nome laico) recusou que lhe fosse atribuída a cidadania como residente do país. Exigia, apoiando-se na lei do Retorno, que lhe fosse conferida a nacionalidade israelita, visto que era judeu. Caos no Knesset. O Parlamento de Israel decidiu (embora isto não estivesse escrito na lei) que toda pessoa que decidisse escapar à história e ao destino do povo judeu, mesmo que fosse considerada judia do ponto de vista da Halakaha, não poderia obter a cidadania israelita sob a cobertura da lei do Retorno. Uma segunda affaire, envolvendo Benjamin Chalit, que se casara com uma não-judia, obrigou a Alta Corte a precisar melhor suas definições. Chalit exigiu que os documentos de identidade de seus filhos registrassem, na rubrica nacionalidade, a menção “judeu”, e que fosse estipulado que eles não professavam nenhuma religião. Como a lei não previa nada em outro sentido, foi decretado que os filhos deveriam ser registrados como judeus. Pressionado por partidos políticos, o Knesset modificou rapidamente a lei, de modo que ela se adaptasse a uma nova definição de judeus, como pessoas nascidas de mãe judia ou convertidas. Com um detalhe quanto aos convertidos. A conversão só pode ser feita junto ao rabino ortodoxo. Conversão feitas por rabinos reformistas ou conservadores (duas cisões do judaísmo) não são válidas. A menos que sejam referendadas pelo grande rabino de Israel, que costuma ser ortodoxo. Para Tatiana Oliveira, não bastava ser mulata. Precisava professar a ideologia afro-nazista que está sendo gestada pelos ativistas negros. Para Refeisen, tampouco bastava ser judeu. Precisava pertencer à história e ao destino judeus. Quando raça vira ideologia, os ideólogos precisam dar nós em pingo d’água para conciliar as contradições.
Sexta-feira, Abril 17, 2009
A SOLUÇÃO É SIMPLES: LEGALIZE-SE O ILEGAL Descobriu-se de repente que o valor da cota de passagens aéreas a que deputados têm direito é de R$ 80 milhões anuais. Isso sem falar nos senadores. Quer dizer, além de auxílio-moradia, verbas para contratação de assessores, verbas de telefonia e correspondência, pagamento de empregadas domésticas, ao eleger um destes impolutos senhores você está também contribuindo para um salutar turismo dos ditos, de seus familiares e amigos e prostitutas de alto bordo. Ainda há pouco, descobriu-se que a conta de um celular, emprestado à sua filha por um probo senador do PT, Tião Viana, durante uma viagem ao México, foi de R$ 14.758,07. Isso por um período de vinte dias de uso. Segundo o zeloso senador, tudo não passou de instinto paternal. "Eu cometi um erro, paguei caro por esse erro e juro que foi a única vez em que emprestei o celular. Minha decisão foi tomada por puro instinto paternal, querendo manter contato com minha filha pelo fato de que ela e uma amiga atravessaram o México em uma viagem de ônibus". Pagou caro, uma ovas. Pagou apenas os R$ 14.758,07, que sua filha gastou, e mais nenhum vintém. Punição, nenhuma. Em tempo: consta que há contas de celulares em torno de 100 mil reais. A menina-do-olho do senador petista teve azar de cair na boca da imprensa. Como dizia Darcy Ribeiro, escroque que sabia das coisas: “o Senado é o paraíso”. Se sua mulher é um estorvo a suas aventuras, você a manda pra Paris ou Nova York. Com a sogra junto para vigiá-la. Turismo também é cultura. Ora, você não vai privar de cultura seus rebentos e eventuais amiguinhos. Mande-os para as prestigiosas capitais do Ocidente, para que voltem cheios de graça e sabedoria. Não custa nada. Quem paga é o contribuinte. Mais recentemente, o deputado Fábio Faria, do PMN potiguar, usou sua cota de passagens para levar ao seu camarote no Carnaval fora de época de Natal vários cortesãos do Planalto, entre estes uma ex-namorada. Se deputado é assim generoso com as ex, imagine com as efetivas. Também devolveu o preço das passagens - pelo menos da ex - e ficou tudo por isso mesmo. Para ministros que eram deputados, os privilégios são perpétuos. Seus familiares usaram 64 passagens aéreas depois de deixarem a Câmara. Os dignos ministros não devolveram os bilhetes com a mudança de cargo. João Paulo Cunha, ex-presidente da Casa, do PT paulista, foi buscar subsídios para seu mandato, mulher e filha, em Bariloche, cidade argentina famosa por suas estações de esqui e muito requisitada pelos alpinistas (sociais) de Pindorama. Inocêncio Oliveira, também ex-presidente da Casa, do PR pernambucano, usou a cota para financiar a viagem da mulher, das filhas e da neta para Nova York e Europa. Ele disse à reportagem que sempre economizou na Câmara e não via ilegalidade no ato. "Família é sagrada". Interrogado se namoradas poderiam viajar com passagem da Casa, primeiro-secretário do Senado, Heráclito Fortes, do DEM piauiense, saiu pela tangente com uma gracinha de um deboche total: "Se for bonita, pode". Até aí, nada de novo. Os escândalos brotam todos os dias nos jornais e os congressistas reagem com uma indiferença olímpica. O que é novo – e insólito – e insultante – é a medida tomada por deputados e senadores para coibir tais corrupções: legalizaram a doação de bilhetes para parentes, assessores e correligionários dos deputados e senadores. O Senado ainda liberou o uso da cota de passagem aérea para fretamento de jatinhos e barcos. A solução é simples: se antes era ilegal, anti-ético ou indevido, agora é legal, digno e justo. E ainda há otários neste Brasil que votam nas eleições.
UMA VOZ CONTRA O INFANTICÍDIO Se padres, antropólogos, missionários, funcionários da FUNAI e autoridades se mantém silentes sobre os bárbaros assassinatos de crianças pelos indígenas, há vozes que já se levantam contra este crime, entre elas vozes indígenas. Um amigo me remete a um site que merece ser visitado: http://www.hakani.org Transcrevo abaixo o relato das tentativas de assassinato da indiazinha Hakani, da tribo dos suruwaha, que deu origem ao Projeto Hakani. HAKANI, UMA MENINA CHAMADA SORRISO Hakani nasceu em 1995, filha de uma índia suruwaha. Seu nome significa sorriso e seu rosto estava sempre iluminado por um sorriso radiante e contagioso. Nos primeiros dois anos de sua vida ela não se desenvolveu como as outras crianças – não aprendeu a andar nem a falar. Seu povo percebeu e começou a pressionar seus pais para matá-la. Seus pais, incapazes de sacrificá-la, preferiram se suicidar, deixando Hakani e seus 4 irmãos órfãos. A responsabilidade de sacrificar Hakani agora era de seu irmão mais velho. Ele levou-a até a capoeira ao redor da maloca e a enterrou, ainda viva, numa cova rasa. O choro abafado de Hakani podia ser ouvido enquanto ela estava sufocada debaixo da terra. Em muitos casos, o choro sufocado da criança continua por horas até cair finalmente um profundo silêcio – o silêncio da morte. Mas para Hakani, esse profundo silêncio nunca chegou. Alguém ouviu seu choro, arrancou-a do túmulo, e colocou nas mãos de seu avô, que por sua vez levou-a para sua rede. Mas, como membro mais velho da família, ele sabia muito bem o que a tradição esperava dele. O avô de Hakani tomou seu arco e flecha e apontou para ela. A flechada errou o coração, mas perfurou seu ombro. Logo em seguida, tomado por culpa e remorso, ele atentou contra a própria vida, ingerindo uma porção do venenoso timbó. Para Hakani, ainda não era a hora de cair o profundo silêncio; mais uma vez ela sobreviveu. Hakani, tinha apenas dois anos e meio de idade e passou a viver como se fosse uma amaldiçoada. Por três anos ela sobreviveu bebendo água de chuva, cascas de árvore, folhas, insetos, a ocasionalmente algum resto de comida que seu irmão conseguia para ela. Além do abandono, ela era física e emocionalmente agredida. Com o passar do tempo Hakani foi perdendo seu sorrido radiante e toda sua expressão facial. Mesmo assim o profundo silêncio não caiu sobre ela. Finalmente foi resgatada por um de seus irmãos, que a levou até a casa de um casal de missionários que por mais de 20 anos trabalhava com povo suruwahá. Esse casal logo percebeu que Hakani estava terrivelmente desnutrida e muito doente. Com cinco anos de idade ela pesava 7 quilos e media apenas 69 centímetros. Eles começaram a cuidar de Hakani como se ela fosse sua própria filha. Eles cuidaram dela por um tempo na floresta, mas sabiam que sem tratamento médico ela morreria. Para salvar sua vida, eles pediram ao governo permissão para levá-la para a cidade. Em apenas seis meses recebendo amor, cuidados e tratamento médico, Hakani começou a andar e falar. Aquele sorriso radiante voltou a iluminar seu rosto. Em um ano seu peso e sua altura simplesmente dobraram. Hoje Hakani tem 12 anos, adora dançar e desenhar. Sua voz, antes abafada e quase silenciada, hoje canta bem alto – uma voz pela vida.
Quinta-feira, Abril 16, 2009
PERGUNTAS A QUEM INTERESSAR POSSA Adoro essas conjunções de fatos que colocam em choque diferentes culturas. Nossos sedizentes humanistas ficam divididos entre essa moda contemporânea de respeitar as diferentes tradições e as definições legais de crime vigentes no Ocidente. Estes conflitos surgem todos os dias nos jornais e em geral implicam a vida ou a morte dos envolvidos. São muito comuns tanto no universo islâmico como cristão e agora estão se tornando correntes no Brasil. Em setembro passado, falei de três irmãs, com idades de 16 a 18 anos, Hameeda, Ruqqaya e Raheena, que viviam em Baba Kot, uma aldeia no Baluchistão, uma província árida situada no sudoeste do Paquistão, nos confins do Irã e do Afeganistão. Elas morreram enterradas vivas numa vala comum. Qual crime teriam cometido para merecer pena tão brutal? Cometeram o mais abominável dos crimes para uma família muçulmana: quiseram escolher o próprio marido, dispensando a escolha dos país. Foram trituradas pelas lâminas de um buldôzer, fuziladas – sempre é bom garantir – e depois empurradas para uma vala previamente cavada. Estavam ainda vivas quando foram cobertas com areia e pedras. O PPP, o partido do clã dos Bhutto que está atualmente no poder no Paquistão, endossou o crime bárbaro, para ofender os chefes de tribos do Baluchistão. O Ocidente chiou, mas obviamente ninguém será punido por tais assassinatos. Sem ir muito longe, o caso da menina de Alagoinha. Em nome de uma doutrina estúpida da Igreja de Roma, um arcebispo anunciou a excomunhão de médicos e familiares de uma menina grávida de gêmeos, que havia sido estuprado pelo padrasto. Excomunhão por quê? Porque os médicos optaram pelo aborto, para salvar a vida da menina. A atitude do arcebispo foi tão brutal que chegou a provocar divisão nas cortes vaticanas. Ontem ainda, a imprensa nos brindou com um conflito dos bons, a indiazinha ianomâmi que está sendo tratada num hospital de Manaus, vítima de hidrocefalia, pneumonia, tuberculose e desnutrição. Segundo as tradições da tribo, ela deve ser morta por sufocamento ou enterrada viva, o que dá no mesmo. Seus pais, em respeito à nobre cultura ianomâmi, querem retirá-la do hospital. Para matá-la conforme os rituais da tribo. Ainda na semana passada, eu comentava o novo estatuto indígena que, segundo os redatores do Estadão, contaminados pela antropologia contemporânea, retiraria dos índios a condição de inimputáveis. Gentileza do jornal. O novo estatuto, em verdade, torna os índios totalmente inimputáveis. Pois para condenar um índio, “a Justiça precisará avaliar se o ato praticado está de acordo com os usos e costumes da comunidade indígena a que pertence e se o índio tinha consciência de que cometia uma ilegalidade”. Ou seja, se enterrar criancinhas vivas está de acordo com os hábitos da tribo, o indígena não comete delito algum. A rigor, segundo o novo ordenamento proposto, os pais da bugrinha podem exigir na justiça o direito de enterrá-la viva. Não por acaso, foram ao hospital exigir o exercício deste direito. A direção do hospital, diante das suspeitas de que a criança seria sacrificada por ser portadora de deficiência física, acionou o Ministério Público Estadual pedindo a permanência da criança sob cuidados médicos. Uma juíza concedeu pedido de providências ordenando que a menina fique onde está até que seu quadro clínico seja considerado satisfatório. Indignação da FUNAI. Segundo seu administrador em Manaus, Edgar Fernandes, a Justiça “não tem prerrogativa para julgar esse caso. Questões envolvendo índios têm de ser resolvidas na Justiça Federal. Vamos recorrer ao Ministério Público Federal para interceder a favor da família", disse. Edgar quer que a menina morra, em respeito às tradições tribais. A Funai divulgou uma nota explicando que esse tipo de ritual faz parte da cultura da etnia ianomâmi. "Gerar um filho defeituoso, que não terá serventia numa aldeia que precisa necessariamente de gente sadia é um grave pecado, pois este não poderá cumprir o seu destino ancestral". Para o antropólogo Ademir Ramos, a eutanásia “é uma questão já resolvida para os ianomâmis. Eles precisam de gente saudável na aldeia. Uma criança com deficiência gera uma série de transtornos aos integrantes da tribo". Pergunta a quem interessar possa: onde estão os sacerdotes e demais católicos que denunciam a eutanásia como crime? Onde está o arcebispo de Olinda e Recife, que tornou pública a excomunhão dos médicos que praticaram um aborto para salvar a vida de uma mãe de nove anos? Onde estão o CIMI, a CNBB e o Vaticano, que permanecem silentes ante este assassinato anunciado? Ou será que estes doutos humanistas não tomarão a defesa de uma criança prestes a ser assassinada, em nome de bárbaros costumes de tribos bárbaras? Onde andam os petistas e demais esquerdistas, sempre militantes quando se trata de denunciar as execuções de seus companheiros, que queriam transformar o país numa ditadura bolchevique? Sou todo ouvidos e não ouço nada.
FUNAI DEFENDE DIREITO A MATAR Pensei comentar esta notícia. Não há nada a comentar. 16/04/2009 - 07h39 FUNAI AUTORIZA ÍNDIOS A INTERROMPEREM TRATAMENTO DE BEBÊ INDÍGENA EM HOSPITAL DE MANAUS KÁTIA BRASIL da Agência Folha, em Manaus Um hospital infantil de Manaus (AM) enfrenta índios ianomâmis e a Funai (Fundação Nacional do Índio) para não interromper o tratamento médico de uma criança indígena de 1 ano e 6 meses. Os índios e a Funai defendem que a criança volte à sua aldeia, mesmo sem a alta do hospital e mesmo que isso cause a sua morte. A mãe da criança recebeu anteontem da Funai autorização para interromper o tratamento, mas o Hospital Infantil Dr. Fajardo não permitiu a retirada da indígena. Segundo a pediatra Tânia Azevedo, diretora do hospital, a criança responde bem ao tratamento. "Como mãe e médica, o meu dever é preservar a vida e a criança responde ao tratamento, ela não é um doente terminal", disse Tânia Azevedo. O caso criou impasse entre a tribo e a direção do hospital. Dois índios ianomâmis tentaram retirar a criança da enfermaria, segundo a Polícia Federal, acompanhados de uma enfermeira da Funasa (Fundação Nacional do Índio) e de um representante da ONG Secoya (Serviço e Cooperação com o Povo Yanomami). "Existe uma movimentação preocupante de retirar a criança na marra e estamos monitorando a situação para garantir a integridade física da criança", disse o delegado Sérgio Fontes. Há 44 dias, a criança, uma menina, faz tratamento de hidrocefalia, tuberculose pulmonar e desnutrição, alimentando-se através de sonda. A mãe e a criança estão em Manaus há sete meses, e passaram por outros hospitais. A mãe da criança, Kamila Ianomâmi, 25, quer garantido o direito de levar a criança de volta à aldeia sob o argumento de que é "a vontade de seus familiares para que tenha um fim, de conformidade com a cultura do povo ianomâmi", diz a Funai. Em nota à imprensa, o administrador da Funai em Manaus, Edgar Fernandes Rodrigues, da etnia baré, afirma que em uma maloca ianomâmi as atividades domésticas competem à mulher e, se ela gerar um filho deficiente é permitido um infanticídio. "Gerar um filho defeituoso, que não terá serventia [...], é um grave 'pecado', pois este não poderá cumprir o 'seu destino ancestral'", afirma. "A Funai respeita e acata a decisão da mãe da criança ianomâmi de interromper o tratamento médico de sua filha e levá-la para maloca. Perderemos uma vida, sim, mas temos a certeza que outra será gerada."
