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¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV
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Tiragem
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Sexta-feira, Outubro 31, 2008
Crônica antiga: FALÊNCIA DO MACHO * Descobriu tudo e deu três tiros na mulher. Para bom entendedor, a manchete já disse tudo, nem é preciso ler a notícia. O crime ocorreu sexta-feira passada, na esquina da Sete de Setembro com a João Manoel. Entrei num edifício do centro, o porteiro comentava: - Nesses casos, a culpa é sempre da mulher. O homem sempre tem razão. A meu lado, estava o homicida potencial. Em minha pasta de recortes, as notícias sobre maridos que matam mulheres já estão ocupando um espaço excessivo. Ora o marido mata a mulher que o traiu, ora mata o amante da mulher, quando não mata os dois. O fato comporta algumas variantes. Mas a decisão do júri é uma só: absolvição. Defesa da honra, pretextam. Mas que honra é essa que exige sangue para ser lavada? Vejo algo de mais profundo e sintomático nessa atitude do marido e do júri. Não creio se trate apenas de defesa da honra. Mas sim medo do homem de nossa época ante a nova mulher que surge. Houve um momento na História em que o Estado encarregava-se de vingar os brios do macho insultado. Antes do surgimento da roda e da máquina, era senhor quem tinha maior força física, ou seja, o homem. O homem erigiu o Estado e as leis eram um reflexo de sua vontade absoluta. A mulher era sua propriedade, o adultério era antes de mais nada um roubo. E o Estado punia esse roubo. Jogava os adúlteros na fogueira. Ou pendurava-os no patíbulo. Os tempos mudaram. Hoje, força física não alimenta ninguém, exceto ídolos do futebol ou campeões olímpicos. A máquina permite que uma mulher execute o mesmo trabalho de um homem. Não está mais em jogo sua força física, mas sua capacidade mental. Mesmo ainda inferiorizada, a mulher pode hoje prover o seu sustento, decidir, comandar. Em outras palavras, equipara-se ao homem. Se nos primórdios da humanidade a subsistência dependia de músculos rijos, manejo do tacape ou machado, argúcia na caça, hoje subsistência depende de conhecimento, técnica, cultura. Sabemos como vive – ou melhor, sobrevive – quem só dispõe de força física para o trabalho. A fêmea do homem evoluiu. O macho continua o mesmo. Posso ser dono de um livro, de um par de sapatos, de um carro. São coisas, objetos. Eu os possuo e deles disponho como bem entender. Mas não posso ser dono de uma mulher, de um outro ser humano com vontade própria. Se minha mulher me troca por um outro homem, creio existirem apenas duas atitudes a tomar. Uma, seria cumprimentar minha mulher, caso tenha encontrado um homem melhor dotado e com mais capacidade de oferecer-lhe amor e compreensão. (Pois é bem possível que eu não seja o mais perfeito e amoroso dos homens, não é verdade?) A outra atitude seria dar-lhe pêsames, por ter-me trocado por um homem inferior e incapaz de oferecer-lhe amor. (Pois é bem possível que eu não seja o mais imperfeito e egoísta dos homens, não é verdade?) Mas o macho contemporâneo não renunciou à sua condição de senhor. Vê na mulher uma escrava, uma coisa de sua propriedade. Sente-se roubado? Mata. Os jurados o inocentam, numa espécie de alerta: “Cuidado, querida. Se me traíres, te mato. E meus colegas me absolverão”. Chamam a isto defesa da honra. Os tempos mudaram. A mulher se transformou. O homem continua o mesmo. Ao sentir-se traído, só conhece uma forma de diálogo: reage à bala. Isto é, o macho está falido. *Porto Alegre, Folha da Manhã, 03/11/1975
PAQUISTÃO IMPEDE CASAMENTO ISLÂMICO Leio em despacho da Reuters que a polícia paquistanesa invadiu um casamento infantil na cidade de Karachi e prendeu o clérigo que presidia a cerimônia para unir um menino de sete anos e uma menina de quatro. Segundo a Justiça do país, é necessário completar dezoito anos para casar, mas as leis islâmicas permitem que meninas se casem após a puberdade. Ainda assim, muitas garotas ainda mais jovens são dadas em casamento para resolver litígios ou sanar dívidas. No caso, a menina fora entregue para o casamento pelo pai 500 mil rupias (pouco mais de US$ 6 mil). Não seria de espantar que algum mulá – ou como quer que se chamem os padres no país – lançasse uma fatwa sobre a polícia paquistanesa. Afinal, o Estado está implicitamente condenando o Profeta – que Alá, o Misericordioso, o tenha em sua glória! – que casou com Aischa quando esta tinha seis anos. O casamento foi consumado aos nove.
Quinta-feira, Outubro 30, 2008
RAINHA DE ESPANHA RECUA ANTE TOTALITARISMO GAY De El Salvador, onde os reis de Espanha assistem a Cumbre Iberoamericana, um comunicado oficial da Casa Real se apressa em assinalar textualmente: "Doña Pilar Urbano, autora do livro La Reina muy de cerca, após manter una conversação privada com Sua Majestade, a Rainha, põe na boca de Sua Majestade supostas afirmações que hoje alguns meios de comunicação reproduzem". O texto afirma que as "supostas afirmações, em todo caso, foram feitas em um âmbito privado e não correspondem com exatidão às opiniões vertidas pela Rainha, como oportunamente foi feito saber à autora do livro”. Ora, segundo Pilar Urbano, a Casa del Rey leu o livro antes que este fosse impresso. É óbvio que uma autora que goza da confiança da Casa Real, a ponto de escrever um livro que é lido antes de ser publicado, não iria colocar palavras na boca de Sua Majestade. O desmentido de Sua Majestade avaliza os ativistas gays e diminui a Casa Real. O tempora, o mores! Nestes dias que correm, nem mesmo a realeza pode manifestar uma opinião adversa ao matrimônio homossexual.
ESCÂNDALO NAS HOSTES BICHESCAS DA ESPANHA Pelo jeito, discordar do casamento homossexual está prestes a se tornar crime na Espanha. A Federação Estatal de Lésbicas, Gays, Transexuais e Bissexuais (Felgtb) pediu hoje à Casa Real que retifique as declarações da rainha Sofia sobre o homossexualismo, recolhidas pela jornalista Pilar Urbano em seu livro La Reina muy de cerca. Disse doña Sofia: "Puedo comprender, aceptar y respetar que haya personas con otra tendencia sexual, pero ¿que se sientan orgullosos por ser gays? ¿Que se suban a una carroza y salgan en manifestaciones? Si todos los que no somos gays saliéramos en manifestación... colapsaríamos el tráfico. Si esas personas quieren vivir juntas, vestirse de novios y casarse, pueden estar en su derecho, o no, según las leyes de su país: pero que a eso no lo llamen matrimonio, porque no lo es. Hay muchos nombres posibles: contrato social, contrato de unión". A Felgtb não gostou. Seu presidente, Antonio Poveda, expressou sua "tremenda surpresa" ante o fato de que a Casa Real, "que representa toda cidadania, questione os direitos de uma parte da mesma". Ora, a rainha não está questionando direito algum. Admite que se as pessoas querem viver juntas, vestir-se de noivos e casar, tudo bem, desde que estejam de acordo com as leis do país. Sua preocupação é de ordem semântica. Só acha que isso não pode se chamar de matrimônio. Escândalo nas hostes bichescas da Espanha. Poveda se queixa da “frivolidade” de doña Sofia, ao duvidar de que se possa sentir orgulho de ser gay e sair às ruas para demonstrá-lo. Ora, desde meus verdes anos, sempre defendi o direito de uma pessoa a qualquer opção sexual. É questão de foro íntimo e ninguém tem nada a ver com isso. Exatamente por ser questão de foro íntimo, considero grotesco exibir sexualidade pelas ruas. Faço uma distinção entre homossexualidade e bichice. Homossexualidade é optar por pessoas do mesmo sexo. Direito de cada um. Já a ostentar a bandeira da homossexualidade em passeatas, situo no campo da bichice. Orgulhar-se de uma opção sexual significa afirmar que a outra sexualidade é inferior. Não há sexualidades inferiores ou superiores. Cada um com seu cada qual e estamos conversados. Passeatas não passam de exibicionismo. É o mesmo equívoco do Black Proud. Por que orgulhar-se de ser negro? Ser negro é, ipso facto, superior a ser branco? Há um projeto de lei contra a homofobia no Senado brasileiro, que pretende punir como crime qualquer tipo de reprovação ao homossexualismo. Se assim for, até a Bíblia terá de ser censurada. Ora, há pessoas que decididamente têm ojeriza ao comportamento homossexual. Estão em seu direito. Desde que não pretendam coibir as opções sexuais de quem quer que seja. Para Olaia Fernández, deputada do grupo nacionalista galego no Congresso, o BNG, rompeu-se o “princípio da neutralidade” da monarquia, que deve respeitar a pluralidade ideológica do Estado. Desde quando opção sexual é ideologia? Por outro lado, só por pertencer à realeza, doña Sofia não pode ter opiniões? Claro que se a rainha se manifestasse a favor do casamento homossexual, ninguém falaria em rompimento do princípio da neutralidade. Os homossexuais espanhóis estão se deixando levar pela tentação do totalitarismo. Do mesmo totalitarismo que um dia reprovou seus comportamentos. Só falta estes senhores pretenderem que doña Sofia, qual uma Marta espanhola, assuma a liderança de suas passeatas heterofóbicas.