Quarta-feira, Abril 15, 2009
IN DUBIO PRO QUEM BEBE Em fevereiro passado, comentei uma alarmante pesquisa do Instituto Nacional Francês do Câncer (INCA), sobre as relações entre o que comemos e bebemos e as possibilidades de vir a ter um câncer. Na referência álcool-câncer não existiria dose protetora. Com seus efeitos invisíveis, as pequenas e repetidas doses seriam as mais nocivas, destacava o presidente do INCA, Dominique Maraninchi. Para Paule Martel, diretora de pesquisa do Instituto de Investigação Agrônoma (INRA), é desaconselhado todo o consumo diário de vinho. Segundo o estudo, o consumo de bebidas alcoólicas está associado a um aumento do risco de se sofrer câncer de boca, faringe, laringe, esôfago, cólon e reto, mama e fígado. O risco aumenta 9%, no caso de câncer de cólon e reto, se for consumida uma taça ao dia. E esse risco chega inclusive a 168% para os cânceres de boca, faringe e laringe. Quer dizer que após séculos de consumo do vinho, os franceses descobrem que uma taça por dia é fator cancerígeno? Sou leigo no assunto, é claro, mas esta dose me é difícil de engolir. Ao longo de minha vida, vi franceses bebendo o dia todo, e não apenas uma taça de vinho. E não só vinho. O francês médio começa a beber às sete da manhã, quando dá uma bicada de álcool forte no café antes de ir para o trabalho. A crer-se no estudo, a França toda seria um imenso hospital de cancerosos. E a indústria vinícola toda do país seria um pérfido aparelho de envenenar consumidores. Os pesquisadores que me perdoem, mas seus estudos não me convenceram. Comentei na época o chamado “paradoxe du Périgord”, já traduzido pelos anglófonos como “French paradox”, que mostra a aparente contradição entre as práticas alimentares dos franceses e sua saúde. Segundo especialistas, a dieta típica do Sudoeste da França é extremamente rica em substâncias gordurosas e vinho, inclusive bebidas alcoólicas, enquanto a saúde global é boa. A taxa de infarto é de somente 80 por 100 mil ao ano, ou seja, quatro vezes menos que nos Estados Unidos. Quanto à esperança de vida, é de dez anos mais elevada que no Norte do país. Leigo sendo, fiquei à espera de opinião mais abalizada, desde que sensata. Que não se fez demorar. Um estudo de coorte (estudo epidemiológico observacional onde um grupo de pessoas é identificado e a informação pertinente sobre a exposição de interesse é coletada), feito no leste da França, compreendendo 100 mil pessoas examinadas no Centro de Medicina Preventiva de Nancy, entre 1978 e 1985, cuja mortalidade foi acompanhada até 2005, nos dá informações um pouco diferentes. Para começar, a dose letal de uma taça por dia anunciada pelo INCA é desqualificada. Segundo o estudo, intitulado Coorte Color, pela primeira vez foi demonstrado que o vinho, consumido de uma a três taças por dia – e só o vinho entre as bebidas alcoólicas – , estava associado a uma baixa de 20% da mortalidade por câncer. Estes estudos foram confirmados por pesquisadores da Dinamarca. In dubio pro quem bebe, diz um antigo brocardo latino. A Coorte Color me parece mais condizente com uma cultura que fez do vinho um acompanhamento quase obrigatório das refeições. Os vitivinicultores franceses já estão pensando em acionar na justiça o INCA e seu relatório terrorista. A seguir, traduzo um compte-rendu do estudo, para gáudio e argumentação dos cultores da bona-chira. PS - Para eventuais oncologistas que passem os olhos por este blog, segue bibliografia pertinente. Para o caso francês, Renaud S, Guéguen R, Siest G, Salamon R. Wine, beer and mortality in middle-aged men from Eastern France, (Arch Intern Med 1999;159:1865-70). As pesquisas na Dinamarca são de responsabilidade de Gronbaek M, Becker U, Johansen D et al. Type of alcohol consumed and mortality from all causes, coronary heart disease and cancer, (Ann Intern Med 2000;133:411-9). Para quem lê francês, há um relatório detalhado da pesquisa em http://is.gd/tvnV
COORTE COLOR Este estudo analisa os laços que existem entre consumo de bebidas alcoólicas (vinho, cerveja, alcoóis fortes) e mortalidade por diferentes tipos de câncer sobre uma coorte de 100 mil pessoas (do nordeste da França) seguidas durante 25 anos. Se o álcool em geral é de fato um fator de risco para numerosos cânceres, a consumação moderada de vinho tinto protege contra um certo número deles. A análise da coorte mostra com efeito que um consumo moderado de álcool, mais particularmente de vinho, é associado a uma redução de 40% da mortalidade cardiovascular em pessoas de idade média. Da mesma forma o vinho (e só o vinho entre as bebidas alcoólicas), consumido na dose de uma a três taças por dia é associado a uma baixa de 20% da mortalidade por câncer. Entre os fatores de risco de mortalidade por câncer, encontra-se um baixo nível de educação, uma pressão arterial elevada, uma taxa de colesterol baixa, o tabagismo, o sedentarismo e o fato de consumir pouca água. Enquanto mais o consumo de álcool é elevado, mais aumenta o risco de mortalidade por câncer, a preferência pelo vinho, e seja qual for a dose de álcool, é associado com um risco significativamente mais baixo de mortalidade por câncer (dos pulmões, do tubo digestivo, da boca e da faringe). Se existe um ponto sobre o qual os estudos da universidade de Oxford, do Inca (Instituto Nacional do Câncer, na França) e da coorte Color coincidem é sobre o fato de que o consumo excessivo de álcool é perigoso para a saúde e induz ao câncer. O fenômeno de binge drinking que consiste em embriagar-se durante as refeições é de longe o comportamento de maior risco. Sobre o resto, forçoso é constatar que as conclusões divergem. Estudos mal mediatizados Um elemento importante, e surpreendentemente pouco debatido, do estudo de Oxford é que o aumento impressionante de 160% do risco de câncer das vias aéreas e digestivas superiores só é observado nos fumantes. Nenhum aumento significativo foi constatado entre os não-fumantes. Por outro lado, é importante constatar que o estudo foi realizado no Reino Unido onde uma população local apresenta perfis de alto risco, dada a proporção de pessoas que não comem uma quantidade suficiente de vegetais, consumindo 15 a 30 vezes mais Omega-6 que Omega-3 e permanecendo inativas com um excesso de peso. Se a França é também gravemente tocada pelo “malbouffe” (alimentação errada), a amplitude do fenômeno não é tão alarmante quanto além-Mancha: não é exatamente o abuso de um fator alimentar particular que determina a exposição ao câncer mas a qualidade da higiene de vida em geral. Se não se pode considerar estes estudos superficialmente, é no entanto conveniente comunicar razoavelmente os fatos em torno aos resultados para não cair na desinformação. Um estudo científico não pode com efeito ser resumido a grosseiras simplificações no estilo “o álcool é cancerígeno desde a primeira taça de vinho” e deve ser apresentado com as hipóteses e o contexto que determinaram seu procedimento. Conclusões criticadas tanto pelos vinicultores como pela comunidade médica O professor Henri Joyeux, cirurgião cancerologista da Faculdade de Medicina de Montpellier e especialista nas relações entre nutrição e câncer declara que “o estudo (do Inca) confunde os consumidores regulares de álcool forte (uísque, gim, vodca) que aumentam incontestavelmente os riscos de câncer da boca e das enfermidades cardiovasculares, sobretudo se são acompanhadas do tabagismo”. Ele sublinha de passagem os aspectos positivos do consumo de vinho durante as refeições como uma digestão facilitada, a prevenção de infecções urinárias e a constipação. Jean-Charles Tastavy, presidente dos Vinicultores Independentes de Hérault, estuda com a comunidade médica a possibilidade de uma ação na justiça contra os métodos e argumentos utilizados nesta affaire. Ele aliás já impetrou em nome da associação Honneur du Vin um recurso administrativo junto ao Ministério da Saúde. Por sua parte, Vin et Societé (que representa o setor francês do vinho) observa que se o consumo de vinho na França foi dividido por dois em 50 anos, o número de cânceres, por sua vez, dobrou. É então difícil bem delimitar os laços de causa e efeito entre o câncer e o consumo do vinho. Em todo caso pode-se razoavelmente dizer que quaisquer que sejam, eles não são determinantes. É preferível não enlamear a imprensa com informações erradas para evitar que sejam difundidas idéias totalmente desproporcionais.
Terça-feira, Abril 14, 2009
SOBRE UÍSQUES E BISPOS PARAGUAIOS Até bem pouco, ouvíamos falar de filhos de padre. A Igreja se moderniza. Temos agora filhos de bispos. Leio nos jornais que o presidente do Paraguai, Fernando Armindo Lugo, ex-bispo católico, confessou ontem ao vivo pela TV que é pai de Guillermo Armindo, de quase dois anos. O escândalo sobre a existência de um filho do presidente, nascido quando ainda era bispo, começou antes do feriado da Páscoa. Lugo, que no ano passado deixou temporariamente seus votos religiosos para assumir a presidência, ficou em silêncio durante o fim de semana. Mas, com o aumento do escândalo, decidiu admitir a verdade ontem. Para o analista político Alfredo Boccia Paz, de Assunção, "a sociedade paraguaia é bem relaxada sobre esses assuntos. É só recordar que o ex-ditador Alfredo Stroessner teve mais de 20 filhos ilegítimos." Pode ser. Mas Stroessner nunca foi bispo. - É verdade que existiu um relacionamento com Viviana Carrillo, assumo todas as responsabilidades, reconheço a paternidade do menino - declarou Lugo. Mercedes Lugo, primeira-dama e irmã do presidente, saiu em sua defesa: “Quem estiver livre de pecado que atire a primeira pedra”. É meu caso. Ateu e portanto livre de qualquer pecado, tenho um saco cheio de pedras para atirar em Lugo. Em primeiro lugar, descumpriu um voto, o de castidade, pronunciado por ocasião de sua ordenação como sacerdote. Em segundo lugar, infringiu o Código Canônico e por esta infração deveria ter sido punido pela Igreja. Não foi. Em terceiro, como alta autoridade eclesiástica, deu péssimo exemplo a seu rebanho. Em quarto, hipócrita, só assumiu a paternidade quando o escândalo chegou à imprensa. É um homem que mente. Se mentiu perante Deus – se é que acreditava no tal de Deus! – e ante à Igreja à qual devia obediência, com mais desenvoltura mentirá aos paraguaios que o elegeram. Como político, pode contar com a maioria dos votos de seus conterrâneos. Como ser humano, é um reles canalha. Celibato é coisa da Igreja, não está na Bíblia nem nos Evangelhos. Você pode reler o Livro de ponta a ponta. Não encontrará uma única vez a palavrinha celibato. Muito menos castidade. Em Mateus, 8:14, lemos: "Ora, tendo Jesus entrado na casa de Pedro, viu a sogra deste de cama; e com febre". Se o primeiro papa tinha sogra, logo tinha mulher. Segundo a tradição judia, o casamento é um mandamento e o celibato é tido como algo deplorável. O primeiro mandamento da Bíblia é "crescei multiplicai-vos", o que estabelece o modelo de comportamento judeu. Segundo a Halakhah, ramo da literatura rabínica que trata das obrigações religiosas a que devem se submeter os judeus, o mandamento de frutificar se endereça apenas aos homens, de forma que o celibato feminino não coloca muitos problemas. Por outro lado, em um povo que esperava um Messias, o celibato só podia ser infamante. Há uma exceção na Bíblia, o caso de Jeremias, que, aparentemente, escolheu permanecer celibatário, porque não queria pôr no mundo crianças que teriam de suportar o destino trágico de seu povo. (Atenção leitores do Machadinho! O homem, além de chegado a leituras bíblicas, não era muito original). Diz o Talmud: "Aquele que não tem mulher vive sem alegria, sem bendição, sem felicidade, sem aprender, sem proteção, sem paz; em verdade, não é um homem". Os rabinos demonstram mais sensatez que os padres católicos. A Igreja, ao pregar o celibato, pretende seguir o exemplo de Cristo, que teria permanecido solteiro. Até pode ser. Mas Paulo, o homem sem o qual o cristianismo jamais existiria, foi incisivo em sua epístola aos Coríntios: “Contudo queria que todos os homens fossem como eu mesmo; mas cada um tem de Deus o seu próprio dom, um deste modo, e outro daquele. Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu. Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se”. Os historiadores consideram que até os concílios de Latrão de 1123 e 1139 – que declararam nulos os matrimônios dos padres – a obrigatoriedade do celibato era praticamente inexistente. Em sua Enciclopedia del Erotismo, Camilo José Cela lembra a resposta do bispo de Liège ao papa Bento VIII. Quando este, em 1023, quis afastar de suas funções todos os sacerdotes casados e impuros, o prelado lhe esclareceu que, neste caso, deveria destituir a totalidade de seus ministros. A obrigação do celibato foi solenemente sancionada pelo Concílio Ecumênico de Trento (1551) e por fim inserida no Código de Direito Canônico (can. 277 § 1): “Os clérigos são obrigados a observar a continência perfeita e perpétua por causa do Reino dos Céus; por isso são obrigados ao celibato, que é um dom especial de Deus, pelo qual os ministros sagrados podem mais facilmente unir-se a Cristo de coração indiviso e dedicar-se mais livremente ao serviço de Deus e dos homens”. É o que diz eufemisticamente o Código Canônico. Em verdade, o celibato foi introduzido pela Igreja Católica para evitar que a Igreja perdesse posses em eventuais disputas de herança, e se mantém até hoje. Dito isto, segundo a vox populi, Lugo teria 17 filhos. Se assim for, não lhe será fácil assumir ou justificar os outros 16. Se desconfiar de uísque provenientes do Paraguai sempre foi uma boa precaução, mais prudente ainda é desconfiar de bispos paraguaios.
RUMO A ALPHAVILLE A lei antifumo, aprovada na semana passada na Assembléia Legislativa de São Paulo, proibiu o fumódromo, mas deixou de fora quartos de hotel e motel. É o que leio nos jornais. A informação de que será permitido fumar nesses dois tipos de ambiente foi confirmada ontem pela Secretaria de Estado da Saúde, que ficará responsável por fiscalizar a nova legislação. Quanto a hotéis, discordo. Nada mais desagradável para um não-fumante do que habitar, mesmo que temporariamente, um quarto fedendo a nicotina. Você abre o guarda-roupa e já sente o bafo de milhares de fumantes que por ali passaram. Sua roupa, uma vez depositada lá dentro, precisa ser desinfetada após sua saída. A divisão dos quartos de fumantes e não-fumantes é, a meu ver, muito mais prioritária que a separação nos restaurantes. No restaurante, você fica algumas horas e pode permanecer pelo menos afastado da fumaça. No quarto de hotel, você pernoita e não consegue eliminar o cheiro de nicotina. Considero absurdo proibir fumar em hotéis. Já a divisão de ambientes satisfaz muito bem as duas partes. Quanto aos motéis, bem... isto depende do consenso de quem os freqüenta. Pelo que me consta, ninguém vai sozinho a um motel. Fumar ou não fumar será uma questão de cumplicidade ou de respeito à vontade do parceiro. Mas pergunta puxa pergunta: e nos presídios, como é que fica? Os fiscais de Serra visitarão cada cela para ver se a lei está sendo cumprida? Fica muito fácil à Secretaria de Saúde permitir o fumo em hotéis e motéis. Mais constrangedor seria permiti-lo nos cárceres. Isto significaria que aqueles que, por seus crimes e periculosidade, foram banidos da sociedade, teriam mais regalias que o cidadão que não cometeu crime algum. E sem dúvida as terão. Se algum dia lhe acontecer a desgraça de cair na cadeia, console-se. Lá pelo menos você poderá fumar. O que me lembra vagamente um antigo filme (1965) de Jean Luc Goddard, Alphaville, que rendeu ao chatérrimo cineasta o Urso de Ouro do Festival de Berlim. Bem merecido, é verdade, pois o filme é um dos raros assinados por Goddard que não nos provoca bocejos e sono. O detetive particular Lemmy Caution, interpretado por Eddie Constantino, é chamado a uma cidade de outro planeta, Alphaville, dominada por um computador, o Alpha 60, que decide abolir a liberdade e os sentimentos dos seres humanos. Para suicidar-se, os habitantes da cidade alugam quartos de hotéis e esperam na fila. Com a ressalva à lei antifumo, Serra está conduzindo os paulistas à santa privacidade dos motéis. Nestes dias de crise ou suposta crise, a medida talvez fosse benéfica ao ramo. Os motéis já oferecem luxos que tornam quase dispensável um parceiro. Piscina, hidromassagem, filmes pornôs, boa bebida e boa comida. Acrescente-se a isto o prazer de poder fumar e muito cliente se perguntará: pra que mulher?
Segunda-feira, Abril 13, 2009
SOBRE MINHA BITÁCORA Brincando, brincando, cheguei hoje a duas mil postagens neste blog. Comecei há cinco ou seis anos, postando algo lá de vez em quando, sem muito entusiasmo, julgando que estaria clamando no deserto em meio aos milhões de blogueiros que infestam a rede. Comecei por insistência de duas ou três amigas. Palavra puxa palavra, e a busca aleatória na Web foi trazendo leitores à minha bitácora. É como os espanhóis chamam os blogs. Bitácora era um armário próximo ao timão do barco, onde se punha a bússola. Nele se guardava também o “cuaderno de bitácora”, o livro em que se anotavam os incidentes de navegação. Há blogs e blogs. O que em seus inícios era diário íntimo de adolescentes, logo se revelou um poderoso instrumento de comunicação, adotado por jornalistas do mundo todo. O blog, hoje, fura qualquer jornal impresso. Se os fatos acontecem hoje, o jornal só sai amanhã. Ora, entre hoje e amanhã medeia uma eternidade. O universo blogueiro se expandiu e hoje está ameaçando com competência a imprensa escrita. Quanto um jornal noticia um fato, o blogueiro já o analisou, julgou e foi adiante. Mas não é este meu propósito. Não ganho nada com o que escrevo, não estou competindo no mercado, não sou escravo do furo. Sou dono de meu nariz, escrevo sobre o que quero e quando bem entendo, sem a censura de um editor e sem mesmo a censura do público. Blog, para mim, é mais bitácora, registro dos incidentes de navegação. Estes incidentes podem ser tanto fatos jornalísticos que mexem comigo, como lembranças da infância ou de uma terna amiga, discussão sobre filosofia ou religiões ou exegese dos textos bíblicos. Nunca me senti tão livre ao escrever. Suspeito inclusive que os blogs acabarão por sepultar muitos generosos literários. Em minha bitácora, sinto-me à vontade para fazer poesia ou sociologia, piada ou religião, afetos ou desafetos. Falar nisto, estes merecem um capítulo à parte. A Internet foi fundamental para o reencontro de amigos perdidos, de pessoas que a vida separou e, não fosse a Web, jamais se reencontrariam. Antes mesmo dos primeiros registros dos incidentes de navegação, reencontrei amigos e amigas que não via há décadas. Um poeta que perdi nalguma das ilhas Canárias, uma sabra que um dia abracei em uma travessia do Atlântico, uma peoniana que amei em meus dias de Paris, um colega de universidade que há muito procurava e não sabia como encontrar. No Orkut, tive uma experiência insólita. Eu hesitava em participar da comunidade, quando um amigo nela me inscreveu, mais ou menos manu militari. Trinta segundos após minha inscrição, não mais que trinta segundos, surgiu uma mensagem: “Sou a Shirlei, você me aceita como amiga?” Shirlei? Quem seria Shirlei? Há tantas no mundo. Entre aceitar e não aceitar, aceitei. Pois não é que a Shirlei era a mulher de um bom amigo que eu procurava há décadas na rede? Como ela me encontrou apenas 30 segundos após meu ingresso no Orkut? Mistério, profundo mistério. Ou talvez não seja mistério algum, apenas decorrência banal desta era informática. Volto a mi cuaderno de bitácora. Os leitores foram chegando. De cronista esporádico, me senti obrigado a escrever diariamente. Pior ainda, com o compromisso de não escrever bobagens. O que não é fácil para quem escreve todos os dias. Desde logo, houve uma divisão de águas entre dois grupos de fiéis leitores: os que gostavam do que eu escrevia e os que detestavam o que eu escrevia. Até hoje não sei quais serão maioria. Adoro a ambos. Os que gostam de mim, por motivos óbvios: sempre é bom que gostem da gente. Quanto aos que desgostam, deles também eu gosto. Adoro provocar fanáticos, sejam políticos, ideológicos ou religiosos. Fiz centenas, talvez milhares de desafetos, entre marxistas, petistas, judeus, católicos, protestantes, discípulos de Osho e outras seitas menores. Consegui a eterna inimizade dos ornitólogos, quem diria? Psicanalistas e antropólogos tampouco têm maior estima por mim. Diferentemente dos jornais ou livros, os textos da Web permanecem o tempo todo à disposição dos leitores. Que acabam caindo neles, mesmo involuntariamente, em função de suas buscas. Assim, até hoje tenho leitores resmungando por artigos que publiquei há cinco ou mais anos. A fidelidade dos ornitólogos me espanta. Chiam mais que os religiosos. Não passa mês sem que eu receba insultos de algum deles. O que me faz desconfiar que ornitologia virou religião. Por falar em insultos, vibro com eles. Se o leitor que me insulta fica feliz ao saber que suas catilinárias chegaram até minha telinha, mais feliz ainda fico eu. Quem insulta demonstra não ter mais argumentos. É o atestado mais contundente de que confundi um interlocutor. Se este leitor acha que me magoa, engana-se redondamente. Sobre a repercussão de meus artigos, não tenho idéia muito precisa. Os mails, irados ou encomiásticos, me dão uma estimativa apenas parcial. Artigos publicados na rede se reproduzem de forma incontrolável, são enviados e reenviados a outros leitores, fóruns e listas de discussões. O que aliás põe em cheque o conceito de direito autoral. Quem escreve em papel pode até pensar: este artigo é de minha autoria e não permito que alguém o republique sem minha permissão. Na Web, a situação se inverte. Por um lado o blogueiro independente, não ligado aos grandes jornais, não ganha nenhum vintém e tem todo o interesse que seu artigo seja reproduzido aos milhares. Por outro, mesmo que quisesse controlar sua reprodução, não teria como. Uma vez destampada a garrafa, ninguém põe o gênio de volta para dentro. Se alguém reproduz um texto meu ou linka minha página, só posso agradecer-lhe. Outro dia, me surpreendi sendo publicado na edição brasileira do Pravda. Spassiba, tovaritchi! Nunca me imaginei como colaborador do Pravda. Terão mudado os comunistas ou mudei eu? Certa vez, um amigo me sugeriu uma fórmula de ganhar dinheiro com esta bitácora. Bastava inscrevê-la no Google AdSense, que exibe anúncios relacionados com o conteúdo do site e me paga um tanto sempre que os visitantes clicam nesses anúncios. Até pensei no assunto, uma graninha a mais sempre vem bem. Foi quando vi que os tais de “anúncios relacionados com o site” não respeitam o pensamento do blogueiro. Assim, se comento as bobagens do Bento, podem surgir em minha página anúncios de biografias do papa, de santos e até mesmo livros catequéticos. Se manifesto minhas dúvidas quanto à virgindade da Maria, no outro dia a página está repleta de tratados de mariologia. Se tasco a lenha nos marxistas, não seria de espantar que o Google anunciasse o Capital. Business is business. Muito grato, Mr. AdSense, pelos lucros acenados. Mas prefiro preservar minha independência intelectual. Nesta altura da vida, posso dar-me ao luxo de não ser mais escravo do trabalho pago. Quando escrevia em papel, nos dias de Porto Alegre, meus artigos sequer chegavam a Dom Pedrito. Hoje, só tenho como limite a língua portuguesa. Infelizmente. Assim, tenho recebido correspondência dos mais diferentes países do mundo, desta brasileirada mais esparramada que filhotes de perdizes, e acho muito bom conversar, em tempo quase real, com quem vive nas antípodas. Alguns leitores, curiosamente os mais hostis, acusam-me de repetir textos. Sinal que me lêem com atenção redobrada. Acho o recurso legítimo. Se há artigos que publiquei há um, dois ou cinco anos e deles já nem lembro, é claro que o leitor também não. Exceto o rancoroso, meu mais fiel revisor. Se cometo um lapso – e os cometo – este leitor cai em cima do cronista com fúria. Só posso agradecer-lhe por ter me corrigido. Os blogs vieram para ficar. Serão certamente os instrumentos mais dinâmicos de comunicação nas próximas décadas. Mais que expressar um modo de ver o mundo, mais do que xingar fanáticos, mais do que rir dos papistas, o que mais me agrada são os reencontros. Ainda há pouco, tive a suma ventura de receber uma amiga que não via... há 50 anos. Ou seja, há meio século. É presente que paga regiamente meu trabalho.
CRACK PODE Hoje, às sete horas da manhã, passei pela chamada Cracolândia. É uma região nas proximidades da rua Santa Ifigênia, cujo nome deriva do consumo do crack. Andrea Matarazzo, secretário municipal das Subprefeituras e responsável por um projeto de revitalização do bairro, já jurou de mãos juntas que o consumo da droga não existe mais no pedaço. Pois bem. Hoje, às sete da manhã, numa das esquinas da Santa Ifigênia, centenas de drogados fumavam crack à luz do dia, outros dormiam dopados, em meio a sacos de lixo, fezes e urina. Há alguns meses, passei à tarde de táxi por uma das travessas do bairro. O cenário mais parecia uma daquelas ilustrações de Doré para o Inferno de Dante, uma espécie de porão de navio negreiro. A ruela teria uns cem metros e estava tomada, tanto nas calçadas como em seu leito, por um meio milhar de farrapos humanos, cachimbando livremente a pouco mais de uma centena de metros do 3º Distrito Policial. Assustador. Nem taxistas ousavam entrar na ruela. Não ousavam nem tinham como entrar. Pergunta que se impõe: se nem o Estado nem a municipalidade têm condições de coibir o consumo da droga em uma pequena área de um bairro, como pretende José Serra proibir o fumo nos 27.500 bares e restaurantes de São Paulo – 300 mil no Estado – com apenas 250 fiscais? Que, diga-se de passagem, não estão nem um pouquinho dispostos a serem deslocados de suas funções no PROCON e no Serviço de Vigilância Sanitária para caçar fumantes dia e noite pela cidade. Crack, que é ilegal, pode. O que não pode é fumar, que nada tem de ilícito. Ora, contem outra.
Domingo, Abril 12, 2009
NO ESTRANHO PAÍS DOS 201 SISTEMAS JURÍDICOS Há algumas décadas, venho denunciando a existência de várias legislações no Brasil. Há leis para brancos, leis para negros, leis para a guerrilha católico-maoísta dos sem-terra. Se branco está submetido a todas leis vigentes, índio pode matar, estuprar e fazer reféns que não vai para a cadeia. Negro pode furar a fila do vestibular que não é fraude. Sem-terra pode invadir terras e prédios à vontade, isto é justiça social. E a favela pode distribuir drogas quando e como quiser, que ninguém vê. Ora, não me passa pela cabeça que em um mesmo país as leis possam ser distintas para diferentes segmentos da população. O “todos são iguais perante a lei” do artigo 5º da Constituição, há muito virou letra morta. Assim sendo, uma manchete da primeira página do Estadão de hoje, em um primeiro momento até que ressuscitou no fundo de minha alma alguma esperança em pelo menos um pingo de sensatez dos legisladores. NOVO ESTATUTO RETIRA DE ÍNDIOS A CONDIÇÃO DE INIMPUTÁVEIS Segundo a notícia, uma mudança na legislação bancada pelo governo permitirá que a Justiça puna os índios que cometem crimes com o mesmo rigor com que são julgados os demais brasileiros. O texto do novo estatuto dos povos indígenas, que substituirá a legislação de 1973, será fechado no fim deste mês e define que os índios não são inimputáveis e têm plena capacidade para compreender o significado de seus atos. Alvíssaras! – disse a meus botões. Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei, reza a Declaração dos Direitos Humanos. Finalmente algum geninho da bancada governista deu-se conta de que aquele princípio universal de legislação igual para todos, havia sido jogado na famosa lata de lixo da História. Em um primeiro momento, dizia, até que me entusiasmei. Entusiasmo que murchou ao ler o resto da notícia: “Para condená-los, a Justiça precisará avaliar se o ato praticado está de acordo com os usos e costumes da comunidade indígena a que pertence e se o índio tinha consciência de que cometia uma ilegalidade”. Ou seja, se enterrar criancinhas vivas está de acordo com os hábitos da tribo, o indígena não cometeu delito algum. Da mesma forma, conforme as tribos, não constituirá crime matar os inimigos, matar ou espancar as mulheres, deflorar meninas impúberes, praticar a poligamia. Ora, calcula-se que entre os 400 mil índios que ocupam o território brasileiro, há cerca de 200 etnias e 180 línguas. Teoricamente, teríamos pelo menos 200 legislações diferentes. O bom-mocismo do redator do Estadão engana o leitor com uma manchete mentirosa. Com a nova legislação, os indígenas adquirem definitivamente a condição de inimputáveis. Continua o texto do jornal: “Para evitar decisões que se choquem, o novo texto exigirá a produção de um laudo antropológico que determinará até que ponto aquele índio sabe que a conduta praticada é criminosa e para investigar se o ato está ou não de acordo com os valores culturais de seu povo. Essas informações serão consideradas pelo juiz na hora de dar o veredicto”. Ou seja, tomou assento nos tribunais um novo personagem, o antropólogo. O que antes dependia de um laudo psiquiátrico, agora dependerá de um laudo antropológico. Em outros termos, dependerá do humor destes senhores cuja profissão sequer está regulamentada no país e no fundo não passam de gigolôs de bugres. Claro que sempre tomarão a defesa de quem lhes provê o sustento. Mais ainda: “Se o ato praticado for ao encontro de seus valores culturais e costumes da comunidade a que pertence, o índio não será punido. Caso contrário, será julgado como qualquer brasileiro. Além disso, a Justiça poderá livrar o índio que já tiver sido punido por sua comunidade”. Continuam as duas legislações. Temos duas instâncias jurídicas, a do país e a indígena. Se uma comunidade pune um assassinato com – digamos - uma admoestação, o criminoso já foi punido e não responde mais ante a Justiça do país. Pergunta que fica sem resposta: se, nas tribos em que é costume enterrar crianças vivas, constituirá crime desenterrar uma criança? Se assim for, o criminoso será julgado pela justiça da tribo ou pelas leis vigentes no país? Se for julgado pelas leis vigentes no país, deverá ser condenado porque infringiu as leis da tribo? Hoje os juízes não seguem regra predefinida – diz o jornal –. “Alguns pedem um laudo antropológico para saber se o indígena tem noção do ato que cometeu. Outros o punem como um criminoso qualquer, independentemente dos valores culturais”. Este risco foi agora eliminado. Teremos no país pelo menos 201 sistemas jurídicos, isso sem falar em negros e sem-terra. Se algum indígena arriscava prisão por atos bárbaros que ferem qualquer sensibilidade civilizada, a partir do novo estatuto estará definitivamente impune.