RAÇA SEGUNDO OS DICIONÁRIOS A Internet é rápida. Hoje ainda, recebi uma chuva de mails, de leitores que me asseguram que raça é conceito que não pode ser aplicado a seres humanos. Ora, o que define a língua são os dicionários. Proponho um passeio por eles. Diz o Merriam-Webster: Race - 1: a breeding stock of animals 2 a: a family, tribe, people, or nation belonging to the same stock b: a class or kind of people unified by shared interests, habits, or characteristics 3 a: an actually or potentially interbreeding group within a species; also: a taxonomic category (as a subspecies) representing such a group b: BREED c: a category of humankind that shares certain distinctive physical traits. No Larrousse, encontro: Race - n. f. (it. razza, du lat. ratio; 1498) - 1. Ensemble des ascendants et des descendants d'une famille, d'un peuple: Race de David. - 2. Groupe d'individus se distinguant des autres par un ensemble de caractères biologiques, psychologiques ou sociaux qui se transmettent para hérédité: La foule des étudiants de toutes races descendait l'escalier (Butor). Cela soulevait toutes sortes des questions, le jazz, les races inférieures (Aragon). Etc. No Diccionario de la Real Academia Española: Raza - Casta o calidad del origen o linaje. Razas humanas - Grupos de seres humanos que por el color de su piel y otros caracteres se distinguen en raza blanca, amarilla, cobriza y negra. No dicionário María Moliner: Raza - Cada uno de los grupos en que se divide una especie orgánica, formado por indivíduos que tienen ciertos caracteres comunes que los distinguen de los de los otros grupos de la misma categoria y que se transmiten por herencia. En la especie humana, cada uno de los grandes grupos caracterizados principalmente por el color de la piel: RAZA BLANCA, NEGRA, AMARILLA Y COBRIZA. También, dentro de la raza blanca, cada uno de ciertos grandes grupos con caracteres proprios y distintivos conservados a través de la historia. Raza semita. Y, en general, grupo humano extenso en el que se pueden distinguir caracteres que lo hacen homogéneo y distinto de otros y que se transmiten por herencia: 'Raza germánica, raza latina'. No Dizionario Agostini della Lingua Italiana: Razza - denominazione non scientifica di ogni gruppo umano que appare caractterizzato da somiglianze somatiche (colore della pelle, taglio degli occhi, aspetto dei capelli, ecc.: razza bianca; discriminazioni di razza; confliti tra razze. Dicionário Aurélio: Raça - (do it. razza.) S. f. 1. Conjunto de indivíduos cujos caracteres somáticos, tais como a cor da pele, a conformação do crânio e do rosto, o tipo de cabelo, etc., são semelhantes e se transmitem por jereditariedade, embora variem de indivíduo para indivíduo. 2. O conjunto de ascendentes e descendentes de uma família, uma tribo ou um povo, que se origina de um tronco comum. 3. Ascendência, origem, estirpe, casta. 4. Descendência, progênie, geração. 5. O conjunto dos indivíduos com origem étnica, lingüística ou social comum: A América recebeu, pela imigração, europeus de diferentes raças. 6. Geração, gente: Os sertanejos são uma raça forte. 7. Qualidade que se supõe própria de uma origem ilustre, como, p. ex., a distinção, a elegância, a coragem, o vigor. Vejamos agora algo novo na lexicografia, o dicionário Houaiss: Raça 1. Divisão tradicional e arbitrária dos grupos humanos, determinada pelo conjunto de caracteres físicos hereditários (cor da pele, formato da cabeça, tipo de cabelo, etc.). Etnologicamente, a noção de raça é rejeitada por se considerar a proximidade cultural de maior relevância do que o fator racial; certas culturas de raças diferentes estão muito mais próximas do que noutras da mesma raça. Ao tentar rejeitar o conceito de raça, o velho bolchevique chega a confundir-se. Se certas culturas de raças diferentes estão muito mais próximas do que noutras da mesma raça, fica o dito pelo não-dito e raça continua existindo em sua antiga acepção.
A BÍBLIA E A EXISTÊNCIA DE RAÇAS Ano passado, ao comentar o episódio de dois gêmeos idênticos que foram considerados como branco e negro pelo sistema de cotas, a revista Veja rendeu-se vilmente ao politicamente correto e titulou com gosto na capa: É mais uma prova de que RAÇA NÃO EXISTE Se raça não existe – comentei na época - vamos então parar de falar em dálmatas, buldogs, bassets, beagles, dobermanns, filas, chihuahuas, chowchows, cockers, malteses, pequineses, pitbulls, poodles, yorkshires, São Bernardos, rottweilers. Nem nas mais de 400 raças caninas. Tampouco se fale mais, quando se trata de cavalos, em raças árabe, crioula, Holsteiner, manga larga, puros sangues ingleses, espanhóis e lusitanos, lipizzaners, appaloosa e quartos de milha, percherons, paint horses, campolinas, favacho, JB, Bela Cruz. Nem nas mais de 100 outras raças conhecidas. Abominável racismo falar em bois zebu, Aberdeen-Angus, Nelore, Hereford, Limousine, Brahman, Gir, Guzerá, holandês, charolês. Ou em ovinos merino, Texel, Île-de-France, Suffolk, Hampshire Down, Poli Dorset, Corriedale, Ideal, Laucane, Bordaleira. Tenha também respeito pelos galináceos. Elimine de seu vocabulário palavras como Legorne, D’Angola, Conchinchina, Hamburguesa, Brahma e Plymouth. Ou alguém pretende que raça só exista no reino animal? Quando surge o Homo sapiens, este ser excelso, tocado pela graça divina, raça deixa de existir? Um ano depois, o politicamente correto volta a atacar. Desta vez, através do livro Humanidade sem Raças, do doutor em genética humana Sérgio Pena, editado pela Publifolha. O autor defende a tese de que as raças e o racismo são uma invenção recente na história da humanidade. E o conceito de "raças humanas" surgiu e ganhou força com base em interesses de determinados grupos humanos, que necessitavam de justificativas para a dominação sobre outros grupos. Tem muito negro que não vai gostar. O livro chega em um momento inoportuno. Em décadas passadas, os movimentos negros haviam concluído que raça não existia. Depois do estabelecimento de cotas para universidades, voltou a existir. Segundo um projeto do senador Paulo Paim, a condição de negro deve inclusive constar em documento. Quando se trata de ganhar no tapetão, o conceito de raça é muito conveniente. Mas volto ao livro do Dr. Pena, em cuja introdução lemos: “Parece existir uma noção generalizada de que o conceito de raças humanas e sua indesejável conseqüência, o racismo, são tão velhos como a humanidade. Há mesmo quem pense neles como parte essencial da "natureza humana". Isso não é verdade. Pelo contrário, as raças e o racismo são uma invenção recente na história da humanidade”. Curiosa afirmação feita por quem, um pouco antes no mesmo texto, afirma: “A Bíblia nos apresenta os Quatro Cavaleiros do Apocalipse: Morte, Guerra, Fome e Peste. Com os conflitos na Irlanda do Norte, em Ruanda e nos Bálcãs, no fim do século passado, e após o 11 de Setembro, a invasão do Afeganistão e do Iraque e os conflitos de Darfur no início do século 21, temos de adicionar quatro novos cavaleiros: Racismo, Xenofobia, Ódio Étnico e Intolerância Religiosa”. Para fazer afirmação tão abrangente, é de supor-se que o Dr. Pena andou lendo o Livro. Ainda em sua introdução, o autor considera que o primeiro modelo estrutural da diversidade humana, com base na divisão da humanidade em raças bem definidas, foi desenvolvido nos séculos 17 e 18 e culminou no racismo científico da segunda metade do século 19 e no movimento nazista do século 20. Pelo jeito, o Dr. Pena anda com a Bíblia debaixo do sovaco, como os pastores evangélicos, e não se deu ao trabalho de lê-la atentamente. Pois o conceito de raças já está lá, no livro mais antigo do Ocidente. Senão vejamos Atos, 17, 24, quando Paulo, em Atenas, em pé no meio do Areópago, afirma: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há (...) de um só fez todas as raças dos homens, para habitarem sobre toda a face da terra, determinando-lhes os tempos já dantes ordenados e os limites da sua habitação.” Ou Esdras, 9, 1 – “Ora, logo que essas coisas foram terminadas, vieram ter comigo os príncipes, dizendo: O povo de Israel, e os sacerdotes, e os levitas, não se têm separado dos povos destas terras, das abominações dos cananeus, dos heteus, dos perizeus, dos jebuseus, dos amonitas, dos moabitas, dos epípcios e dos amorreus; pois tomaram das suas filhas para si e para seus filhos; de maneira que a raça santa se tem misturado com os povos de outras terras; e até os oficiais e magistrados foram os primeiros nesta transgressão”. Há uma raça santa, a dos filhos de Israel. É bom lembrar que Jeová, antes de ser um deus nacional, é um deus étnico. Existe a raça eleita, os judeus. E o resto é o resto. São os goyim. Ainda em Atos, 7, 17 – “Enquanto se aproximava o tempo da promessa que Deus tinha feito a Abraão, o povo crescia e se multiplicava no Egito; até que se levantou ali outro rei, que não tinha conhecido José. Usando esse de astúcia contra a nossa raça, maltratou a nossos pais, ao ponto de fazê-los enjeitar seus filhos, para que não vivessem. Nesse tempo nasceu Moisés, e era mui formoso, e foi criado três meses em casa de seu pai”. Nossa raça, diz o hagiógrafo. Não é um goy que confere aos judeus a característica de raça. É Lucas, narrador judeu. Ainda em Romanos, 2, 13, diz Paulo: “Mas é a vós, gentios, que falo; e, porquanto sou apóstolo dos gentios, glorifico o meu ministério, para ver se de algum modo posso incitar à emulação os da minha raça e salvar alguns deles”. Em II Coríntios, 2, 25, ainda é Paulo quem fala: “Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo; em viagens muitas vezes, em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha raça”. De novo, não é um goy quem fala, mas o judeu Paulo de Tarso. Saulo, antes de sua conversão. Nosso especialista em genética humana peca por total desconhecimento de história, ao afirmar que o conceito de raça surge nos séculos 17 e 18. Resta a pergunta: que interesse tem a Publifolha em publicar textos de tamanha fragilidade intelectual?
Quarta-feira, Outubro 29, 2008
DEUS NUNCA PERDE No livro A Força da Fé, escrito pela jornalista Iva Oliveira, a apresentadora Ana Maria Braga, que já venceu dois cânceres, atribui sua cura à intervenção divina e a correntes de oração. “Sei também que as mensagens positivas e as correntes de oração que fizeram para mim foram fundamentais para que eu pudesse enfrentar momentos tão difíceis. Recebi muita energia da família, dos amigos e dos telespectadores. Essa fé transformou a minha vida, apesar de que Deus sempre teve um significado muito grande para mim, mesmo antes de ficar doente”. Ah! Eu conheço essas correntes. Quando minha mulher adoeceu, diversas correntes de oração foram formadas em várias capitais do país. Os participantes todos estavam convictos de que ela seria curada pelo poder da fé. “Estamos empenhando nossos créditos junto ao Poderoso” - disse-me um deles. Eu, que jamais acreditei nessas baboseiras, não podia reclamar. Estava de mãos atadas. Era um gesto de carinho em relação à Baixinha e isso não é coisa que se possa recusar. Ela acabou partindo. De repente, mudou completamente a visão dos crentes: “agora, ela está em um mundo melhor”. Ora, se ao morrer vamos para um mundo melhor, por que não rezavam então os crentes para que morresse logo? Por que faziam correntes para que ficasse neste mundo pior? Esta pergunta jamais me foi respondida. Com a mesma nonchalance de um Abraão ou Moisés, Ana Maria Braga tem comunicação direta com o Poderoso: “Eu nunca deixei de falar com Deus. Também rezava muito na época em que estudei em colégio de freiras. Tinha até calos nos joelhos, pois era o dia inteiro rezando”. Não só com o Poderoso, mas também com demais potestades: “Desde aquela época, passei a ser devota de Nossa Senhora de Lourdes e sempre tive São Benedito na minha cozinha. Porém, de uns tempos para cá, como todo mundo sabe, Nossa Senhora de Fátima Peregrina se transformou em minha grande companheira. Não que eu tenha deixado de ser devota dos outros santos, mas Nossa Senhora de Fátima passou a ter um significado muito grande porque entreguei minha vida em suas mãos na época do meu segundo câncer. Foi quando ela começou a me visitar em casa. Estava muito carente e a chegada da santa foi uma bênção. Ela virou uma grande amiga. Toda noite, conversava com ela. Chorava a seus pés e encontrava forças para lutar contra a doença. Nossos diálogos eram tão intensos que ouso dizer que ela sorria para mim. Hoje, além de recebê-la com freqüência em casa, onde há um altar reservado para ela, faço uma missa em sua homenagem anualmente, porque prometi que assim seria caso sobrevivesse. É a minha maneira de agradecer”. Ao ter detectado seu último câncer, por via das dúvidas Ana Maria Braga buscou medicina de ponta em Miami, para ver se havia metástases. O resultado foi negativo. Espanta saber que a moça buscou resposta na vã ciência dos mortais, quando poderia interrogar o Onisciente. Se tem tanta intimidade com Deus, a ponto de falar com ele a qualquer hora, bem que poderia perguntar-lhe sobre a evolução da doença. Ou, se não quisesse desviar a atenção do Senhor de suas graves preocupações com o universo, bem que podia perguntar para a Fátima, sua grande amiga. Em vez de entregar-se aos cuidados do Senhor ou aos braços de sua grande amiga, Ana Maria Braga preferiu internar-se em um dos mais reputados hospitais de São Paulo, o Sírio Libanês. Em vez de entregar-se à graça divina, prudentemente, preferiu fazer quimioterapia. Uma vez curada, encomenda missas não para seus médicos, nem para o Sírio Libanês, mas para a Fátima Peregrina. Insólita homenagem, afinal a Fátima - como também as demais Marias, que no fundo são uma só - está desde há muito nos céus e não precisa de missa alguma. “Considero-me atualmente uma pessoa espiritualizada, pois, além da crença nos meus santos, sigo princípios do budismo, acredito na vida após a morte e vou tirando um pouquinho de cada religião”. Quer dizer, uma fichinha em cada fé. Nunca se sabe. De qualquer forma, melhor apelar à boa medicina. Deus sempre ganha. Se a pessoa se cura, é porque Ele a curou. Se morre, é porque Ele, em sua misericórdia, a levou para um mundo melhor. Razão tinha Sua Santidade Bento XVI, ao afirmar que a palavra divina é mais sólida que ações na Bolsa. Largue suas ações da Vale, Petrobras, Volkswagen. Faça como Ana Maria Braga, aposte no Verbo divino.
INTERNET ANULA GREVE Le Monde anuncia que hoje não estará nos quiosques, devido a uma greve de distribuidores. Mas que pode ser acessado em seu site. Certas greves perdem o sentido nestes dias de Internet.
ESPÍRITO DE JERICO BAIXA NO MINISTÉRIO PÚBLICO Não passa mês neste país sem que alguma autoridade incorpore o espírito de jerico. Desta vez, foi o Ministério Público Federal (MPF), que protocolou ontem uma ação civil pública em São José dos Campos contra as três principais cervejarias brasileiras, com pedido de indenização pelo aumento nos danos causados pelo consumo de cerveja e chope. Com base em mais de dez estudos científicos sobre o álcool, o procurador da República Fernando Lacerda Dias exige que AmBev, Schincariol e Femsa paguem R$ 2,764 bilhões e ainda invistam o mesmo valor gasto com publicidade em programas de prevenção e tratamento de dependentes. Primeira pergunta que salta aos olhos: por que a cerveja e o chope? De todos os álcoois que o mercado oferece, por sua gradação a cerveja é o mais inofensivo. É óbvio que um vinho a 12º, 13º ou mais graus será mais prejudicial que uma cervejinha a 5º ou 6º. Isso sem falar nos destilados a 40 e mais graus. Se pensarmos em acidentes de trânsito, também é óbvio que uísque ou cachaça embriagam mais e mais rápido que inocentes chopes. Além do mais, não existe recente legislação proibindo dirigir após beber um copo de cerveja? Segunda pergunta: se é para indenizar danos causados à saúde, por que não taxar os açougues e churrascarias? Picanha gorda também mata. E uma última pergunta: alguém porventura é coagido a beber? É quando surge o argumento do poder da propaganda. Segundo o procurador, “a propaganda de cerveja e chope não serve simplesmente para fixar uma marca. Há uma pesquisa bancada pela Organização Mundial da Saúde que mostra que a publicidade induz um aumento de 11% no consumo global de bebidas alcoólicas, até mesmo acarretando a iniciação precoce ao consumo”. Melhor ir à raiz do problema. Proiba-se então a publicidade do álcool. Não imagine o procurador que uma empresa fará publicidade se não for para vender mais. De minha parte, desconfio desse suposto poder avassalador da propaganda. A cerveja já era consumida nos tempos dos Faraós, e não temos registro de que os antigos egípcios conhecessem técnicas de marketing. O álcool acompanhou a humanidade durante séculos, quando sequer se cogitava de publicidade. Regou as saturnálias romanas e as orgias gregas, saciou a sede dos exércitos e alegrou homens e mulheres de todas as classes sociais. Os exércitos romanos sempre levavam consigo grandes estoques de vinho. Não por influência da publicidade. É que temiam beber água dos poços dos territórios ocupados, que podia estar envenenada. O álcool sempre foi bom companheiro. Alá não gosta de álcool? Bom, mas no deserto não dá mesmo para plantar uva ou cereais. É preciso alguma publicidade para que alguém consuma drogas? Nunca vi propaganda alguma de maconha, crack ou cocaína. Apesar de proibidas, estas drogas estão à mão de quem quiser consumí-las. Por mais que autoridades ou polícia tentem coibi-las, seu consumo sempre aumenta. Comecei a beber relativamente jovem, e não lembro de publicidade alguma que me induzisse a beber. Bebia porque meus amigos de bar bebiam, e não se vai a bar para beber água. O mesmo já se tentou em relação à indústria tabagista. Pessoas que fumaram uma vida toda, destruídas pelo câncer, enfisema e doenças coronarianas, pretenderam processar as empresas do tabaco pelos danos causados pelo cigarro. Ou seja: eu fumo, eu bebo, destruo meu organismo alegremente e passo a conta para o fornecedor de meus prazeres. Pelo jeito, o procurador viu as contas de publicidade das companhias cervejeiras e cresceu-lhe o olho grande.
Terça-feira, Outubro 28, 2008
BOAS LEITURAS Seguidamente, leitores me pedem sugestões de boas leituras. A pergunta é complicada, afinal cada leitor tem seus interesses. Quem quiser sugestões inteligentes, pode visitar o blog de Guilherme Roesler: http://acao-humana.blogspot.com. Nas últimas postagens, resenhas sobre O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler.
QUEM MATOU ELOÁ? Em crônica passada, comentei que o assassinato da menina seqüestrada em Santo André ocorreu em função do clima pré-eleitoral. Os atiradores de elite tiveram o criminoso por seis vezes na mira. Mas não ficaria bem para o governo, como me aventava um leitor, a televisão mostrar ao eleitorado restos do cérebro do criminoso espalhados no piso. A vantagem de Kassab sobre Marta Suplicy poderia esvanecer-se no ar. Melhor deixar estar para ver como fica. Como ficou, todos sabemos. Uma menina morta e outra com um balaço na boca. O criminoso saiu ileso. Jornal algum aventou esta hipótese. A imprensa paulistana está de mãos atadas quando se trata de criticar José Serra. Na Folha de São Paulo, por exemplo, é proibida qualquer crítica a Serra. Na edição de hoje da Folha, lemos esta discreta notinha, reproduzida do jornal Agora: Governo não autorizou tiro em Lindemberg O promotor Antonio Nobre Folgado disse ontem que os integrantes do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) não tinham autorização do gabinete de crise e de seus superiores para realizar o "tiro de neutralização" contra Lindemberg Alves Fernandes, 22, que matou Eloá Cristina Pimentel, 15. O gabinete de crise era constantemente informado sobre o andamento da situação e era formado por José Serra (PSDB), pelo secretário da Segurança Pública, Ronaldo Marzagão e pela cúpula da PM. Segundo o promotor, essas informações constam dos depoimentos de PMs e dos comandantes do Batalhão de Choque, coronel Eduardo Félix, e do Gate, Adriano Giovaninni. Ao ser aprisionado e desarmado, o criminoso andou levando uns tabefes. O Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana de São Paulo (Condepe-SP) enviou à Ouvidoria das Polícias do Estado de São Paulo o pedido para investigar a agressão a Lindemberg Alves. Claro que os direitohumanistas jamais pedirão para investigar o assassinato de Eloá. Os policiais estavam de mãos atadas. Imagine se além de uns tabefes, o criminoso fosse morto. Kassab arriscaria perder as eleições. Se alguém é responsável pela morte da menina Eloá, este alguém se chama José Serra. Mas é claro que nenhum jornal da grande imprensa levantará esta lebre.
Segunda-feira, Outubro 27, 2008
Momentos sublimes da Bíblia: PARA CONQUISTAR BETSABÉ, O SÁBIO E JUSTO REI DAVI MANDA MATAR SEU MARIDO II Samuel 11, 1 - Tendo decorrido um ano, no tempo em que os reis saem à guerra, Davi enviou Joabe, e com ele os seus servos e todo o Israel; e eles destruíram os amonitas, e sitiaram a Rabá. Porém Davi ficou em Jerusalem. Ora, aconteceu que, numa tarde, Davi se levantou do seu leito e se pôs a passear no terraço da casa real; e do terraço viu uma mulher que se estava lavando; e era esta mulher mui formosa à vista. Tendo Davi enviado a indagar a respeito daquela mulher, disseram-lhe: Porventura não é Betsabé, filha de Eliã, mulher de Urias, o heteu? Então Davi mandou mensageiros para trazê-la; e ela veio a ele, e ele se deitou com ela (pois já estava purificada da sua imundícia); depois ela voltou para sua casa. A mulher concebeu; e mandou dizer a Davi: Estou grávida. Então Davi mandou dizer a Joabe: Envia-me Urias, o heteu. E Joabe o enviou a Davi. (...) Pela manhã Davi escreveu uma carta a Joabe, e mandou-lha por mão de Urias. Escreveu na carta: Ponde Urias na frente onde for mais renhida a peleja, e retirai-vos dele, para que seja ferido e morra. Enquanto Joabe sitiava a cidade, pôs Urias no lugar onde sabia que havia homens valentes. Quando os homens da cidade saíram e pelejaram contra Joabe, caíram alguns do povo, isto é, dos servos de Davi; morreu também Urias, o heteu.
Momentos sublimes da Bíblia: PARA PUNIR DAVI PELA MORTE DE URIAS, O BOM JEOVÁ MATA SEU FILHO INOCENTE II Samuel 12, 9 - Por que desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o mal diante de seus olhos? A Urias, o heteu, mataste à espada, e a sua mulher tomaste para ser tua mulher; sim, a ele mataste com a espada dos amonitas. Agora, pois, a espada jamais se apartará da tua casa, porquanto me desprezaste, e tomaste a mulher de Urias, o heteu, para ser tua mulher. Assim diz o Senhor: Eis que suscitarei da tua própria casa o mal sobre ti, e tomarei tuas mulheres perante os teus olhos, e as darei a teu próximo, o qual se deitará com tuas mulheres à luz deste sol. Pois tu o fizeste em oculto; mas eu farei este negócio perante todo o Israel e à luz do sol. Então disse Davi a Natã: Pequei contra o Senhor. Tornou Natã a Davi: Também o Senhor perdoou o teu pecado; não morreras. Todavia, porquanto com este feito deste lugar a que os inimigos do Senhor blasfemem, o filho que te nasceu certamente morrerá. Então Natã foi para sua casa. Depois o Senhor feriu a criança que a mulher de Urias dera a Davi, de sorte que adoeceu gravemente. Davi, pois, buscou a Deus pela criança, e observou rigoroso jejum e, recolhendo-se, passava a noite toda prostrado sobre a terra. Então os anciãos da sua casa se puseram ao lado dele para o fazerem levantar-se da terra; porém ele não quis, nem comeu com eles. Ao sétimo dia a criança morreu; e temiam os servos de Davi dizer-lhe que a criança tinha morrido; pois diziam: Eis que, sendo a criança ainda viva, lhe falávamos, porém ele não dava ouvidos à nossa voz; como, pois, lhe diremos que a criança morreu? Poderá cometer um desatino.