ESSES BÁRBAROS XIITAS MUÇULMANOS... O projeto de um religioso xiita do Afeganistão, Mohammad Asif Mohseni, está causando indignação na imprensa francesa por defender a lei que impõe às mulheres o dever de “satisfazer sexualmente o marido”. Mohammad Asif denúncia a pressão ocidental por sua revogação como uma invasão cultural que, segundo ele, vai de encontro à democratização do país. “Esta pressão política é uma invasão cultural, que parte do princípio de que uma cultura é melhor que as outras”, disse o religioso em umas intervenção pública na universidade de Cabul. Segundo o Libération, Estados ocidentais – entre eles os Estados Unidos, o Canadá, Alemanha e França – denunciaram vivamente nas últimas semanas uma nova lei que passa a reger o direito familial da minoria xiita, acusada de ultrajar a liberdade das mulheres. Há inclusive quem fale de “uma legislação do estupro”. A lei estipula ser de “responsabilidade da esposa estar pronta a satisfazer sexualmente seu marido e não deixar a casa sem autorização, salvo em caso de necessidade ou dificuldade”. O Estatuto Particular dos Xiitas, adotado no mês passado pelos parlamentares afegãos, já foi assinado pelo presidente Hamid Karzai. No entanto, ainda não entrou em aplicação, não tendo sido ainda publicado no Diário Oficial. Em função da críticas de países ocidentais, várias modificações foram introduzidas e a lei está sendo revisada pelo ministério da Justiça. Para Mohammad Asif, toda nova modificação do texto pelo governo seria uma violação da Constituição. “O ministério da Justiça não temo direito de mudar a lei que prevê que os xiitas tenham seu próprio código de família”. Ora,ora, o Ocidente está negando suas raízes. Se não me falha a memória, já li em um livrinho muito reputado entre nós: “Vós, mulheres, submetei-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o Salvador do corpo. Mas, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres o sejam em tudo a seus maridos". O livrinho de que falo é a Bíblia. Esta recomendação de submissão total da mulher ao marido está na epístola de Paulo aos Efésios, 6:22. Na epístola aos Colossenses, 3:18, Paulo volta a insistir: “Vós, mulheres, sede submissas a vossos maridos, como convém no Senhor”.
Sábado, Abril 11, 2009
GERAÇÃO CANGURU: DA ADOLESCÊNCIA À VELHICE, SEM ESCALA Adulto, define o Houaiss, é aquele que se encontra na fase da vida posterior à juventude e anterior à velhice. Do ponto de vista jurídico, seria aquele que alcançou a maioridade, que chegou à idade em que a lei lhe concede capacidade para os atos da vida civil. Do ponto de vista psicológico, seria aquele que é emocional e intelectualmente maduro, que demonstra capacidade de agir, pensar ou realizar algo de maneira racional, equilibrada, sensata. A primeira acepção é um tanto volátil, depende da definição de outras duas. Ainda para o Houaiss, juventude é o período da vida do ser humano compreendido entre a infância e o desenvolvimento pleno de seu organismo. O conceito continua flou, pois temos de definir o que é infância. Ainda segundo o dicionarista é o período da vida do ser humano que vai do seu nascimento ao início de sua adolescência. Continuamos na dependência de um outro conceito, o de adolescência. Que seria a fase do desenvolvimento humano caracterizada pela passagem à juventude e que começa após a puberdade. Até aqui, só temos uma definição precisa, puberdade. Isso sabemos o que é. Quanto ao mais, tudo é muito relativo. Em países desenvolvidos, estes conceitos teriam alguma univocidade. Não neste Brasil, onde meninos que mal chegam à puberdade matam como adultos e sequer passam pela adolescência. Meninas também. Que adolescência tem uma criança de treze ou quatorze anos que já é mãe? Elas são centenas de milhares entre nós. Adolescência é luxo de país rico. Do outro lado da escala social, surge outra pergunta. Que adultez – com perdão pelo neologismo – se pode atribuir a um barbado que aos 30 ou 40 ainda vive com os pais? Ainda há pouco, me confidenciava um leitor: “tenho 35, nunca trabalhei e ainda sou virgem”. Confesso que não sei o que é pior nessa idade, se nunca ter trabalhado ou se ainda ser virgem. Em verdade, uma coisa é decorrência da outra. É no ambiente de trabalho, e não em casa, que encontramos nossas parceiras. O encontro não só é provável, como muitas vezes inevitável. Quanto ao conceito jurídico, passemos por cima. Adulto é quem a lei define como tal e estamos conversados. Já a acepção psicológica é ainda mais discutível. Conheço pessoas aos vinte, vinte e poucos, emocional e intelectualmente maduras, com muita capacidade de agir, pensar ou realizar algo de maneira racional, equilibrada, sensata. E conheço gente de trinta ou mais anos que está muito longe disso. Tenho um conceito bastante pragmático de ser adulto, que não coincide com o dos dicionários. Adulto é aquele que já saiu do ninho paterno e provê seu sustento. O primeiro salário, por escasso que seja, já é um primeiro sinal de adultez. Pode até que nem supra as necessidades de um jovem, mas fá-lo sentir como é duro ganhar a vida. Um outro leitor me escrevia não ver sentido nem sabor algum na vida. Deduzi logo que se tratava de um jovem pendurado nos pais. Não deu outra. Sugeri trabalhar. Após um dia exaustivo de trabalho, o singelo fato de chegar em casa, pôr chinelos, tomar um uísque, abraçar a mulher querida ou dedicar-se a algum lazer dileto é uma ante-sala do paraíso. Neste momento, terminou a adolescência. Entre nós, isto pode ocorrer até mesmo aos 15 anos. No caso dos soldados do tráfico, por exemplo, bem antes. Não consigo conceber como se possa chamar de adolescente um menino com um revólver na cintura e disposto a matar se for preciso. Por vias transversas, ele já chegou à adultez. Quanto ao conceito jurídico, passemos por cima. Adulto é quem a lei define como tal e estamos conversados. Já a acepção psicológica é ainda mais discutível. Conheço pessoas aos vinte emocional e intelectualmente maduras, com muita capacidade de agir, pensar ou realizar algo de maneira racional, equilibrada, sensata. E conheço gente de trinta os mais anos que está muito longe disso. Tudo isto a propósito de reportagem da última Veja, sobre os chamados filhos cangurus, assim chamados por andar de carona na bolsa abdominal da mãe. É fenômeno que está chegando ao Brasil. No sul da Europa – e particularmente na Itália – existe há várias décadas. Na Itália, li há alguns anos notícia sobre um barbado de mais de 40 anos, que exigiu dos pais uma pensão alimentar, pois ainda não havia encontrado profissão que satisfizesse seus ideais. Se bem me lembro, um juiz compreensivo em relação aos “jovens” concedeu-lhe o benefício. “O natural é que os jovens – diz a revista – assim que começam a trabalhar e a ganhar o próprio dinheiro, sonhem em deixar a casa dos pais. Conquistar a independência, ter o seu canto, receber os amigos e namorados na hora que quiser – tudo isso faz parte do rito de passagem para a fase da vida em que a noção de responsabilidade adquire um significado mais amplo. Essa ordem natural das coisas vem sendo desafiada por muitos adultos jovens. Embora já trabalhem, eles preferem permanecer na casa da família – e nem sequer têm planos de morar sozinhos. (...) Segundo o instituto de pesquisas LatinPanel, de São Paulo, há hoje no Brasil 3,3 milhões de famílias das classes média e alta com filhos cangurus. Isso equivale a 7% das famílias do país. A maioria deles se encontra na faixa dos 25 a 30 anos, mas, entre os já quase quarentões, 15% ainda moram com os pais”. Pelo jeito, o Brasil está virando país rico. Até bem pouco, isto era luxo de europeu. Em condições econômicas adversas, os jovens têm de entrar logo no mercado de trabalho, seja para desonerar os pais, seja para contribuir com a renda familiar. Os filhos cangurus brasileiros, segundo a reportagem, muitas vezes são formados, pós-graduados e independentes do ponto de vista financeiro. Há quem prefira economizar em aluguel para fazer cursos no Exterior e competir com mais qualificações no mercado de trabalho. Um dos entrevistados, que investiu em um intercâmbio em Londres, acha que aos 40 já estará apto para sair de casa. A opção pode ser pragmática, mas não deixa de denotar medo de enfrentar a vida e suas dificuldades. Sair aos 40 de casa, a meu ver, é perder metade da vida e justo a melhor metade. Perde-se o prazer de curtir a solidão, de ter um espaço vital próprio. Verdade que tais pais são liberais, a ponto de aceitar a permanência de namorados ou namoradas. Cada um com seu cada qual. Mas eu me sentiria muito mal namorando na sala de meus pais. Ou mesmo num quarto ao lado. Intimidade é exatamente isso, intimidade. Exclui qualquer olhar alheio por perto. Não sou exatamente imparcial para tratar do assunto. Aos onze anos, eu já vivia fora de casa. Não que me sustentasse, ainda dependia das asas paternas. Mas queria estudar e tive de ir para a cidade. Não me senti nenhum pouco desconfortável morando longe da família. Me sentia autônomo, tinha de gerir meu dia-a-dia. Mais tarde, meus pais foram para a cidade, para acompanhar-me. Mas nosso convívio durou pouco, dois ou talvez três anos. De novo, tive de mudar de geografia para continuar meus estudos. Aprendi a administrar meus escassos cruzeiros, distribuindo-os com muita parcimônia entre comida, roupas e livros. E ainda sobrava algum trocado para uma cachacinha nos fins de semana. Universitário, fazendo bicos aqui e ali, ora vendendo livros ora contando pílulas em farmácias e supermercados, contando com uma magra bolsa que garantia a xepa nossa de cada dia, tratei de morar só. Em circunstâncias precárias, é verdade, mas aquelas quatro paredes eram só minhas. Melhor morar mal e sozinho que morar melhor e acompanhado. Desde meus 17 ou 18 anos, elegi uma prioridade em minha vida: morar só para receber minhas namoradas. Assim vivi até os 30. Só passei a morar com minha eleita em Paris, isso após 12 anos de bom convívio, cada um em seu canto. É o que talvez nos tenha mantido unidos por quatro décadas. O que está acontecendo hoje é um prolongamento artificial da adolescência, nas classes mais abastadas, até os 25, 30 e mais anos. Os novos hábitos tornam obsoletos os antigos conceitos dos dicionários. Com a crise, nos países desenvolvidos, muitos jovens estão voltando à casa paterna. Mas só volta quem já saiu e soube enfrentar a vida sem muletas. É o que nos Estados Unidos se chama de filhos bumerangue. Vão morar nos campi durante o período universitário. Findo o curso, se o mar não está para peixe, voltam para casa. Não gere sua vida quem não gere seu espaço privado. Não pode sentir-se adulto quem ainda vive sob as asas maternas. Nas classes menos favorecidas, a adultez se impõe desde cedo. Nesta atual geração canguru, a adolescência só termina já perto da velhice.
Sexta-feira, Abril 10, 2009
BENTO BRANDE CALÚNIA SÓRDIDA CONTRA UM GENIAL CONTERRÂNEO Sua Santidade não perdeu a oportunidade da Páscoa para pronunciar mais uma de suas corriqueiras bobagens. Ao celebrar, ontem, a Missa Crismal, na Basílica de São Pedro, em sua homilia advertiu contra a visão que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche tinha da liberdade absoluta do homem - que, segundo o papa, "leva à soberba destrutiva e à violência". "Nietzsche zombou da humildade e da obediência e as considerou como virtudes servis, que reprimem os homens. Colocou em seu lugar a dignidade e a liberdade absoluta do homem. Pois bem, existe uma caricatura de uma humildade e de uma submissão equivocada que não queremos imitar, mas existe também uma soberba destrutiva e uma jactância que desagregam qualquer comunidade e acabam na violência." Em 2007, Bento XVI andou fazendo acenos cúmplices a Marx ao afirmar que ele "descreveu de maneira drástica a alienação do homem. Mesmo que não tenha atingido a verdadeira profundidade da alienação - porque raciocinava apenas em âmbito material -, forneceu uma imagem clara do homem vitimado por bandidos". O uso do cachimbo entorta a boca. Em sua homilia, o papa assumiu aquele comportamento vil de todo marxista, o de atribuir ao adversário todos os vícios que cultiva. Em primeiro lugar, Nietzsche nunca apregoou essa tal de liberdade absoluta, da qual Bento fala, sem defini-la. Por liberdade absoluta entende-se uma volição sem limites, sem freios morais ou legais. Ora, se o filósofo alemão foi um crítico acerbo dos valores morais dominantes do século XIX e do Ocidente, em momento algum sentiu-se absolutamente livre para transgredi-los. Sequer no que diz respeito à moral sexual da época, que Nietzsche condenava com veemência. Segundo seus biógrafos, sua vida erótica foi escassa, senão inexistente. De liberdade absoluta gozaram os antecessores de Bento, que se sentiam no direito de mandar para a tortura e para a fogueira quem quer que discordasse da doutrina oficial da Igreja. De liberdade absoluta goza quem condena um cientista que ousa afirmar que a terra gira em torno ao sol. Como de liberdade absoluta goza a instituição que um dia queima uma virgem e mais tarde a canoniza como santa. Liberdade absoluta é reduzir o corpo de um homem a frangalhos, para salvar-lhe a alma, ainda que este homem não queira ter alma alguma salva. Liberdade absoluta é isso, cometer crimes horrendos em nome de um deus inexistente. Essa liberdade, Nietzsche sempre abominou. Crime algum pode ser imputado à sua biografia. Quanto à humildade, quem é este senhor para condenar sua falta em quem quer que seja? Bento vive em um palácio que nem um sultão do Brunei ousa sonhar, tem uma vila magnífica para seu repouso quando se sente entediado da pompa vaticana, vive cercado de toneladas de ouro, prata, pedras preciosas e obras de arte que já nem podem ser valoradas economicamente, viaja para onde quiser sem pagar um vintém, tem um séquito de servos para a satisfação do menor de seus caprichos, porta parangolés bordados em ouro que nenhum chefe de Estado ousaria portar, detém um mandato vitalício e mais, goza de infalibilidade em seus pronunciamentos ex-catedra. Que autoridade tem esta potestade, que além de tudo se julga o único intérprete legítimo de Deus, para acusar um modesto professor de filologia de falta de humildade? Quanto à obediência, se é instrumento de poder da Igreja, que a impõe cegamente a seus sacerdotes, nunca foi virtude de homem livre. Nietzsche não era padre nem militar, não pertencia a nenhuma igreja, seita ou exército, instituições que não existem sem uma rígida obediência. Mais que filósofo, era um livre pensador. Livres pensadores não devem obediência a ninguém, nem mesmo ao pensamento dominante de suas épocas. Mas a atitude mais sórdida de Sua Santidade, indigna de um dignitário ocidental - Lula, Evo e Chávez à parte, é claro! – foi insinuar que o pensamento de Nietzsche está na origem do nazismo. Bento fala de “uma soberba destrutiva e uma jactância que desagregam qualquer comunidade e acabam na violência”. Está apontando para o nazismo. Não ousa afirmar com todas as letras. Apenas insinua. Ora, fica feio para um papa insinuar. O pensamento do sublime alemão jamais serviu para desagregar comunidades, muito menos levou quem quer seja à violência. Os nazistas, é verdade, tentaram apoderar-se de seu pensamento, particularmente do conceito de Übermensch, que procuraram associar ao ideal hitlerista do homem ariano. Ora, Übermensch é apenas um ideal de superação do atual ser humano, que nada tem a ver com o racismo nazista. Esta calúnia é freqüente entre católicos e marxistas, que não suportam o pensamento libertário de Nietzsche e seu desprezo pelos regimes totalitários. Bento XVI, que em sua adolescência militou nas Juventudes Nazistas, agora responsabiliza Nietzsche pelo nazismo. Reação típica de marxista - ou petista, se quisermos - que joga no adversário sua própria infâmia. Tendo seguidamente cometido gafes sobre a doutrina que professa, mais uma vez o papa enganou-se rotundamente ao caluniar seu mais genial conterrâneo. Responsabilizar Nietzsche pelo nazismo é desconhecer sua obra. Aqui vão algumas opiniões suas sobre os alemães, transcritas de Ecce Homo: "Os alemães são incapazes de conceber a grandeza: seja Schumann o informante". "Feito como sou, instintivamente estranho a tudo o que é alemão (a ponto de me bastar a aproximação de um deles para retardar-me a digestão)..." "Por onde quer que passe, a Alemanha destrói a cultura". "Primeiro, dois séculos de disciplina psicológica e artística, caros senhores alemães... Mas estas coisas não se alcançam facilmente". "Nunca admitirei que um alemão possa saber o que seja a música!" "Em Viena, em Copenhague, em Paris, em Nova York, por toda a parte estou descoberto: não o estou somente no país mais ordinário da Europa - a Alemanha". E por aí vai. Verdade que na edição póstuma de Vontade de Potênciapode-se encontrar momentos que possam justificar o nazismo. Mas não se pode responsabilizar um autor por uma obra que foi deturpada por terceiros, no caso a irmã do filósofo, Elisabeth Forster-Nietzsche. Elisabeth - que acabou morrendo no Paraguai em 1935 - quis acomodar o livro inacabado do irmão aos interesses do nazismo. Como dizia Nietzsche, é impossível cercar uma boa doutrina: os porcos criam asas. O líder da Igreja que matou, torturou e mandou para a fogueira milhares de cristãos, em nome de Cristo, devia saber disto.