Momentos sublimes da Bíblia: APÓS SABER DA MORTE DO FILHO, DAVI COME E DEITA COM BETSABÉ II Samuel 12,19 - Davi, porém, percebeu que seus servos cochichavam entre si, e entendeu que a criança havia morrido; pelo que perguntou a seus servos: Morreu a criança? E eles responderam: Morreu. Então Davi se levantou da terra, lavou-se, ungiu-se, e mudou de vestes; e, entrando na casa do Senhor, adorou. Depois veio a sua casa, e pediu o que comer; e lho deram, e ele comeu. Então os seus servos lhe disseram: Que é isso que fizeste? pela criança viva jejuaste e choraste; porém depois que a criança morreu te levantaste e comeste. Respondeu ele: Quando a criança ainda vivia, jejuei e chorei, pois dizia: Quem sabe se o Senhor não se compadecerá de mim, de modo que viva a criança? Todavia, agora que é morta, por que ainda jejuaria eu? Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei para ela, porém ela não voltará para mim. Então consolou Davi a Betsabé, sua mulher, e entrou, e se deitou com ela. E teve ela um filho, e Davi lhe deu o nome de Salomão.
Domingo, Outubro 26, 2008
QUANDO PESQUISA É QUESTÃO DE FÉ No dia 15 de agosto passado, uma pesquisa Ibope mostrava que Marta Suplicy, candidata à prefeitura de São Paulo pelo PT, liderava a campanha eleitoral com 41% das intenções dos votos. Geraldo Alckmin (PSDB) era o segundo colocado, com 26%. Em seguida, apareciam os candidatos Paulo Maluf (PP), com 9%, e o atual prefeito, Gilberto Kassab (DEM), que caíra para 8%. Confiando nos dados da pesquisa, comentei que daria Marta na cabeça. Escrevi que o racha do PSDB e a teimosia de Alckmin e Kassab iriam entregar de novo a prefeitura de São Paulo ao PT e a uma perua que já fizera uma gestão desastrosa. O Supremo Apedeuta concordava comigo. "Só para lembrar, a Marta vai ganhar as eleições em São Paulo com os votos do povo da cidade", disse Lula após reunião com o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, em Nova Delhi. Há horas em que até mesmo um ateu empedernido vira místico. Graças ao bom Deus, me enganei redondamente. Com 100% das urnas apuradas, a candidata do PT teve a pior derrota na disputa pelas prefeituras de capitais neste segundo turno das eleições. O resultado final ficou em 60,72% dos votos válidos para Kassab contra 39,28% para Marta. A diferença foi de 21,44 pontos percentuais. Em dois meses, de lanterninha Kassab passou a vencedor, com larga vantagem de votos. Ou seja, pesquisa é questão de fé. Meu consolo é que Dona Marta Teresa Smith de Vasconcelos Suplicy, que há dois meses andava de salto alto, também se enganou redondamente. O Supremo Apedeuta também.
Sábado, Outubro 25, 2008
FEEL CHIC, QUE A CRISE NÃO EXISTE Há uma crise financeira no planetinha, não é verdade? O mercado imobiliário afunda, bolsas idem, bancos também. O Ocidente – e não só o Ocidente – tem medo. Medo de 29, medo do desemprego, medo da recessão. Medo, pelo jeito, só não existe neste país abençoado por Deus, bonito por natureza, que beleza! Há duas semanas, aqui em São Paulo, foram leiloados por cinco mil reais oitenta lugares do assim chamado “Jantar do Século” - e isso que o século recém iniciou – evento que reunirá a também assim chamada vanguarda da gastronomia espanhola, capitaneada pelo também assim chamado chef dos chefs, Ferran Adrià. O menu do jantar, que será realizado na próxima segunda-feira, terá 19 pratos: dez servidos à mesa e nove em estações onde os 15 chefs convidados demonstrarão diante dos comensais toda técnica que utilizam. Adrià elaborará um moshi de gorgonzola e um pão-de-ló de gergelim negro. Juan Mari Arzak, por sua vez, um atum em fogueira de escamas e cebola. Já o chef basco Martín Berasategui, irá preparar um mil-folhas caramelizado de enguia defumada, foie gras e maçã verde. Os vinhos, incluídos no valor do jantar, serão harmonizados por Danio Braga, do Locanda Della Mimosa, de Petrópolis, no Rio de Janeiro. É o que dizem os jornais. Ora, por cinco mil reais você vai e volta a Paris, come muito bem em pelo menos dez restaurantes dos melhores e ainda sobra troco. É preciso ser muito brasileiro para cair neste conto. Os tais de chefs descobriram esta tendência que reside no DNA tupiniquim e estão investindo firme na brasílica estupidez. Não só os chefs. As grifes de moda também. Leio na Folha de São Paulo que hoje você pode desfilar com bolsa Chanel, rodar de Ferrari, ostentar jóias e impressionar convidados exibindo obras de arte em casa, sem que nada disto seja seu. Basta alugar para pertencer ao clube dos endinheirados. Pelo menos aparentemente. Mas isto é o que importa. Segundo o jornal, a última novidade é a Feel Chic, que aluga acessórios de marcas como Salvatore Ferragamo e Louis Vuitton. É uma cópia das americanas Bag Borrow or Steal e Borrowed Bling. O aluguel semanal de uma bolsa de R$ 8.000 chega a R$ 540. Mas quem paga para dar rolê com bolsa de grife? – pergunta-se o jornal. Gente como a executiva Karina Zambotti, que lá de Nova York explica: "Aluguei uma Chanel dourada por R$ 400 para vir a uma reunião da empresa. Tenho uma Louis Vuitton, mas é menor. Venho para cá várias vezes por ano, já conhecia o conceito. Achei legal isso chegar ao Brasil: para mim, vale a pena alugar, porque compro uma, logo quero outra." Na locadora Star Cars, você pode alugar uma Ferrari, por módicos dois mil reais por três horas. Você pode também alugar desde tapetes persas, até móveis e obras de arte, para exibi-los como se fossem seus. Segundo o decorador Nando Marmo, o aluguel de uma tela fica em 5% do seu valor. Por seu trabalho, cobra algo entre R$ 1.500 e R$ 25 mil. Exemplo de cliente? O executivo que fez marketing de relacionamento para fechar um contrato. "Coloquei santos barrocos, lustres Baccarat e uma tela do Di Cavalcanti na sala dele." Não se sabe se o contrato vingou, mas "ficou um luxo". O cliente, às vezes, quer impressionar por razão romântica: o decorador já montou cena com escultura de Victor Brecheret e tudo, para turbinar o pedido de casamento durante um jantar íntimo. Conta a pediatra Paula Ranzini, sócia de uma loja de aluguel de bolsas, a Feel Chic: “Uma das nossas amigas e agora sócia descobriu um site em Nova York que aluga bolsas de marcas de luxo. Ela alugou uma Louis Vuitton, passou uma semana com a bolsa. A sensação foi maravilhosa, voltou contando como ela chamou a atenção nos lugares e foi bem tratada. Então sugeriu que montássemos um negócio parecido aqui. Achamos genial”. Nada de comprar uma réplica na 25 de Março. “Quando você usa bolsa falsa, sabe que não é de verdade e os outros podem perceber. Pega mal. Além disso, o mercado de falsificação envolve muita coisa errada”. Cobra-se de 8% a 10% do valor da bolsa, por semana. Segundo a pediatra, com a alta do dólar, as bolsas vão ficar mais caras ainda. As pessoas preferem então alugar. Estadistas e economistas quebram a cabeça sobre como enfrentar a crise. Ora, é simples. Finja que a crise não existe. E continue vivendo em um patamar no qual não pode viver. Você não tem? Alugue e será como se tivesse. A realidade pouco ou nada tem de real. O que importa são as aparências. Feel chic, e a crise será conjurada.
Sexta-feira, Outubro 24, 2008
SOBRE MONGES MISÓGINOS, MILIONÁRIOS E CORRUPTOS Existe na Grécia uma montanha jamais pisada por mulher, desde que foi consagrada à Virgem, há mais de mil anos. É o monte Athos, a Montanha Sagrada. Em grego, Aghion Oros. Não só mulheres estão proibidas de pisar o solo sagrado, como toda e qualquer fêmea, seja cabra, ovelha ou galinha. No cais do porto pelo qual se chega à montanha, monges com olhos treinados vigiam para que nenhuma mulher vestida de homem profane o monte Athos. Em sua autobiografia, Testamento para El Greco, Nikos Kazantzakis conta sua visita a esta montanha só pisada por machos. O amigo que acompanhava Kazantzakis quis saber como os monges distinguiam as mulheres dos homens. - Pelo cheiro – respondeu um jovem monge. E pediu ao rapaz que se dirigisse a um monge mais velho, que já fora sentinela no cais. - As mulheres tem outro cheiro, Santo Padre? Que cheiro têm? - Como gambás, fedorentas – respondeu o ancião. Espécie de Vaticano greco-ortodoxo, este Estado misógino, com 371 km2, está situado na mais oriental das três penínsulas da Tessalônica, ao norte da Grécia e abriga cerca de 1500 monges ortodoxos, distribuídos em vinte mosteiros principais. Mesmo pertencendo ao território grego, constitui uma entidade teocrática independente. Para entrar no monte Athos, é preciso uma permissão especial, apesar de a Grécia fazer parte da União Européia e ter abolido os controles de fronteira. O encrave é rico em tesouros artísticos, como antigos manuscritos, ícones e afrescos. Desde suas origens, a Montanha Santa hospedou místicos e mestres espirituais cujos escritos foram recolhidos no século XVIII numa antologia - a Filocalia - que influenciou profundamente o mundo ortodoxo. Os monges seguem uma vida de desapego aos bens materiais. Desapego, mas não muito, ao que tudo indica. Segundo o Courrier International, um sagrado escândalo sacode a Grécia. Até o momento intocável, o monastério de Vatopediou, um dos vinte da montanha santa, está sendo denunciado por transações imobiliárias duvidosas realizadas com o Estado. A affaire diz respeito a duas construções da vila olímpica, erguidas para os jogos de 2004, cedidas ao monastério pelo governo por uma soma simbólica e imediatamente revendidas pelos monges por uma plus-valia considerável. O jornal grego Eleftherotypia pesquisou as posses do monastério, que é proprietário de numerosos bens na Grécia, como também em dez outros países, entre os quais a Bulgária, Romênia, Moldávia, Chipre e Turquia. Este patrimônio é calculado em centenas de milhões de euros. Trata-se de terras cultiváveis, terrenos de construção, residências, hotéis, empresas de todo tipo e mesmo minas. Nada mau para quem se dedica a uma vida monástica. Para o jornal de oposição Ta Nea, as revelações de transações entre o Estado e o monastério de Vatopediu estão longe de acabar. “Em apenas um ano, vários terrenos foram doados ao monastério pelo Estado. Os monges decidiram então trocá-los pelas duas construções da vila olímpica, revendidas três meses depois por cerca de 41 milhões de euros, o dobro do preço de compra. Outras propriedades, como terrenos e lagos, teriam custado ao Estado mais de cem milhões de euros, isentos de imposto. Com efeito, a Igreja não paga imposto. Nenhum imposto. No entanto, uma tributação da Igreja, maior proprietária da Grécia, permitiria reequilibrar o orçamento do Estado”. Misóginos, mas malandros, nossos monges. Não gostam de mulheres. São fedorentas. Mas nada têm contra o vil metal. Dinheiro não tem cheiro. Igrejas em muito se parecem.
Quinta-feira, Outubro 23, 2008
REVERENDO BRITÂNICO COMPARA GABEIRA A BÍBLICO ASSASSINO Quando Dona Marta Teresa Smith de Vasconcelos Suplicy insinuou em campanha eleitoral a homossexualidade de Gilberto Kassab, não faltou quem comparasse esta intromissão na privacidade do candidato com a entrevista de Fernando Henrique Cardoso a Boris Casoy, em 1985, quando este perguntou se ele acreditava em Deus. FHC vacilou isto teria sido decisivo para sua derrota por Jânio Quadros nas eleições para prefeito de São Paulo. Está se comparando triângulos com laranjas. Homossexualidade é questão de foro íntimo e ninguém está obrigado a exibir o sexo na televisão e jornais. Já é bom saber qual a crença de cada candidato. Não só a crença em Deus, como ainda a que religião pertence. Imagine se um pastor evangélico é eleito prefeito de uma cidade como São Paulo. Dia seguinte, ele baixa lei permitindo que os templos façam quanta algazarra quiserem para exorcizar os demônios. Para os evangélicos, o demônio é surdo e só sai do corpo do crente quando conjurado em altos berros. Mas não era disto que queria falar. Anteontem, a Folha de São Paulo fez a Fernando Gabeira a fatídica pergunta feita a FHC: você acredita em Deus? O intrépido ex-guerrilheiro - que teve o destemor de erguer-se em armas contra o Exército nacional - como cão medroso que foge com o rabo entre as pernas, saiu pela tangente: - Defendo liberdade de religião. Tenho em relação aos verdadeiros religiosos duas afinidades. A primeira é a compaixão como sentimento mais importante. A segunda é o relativo desapego a bens materiais. Quer dizer, não disse nada. Por um lado, ficaria mal para um intelectual que posa de esclarecido admitir sua crença em superstições milenares. Por outro, ele sabe muito bem que neste país ateu perde mais votos que homossexual. A Folha insiste: e divindade, Deus? De novo Gabeira foge à pergunta: - Essa noção é ocidental. Se você tem compaixão, desapego a bens e está junto das pessoas, acreditar em Deus não fará diferença na relação de fraternidade. De novo, não respondeu. Além do mais, disse bobagem. A noção de Deus não é ocidental. Diga-se de passagem, vem do Oriente. Existia antes mesmo do conceito de Ocidente. Gabeira, empatado com seu oponente, está namorando os evangélicos. Uma mãozinha divina faz diferença, se faz! Ontem, em Campo Grande, recebeu o apoio do líder da Igreja Reina, o bispo Hermes Fernandes, e de pastores da Assembléia de Deus e das igrejas Batista e Presbiteriana. O reverendo inglês Martin Scott, em visita ao Brasil pela Pioneer Church, comparou-o a Moisés. "Moisés se inquietou muito com a pobreza e a escravidão em que o povo se encontrava na época. Atravessou uma época sendo mal compreendido, uma temporada de exílio, mas voltou para o seu povo. Ele ficou relutante e teve dificuldade para aceitar aquele chamado. Não estou dizendo que você é como ele, mas há uma comparação", afirmou Scott. Como Moisés, Gabeira de fato teve de optar pelo exílio. Por pertencer a um grupo armado e por ter seqüestrado um embaixador americano. Mas não matou ninguém. O que o reverendo não contou é que Moisés exilou-se por ter assassinado um feitor no Egito. Começou sua carreira de patriarca com um crime. Para o reverendo Scott, que parece estar ainda no século 13 A.C., "a Bíblia é clara quando diz que os apontados para cargos públicos são apontados de Deus. Esse é o momento mais importante da sua vida, quando todos os motivos para você ter nascido estão para se cumprir". Logo Gabeira, o defensor da liberação da maconha e do casamento entre homossexuais. O reverendo parece não ter lido o Levítico: “Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; é abominação”. Isto é o de menos. Começando sua vida como assassino, Moisés, já na condição de líder de Israel, manda passar a fio de espada nada menos que três mil judeus. Exatamente o mesmo número de assassinatos pelos quais Pinochet foi acusado de genocídio. Lemos no Êxodo, 32: 25 Quando, pois, Moisés viu que o povo estava desenfreado (porque Arão o havia desenfreado, para escárnio entre os seus inimigos), 26 pôs-se em pé à entrada do acampamento, e disse: Quem está ao lado do Senhor, venha a mim. Ao que se ajuntaram a ele todos os filhos de Levi. 27 Então ele lhes disse: Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: Cada um ponha a sua espada sobre a coxa; e passai e tornai pelo acampamento de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, e cada um a seu amigo, e cada um a seu vizinho. 28 E os filhos de Levi fizeram conforme a palavra de Moisés; e caíram do povo naquele dia cerca de três mil homens. Fosse Gabeira comparado a Pinochet, certamente se sentiria caluniado. Claro que não recusará a comparação ao bíblico assassino. Não vai jogar fora preciosos milhares de votos.
Quarta-feira, Outubro 22, 2008
RAMADÃ SALAFISTA NÃO É TÃO RUIM ASSIM O salafismo é um movimento reformista islâmico que surgiu no Egito no final do século XIX. Produto do contato entre o mundo muçulmano e o ocidental, tem por objetivo reformar a doutrina islâmica de forma a adaptá-la aos novos tempos. Entre seus teóricos, está um grupo de intelectuais da universidade Al-Azhar, do Cairo. Comentei outro dia a doutrina rabinica segundo a qual o leite materno não é impuro, e portanto seu consumo é permissível aos filhos de Israel. Com uma restrição: adulto não pode mamar. Abominável dogmatismo judaico. Para os salafistas, nada obsta. Pelo contrário, é um direito. O Islã é supreendente. Izzat Al-Attiah, ulemá egípcio e antigo responsável do departamento de estudos do Hadith na universidade Al-Azhar, lançou fatwa autorizando a amamentação dos adultos durante o ramadã. Fatwa é fatwa. Os salafistas ameaçaram repudiar suas mulheres se elas se recusam a amamentar os amigos que passam o ramadã em suas casas. Os maridos exigem que suas consortes amamentem seus hóspedes. No fundo, a intenção é evitar toda relação ambígua. As mulheres têm de dar o seio aos amigos para estabelecer uma relação familial pelo leite, impedindo assim toda relação ilícita. Prudentes, os salafistas. Não pensa da mesma forma o xeique argelino Shamsedine Bouroubi. Em entrevista ao jornal Al-Chourouk, Bouroubi denuncia a importação de fatwas do estrangeiro e alerta sobre os efeitos nefastos destas práticas na sociedade argelina. O xeique considera esta fatwa uma deriva perigosa e inquietante do Islã no país e conclama os ulemás e pregadores a intervir e pôr fim à aplicação de fatwas importadas. Conta que um empresário argeliano, atraído por uma de suas empregadas, o consultou sobre a legalidade desta fatwa. Ele queria mamar nos seios de sua funcionária, e para isso consultou o santo homem. Sei lá! Pouco conheço da teologia muçulmana. Mas sou mais o ulemá Izzat Al-Attiah. Mulher que se recusa ao mais comezinho dever de hospitalidade tem de ser repudiada mesmo. Talak, talak, talak.
POLÍCIA IANQUE PROTEGE HONRA DE ASPIRADOR Que um moralismo fanático vige em certos Estados americanos, disto todos sabemos. Mas agora os moralistas exageraram. Leio no noticiário on line que a polícia de Michigan prendeu um homem surpreendido mantendo relações sexuais com um aspirador, na lavadora de automóveis em que trabalhava. A informação foi divulgada pelo jornal The Saginaw News. O homem de 29 anos, que não teve o nome divulgado, foi preso depois que a polícia recebeu a denúncia de um morador próximo. O informante disse que aconteciam "atividades suspeitas" no estabelecimento. Surpreendido durante o ato sexual, o homem foi enviado à prisão do condado de Saginaw. O Saginaw News não esclarece em que figura penal foi enquadrado o indigitado réu. Tampouco informa se o aspirador era menor de idade, se era ou não virgem, se o sexo foi consensual ou forçado. Nem se o aspirador era de programa. A menos que aspiradores tenham personalidade jurídica nos Estados Unidos, estamos diante de um caso de insólita intolerância. Mais um pouco e os legisladores ianques criminalizam o uso de vibradores e cucurbitáceas.
BERDIMUJAMEDOV E O KNOW-HOW NOSSO Gurbanguli Berdimujamedov, presidente do Turcomenistão, imbuído por aquele conhecido trejeito do “nunca antes neste país”, ordenou aos artistas que representem melhor a magnitude da ressurreição do país, a partir de sua chegada ao poder. E baixou decreto neste sentido, a respeito de "roteiros de filmes, canções, romances literários, contos e grandes poemas". Em suma, os artistas devem enaltecer seu governo. Berdimujamedov não entende das coisas, nem tem jogo de cintura. Seu decreto é inábil e lhe confere uma imagem de tiranete asiático. Bem que podia recorrer ao know-how tupiniquim. Cria-se uma lei de incentivos fiscais e toda a classe artística se põe a louvar o governo. Que se dá ao luxo de posar como incentivador da cultura e das artes. Claro que a lei não se chamaria Rouanet. Mas sim lei Gurbanguli Berdimujamedov de Incentivo às Artes e aos Artistas. Berdimujamedov não seria mais visto como um tiranete asiático. Mas como um estadista que entendeu as necessidades culturais do Turcomenistão. Além do mais, ganharia a subserviência unânime, total e irrestrita, dos intelectuais de seu país.