Quinta-feira, Abril 09, 2009
AVE, FMI! MORITURI TE SALUTAMUS Leio ainda nos jornais que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, confirmou hoje que o Brasil foi convidado a fazer parte do grupo de financiamento regular do Fundo Monetário Internacional (FMI). A iniciativa, segundo o ministro, mostra o reconhecimento da solidez do país. Nunca antes na história do universo, o Primeiro Mundo se havia curvado ante Pindorama. "Agora estamos entrando no clube de credores do FMI", disse Mantega. De acordo com o ministro, serão colocados à disposição do Fundo 4,5 bilhões de dólares, mas ele acredita que será "muito difícil" haver necessidade de usar todo esse montante. A entrada no plano de transações financeiras do FMI não exclui a decisão do país de colaborar com cerca de 10 bilhões de dólares para elevar a capacidade de financiamento do organismo em meio à crise global. Esse aporte foi decidido também por outros países na reunião do G20. Dez bilhões de dólares são, ao câmbio de hoje 22 bilhões de reais. Enquanto isso, a nação caloteia seus cidadãos em... 100 bilhões de reais, o montante dos precatórios devidos pela União, Estados e municípios a centenas de milhares de brasileiros, que estão morrendo às pencas sem ver um centavo do que é legitimamente seu. Segundo o Estado de São Paulo, os precatórios têm duas origens: o de natureza alimentar e o indenizatório. Os credores alimentares são uma multidão sem fim de servidores públicos que foram à Justiça em busca de diferenças salariais que receberam com atraso ou que nunca viram incorporadas a seus contracheques. Os titulares dos indenizatórios são geralmente empresários que sofreram desapropriações ou que travam demandas de ordem tributária contra o Estado. Estes, no entanto, têm uma relação à parte com o poder público porque uma emenda à Constituição, a 33, lhes garante o recebimento, parcelado ano a ano, em 10 parcelas, 8 delas já honradas. Quanto aos credores alimentares, vale o que estava escrito nas portas do inferno, segundo Dante. Lasciate ogni speranza, voi che entrate na fila dos credores. Segundo advogados do ramo, só em São Paulo, estima-se em 450 mil o número destes credores. Até o ano passado, 70 mil morreram sem ver a cor do dinheiro. Multiplique-se o número destes defuntos pelo número de Estados e munícipios, mais os credores de precatórios da União e teremos um genocídio silencioso e impune praticado pelos generosos financiadores do FMI. Os credores alimentares não são jovens que têm décadas pela frente para esperar um pagamento, que na verdade deveria ser pago já, pois as dívidas já transitaram em julgado e estão em fase de execução. São em sua maioria aposentados e pensionistas, que dependem deste dinheiro não para viver, mas para sobreviver. Alguns, desesperados, apelam a um recurso sórdido. Companhias especializadas na aquisição de precatórios se dispõem a comprá-los, com deságio de 70 a 80%. Qual seria sua reação se eu lhe devesse um milhão de reais, lhe oferecesse 200 mil e ainda esperasse seu reconhecimento por minha generosidade? No mínimo, me denunciaria como agiota ou algo similar. Mas é prática bastante comum – e legal - neste mercado impiedoso, prevista no artigo 42, parágrafo 1º, do Código de Processo Civil. Segundo advogados, 25 % dos precatórios já teriam passado de mãos a preço vil. Com o dinheiro dos credores mortos ou que estão morrendo – inclusive pela falta de pagamento – o governo Lula oferece empréstimos ao Primeiro Mundo. Ave, FMI! Os que vamos morrer te saudamos!
REMEMBER ARAGUAIA, FORGET ABOUT POL POT Leio nos jornais que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) abriu ação contra o governo brasileiro diante da Corte Interamericana de Direitos Humanos pela detenção arbitrária, tortura e desaparecimento durante a ditadura militar (1964-1985) de 70 pessoas ligadas à Guerrilha do Araguaia e camponeses que viviam na região. É a primeira vez que o caso leva o Brasil à corte desde a criação dessas instâncias. Neste mesmo período, mais precisamente de 1975 a 1979, Pol Pot exterminou algo entre 2,5 e 3 milhões de cambojanos e ninguém parece mais lembrar disto. Certo, o Camboja não pertence à OEA, que criou o CIDH, mas nestes dias em que um juiz espanhol quer estender sua jurisdição a Guantánamo, base americana em Cuba, alguma sumidade generosa bem que poderia lembrar o mais intenso massacre – e proporcionalmente maior à população de um país – ocorrido no século passado. O Camboja tinha, na época, sete milhões de habitantes. Faz uns dez anos. Em uma cantina do bairro, encontrei um companheiro de charlas, médico, 43 anos, leitor compulsivo. Em 75, quando os khmer entraram em Pnom Penh, tinha 17 anos. Pergunto-lhe se já ouvira falar de Pol Pot. Jamais ouvira falar. Haja cobertura – e cumplicidade – da imprensa para matar três milhões de pessoas e não ser mais lembrado 25 anos depois. Se há uma década uma pessoa que, por seu ofício, deveria estar informada sobre as mortandades no mundo, nada sabia sobre o tirano asiático, que se pode esperar das atuais gerações tupiniquins? Estas só são informadas sobre 70 celerados que foram mortos durante uma insurreição que visava transformar o Brasil numa republiqueta soviética tropical. Pol Pot mudou o nome do pais para Kampuchea/Camboja Democrático e exerceu poderes de vida e morte sobre toda a população. Para poupar munição, matava-se a punhaladas ou pauladas. Comportamentos banais eram motivo para o massacre: não trabalhar com afinco, reclamar das condições de vida, guardar comida para utilização própria, usar alguma jóia, ter relações sexuais não autorizadas, chorar a morte de algum amigo ou familiar. Usar óculos constituía risco de vida. Óculos são instrumentos de pessoas que lêem. Morte aos intelectuais. A matança ocorria sem qualquer tipo de julgamento e prolongou-se de 1975 a 1979, quando as tropas do Vietnã invadiram o país. Não poucos intelectuais do Ocidente apoiaram o genocida marxista que, por sinal, fora iniciado em humanidades... em Paris. Noam Chomski, este abnegado defensor da liberdade e dos direitos humanos, chegou a negar os massacres no Camboja. Quando estes ultrapassaram a cifra de um milhão, passou a culpar os Estados Unidos pelas matanças. Outro grande defensor de Pol Pot foi esse admirável pensador chamado Jean Paul Sartre. Após 18 anos escondido na selva, Pol Pot ressurgiu em julho de 1997. Um tribunal constituído por cúmplices seus do Khmer Vermelho o teria condenado à prisão perpétua. Falo no condicional, pois ao morrer, em circunstâncias suspeitas em abril de 98, o ditador vivia livre como um passarinho. Do julgamento pra valer, a morte o poupou. Estamos em 2009. Trinta anos se passaram desde a queda do tirano. É o que os jornais chamam de efeméride. Existirão ainda editores com memória suficiente para celebrar a data? Ao que tudo indica, não. Memória só resta para celebrar 70 terrroristas abatidos no Araguaia. Suas famílias, de olho nas generosas indenizações conferidas aos que um dia quiseram destruir o país, querem notícias de suas mortes.
Quarta-feira, Abril 08, 2009
LEI DE SERRA VISA PLANALTO A lei aprovada ontem pela Assembléia Legislativa de São Paulo proíbe o cigarro e derivados de tabaco em todos os ambientes coletivos fechados, públicos ou privados, e proíbe ainda as atuais áreas de fumantes. O texto segue agora para sanção do governador José Serra (PSDB), autor da proposta, que tem dez dias para se manifestar. Serra obviamente a sancionará. É candidato à Presidência da República no ano que vem e precisa tomar medidas espetaculosas para lançar nacionalmente seu nome. Uma medida draconiana como esta o joga nas primeiras páginas de todos os jornais do país. A lei é constitucional? Bom, isso depois a gente vai ver. O que importa é lançar o nome do candidato. A lei federal n.º 9.294, de 15 de julho de 1996, que ainda não foi revogada, “proíbe o uso de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos, ou de qualquer outro produto fumígeno derivado do tabaco, em recinto coletivo privado ou público, tais como, repartições públicas, hospitais, salas de aula, bibliotecas, ambientes de trabalho, teatros e cinemas”. Mas... “permite o tabagismo em fumódromos, ou seja, áreas destinadas exclusivamente ao fumo, devidamente isoladas e com arejamento conveniente”. Perguntinha que se impõe a um primeiranista de Direito: pode uma lei estadual revogar uma lei federal? Lei menor revoga lei maior? O arguto governador, certamente assessorado por competente equipe de advogados, parece não ter pensado nesta questão elementar. Ou melhor, talvez tenha pensado. O que importa é lançar-se nacionalmente como um político audaz, que não hesita em tomar medidas radicais em nome da saúde pública. Echa la ley, echa la trampa, dizem os castelhanos. Feita a lei, está feita a trapaça. Como a lei libera o fumo em charutarias, as charutarias saltarão como cogumelos após a chuva no Estado todo. Quem ou o quê impede que um proprietário de bar ou restaurante instale uma charutaria em suas dependências ou classifique a casa como charutaria? Pela nova lei, o fumante não é punido, mas o estabelecimento. Como é proibido fumar até mesmo em áreas comuns de condomínio, terão os condôminos todos de pagar quando um deles transgredir a lei? O brilhante achado do tucano ainda prevê a intervenção da polícia para que o infrator seja retirado. Ora, quem pode sonhar que a polícia deste Estado, que não consegue coibir nem bingos, nem jogo do bicho nem assaltos, possa atender a chamados para retirar um fumante de um bar? Voilà uma oportunidade de ouro para incentivar a vida noturna nas favelas. Como lá a polícia não ousa entrar, a não ser com grande aparato bélico, os fumantes inveterados bem que poderiam recorrer aos bons préstimos do tráfico para cultivar em segurança o velho vício. As bocas de fumo agora seriam de fumo mesmo. A medida, antes de ser sanitária, é política. Visa além das fronteiras de São Paulo. Visa o Planalto. A oposição a Serra – essa malta de políticos que também quer o poder mas não ousa dizer uma palavrinha contra Lula, com medo de perder votos – já prepara uma ADIN - Ação Direta de Inconstitucionalidade - contra a nova lei. A indústria tabagista e as associações de bares, restaurantes, setores de hotelaria, gastronomia e turismo também já afiam seus instrumentos. A causa é bilionária. Os picapleitos – como nuestros hermanos chamam os advogados – já esfregam as mãos antecipando fartos emolumentos. Após toda uma chuva de recursos, ADINs, entulhamento dos tribunais, dispêndio de honorários, conflitos entre clientes e prestadores de serviços, é possível que tudo fique como dantes, para alegria dos fumantes. Aos leitores que chegaram até mesmo a me pichar como “nazista atroz”, após a crônica de ontem, reproduzo abaixo um entre vários de meu artigos, onde, apesar de ser contra o tabagismo, defendo o sagrado direito de cada cidadão morrer como bem entende. Foi publicado há cinco anos.