Terça-feira, Outubro 21, 2008
QUANDO INTERPRETAR É PERIGOSO Comentei outro dia que os países islâmicos pretendem que a conferência da ONU sobre racismo e discriminação que ocorrerá na Suíça em 2009, seja transformada em uma declaração forte contra a blasfêmia, alegando que muçulmanos em todo o mundo ocidental estão sendo atacados por sua religião. Logo neste Ocidente onde, após o fim da Inquisição, sempre houve liberdade de crítica a qualquer religião. Ninguém mais vai para a forca ou fogueira por blasfêmia. Entre nós, blasfêmia é direito adquirido. O mesmo não ocorre no Afeganistão, onde um jornalista de 23 anos, Sayed Perwiz Kambajsh, acusado de blasfêmia contra o islamismo por um tribunal de Cabul, foi condenado à morte. Kambajsh, que é muçulmano, foi detido em outubro do ano passado por ter distribuído aos colegas de classe um panfleto "ofensivo ao Islã e com interpretações erradas de versículos do Alcorão", segundo a acusação. Como nos dias da Inquisição, quando o menor desvio teológico poderia levar um cristão à fogueira. Os jornais não informam o que Kambajsh escreveu. Dizem apenas que imprimiu artigos com interpretações do Islã, relativos em particular à condição da mulher, este nó górdio que divide irremediavelmente o universo muçulmano e o Ocidente. Desde há muito defendo a tese de que o Islã sofre de ginecofobia. Da mesma ginecofobia da Igreja de Roma, que um dia viu em toda mulher uma bruxa em potencial. O procedimento para se saber se uma mulher era bruxa ou não era simples. A mulher era submetida às ordálias, também chamadas de “juízo de Deus”. Atada de mãos e pés, a mulher era jogada num rio. Se conseguia boiar, era óbvio que era bruxa: a água, elemento puro, recusava seu corpo, elemento impuro. E ia para a fogueira. Se morria afogada, maravilha. Não era bruxa. A água, elemento puro, aceitava seu corpo também puro. A Hégira, como se chama a era muçulmana, tem como início a fuga de Maomé de Meca para Medina, em 622 da era cristã. Pelo calendário ocidental, os árabes recém estão chegando a 1386. Nesta época, até a higiene em si era considerada suspeita pelos inquisidores e tomar banho era visto como uma prova de apostasia para marranos e muçulmanos. Frase comum nos registros da Inquisição: "o acusado é conhecido por tomar banho". Pessoas limpas não tinham porque se lavar. Mutatis mutandis, os muçulmanos recém estão chegando à Idade Média. Mais seis séculos e talvez um dia cheguem ao mundo contemporâneo. Já há sinais de tolerância. O tribunal de Cabul mostrou-se leniente e comutou a pena de Kambajsh. Em vez de ser executado, cumprirá apenas... vinte anos de prisão. Interpretar é perigoso.
Segunda-feira, Outubro 20, 2008
AINDA O FILÓSOFO Luc Ferry vê na sociedade contemporânea uma insatisfação permanente, medo e consumismo. Vamos por partes. “A condição do homem moderno é mais trágica do que nunca. O casamento por amor nos condiciona a amar mais e mais. A perda do ser amado tornou-se um luto. Isso só aumenta o descontentamento do mundo ocidental, no qual o homem se transformou num ser eternamente insatisfeito”. Estarão as pessoas hoje casando por amor? Ora, amor é muito bonito na literatura, no cinema, nas telenovelas. Na vida real, as pessoas se examinam, se escolhem a partir de nível social, padrões culturais, patrimônios. Amor é bom, mas devagar... Hoje, diria, só casa exclusivamente por amor algum insciente. Há outros pesos a serem postos na balança. Pesamos as conveniências e nossa meiga alminha faz um esforço brutal para simular que o que nos move é aquilo che muove il sole e l' altre stelle. Que mais não seja, para sentirmo-nos diferenciados dos índios, animais e outros brutos. Quanto à perda do ser amado ser um luto, nada de novo. Vem dos tempos bíblicos. Não é que a perda tenha se tornado um luto. Sempre foi. Já no Livro vemos o apaixonado rei Davi rasgando suas vestes pela perda de seu amado Jonathan. O homem contemporâneo tem medo. “Nós, ocidentais, temos medo de tudo. Da velocidade, do sexo, do álcool, do tabaco, da carne vermelha, de frango, da Europa, do efeito estufa, da globalização, das notas escolares das crianças, e por aí vai. Todo ano se acrescenta um novo medo aos anteriores”. Ora, sou ocidental e não nutro nenhum dos medos supra. Velocidade, não curto. Sou adepto da lentidão. Entre avião e navio, vou sempre preferir navio. Ocorre que nem sempre posso optar por navio. Sexo, por que temer? É bom e isto é razão suficiente para não ser temido. Álcool? É questão de saber beber. Conheço bêbados e sóbrios e não vi medo algum em nenhum deles. O sóbrio não tem porque temer, afinal não bebe. Quanto ao bêbado, muito menos. Tabaco? O que está em jogo não é medo, mas a própria vida. Mesmo assim, vejo todos os dias em torno a mim, pessoas chupando câncer sem medo algum de chupar câncer. Carne vermelha? Conspiração ianque. Adoro e não temo. Nem vegetariano tem medo de carne vermelha. Não come e fim de papo. Frango? Não gosto. Mas nunca me ocorreu temer frango. Por que alguém temeria carne de frango? Globalização? Existe desde os dias em que os navegadores saíram a singrar pelo anecúmeno. Notas escolares? Medo só serve para fugir a uma solução. Não é medo o que os pais sentem, mas preocupação. Desde quando medo é sentimento novo? Muito mais medo terá sido o quinhão do homem das cavernas, que não entendia de onde vinham os raios e trovões. As religiões nascem do medo. E são milenares. Há hoje um medo da violência nas grandes cidades? Em nada difere do medo do camponês que um dia, para fugir da violência e da insegurança dos campos, foi buscar proteção dentro das muralhas de um burgo. Existe também o medo da morte. Enquanto houver morte haverá medo da morte. Isto é, desde sempre e para sempre. Aquela bravata de Paulo – “morte, onde está tua vitória?” – é apenas isso, bravata. Por mais fé que um crente tenha, na hora do Jesus-está-chamando até mesmo um papa busca medicina de ponta. Quando ao homem ser hoje eternamente insatisfeito, não é bem o que vejo no Ocidente. Em minhas viagens, tenho encontrado gente feliz e satisfeita em todas as cidades e ruas. Claro que, para ser feliz, um mínimo de posses é necessário. A começar por ter onde morar. Saúde é outro item fundamental. E algum dinheiro é sempre necessário. Mas isto não é moeda rara. As capitais européias, por exemplo, parecem grandes restaurantes a céu aberto, onde pessoas sorriem com todos os dentes e celebram a bona-chira. Não é preciso ir tão longe. Há dezenas de milhares de restaurantes em São Paulo, todos sempre cheios e com filas de espera nos fins de semana. Não consigo ver insatisfação em meu dia-a-dia. Não, não estou reduzindo a plenitude ao comer bem, nada disso. Mas os rostos em meu entorno, de modo geral, exalam satisfação. Insatisfeitos, sempre os há. Mas a existência de insatisfeitos não quer dizer que o homem contemporâneo seja eternamente insatisfeito. É normal que uma pessoa pobre sinta-se insatisfeita. Mas pessoa pobre não é sinônimo de homem contemporâneo. “O êxito pessoal é o que importa. Precisamos ter poder, dinheiro, um carro novo, uma mulher nova, os filhos mais bonitos, tudo para conseguir o reconhecimento alheio e nos sentir superiores aos outros”. No que diz respeito ao dinheiro, não tenho como discordar. Não há vida alegre sem o vil metal. Quanto a poder, isto é aspiração de políticos e administradores. O homem do dia-a-dia pouco está preocupado com o poder. Pede apenas que lhe deixem levar sua vida. Carro novo? Há quem goste, particularmente no Terceiro Mundo. Na Europa de Ferry, carro novo não está exatamente no rol das coisas que fazem um homem feliz. Aliás, nem mesmo o carro. Há cada vez mais gente vivendo sem carro na Europa. Mulher nova, filhos mais bonitos? Exagero do “filósofo”. Apesar do avanço do divórcio, milhões de pessoas se contentam com as mulheres e os filhos que têm. Buscar o reconhecimento alheio? Bom, isto é humano. Gostamos que nos valorizem. Sentir-se superior aos demais? Confesso que não vejo isto no mundo em que perambulo. O discurso todo do “filósofo” aponta, desde o início, para uma denúncia do consumo, bem ao estilo dos católicos e marxistas. “Hoje, vivemos na era do hiperconsumo. O que nos dá a sensação de progredir, de ser felizes, pelo menos momentaneamente, é comprar, comprar e comprar. Claro que isso não basta. A lógica contemporânea aumenta a insatisfação e nos incute medos cotidianos e recorrentes”. Talvez eu tenha vindo de um planeta distante, mas comprar raras vezes me dá prazer. Sinto prazer, é claro, ao comprar um livro ou DVD que ando buscando. Sinto prazer em viajar. Sinto prazer em comer e beber. Mas sem comer e beber não vivemos. Já que se trata de uma contingência, que seja bem satisfeita. Mas é só. O ano inteiro, não compro quase nada. O que tenho em casa me basta. Não sinto prazer algum em comprar por comprar. Enfim, não me pretendo metro universal para medir a realidade que me cerca. Reconheço que comprar é uma angústia insaciável para multidões. Mas essa angústia tem outra face. Gera emprego para milhões. O objeto mais supérfluo que você comprar está garantindo a subsistência de alguém em algum ponto do planeta. Tomemos o exemplo proposto por Ferry, o carro novo. Nada mais supérfluo que um carro novo. Ocorre que, ao adquirir este supérfluo, você gera milhares de horas de trabalho nos mais diversos setores. Eu, que quase nada consumo, sou defensor incondicional do hiperconsumo. É o que faz a economia crescer. Gera angústias? Bom, basta controlar tais angústias. Quem me acompanha, sabe que nem carro tenho. Nunca senti necessidade. Não faz falta alguma a meu ego. Em suma, o discurso do “filósofo” é bem articulado e até parece inteligente. Parece. No fundo, é um amontoado de lugares-comuns pretensamente humanísticos, esses mesmos lugares-comuns que fazem a fortuna dos laires ribeiros e edires macedos da vida.