OS NOVOS LEPROSOS * Nesta segunda-feira celebra-se o dia de combate ao fumo. A data merece algumas reflexões. Um presidente declara, em capas de revistas e na primeira página dos jornais, que não é alcoólatra. Um ministro, flagrado fumando em local proibido, pede desculpas à mulher e aos filhos. Em que país estamos? Nada menos que no Brasil. Que, pelo jeito, vai acabar virando um imenso Estados Unidos, onde beber e fumar há muito virou pecado. Vivemos um momento insólito. Que me conste, jamais se viu, na história da República, um presidente ou ministro se desculpando por beber ou fumar. Deve ser o efeito Larry Rohter. O rei está nu - dizia-se nos tempos de monarquia. Na versão republicana da antiga fábula, o jornalista aponta o dedo e deda: o presidente bebe. Mais um pouco, e os cortesãos do Planalto cochicharão nos corredores da corte: aquele ministro fuma. Estamos enveredando, a largos passos, rumo à institucionalização do politicamente correto. Negro, só por ser negro, já toma o lugar de brancos nos bancos universitários. A Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga a exploração sexual infantil no país, já quer punir sexo entre adultos. A deputada Maria do Rosário, do PT gaúcho, pretende criminalizar os clientes da prostituição, nos melhores moldes ianques. "Atualmente, não existe na legislação do país uma caracterização clara para essa conduta, fazendo com que, muitas vezes, o usuário não seja punido", diz a deputada. A governadora do Rio de Janeiro quer incluir no currículo escolar aulas sobre criacionismo, aquela teoria que pretende que o universo e a vida sejam criações divinas. De repente, não mais do que de repente, até fumar virou infâmia. Ao que tudo indica, estamos em pleno revival daquela mentalidade dos 70: o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil. O pior é que dos Estados Unidos só importamos o que de pior os Estados Unidos oferecem. Segundo recente relatório sobre tabagismo do Departamento da Saúde americano, o fumo afeta praticamente todos os órgãos do corpo e causa uma série de doenças que nunca antes se suspeitou fossem ligadas a ele, incluindo catarata, leucemia mielóide aguda e cânceres cervicais, renais, do pâncreas e do estômago. "Sabemos há décadas que fumar faz mal à saúde, mas esse relatório mostra que os danos são ainda piores do que imaginávamos", disse na semana passada o secretário da Saúde dos EUA, Richard Carmona. "As toxinas da fumaça do cigarro vão para todos os lugares para onde flui o sangue. Espero que essa nova informação ajude a motivar as pessoas a parar de fumar e a convencer os jovens a nem sequer começar". Ora, que o fumo mata, isto há muito não é novidade. Mas jamais me ocorreria dizer a um adulto alfabetizado que pare de fumar. Parto do pressuposto de que ele sabe ao que está exposto. Toda pessoa tem o direito de escolher não só como quer viver, como também como quer morrer. O mesmo não pensam as democracias nórdicas. O parlamento sueco aprovou a proibição total de fumantes em bares e restaurantes, a partir do próximo 1° de junho de 2005. O parlamento norueguês adiantou-se. Proibiu o fumo a partir de amanhã, 1° de junho. "Fumo aqui, só no salmão", diz um pôster divulgado no país. Os dois países seguem na esteira da Irlanda, que proibiu fumar em lugares públicos - trate-se de bares, escritórios, hospitais, universidades ou meio de transportes - em março do ano passado. Estes Estados decidiram que o cidadão é incapaz de escolher a forma como prefere morrer. Parecem esquecer que o álcool também mata. Nos anos 70, a Suécia proibia beber em bares. Hoje, liberou o álcool e proíbe o fumo. Já está também proibindo o sexo pago. Os EUA alegam que o fumo custa ao país US$ 157 bilhões por ano - US$ 75 bilhões em custos médicos diretos e o restante em produtividade perdida. Não tenho em mãos os custos do álcool, mas não devem estar longe disso. Proibir o fumo e não proibir o álcool é manifestar um moralismo tacanho, afinal tanto um como o outro matam e custam caro ao Estado. Sem esquecer que o açúcar também é letal. Mais um pouco de audácia e os militantes do desconforto acabarão proibindo os chocolates. É como se de repente, o Ocidente, acometido por um modismo qualquer, pretendesse privar seus cidadãos de prazeres que matam, é verdade, mas propiciam euforia e bem-estar enquanto a vida dura. Não fumo. Nunca fumei. Nem cigarro, nem maconha. Mas dá pena ver fumantes tratados como leprosos, isolados em jaulas virtuais. Em um inverno em Nova York, eu os vi enregelados nas ruas, em temperaturas abaixo de zero, segurando suas baganas com mãos nuas, porque nos escritórios é proibido fumar. Professores já pretendem que os filmes de Hollywood, em que há personagens que fumam, sejam classificados como proibidos para menores de 18 anos. No aeroporto de Zurique, eu os vi isolados por um cordão, encolhidos como animais acossados, para contemplação dos passantes. Minha pior experiência foi num trem entre Roma e Florença. Por falta de vagas em um vagão de não-fumantes, tive de comprar assento no vagão dos leprosos. A concentração de fumo era tal que até os fumantes se sentiam mal. Em uma festa no Rio, vi um conviva vetar o cigarro a todos os demais convidados, só porque ele não fumava. O cerco se fecha e a intolerância se instala. Fortalecidos pela mídia, os não-fumantes se travestem subitamente em comissários do povo, sempre alertas para denunciar o crime abominável. O tabagismo foi o grande legado indígena à civilização. Toda pessoa culta sabe, mas nem toda pessoa culta ousa afirmar, que o tabaco foi importado da América Latina, onde era consumido pelos bugres, para a França, por Jean Nicot, daí nicotina. Os atuais cânceres e enfisemas - os politicamente corretos que me desculpem - são em boa parte herança do bon sauvage de nosso continente. Desde algum tempo, o tabagismo virou prática de gente pobre. Segundo pesquisas recentes, quase 33% dos americanos adultos que vivem abaixo do nível de pobreza fumam, contra 22% dos que estão acima desse nível. Estamos entrando em uma era de uma nova Lei Seca. Desta vez, a dos cigarros. Os legisladores, em seu moralismo antitabagista, acabarão por fazer a fortuna dos mercadores do ilícito. A continuar assim, o tabaco terá em breve o mesmo ou maior prestígio que a maconha ou cocaína. Hábitos sociais largamente difundidos não se combatem com proibições. Os EUA sabem disso e não parecem ter tirado maiores lições da Lei Seca, que durou apenas treze anos, onze meses e 24 dias. Se alguma autoridade quiser reduzir o tabagismo, é simples. Basta associar o cigarro com pobreza. Até os pobres pensarão duas vezes ao levar um toco de câncer aos lábios. Nesta época de culto ao dinheiro, mais eficaz que prevenir contra doenças é marcar o fumante com o estigma de pobre. Proibir só aumenta o consumo. (*) Publicado em 31/05/04
Terça-feira, Abril 07, 2009
MÁS NOVAS PARA OS CULTORES DO CÂNCER Entre as várias guerras deflagradas no planetinha, a mais recente parece ser a travada entre fumantes e não-fumantes. Ela vem de muito longe. Quando em Paris, tive notícias de uma de suas batalhas mais dramáticas. Aconteceu em 1977, no expresso Strasbourg-Lyon. Um professor de uma escola técnica, fundador da Liga contra a Fumaça e o Tabaco, tomou o expresso e sentou, naturalmente, no compartimento de não-fumantes. Nosso professor ofereceu-se inclusive um bilhete de primeira classe, pois não havia mais lugares para não-fumantes nos vagões da segunda. E não é que ao lado do fundador da liga contra o tabaco, no vagão para não-fumantes, senta um tabagista? Mal puxou seu primeiro cigarro, o professor lhe advertiu de que não podia fumar naquele compartimento, e pediu que o apagasse. O moço sacudiu os ombros, fez um ar de “os incomodados se retiram”, e continuou a chupar seu cancerzinho. Mas o fundador da liga contra o tabaco era homem cioso de seus direitos. Tentou inutilmente chamar o chefe de trem e acabou passando à ação. Puxou o sinal de alarme e parou o expresso Strasbourg-Lyon. Resultado: o fumante foi multado em 40 francos por não observação do regulamento. E o combativo professor em 50 francos, por uso intempestivo do sinal de alarme. A Societé Nationale des Chemins de Fer Français – SNCF – deu o caso por encerrado, mas nosso amigo antitabagista achou salgado desembolsar 50 francos por ter lutado por seus direitos e impetrou ação contra a SNCF, em nome da Liga contra a Fumaça e o Tabaco, exigindo 5.000 francos como reparação. A SNCF alegou ser insólito que uma associação exigisse tal indenização, considerando que o sinal de alarme está à disposição dos passageiros por motivos de segurança, unicamente. A pretensão do professor foi rejeitada por um tribunal de Lyon, mas ele não se deu por satisfeito. Voltou a acionar a SNCF, desta vez em seu próprio nome, exigindo 1.000 francos de indenização por danos. Confesso que não acompanhei o desfecho da affaire, mas gostei da atitude combativa do professor. De lá para cá, a luta contra o tabagismo avançou muitas posições. Hoje, na Europa, a proibição de fumar nos trens é total. Inclusive nas gares. Os vagões para fumantes, que ainda existiam há uns cinco anos, desapareceram. Bares e hotéis passaram a proibir o cigarro em seus interiores. Conheci pessoas que juram jamais voltar a Paris, só pelo fato de não poder fumar. O que duvido. Paris vale bem a abstenção de milhares de cigarros. A onda está se espalhando pelo mundo, particularmente pelos países ricos. Os países pobres ainda resistem à proibição do fumo. Costumo afirmar que tabagismo e religião, hoje, são vícios do Terceiro Mundo. São Paulo, sempre pioneiro em matéria de inovações, está se candidatando a um lugar entre os ricos. A Assembléia paulista proibiu hoje o fumo em todos os ambientes coletivos fechados. Trocando em miúdos: acabou aquele espaço para não-fumantes nos bares e restaurantes. No Estado, fumar só será permitido na rua, em casa ou no carro. O projeto de lei é de autoria do governador José Serra, aquele mesmo senhor que, quando candidato à Presidência da República, foi a Santa Cruz do Sul (RS), pedir o apoio da indústria tabagista local. Longo é o caminho de um tucano até o entendimento. O projeto recebeu 69 votos a favor e 18 contra. Depende agora apenas de sanção do governador, que sabemos qual será. Uma vez sancionada a lei, fica proibido fumar em bares, restaurantes, áreas comuns de condomínios e hotéis, em táxis e carros oficiais. A lei veta até os fumódromos de empresas privadas e proíbe o uso também de cigarrilhas, charutos e cachimbos. Quem quiser fumar terá de fazê-lo na rua, ao ar livre. Foram liberados da restrição apenas estabelecimentos destinados ao fumo, como charutarias, locais de culto religioso em que o fumo faça parte de algum ritual e instituições de saúde em que haja pacientes autorizados por seu médico a fumar. Considerem-se privilegiados os fumantes paulistanos. Em Paris, antes mesmo do verão, um projeto proporá a proibição de fumar nas ruas. É o que leio no Libé. Nada de oficial ainda. Por enquanto,o governo prepara-se para enfrentar a bronca inevitável. A partir de então, fumar só dentro de casa. Em vez de enviar a mão na carteira com um novo aumento do pacote, o governo prefere optar por esta solução radical. Para controlar os fumantes de rua, o ministério do Interior estuda criar uma brigada especial anti-cigarro. Munidos de rollers para serem mais rápidos e surgir de surpresa ante o contraventor, estes novos policiais estarão armados de pistolas de água em cores rosa ou verde-fluor, “para mostrar que a polícia permanece próxima aos jovens”. Os cigarros serão apagados com água. O jornal não comenta nada sobre eventuais sanções. Mas ainda resta uma esperança aos fumantes franceses. A notícia foi publicada na edição de 1° de Abril.
Segunda-feira, Abril 06, 2009
TERIA SIDO O ESTUPRO LEGALIZADO E NINGUÉM FICOU SABENDO DISTO? Mais de 200 mil menores de 14 anos deram à luz nos últimos dez anos no Brasil. Os dados têm como fonte o Sistema Único de Saúde (SUS). O número esconde uma realidade pouco estudada, em que a iniciação sexual precoce se mistura a casos de violência sexual - nos quais o aborto está previsto na legislação, mas se mostra pouco acessível na prática. É o que leio no Estadão de hoje. Cá entre nós, não é isso o que os jornais nossos, indevidamente, chamam de pedofilia? Digo indevidamente, pois a figura jurídica de pedofilia não existe em nosso Código Penal. Teríamos, no caso, estupro. Pois considera-se estupro, pela legislação nacional, toda relação com menores de 14 anos, mesmo que estas relações sejam consensuais. Todos devem estar lembrados – ou talvez não estejam – de que em 1996 o ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), provocou um escândalo generalizado no país, ao absolver um encanador acusado de estupro de uma menina de doze anos, em Minas Gerais. A menina afirmou em depoimento ter consentido com a relação sexual. “Pintou vontade” — disse. Uma legislação vetusta, que considera estupro toda relação — consentida ou não — com menores de quatorze anos, havia encerrado no cárcere o infeliz que aceitou a oferta. Ora, as relações com menores de 14 anos continuam sendo tipificadas como estupro. Temos então pelo menos 200 mil estupradores à solta no país. Que estejam na cadeia, não me consta. Não haveria cárcere para tantos. Ignorariam as 200 mil menores a identidade de seus 200 mil estupradores? Provavelmente não. Temos 200 mil queixas de estupros nas delegacias? Que me conste, também não. Sem falar que 200 mil deve ser apenas a ponta do iceberg. O SUS atesta apenas casos de meninas que deram à luz e que, de uma ou de outra forma, chegaram a seu conhecimento. Quantas outras centenas de milhares são estupradas (uso a definição legal) sem engravidar ou mesmo sem parir, optando pelo aborto? O número destas, certamente, deve ser bem maior do que o das que optaram pela maternidade. Como ficam os dispositivos do Código Penal, que presumem ser estupro a relação com menores de 14 anos? Há juristas que fazem uma ressalva. Em seu Manual de Direito Penal, Julio Fabrini Mirabete deita jurisprudência: "não se caracteriza o crime, quando a menor de 14 anos se mostra experiente em matéria sexual; já havia mantido relações sexuais com outros indivíduos; é despudorada e sem moral; é corrompida; apresenta péssimo comportamento. Por outro lado persiste o crime ainda quando menor não é mais virgem, é leviana, é fácil e namoradeira ou apresenta liberdade de costumes..." E nós, como ficamos? Houve 200 mil estupros? Ou quem sabe as 200 mil meninas catalogadas pelo SUS são experientes em matéria sexual e – conseqüentemente, como quer o eminente jurisconsulto – despudoradas, sem moral, corrompidas e de péssimo comportamento? De duas, uma. Tertio non datur. Ou datur. Neste Brasil onde aborto é crime e o ministério da Saúde constata um milhão de abortos por ano, onde o uso da droga é crime e você encontra droga em qualquer esquina, tudo é possível. Em verdade, não só o aborto como a droga são plenamente tolerados, como também as relações com menores de catorze anos. A lei virou letra morta. Vez que outra, a polícia e os juízes escolhem algum profissional liberal ou pessoa de posses para vítima e escarmento. Quanto ao populacho, pode estuprar à vontade. Se alguém propõe definir uma idade legal para o consenso sexual, mais compatível com os costumes nacionais, é sumariamente acusado de fazer apologia da pedofilia.
Domingo, Abril 05, 2009
AINDA OS AFONSOS CELSOS Seguidamente tropeço com estes senhores. Toda a pessoa que viaja conhece melhor seu país do que aqueles que ficaram. Tem termos de comparação. Chesterton é um escritor católico, tenho várias razões para não ter muito apreço por sua obra. Se a ficção em si já é uma mentira, a ficção católica é duas vezes mentira, pois embute uma outra mentira na anterior. Mas Chesterton tem uma frase que adoro: “não se conhece uma catedral permanecendo dentro dela”. Esta observação só pode partir da boca de um homem viajante. Não é preciso ter muitas luzes para aprender com as viagens. O mais inculto dos brasileiros que toma um metrô em Paris, Berlim e Estocolmo, logo percebe que as cidades não precisam ser conturbadas como São Paulo. Você chega no Charles de Gaulle, digamos. E descobre que pode ir de metrô até a cidade, descendo na porta – ou perto da porta – de seu hotel. A pergunta salta automaticamente: e por que não posso fazer isso em São Paulo? Antes de ir adiante, respondo. Não pode porque uma máfia de empresários não quer. Não pode porque metrôs não interessam a políticos brasileiros. Metrô não rende votos, começa hoje e as obras levam anos para serem entregues ao público. Não interessa. Ainda há pouco, uma reportagem no Estadão descobria que o trânsito é um dos poucos fatores democráticos da cidade, tanto o pobre quanto o rico levam praticamente o mesmo tempo em seus deslocamentos. Estejam em um carro de luxo ou num ônibus, o atravancamento é o mesmo. Pequenos e singelos fatos, como ver um ônibus se inclinando lateralmente para que um passageiro suba com mais conforto, mexem com a alma do mais ferrenho analfabeto. Ou ver uma placa de horários de ônibus, como eu vi na Suécia, ainda nos anos 70. O ônibus n° tal passa aqui às 08h15, 08h21, 08h27, 08h33 e assim por diante, com horários precisos e fixos durante toda a jornada. E você pode acertar o relógio pela chegada do ônibus. Já vi inclusive motorista diminuindo a velocidade de um ônibus para não chegar adiantado. Isto se chama civilização, moeda bastante escassa cá nos trópicos. Volto aos Afonsos Celsos. Para eles, no Brasil tudo é lindo, divino, maravilhoso. O país não tem mácula alguma e Lula é o Messias que os tempos esperavam. (Não confundir os Afonsos Celsos com petistas. Petista é até capaz de fazer críticas a Lula). Se você diz que o Brasil, como país, é um caos, lá vem a pergunta, rápida e direta como uma bala: então porque você mora aqui? Respondo na tampa. Moro aqui porque sou brasileiro, tenho passaporte brasileiro e posso residir onde quiser neste país. Menos nas reservas indígenas, é claro, mas também é claro que lá eu jamais pretenderia residir. Sem falar que, no momento, o Brasil é o país mais conveniente que tenho para viver. Brasileiro sendo, me reservo o direito de tecer críticas a meu país, já que o conheço bem. Mais difícil para mim, senão impossível, seria tecer críticas à Noruega ou à Suíça. Certo dia, comentava eu numa roda o caos paulistano, quando do outro lado da mesa saltou o brutamontes: então que estás fazendo aqui? Respondi com minha resposta padrão. Ele, um pobre diabo que fora São Paulo só conhecia sua aldeia natal, era Afonso Celso dos preparados. Foi até o carro, trouxe uma centena de bandeirinhas do Brasil e as espalhou sobre a mesa. Esta subespécie eu não conhecia. E partiu para o insulto. Como quando alguém discute com um idiota os idiotas são dois, retirei meu time de campo. Sem conhecer outros países, ninguém conhece o Brasil a fundo. Notícias do estrangeiro não bastam, é preciso ver com os próprios olhos. Jornal nenhum noticia que os ônibus, em vários países da Europa, se inclinam para que o passageiro suba. Nunca vi, exceto em textos meus, notícias sobre horários de ônibus em Estocolmo ou Paris. Mas, infelizmente, viajar não basta. Existe aquele turista que pode dar dez voltas ao mundo e acaba sem aprender nada. Falo dos adeptos de excursões. Para começar, se dão ao luxo de levar cinco ou mais malas. Há quem leve dez ou doze. Afinal de contas, não são eles que as carregam. Jamais têm a preocupação de tomar a primeira e mais importante providência de todo viajante, a de comprar um mapa da cidade em que chega. Pra que mapas, se o guia os deixa no hotel e os leva para todo lugar? Começam, então, sem ter mesmo uma idéia geográfica da cidade que visitaram. São capazes de percorrer a Europa toda sem conhecer as delícias de uma viagem de trem, as excursões geralmente usam ônibus. Se um belo dia têm de tomar um trem, descobrem então que não é nada confortável viajar de trem com cinco ou seis malas. Não têm preocupação alguma em adquirir um vocabulário mínimo da língua que os cerca, afinal o guia fala vernáculo. Não conseguem ler um cardápio sem que o guia o traduza. Acabam voltando do estrangeiro sem saber dizer o nome dos pratos que comeram. Desconhecem as facilidades de transporte da cidade, andam sempre no ônibus da excursão. Jamais verão o ônibus que se inclina nem seus horários de passagem. Jamais viverão a ventura de perder-se em vielas inesperadas e depois consultar um mapa para voltar ao bom caminho. Claro que esse tipo de viajante, por mais giros que dê pelo planeta, não tem condições de comparar coisa alguma. Volta e continua o mesmo Afonso Celso de sempre. Teria dezenas de histórias para contar sobre eles. Talvez volte ao assunto. Por enquanto, me resumo a duas. Em meus dias de Paris, eu fazia crônica diária para a Folha da Manhã, de Porto Alegre. Ao pé da coluna, deixava meu endereço e telefone. Não era incomum um leitor telefonar-me e convidar-me para um almoço ou janta. Certo dia, surgiu ele, o patriotão: - Janer, sou teu leitor, ando viajando pela Europa, gostaria de te convidar para um almoço. Topei. Gosto de conhecer pessoas. Que tipo de cozinha te agrada? - Bom, suponho que conheças algum restaurante brasileiro, quem sabe uma feijoadinha? Quase caí de meus tamancos. É tua primeira viagem? - É! Estou na Europa há cinco dias, já visitei três países e cheguei ontem em Paris. Estou seco por uma feijoada. Em um país de uma oferta culinária estupenda, o bruto queria uma reles feijoada. Não entendo essa gente. É possível que sejam movidos pelo medo do desconhecido, pelo horror de degustar algo que jamais degustaram. Claro que declinei do convite. Diga-se de passagem, nunca em minha vida entrei em um restaurante brasileiro, nem em Paris nem em qualquer cidade da Europa. Não viajo para comer comida brasileira. Segundo caso, uma colega de universidade, professora de Literatura Portuguesa. Ia para Madri. Passei-lhe a lista dos melhores restaurantes da cidade. Na volta, curioso, quis saber o que achara de minha seleção. - Não sei. Só fui a McDonalds. Ah! Cortei relações. Quem vai a Madri e só freqüenta essas casas abomináveis, não viu Madri. Não tenho nada a falar – nem a ouvir – de clientes de McDonalds. Essa gente deveria ser interrogada na entrada do aeroporto: você pretende comer em McDonalds? Se a resposta fosse positiva, deveria ser considerada uma ofensa à culinária nacional. Este viajante – se é que merece este nome – deveria ser repatriado incontinenti à seu país, para curtir o feijão com arroz do dia-a-dia.
A DOENÇA NACIONAL Sempre que falo em afonsocelsismo, não falta leitor mais jovem que queira saber do que se trata. A palavra não está dicionarizada, mas deveria estar. Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior foi um professor e poeta medíocre mineiro (1860-1938), autor do delirante Porque me Ufano de meu País, uma espécie de ode açucarada ao Brasil, onde tudo é lindo, divino, maravilhoso. A palavra pode também ser traduzida por ufanismo. Não por acaso, Afonso Celso foi um dos criadores desse asilo de mediocridades, chamado Academia Brasileira de Letras. Para dar uma idéia do que seja afonsocelsismo, reproduzo o capítulo XVII de Porque me ufano... Pelo jeito, a moda chegou à China. Afonsos Celsos, os encontramos em todas as esquinas. São completamente cegos às mazelas nacionais e geralmente reagem com violência quando alguém as denuncia. Riquezas naturais do Brasil Demonstraram os economistas não constituírem os minerais preciosos a única nem a principal fonte da riqueza de um país. Entraram a sustentar que a lavoura e a indústria pastoril valem mais que o ouro e os diamantes, consistindo a verdadeira riqueza na abundância dos produtos indispensáveis à manutenção da vida. Ainda, sob esse novo aspecto, é imensa a riqueza do Brasil que pode produzir tudo quanto reclamarem as necessidades físicas ao homem. Inúmeras as suas plantas aproveitáveis na alimentação, na indústria, no comércio, na medicina.Entre as palmeiras, denominam os índios algumas — árvores de vida, de tão úteis, pois fornecem material para embarcações e vários utensílios, fibras para tecidos, frutos doces e nutritivos, licor refrigerante e agradável, enquanto as largas folhas servem para cobrir, em lugar de telhas, as habitações feitas com pranchas das mesmas árvores. Possuem, de mais, uma espécie de cera, de que se fabricam velas para a iluminação. Nas enormes matas brasileiras, quantas resinas e bálsamos de preço, quantas deliciosas árvores frutíferas! As dos seringais, indígenas, e as do café, exóticas, mas perfeitamente aclimadas, são genuínos tesouros vegetais. Há a árvore do pão, a árvore do papel, a árvore da seda, a árvore do leite, cujos frutos, folhas, fibras ou sucos, oferecem as propriedades e as aplicações das espécies de que lhes proveio o nome. O milho e a mandioca já eram cultivados pelos índios. O arroz é silvestre em várias regiões. Prestam-se a qualquer cultura as terras do Brasil, de fertilidade proverbial. Verdadeira maravilha a uberdade da terra roxa que o calor e a umidade bastam a fecundar. As laranjeiras produzem, sem trato. Nalguns pés, em Mato Grosso, as laranjas, já muito doces, que murcham no galho, reamadurecem dulcíssimas, — verdadeira resurreição. O solo compensa larga e generosamente, — agradece, na frase popular o mais leve cuidado que se lhe consagre. As sementes plantadas adquirem maior força produtiva que alhures. Ao lavrador é fácil tirar das suas terras tudo quanto precise, exceto sal, de que, aliás se encontram no Brasil grandes jazidas. Quase todas as culturas dão duas colheitas anuais. Um país assim está em condições de se tornar o celeiro do mundo. Há nele, em climas diversos, vastas pastagens, fartamente regadas, às quais se adaptam todas as raças de animais úteis. Já importante, a indústria pastoril destina-se a abastecer a Europa, pois é susceptível de desenvolvimento extraordinário. Tribos selvagens vivem exclusivamente da caça e da pesca, tão profusas que permitiram outrora as longínquas expedições dos bandeirantes, desprovidos de tudo. Confia-se à natureza a criação do gado, de que milhões de cabeças povoam os campos. Consiste o só trabalho do proprietário em reunir, uma ou outra vez, no lugar adequado, os rebanhos para marcar as crias e apartar as reses vendidas. E as abelhas que compõem delicioso mel? E as tartarugas de carne saborosa, cujos ovos fornecem manteiga, e cuja casca serve para o fabrico de objetos de arte, utilização também peculiar a muitos insetos brasileiros? Encontra-se no Brasil matéria prima para quaisquer manufaturas. Durante a guerra do Paraguai, com elementos exclusivamente nossos, construímos em poucos meses, nos arsenais do Rio, excelentes vasos de guerra. Os gigantes das nossas florestas servem, como nenhuns outros, para a construção de navios, casas e móveis de luxo. Conquistam as suas madeiras o primeiro lugar nos concursos internacionais, subindo a milhares as espécies classificadas, famosas pela beleza e resistência. Encheria volumes a sua simples enumeração, de que só ministraria idéia um tratado de botânica. Em suma, subsolo, solo, ares, selvas, águas, está tudo no Brasil cheio de vida, e vida é riqueza. Não depende ele do resto do globo. Poderia, se quisesse, erguer, sem prejuízo material, em torno das suas fronteiras, a muralha da China.
Sábado, Abril 04, 2009
VIÚVAS DE MAO ENTRAM EM CIO Quando ainda no ginásio, lembro de ter lido – juro que li – um livro em dois volumes pomposamente intitulado Brasil e China – o futuro eixo do mundo. Isso foi lá pelos anos 60. Os dois gigantes adormecidos, a China em plena ditadura maoísta e o Brasil ainda nos dias de Jango, se candidatavam, segundo o autor, a liderar a humanidade. Não tenho lembrança do nome do autor. Mas obviamente se trataria de algum maoísta que pretendia associar Pindorama à tirania do Grande Timoneiro. Pena não ter comigo hoje esse livro. Seria divertido lê-lo. Naqueles dias nossas mães exerciam uma involuntária função de Torquemada. Não que pretendessem queimar os filhos hereges, mas queimavam seus livros, com medo do ruído de coturnos que já se ouvia ao longe. Suponho que algum leitor de minha idade terá tido conhecimento dele. Se existir este leitor, que mande notícias. Pelo que leio na Folha de São Paulo de hoje, os chins também têm seus Afonsos Celsos. Uma obra intitulada China Infeliz, em menos de três semanas, já vendeu 150 mil cópias. O que é micharia num país de 1,3 bilhão de habitantes. Em meus dias de Estocolmo, ouvi uma história curiosa de um diplomata sueco. Ele perguntou a um colega chinês qual a população da China. Seu homólogo não soube responder com precisão, mas forneceu uma cifra com uma margem de erro de ... 40 milhões de chineses. Ora, essa margem de erro era cinco vezes a população da Suécia. Micharia ou não, o livro está fazendo carreira. Segundo a notícia, edições piratas são encontradas em camelôs e o conteúdo já foi pirateado para a internet. Com ensaios de cinco autores – três professores universitários e dois jornalistas – , China infeliz diz que o país precisa liderar o mundo, ver os Estados Unidos como maior inimigo, pois se trata de uma disputa, e pede que o governo invista mais em força militar e em tecnologia. Os autores não pecam por modéstia: "Olhando a história da civilização humana, nós somos os mais qualificados para liderar o mundo; os ocidentais devem vir em segundo". Ainda bem que o Supremo Apedeuta não é chegado a ler jornais. Se ouve tal despautério, é capaz de cortar relações com a China. Afinal, é óbvio que quem deve liderar o mundo é o Brasil. Não bastasse este afonsocelsismo de olhinhos puxados, os autores alimentam teorias conspiratórias visando a derrocada do Império do Meio. "O plano do Ocidente a longo prazo é derrubar a China. Os EUA são nosso maior inimigo, nunca compartilharão sua tecnologia conosco. A China precisa investir mais em segurança, em suas Forças Armadas, investir mais na África e na América Latina, precisamos de aliados". Como se os Estados Unidos precisassem de mais inimigos. Ainda mais um inimigo com mais de um bilhão de buchas de canhão. Não conseguem sequer controlar o Iraque, com seus 30 milhõezinhos de viventes. O que todo país sensato quer, hoje, é comerciar com a China. Vender cadarços de sapato para um bilhão de chins já é um negócio da China, com perdão pelo trocadilho. Com um senão. A China jamais fecharia negócios com uma empresa que vendesse apenas um milhão de cadarços de sapatos. Eles querem outras cifras, na ordem das dezenas ou centenas de milhões. As viúvas de Mao estão excitadas. E apelam aos piores instintos que podem acometer uma nação, o nacionalismo ferrenho e a ameaça do estrangeiro. Quais vivandeiras ávidas de despojos, apelam aos quartéis. Não irão longe. Mao está morto e bem morto e a China não dispõe hoje de um doente mental com suficiente carisma para liderar outra loucura.
Sexta-feira, Abril 03, 2009
QUILOMETRAGEM Ontem, pensei em calcular minha quilometragem em torno ao sol. Acabei esquecendo. O leitor Eraldo Marques me poupou o trabalho: Caro Janer. Uma volta em torno do sol equivale a cerca de 950.000.000 km. Você acaba de completar, então, cerca de 58.000.000.000 km. Parabéns pela jornada, e que você 'rode' muitos milhões mais. Abraço. 58 bilhões de quilômetros. Não está mal para quem tem a sensação de ter nascido ontem. Suponho que eu tenha batido a performance de muitos satélites. Não só eu, como todos nós que chegamos à 62ª volta. Penso rodar mais um pouco, Eraldo. Mas não demais. Essas voltas de milhões de quilômetros acabam cansando.