“FILÓSOFO” CONFUNDE SAGRADO COM EGOÍSMO Em suas Páginas Amarelas, a última Veja entrevista o francês Luc Ferry, de 57 anos, apresentado como um caso raro de filósofo que transforma seus livros em best-sellers. É autor de Aprender a Viver, obra lançada em 2006, que vendeu 700 mil exemplares, 40 mil deles no Brasil. Pelo título, já se vê: trata-se de mais algum desses abacaxis de auto-ajuda. E se é best-seller, sério não deve ser. Não há livro inteligente no mundo que venda 700 mil exemplares em dois anos. Muito menos livro de filosofia. O sedizente filósofo, em verdade, está mais para os paulos coelhos da vida. Que mais não seja, sua última obra, recém-lançada no Brasil, confirma minhas suspeitas: Famílias, amo vocês. Só o que faltava pretender que tal título possa pertencer ao âmbito da filosofia. Neste livro, o “filósofo” defende a idéia de que a família é a única coisa que resta de sagrado no mundo. A família teria substituído a religião como entidade sagrada no mundo moderno. Ora, sagrado é o território das religiões. Que estão em franca expansão no mundo todo. Se o catolicismo está em retração, os crentes das ditas religiões neopentecostalistas brotam como cogumelos após a chuva. Na própria França, país do autor, o Estado teve de recorrer à justiça para impedir o avanço de uma religião ridícula, criada por um escritor de ficção científica, a cientologia. Nos Estados Unidos, até um filme bobo como Guerra nas Estrelas gerou uma nova crença. Isso sem falar no Islã, que se expande não só em sua geografia como também na Europa. A almejada morte de Deus, costumo afirmar, não passou de um wishful thinking de um pensador sensível do século XIX. “Essa corrida para as igrejas não chega nem perto do que acontece quando o assunto é família – diz Ferry –. Pergunte aos milhões desses novos fiéis se eles morreriam pelo seu deus. A resposta será não. A família é a única entidade realmente sagrada na sociedade moderna, aquela pela qual todos nós, ocidentais, aceitaríamos morrer, se preciso. Os únicos seres pelos quais arriscaríamos a vida no mundo de hoje são aqueles próximos de nós: a família, os amigos e, em um número bem menor, pessoas mais distantes que nos causam grande comoção. No século XX, o ser humano virou sagrado. De que planeta estará falando o “filósofo”? Deste não deve ser. Neste, as crianças abandonadas se contam por milhões, as famílias se desagregam aceleradamente e se há algo que nada tem de sagrado é o ser humano. Ser humano é uma coisa bem profana, que serve tanto para bucha de canhão como para mão-de-obra vil, tanto para tráfico sexual como para enriquecimento de vigaristas que empunham – estes sim – o sagrado, para enriquecer e passar bem. Há milhões de seres humanos no planetinha sendo transportados entre continentes, tanto para exploração sexual como para exploração de mão-de-obra, e Monsieur Ferry pretende nos vender a idéia de que no século XX o ser humano virou sagrado. Justo no século em que Stalin, cultuado como um deus, matou 20 milhões. Mao, cultuado como herói, outros 65 milhões. Pol Pot, tido como um líder revolucionário, dois milhões. E por aí vai. “Hoje, no Ocidente – prossegue o "filósofo" -, ninguém mais aceita morrer por um deus, um país ou um ideal. Há, sim, religiosos extremistas no Islã. Há gente na Chechênia ou na Ossétia disposta a morrer pela nação. Mas garanto que não há cidadãos com tais intenções na Alemanha, na França ou nos Estados Unidos. Em contrapartida, não conheço pai que não arriscaria a vida por seus filhos. Os filhos se tornaram o principal canal para o homem tentar transcender espiritualmente. As crianças substituíram as instituições despedaçadas que citei acima”. Em termos. Digamos que um alemão, um francês ou um americano não aceitem morrer por um deus. Mas morrem pela pátria. Não que queiram morrer pela pátria, mas têm o dever de por ela morrer. Os soldados que estão morrendo nas guerras que ainda são travadas no mundo contemporâneo, estão morrendo por países e por ideais que estes países encarnam. Quanto a pais arriscarem suas vidas pelos filhos, isto nada tem de moderno. Nem mesmo de humano. É instintivo. Faz parte e desde sempre fez parte da preservação da espécie. Qualquer animal arrisca a vida pelos seus filhotes. Teriam por isso os animais um valor sagrado? Ferry está confundindo o sagrado com proteção. Vivemos em um mundo hostil, competitivo – e o autor fala disso em sua entrevista. A família serve então de refúgio seguro às ameaças do mundo externo. Alberto Moravia, esquecido autor do século passado, gostava de comparar a família a uma fortaleza de egoísmo. Os pais são os generais, os filhos são os soldados. Conheço inúmeras famílias para as quais só existe um universo, sua ninhada. Que lá fora caiam raios e trovões, que soem trombetas e canhões, tanto faz. Desde que as crias estejam bem protegidas sob as asas paternas. Não vejo nada de nobre nisto. Muito menos de sagrado. Mas muito de egoísta. Ainda ontem eu comentava notícia vinda da Espanha, onde muitos casais, separados de fato, optam pela moradia comum por razões de ordem econômica. Há inclusive filhos adultos voltando a viver com os pais. É a volta à fortaleza, para proteger-se da intempérie. Lá fora, chove e faz frio. Na família, sombra e água fresca. Sombra e água fresca quando se vive em país rico, bem entendido. É o caso de Luc Ferry. Quando se vive em país miserável, até dentro de casa chove e faz frio. Isso quando se tem casa. As reflexões do “filósofo” retratam uma realidade de Primeiro Mundo e se tornam irônicas quando vistas do Terceiro.
Domingo, Outubro 19, 2008
CRISE REÚNE FAMÍLIAS, FORTALECE MATRIMÔNIOS E PROLONGA ADOLESCÊNCIA Especialistas acreditam que a crise do sistema financeiro já esteja sendo pivô de situações inusitadas. Na Espanha, muitos casais, separados de fato, optam pela moradia comum por razões de ordem econômica. É o que notícia a Deutsche Welle. "Tem se tornado extremamente difícil, para casais querendo se divorciar, conseguir vender suas propriedades por um preço razoável. Além disso, a crise também tem feito com que fique mais difícil manter duas casas", conta Antonio Prada, um advogado de Madri. Resultado: casais que, na realidade, não têm mais nada a dizer um ao outro, acabam vivendo sob o mesmo teto, apontando para uma tendência que Prada chama de "novas formas da vida em comum". Ou seja, uma boa crise financeira vale mais que mil homilias contra a dissolução da família. Mais ainda, os filhos adultos estão voltando para a casa dos pais. O crescente desemprego e as dificuldades em conseguir empréstimos para iniciar o próprio negócio têm feito com que adultos com mais de 30 anos de idade optem cada vez mais por voltar a viver com os pais. Além de reunir famílias, a crise prolonga a adolescência. Sua Santidade, Bento XVI, defensor incondicional da família e inimigo figadal do divórcio, deve estar esfregando as mãos de contente. Quem diria? Uma boa crise conseguiu o que suas arengas jamais conseguiram. O bom Deus escreve direito por linhas tortas. Longa vida à crise!
SE OBAMA PERDER, ELEITOR É RACISTA A atenção da imprensa brasileira à eleição nos Estados Unidos parece ser igual ou maior que a preocupação com as eleições nacionais. No que dependesse da votação dos jornalistas brasileiros, Barack Obama já estaria eleito. Pena que o pleito é lá. A Folha de São Paulo de hoje levanta uma tese curiosa. Em reportagem do enviado especial, lemos: RACISMO É O INIMIGO À ESPREITA DE OBAMA E na linha fina: Vantagem de 6,9 pontos do democrata pode estar inflada por "racistas enrustidos" O repórter fala de um tal de "efeito Bradley", cálculo feito a partir de um caso real, segundo o qual negros que disputam cargos executivos nos EUA devem ter entre cinco a sete pontos descontados das pesquisas de intenção de voto. Este seria o total de "racistas enrustidos", que declaram um voto ao pesquisador e agem de outra maneira nas urnas. Fica entendido que se o candidato é branco e o eleitor não vota de acordo com o que declarou nas pesquisas, não se trata de racismo. Só há racismo quando o candidato é negro. Ou seja: se Obama não for eleito, isto significa que o eleitorado foi racista. Se você não é racista, tem obrigatoriamente de votar em Obama. Mesmo que discorde de suas idéias ou de seu programa eleitoral. Mesmo que prefira, pelas mesmas razões, votar em McCain. Não votar em Obama é crime.
REFLEXÕES SOBRE O FIM DOS TEMPOS Em julho passado, antes da crise que assola o planetinha, eu manifestava a amigos suecos meu espanto ante a prosperidade dos suecos. Não é bem assim, disse-me um interlocutor. O sueco mora em uma bela casa, tem um carro de luxo, tem iate ou barco à vela, mas nada está pago. Ele está endividado até o fim de seus dias. Assim não é muito difícil ser próspero. As pessoas possuem o que não podem possuir e aparentam uma vida que normalmente não poderiam ter. Me ocorrem estas lembranças ao ler reportagem do El País sobre a bancarrota da Islândia. “Pessoas adultas que viram desaparecer as economias de uma vida toda; pais de família incapazes de pagar suas dívidas hipotecárias; jovens com estudos universitários obrigados a abandonar apartamentos recém-comprados, seus sonhos de prosperidade aniquilados: não é a exceção, é a nova norma na Islândia, país cuja população, a mais devastada pela atual crise financeira mundial, se encontra em estado de choque. Como os sobreviventes de um terremoto, se lamenta um. Nosso 11 de setembro, chora outro”. O país teme uma emigração em massa. Com trezentos mil habitantes, a ilha teve recentemente mil bancários desempregados. Segundo informe das Nações Unidas, a Islândia era tida, no início deste ano, como o melhor lugar do mundo para se viver. Um estudo acadêmico publicado em 2006 afirmava que os islandeses eram as pessoas mais felizes do mundo. Jovens empresários pagavam mil euros por um champanhe e o tomavam como se fosse cerveja. Hoje, o governo de Reikjavik estuda a possibilidade de aceitar um empréstimo gigantesco da Rússia, cuja população, no estudo de 2006, era tida como a mais infeliz do mundo. A festa – disse um islandês – acabou. Em proporções menores, o mesmo aconteceu na Espanha e está acontecendo em diversos países. Imigrantes que mal tinham um salário para sustentar-se, aproveitando as facilidades de crédito, compravam apartamentos de 400 ou 500 mil euros. Estão tendo de devolver as chaves, sem receber ressarcimento algum pelo que já foi pago. Longe de mim pretender entender economia. Meu consolo é que os economistas também não entendem. Mas não é preciso muito bom senso para intuir que o mais prudente que se pode fazer na vida é garantir um lugar onde cair morto. Esta sempre foi a preocupação maior de minha Baixinha: viver sem pagar aluguéis nem intermináveis dívidas imobiliárias. Nunca houve hipotecas em nossas vidas. Quanto a carros, ela logo descobriu que se pode viver muito bem sem carro. Quanto a mim, até hoje não sei dirigir. Nascido no campo, conservo até hoje uma filosofia de camponês: tudo, menos dívidas. Sempre abominei crédito e cartões de créditos. Estes, só fui usá-los há uns quatro anos. Porque hoje, sem cartão, você não consegue nem mesmo fazer reserva em um hotel. Já pensei em ter um apartamento em Madri ou Paris. O que me afastou deste projeto foi o preço do metro quadrado. Digamos que tivesse comprado um, com prestações a perder de vista. Hoje estaria chorando a devolução das chaves. Aqui em São Paulo, conheço pessoas que moram em condomínios de alto luxo sem terem condições para neles morar. As dívidas vão sendo empurradas com a barriga, renegociadas. Um dia, a casa cai. Restam três opções: suicidar-se, achacar os amigos ou renunciar ao padrão de vida. Esta última é a mais difícil. Como suicidar-se é um tanto doloroso, optam pela segunda. Mas esta logo se exaure. A tal de crise, suspeito, em boa parte é decorrência desta mania de dar um passo maior que as pernas. É claro que quem tem um apartamento quitado, que não tem dívidas de carro ou decorrentes do padrão de vida, será bem menos afetado pela tal de crise. Quem vivia de crédito vai passar mal. Sua Santidade, Bento XVI, dizia há pouco que é melhor investir na palavra divina. Ateu sendo, prefiro investir em bens imateriais: cultura, leitura, viagens. Em meus dias de Estocolmo – não estes de julho passado, mas os de 71, quando lá vivi – tive uma namorada que era guia de turismo. Chamava-se Lena e eu a chamava de Lena Lena. (Lena quer dizer doce, suave). Havia na época um medo difuso do urso soviético. A família dela não gostava de sua opção, achava que não dava dinheiro nem levava a nada. “Mas quando os russos invadirem a Suécia – dizia-me Lena Lena – eles perderão tudo. Eu não perderei nada. As minhas viagens, ninguém me tira”. Apartamentos e carros não quitados podem derreter-se. Padrões de vida suntuosos também. Mas cultura adquirida ninguém perde. Livros lidos, muito menos. Viagens feitas, não há crise que as roube. Muito menos vinho bebido. Tampouco perdemos a lembrança das mulheres que um dia amamos. Então leitores, se o fim dos tempos está próximo, como pretendem as Cassandras, o mais prudente é ler, namorar, beber e viajar. Viajar mesmo a crédito. Se você não puder pagar, viagem é coisa que não se devolve. O resto... é o resto.