REFLEXÕES POR OCASIÃO DA 62ª VOLTA Completei ontem minha 62ª volta em torno ao sol. Sempre achei que vivia mais ou menos parado, mas suponho que isto dará alguns bilhões de quilômetros rodados. É curioso observar que as pessoas, ao fazer aniversário, nem sempre lembram que completaram mais uma volta em torno àquele astro que nos aquece ou arrefece, conforme a distância que dele mantemos. Quando acho que andei pouco, recorro a esta perspectiva cósmica, para consolar-me de ter vivido tão parado. O que é ilusão. O movimento que realmente interessa são nossos passos pelo planetinha, que rumam sempre à vida. As órbitas percorridas em torno ao sol rumam inexoravelmente à morte. Em meus 62, sinto-me extremamente jovem, tenho a impressão de não ter nascido há muito tempo. Jovem do ponto de vista espiritual, que a carcaça já não me obedece como antes. Mas ainda dá para perambular. Se sou lento, os aviões são rápidos. Vivo em uma época em que é quase mais rápido chegar a Paris que a Dom Pedrito. O distante se tornou perto e o perto, muita vezes, ficou longe. Vivo ainda em época privilegiada, estes dias de Internet. Tenho reencontrado não poucas pessoas de minha adolescência, que ficou a 1.500 quilômetros de distância, mais pessoas de minha juventude e mesmo de minha vida madura. Os tempos são adequados para reencontros, e reencontros são sempre ótimos quando desejados. Se me arrependo do que fiz? Cometi muitas errâncias, fiz cursos que não devia ter feito, cruzei por pessoas que melhor não tivesse cruzado. Não me queixo. Um dos cursos que fiz deu-me a mulher que sempre adorei. Então, valeu ter estudado essa coisa inútil chamada Filosofia. Verdade que a vida a levou, mas contra a vida não se pode remar. Fiz também Direito, outro curso também inútil, pelo menos para mim. Sempre abominei as linhas tortas e cheias de arabescos colaterais das leis, nunca suportei o palavreado de advogados. Chamar alguém de Meritíssimo parecia-me o sumo da humilhação. Certa vez, em uma audiência, recebi um saraivada de Dr. pra cá, Dr. pra lá, Dr. Acolá. Os títulos voavam em torno à minha cabeça. Ora, nem juiz, nem advogados, nem promotores tinham doutorado. Só uma pessoa tinha doutorado naquela sala, eu. Mas era tratado como o indigitado réu. Não, não quero negar a importância do ofício. Ocorre que para mim não servia. Em todo caso, junta diploma com diploma, recebi uma bolsa em Paris. Não posso dizer que foram cursos de todo inúteis. Inúteis foram meus estudos de literatura comparada em Paris. Mas me propiciaram quatro anos divinos de muita festa, muito vinho, mulheres de todos os quadrantes que gemiam nas mais diversas línguas, música que me muito me apraz. Fui aventureiro e aventureiro não pode queixar-se de ter incorrido em desvios. Não há aventura alguma em estradas retas. Bom mesmo são as encruzilhadas, desvios e atalhos esconsos. Acho que só aos 40 deixei de ser adolescente. Até lá, o trabalho foi sempre diversão. Jamais maldição, como decretou o bom Jeová. Aconteceu em 1987, nesta mesma data. Eu e mais duas alunas de um curso em Madri comemorávamos nossos giros em torno ao sol. Foi numa bodega na calle del Príncipe, centro da cidade. Muito vinho, canções, alegria generalizada. Lembro que até brandi bandeiras em altos brados, como “muerte a los maridos!”, o que deixou os garçons um tanto constrangidos. Eu terminaria dali a alguns meses um curso de língua e literatura espanholas. Estava com bolsa, desligado da universidade e, de certa forma, de meu país. Emprego algum me esperava de volta. De repente, dei-me um tapa na testa: nossa, estou com 40. Terminou a brincadeira, Cristaldo. Era o que eu pensava. A brincadeira continuou na universidade, agora como professor. Com uma diferença: a partir de então me dei conta que não mais usava calças curtas. Não podia ser diferente. A juventude é um defeito que se corrige com o tempo, escreveu Jardiel Poncela. Ou, se quisermos, a juventude é a única doença que o tempo pode curar. Nesta trajetória, fiz centenas de afetos e desafetos. Não sei quem são os mais. Provavelmente estes últimos. Se quero bem a meus amigos e amigas, não desgosto de meus inimigos. Escrever é expor a alma na vitrine. O que provoca tanto admiração como pedradas. Há leitores que devem sentir grande satisfação quando me insultam por minhas crônicas. Ora, minha satisfação é de longe maior. Quando alguém me insulta, vibro. Sinal de que o adversário não tem mais argumentos. É a prova inconteste de que ganhei a discussão. Quem viaja foge da morte, costumo afirmar. Quando meu pai morreu, eu esperava um navio em Lisboa. Quando foi a vez de minha mãe partir, eu almoçava em um restaurante em Segóvia. Só vi um cadáver aos 56 anos. Era o único que não desejava ver. Hoje, tentando ver o reverso da medalha, creio ter sido melhor que a Baixinha partisse antes. Ela descansa. O ônus do sofrimento é meu. Dizem que um homem envelhece quando chama o papa de “este rapaz!” Estou longe de chegar lá. Longa vida às Suas Santidades. Se não fiz tudo o que sonhei na vida, fiz outras que nem sonhava fazer. O saldo é positivo. Nesta 62ª órbita, tropecei numa pedrinha inesperada, um carcinoma de palato. Não deu nem solavanco. Dadas as características da coisa, nem cheguei a preocupar-me. Estou limpo. Alguns meses de privações do que é bom na vida, e só. Meu fígado agradece. Disse antes que não me queixava. Em verdade, até hoje carrego um percentual de arrependimento. Foram as mulheres que não tive. Elas estavam entregues ante meus braços e a solene besta que vos escreve não percebia. Estupidez de jovem, que na juventude fique enterrada. Na época, eu respeitava toda negativa, achava que estava sendo polido. Idiota, mil vezes idiota. Elas devem ter me odiado, e com razão. A elas, se por acaso estiverem lendo estas linhas, meu mais sofrido pedido de perdão. Aos que ontem me felicitaram pela passagem, meu profundo carinho.
Quinta-feira, Abril 02, 2009
MARISAS LETÍCIAS DO G-20 OUVEM HISTORINHAS DA AUTORA DE HARRY POTTER Leio no noticiário online que a escritora J.K. Rowling, a criadora do bruxo Harry Potter, se uniu nesta quinta às mulheres de líderes do Grupo dos Vinte (G20, os países ricos e os principais emergentes) em um dia de entretenimento, enquanto acontece a cúpula no centro de conferências Excel, em Londres. A escritora leu trechos de seu mais recente romance The Tales of Beedle The Bard (Os Contos de Beedle, O Bardo) na Royal Opera House de Covent Garden. Na quarta-feira, Rowling também foi convidada ao jantar que Sarah Brown ofereceu às esposas dos líderes do G20 na residência oficial de Downing Street, e esteve sentada junto com Michelle Obama, mulher do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Ora, parafraseando antigo refrão latino, as mulheres dos líderes do G-2O não apenas deveriam ter alto nível intelectual, como também deveriam parecer ter alto nível intelectual. No entanto, reúnem-se para ouvir historinhas para adolescentes. A julgar pelos critérios com os líderes do grupo escolhem suas consortes, pouco podem as nações esperar de suas reuniões. Não teria a Europa um escritor decente para falar às damas? Ou temeriam os organizadores da cúpula fundir as sinapses das moças com um discurso inteligente?
Quarta-feira, Abril 01, 2009
A MENTIRA ABOMINÁVEL Em suma, a mentira faz parte do ser humano. Está na guerra, na diplomacia e na política, onde reina soberana. Pode alguém crer no que diz um político? Só se for da turma do “me engana que eu gosto”. Vou mais longe: sem mentira não há política, pelo menos neste regime que chamamos de democrático. Candidato algum se elege sem mentir. A cada platéia, tem de dizer não verdades, mas o que lhe rende votos. Mentira é inerente à política e por tal razão do universo político só quero distância. É parte constitutiva das religiões e filosofias, dos Estados e ideologias. Está nos livros – e como! – e jornais, no rádio e na televisão. E particularmente na publicidade. Todos estamos rodeados de mentiras. Raros são aqueles que conseguem filtrá-las na massa de informação que nos submerge e, mesmo assim, mais dia menos dia, arriscam cair em uma delas. Mas prometi falar da mentira repulsiva, daquela que considero a mais vil das mentiras. É a que permeia as relações entre casais. O que melhor a atesta é o uso de preservativos entre matrimônios constituídos. Se confiança fosse permissível entre ambos, não haveria necessidade de proteção alguma. Mas não é permissível. Ao longo de minhas décadas, conheci alguns maridos que jamais mentiram nem mentiriam a suas mulheres. Dá pra contar nos dedos e sobra um monte de dedos. Fora estes, a mentira é o pasto cotidiano de todos os casais. Os machos sempre se sentiram à vontade na condição de polígamos e se sentem diminuídos se não o são. Cientes desta idiossincrasia masculina, algumas mulheres se julgaram no direito – e justo direito, diria eu – de também pular a cerca. No recesso do lar, como diriam os juristas, tudo é felicidade e harmonia. Para todos os efeitos, ninguém trai ninguém. Jamais consegui entender como alguém consegue dormir sob o mesmo teto, na mesma cama, lado a lado, todas as noites, com alguém em quem não pode confiar. Eu teria medo. Daí essa enxurrada de crimes passionais, separações e divórcios – algumas traumáticas e dolorosas e outras mais tranqüilas, conforme o grau de civilidade do casal – que constituem a normalidade de nossos dias. Brigas por bens, por guarda de filhos e cachorros, estabelecimento de horários de visitas, dilacerações das crianças. E muito lucro para advogados. Tudo seria bem mais simples para todos se o marido pudesse contar à mulher suas outras aventuras, e vice-versa. Não é o que se vê. O que vemos são famílias destroçadas pela mentira quotidiana. Sempre dou uma olhadela na crônica policial dos jornais. Me fascinam – horresco referens – ler notícias de velhinhas, que após cinqüenta ou mais anos de casamento, fuzilam o marido enquanto ele dorme. Que faz uma anciã agir assim? É que ela descobriu ter sido enganada uma vida inteira e agora não há mais chance de começar outra. Se lhe foi roubada a vida, paga na mesma moeda. Assisti a uma boa dezena destas tragédias, bem próximas a mim. Em Porto Alegre, tive um colega de jornal que deu cinco tiros em sua mulher. Motivo? Ela punha açúcar demais na caipirinha. Pelo menos foi o que alegou. Claro que o problema não era açúcar nem caipirinha, mas um monstro que vinha crescendo dentro dele, alimentado pela mentira e pelos ciúmes. Permaneceu em liberdade após matar a coitada. Perambulava pelas ruas com um ar de cão arrependido, que implora com olhos tristes perdão ao mundo por alguma cachorrada. Certo dia, sentou em minha mesa e me estendeu a mão. Recuei a minha. “Que foi que eu te fiz?” – me perguntou. “Pra mim não fizeste nada” – respondi. E levantei-me. Não consigo apertar uma mão que fuzilou uma mulher. Um outro colega da mesma Caldas Júnior, jornalista de renome e aparentado com os proprietários da empresa, arrancou a calota craniana com um tiro de escopeta 12, cano serrado, de uma menina que namorava em um carro frente à sua casa. O jornalista teve azar. Se fosse uma empregadinha, acabaria sendo acusada de alguma coisa. Ocorre que era filha de um jurista, também renomado, de Porto Alegre. Até hoje continuam sendo um mistério as motivações do jornalista. Houve quem aventasse – versão na qual não confio muito – que o namorado da moça era um caso seu. Vá lá se saber! Cumpriu uns dez anos de prisão, creio, e hoje circula na cidade e na imprensa como se nada houvesse acontecido. Há alguns anos, foi entrevistado pelo Jô Soares. Ou seja, pagou para ser entrevistado. Claro que não falaram do episódio. Tive também um conhecido de mesa de bar naqueles dias. Advogado bem sucedido, andava sempre armado. De minha parte, abomino gente armada. Certo dia, após algum álcool, começou a gabar-se de viver um casamento liberal. “Tenho quantas mulheres eu quero. Minha mulher sabe disso e não reclama”. Eu, jovem universitário que começava a observar o mundo, aplaudi sua decisão. “Maravilha! – disse -. Suponho que dás a ela o mesmo direito”. Melhor tivesse ficado calado. O causídico foi se irritando aos poucos, cada vez mais aceleradamente, puxou o revólver e o pôs na mesa, o cano virado para mim. "Como podes aventar isso, nesta sociedade imunda, que jamais aceitaria isto?" Pelo jeito, minha modesta intervenção cortara fundo. A sociedade é que era imunda. Ele não. Retirei meu time de campo. Naqueles dias, eu rabiscava minhas primeiras linhas. Elaborei então um conto, calcado no advogado “liberal”. Meu conto terminava com ele matando a mulher e se suicidando. Nunca o publiquei e deve estar esquecido em meus baús. Alguns anos depois, recebi a notícia: ele matara a mulher e acabara se suicidando. Fui profeta e não sabia. Enfim, a humanidade não perdeu grande coisa. Falar nisso, aqui em São Paulo temos um ex-editor do Estadão, homem culto por ofício, que permanece livre como um passarinho após ter matado sua companheira pelas costas. Também foi meu colega de redação. Existirá ainda alguém no jornal que consiga apertar-lhe a mão? Se existe, eu não conseguiria apertar a mão dele. É cúmplice. Tive muitas amigas e jamais menti a nenhuma delas. Nunca ofereci fidelidade nem jamais a exigi. Todas sabiam de todas. Sem querer invadir a privacidade de ninguém, sempre procuro ter uma idéia do perfil das pessoas com quem elas andam. É uma questão de precaução. Nunca me agradou a idéia de estar um dia sentado tranqüilamente em um bar e receber, de repente, um tiro na testa. A mulher avançou. O macho ficou parado no tempo. Incompetente, reage com violência. Mas pretendia falar da mais vil das mentiras. Creio que já falei.
A MENTIRA NA BÍBLIA Antes de entrarmos no cerne do repulsivo, vejamos o que diz o Livro sobre o assunto. Já no Gênesis, a mentira é vista como algo natural e nada condenável. Segundo Jean Soler, no terceiro volume de sua excelente trilogia, intitulado La Loi de Moïse, esta lei não condena a mentira. “Os propósitos enganadores na vida quotidiana não são objeto de nenhum mandamento. Só é proibido o falso testemunho, diante dos tribunais, sobretudo porque ele se apóia sobre um falso juramento em nome de Jeová, o que é condenar menos a mentira que o uso sacrílego do nome de Deus. Nenhuma proibição bíblica ou mesmo rabínica diz: “Tu não mentirás”. Felizmente para Jacó, continua o autor: é por instigação de sua mãe, Rebeca, que ele mente a seu pai para dele extorquir a bendição que lhe dará, de forma irreversível porque sagrada, os privilégios devidos aos mais velhos. Ele mente sem escrúpulo algum. Ele opõe uma única objeção a sua mãe tentadora, que não diz respeito ao caráter imoral do ato que vai cometer, mas aos riscos em que incorre: “Talvez meu pai me toque, ele verá que o enganei e atrairei sobre mim a maldição em lugar da benção”. As mulheres dos patriarcas têm uma grande facilidade para mentir, escreve Soler. A doce Raquel, esposa preferida de Jacó, rouba de seus pais os ídolos domésticos quando ela deixa Labão para seguir seu marido. Labão, que notou a desaparição dos ídolos, revista as tendas de Jacó. Quando ele entra naquela em que está Raquel, sua filha diz: “Que meu senhor não se irrite se eu não posso levantar diante de ti pois tenho aquilo que acontece às mulheres”. Labão procura por toda parte e vai embora. Ela não tinha suas regras, estava sentada sobre as estatuetas. Ou seja, se Jeová vê com benevolência as mentiras dos seus, não há porque vê-las, na cultura ocidental, como algo abominável. Liberada a mentira, ela vira um instrumento de massacre. O autor nos lembra ainda o caso de um príncipe cananeu, que raptou Dina, a filha de Jacó e de Lea. Enamorado por Dina, o príncipe a pede em casamento ao pais. Os filhos de Jacó aceitam, desde que todos os cananeus se submetam à circuncisão. “Então nós lhes daremos nossas filhas e pegaremos as vossas para nós, permaneceremos convosco e formaremos um só povo”. Todos os homens da cidade cananéia se circuncidam. No terceiro dia, quando os cananeus ainda se recuperavam da cirurgia, em vez de entregar Dina e demais mulheres da tribo, Simeão e Levi, os irmãos de Dina, marcham contra a cidade e matam todos os homens. “Eles se apossaram do pequeno e do grande rebanho, de seus asnos, do que estava na cidade e do que estava nos campos. Tomaram pela força todos os seus bens, todas suas crianças e mulheres e pilharam tudo que havia dentro das casas”. Tudo sob o olhar complacente de Jeová, que se era complacente em relação aos seus, não tinha complacência alguma pelos não-judeus. Se desde os primeiros versículos do primeiro livro do Livro a mentira é aceita como pretexto para massacres, não espanta que seja prática comum ao longo da Bíblia.
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