Sábado, Outubro 18, 2008
SÓ MATA QUEM AMA O coronel Eduardo Félix, comandante do Batalhão de Choque da Polícia Militar de São Paulo, declarou que os policiais tiveram condições de atingir Lindemberg Fernandes Alves durante as cem horas que fez duas adolescentes reféns em Santo André. Segundo os jornais, por seis vezes o seqüestrador esteve na mira dos atiradores de elite. A iniciativa não foi tomada, no entanto, por se tratar de "um jovem em crise amorosa". "Nós poderíamos ter dado o tiro de comprometimento. Mas era um garoto de 22 anos, sem antecedentes criminais e uma crise amorosa. Se nos tivéssemos atingido com um tiro de comprometimento, fatalmente estariam questionando por que o Gate não negociou mais, por que deram um tiro em jovem de 22 anos de idade em uma crise amorosa, fazendo algo em determinado momento em que se arrependeria para o resto da vida", afirmou o coronel. Aparentemente, a PM tem sagrada reverência pelo sentimento amoroso. Já que se trata de amor, que seus soldados não atirem no homem que ama. Melhor esperar que o homem que ama atire, mate a amada e destroce a boca da outra refém. O que a imprensa não comenta – nem vai comentar, porque a imprensa paulistana está de mãos atadas quando se trata de criticar José Serra – é que estamos a uma semana do segundo turno das eleições municipais. Não ficaria bem para o governo, como me aventa um leitor, a televisão mostrar ao eleitorado restos do cérebro do criminoso espalhados no piso. A vantagem de Kassab sobre Marta Suplicy poderia esvanecer-se no ar. Melhor deixar estar para ver como fica. Como ficou, todos sabemos. Uma menina moribunda, que se escapar da morte não escapará da paralisia. E uma outra com a boca deformada. Nas entrelinhas da imprensa, nota-se uma certa simpatia pelo gesto do animal. Estava apaixonado. Sentia-se perdido com a recusa da namorada em retomar a relação. Sua vida não tinha mais sentido. Logo, só podia fazer o que fez. “Inconformado com o fim do relacionamento...”, repetem os jornais. Como se inconformar-se com o fim de um relacionamento justificasse a um celerado seqüestrar uma menina, mantê-la em cárcere privado e por fim tentar assassiná-la. Sobre o fato de que o criminoso tinha 19 anos ao começar seu relacionamento com uma menina que tinha então 12 anos, comentário algum. Ora, o Código Penal tipifica tais relações como estupro. Jornalista algum fala em estupro. Nem mesmo em pedofilia, figura que não existe no Código Penal brasileiro, mas que os jornais sempre empunham quando se trata de condenar alguém oriundo da classe média que tenha relações com menores. Nos anos 70, as feministas brasileiras lançaram o slogan: “Quem ama não mata”. Creio que até houve uma novela com este título. Ora, é exatamente o contrário. Só mata quem ama. Não amasse, não teria razão alguma para matar. Como afirma o leniente coronel do Gate, o seqüestrador vivia uma crise amorosa. No fundo, essa concepção perversa de amor que o cristianismo introduziu no Ocidente. A amada só pode ser uma. Uma vez perdida, a vida perde o sentido. Então, se não é minha não será de mais ninguém. Como o segundo turno é na semana que vem e um cadáver pode mudar o favoritismo do candidato do governo nas pesquisas, preserve-se o assassino. Tudo, menos televisão mostrando cadáver. Dia seguinte, o PT estaria vociferando aos quatro ventos contra a “truculência da elite branca”. Isso poderia mexer nos confortáveis 16 por cento de vantagem de Kassab sobre Marta. Quanto às meninas mutiladas por balas, nada obsta. Teoricamente, não foi a polícia que as executou. Por razões eleitorais, uma menina está em coma irreversível e a outra com a face deformada.
Sexta-feira, Outubro 17, 2008
É CASADO? TEM FILHOS? É SOROPOSITIVO? Acuada pela reação à pergunta estúpida sobre a vida pessoal do prefeito Gilberto Kassab, a petista Marta Suplicy apelou à velha estratégia dos antigos comunistas e das atuais esquerdas. Acusada de fazer política, disse: "A política realmente é muito suja". Acrescentando que foi “transformada em vítima". O PT insinua que o candidato adversário é homossexual e a vítima é... a candidata do PT. O recurso é primário, coisa de moleques de rua. Quando um deles recebe ofensas à sua mãe, responde de bate-pronto: “É a tua”. Nisto se resume a brilhante defesa da sexóloga. É recomendação de Lênin e sempre beneficia quem fala mais alto. Utilizada durante todo o século passado, foi um dos legados do comunismo às esquerdas. Nisto se resume a brilhante defesa da sexóloga. Os marqueteiros da petista, ao apostar nos baixos instintos do grande público, não se deram conta do alcance das perguntas. É casado? Tem filhos? No dia seguinte, até a cândida Erundina estava reclamando de baixaria. Sobrou também para o Aécio Neves. Sobrou até mesmo para o filho da candidata, aquele roqueiro ridículo, o Supla. Por outro lado, se ser casado e ter filhos atesta alguma moralidade ou capacidade administrativa, foram beneficiados pelas perguntas estes dois seres impolutos, Paulo Maluf e Celso Pitta. Monumentos públicos à virtude, ambos casaram e tiveram filhos. Não querendo dar o braço a torcer, a candidata alega que as perguntas tinham como objetivo trazer a público “a biografia de seu adversário, para deixar claro ao eleitorado seu DNA político". Ora, quem não sabe em São Paulo que Kassab é solteiro e não têm filhos? Na verdade, as perguntas do PT, se se pretendem esclarecedoras, deveriam ir mais adiante: é soropositivo? Faltou audácia aos sutis marqueteiros de Dona Marta. "Desvirtuam por quê? Para lançar lama, primeiro em mim, dizendo que sou preconceituosa. E segundo lançando uma nuvem em cima da trajetória do candidato" – disse a petista. Essa agora! Quem lançou uma nuvem em cima da trajetória do candidato foram então os partidários do próprio Kassab? Tentando agarrar-se em qualquer galho para fugir à morte política, Marta afunda cada vez mais nas areias movediças de suas contradições. De fato, política é suja. O PT, desesperado, está agora tentando fazer um cadáver para reverter o que se prefigura no segundo turno.
REMEMBER PARACUELLOS DEL JARAMA O juiz espanhol Baltasar Garzón, da Audiência Nacional, declarou-se ontem competente para investigar a desaparição de vítimas do franquismo. E ordenou a exumação de 19 fossas já identificadas, entre elas a suposta fossa em que se encontraria Federico García Lorca. No auto de 68 páginas, Garzón assinala que o caso é competência da Audiência Nacional, por estarem implicadas pessoas relacionadas com instituições do Estado, entre elas Francisco Franco e outros 34 acusados, em desaparições ilegais, dentro do contexto de crimes contra a Humanidade. Considerando-se que os 35 acusados já estão mortos, pergunta-se qual a intenção do juiz. Quem sabe obter, ao melhor estilo tupiniquim, gordas indenizações para os herdeiros dos desaparecidos? Não sabemos. O que sabemos é que Baltasar Garzón não demonstra nenhum interesse em investigar o massacre de religiosos pelos comunistas na Espanha. Estima-se que 6.832 religiosos, entre os quais 4.184 padres e 13 bispos foram assassinados na Guerra Civil. Freiras foram violadas e mais de 160 igrejas incendiadas e depredadas. Segundo Paul Johnson, alguns padres foram queimados vivos e outros alguns tiveram suas orelhas decepadas. Freiras tiveram os tímpanos perfurados por rosários enfiados à força em seus ouvidos. Isso sem falar na chacina de Paracuellos del Jarama. Em 1936, neste sítio que ninguém gosta de lembrar, foram fuzilados pelo Partido Comunista nada menos que 2.400 espanhóis que se opunham à Frente Popular. A Garzón, não interessa investigar estes massacres. Não bastasse o absurdo de pretender julgar crimes prescritos e condenar pessoas mortas, Garzón pediu o atestado de óbito de Francisco Franco e de uma trintena de generais, entre estes os generais Emilio Mola e Gonzalo Queipo de Llano. Segundo o juiz, trata-se de um mero trâmite judicial já que "é certo e notório que a participação nos fatos daqueles que estão falecidos ficará extinta uma vez constatada sua morte". Pelo jeito, Garzón ainda não sabe que Franco, Mola e Queipo de Llano estão mortos e bem mortos. Como disse alguém, é o mesmo que pedir o atestado de óbito de Napoleão.
Quinta-feira, Outubro 16, 2008
CBL ENVIA SELENITA À FEIRA DE FRANKFURT Ainda há pouco, o Teotonio Simões, da Ebooksbrasil, me apresentava um leitor de ebooks, importado da França. Com o formato de um pequeno livro, comportava... dez mil livros. Preço? Trezentos e poucos euros. Como leitor, ainda sou um adepto do livro-papel. Como autor, o Teotonio já publicou vários livros meus em formato eletrônico. Será minha primeira aquisição na próxima viagem. Se ainda gosto de ler no papel, é atraente a idéia de andar com dez mil livros no bolso. O dobro de minha biblioteca, que ocupa toda uma parede de meu escritório. Da Alemanha, recebo notícia alvissareira. Que os livros eletrônicos estão no centro das atenções na maior feira do livro do mundo, em Frankfurt. Pela primeira vez nos seus 60 anos de existência, a quantidade de produtos digitalizados como DVDs, softwares, filmes e livros eletrônicos se equiparou com a de livros comuns expostos na feira. Até aí, nada surpreendente. Não se pode impedir o amanhecer. O ebook liberta o autor de editores, distribuidores e livreiros. Se você sabe digitar – e quem não sabe? – com um pouquinho de habilidade você mesmo edita sua obra. E a joga na rede, à disposição de qualquer leitor em qualquer parte do mundo. Surpreendente mesmo é Rosely Boschini, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), segundo a qual esta tecnologia ainda deve demorar para chegar ao Brasil. Em que planeta vive esta senhora? Desde há muito editoras virtuais vêm publicando livros no Brasil, tanto clássicos perdidos em bibliotecas como autores contemporâneos. A tecnologia para tanto está aí, ao alcance de quem quer que esteja conectado à rede. Há inúmeros clássicos disponíveis para download gratuito em editoras virtuais como E-BookCult (www.ebookcult.com.br), Domínio Público (www.dominiopublico.gov.br), Biblioteca do Estudante da Língua Portuguesa (www.bibvirt.futuro.usp.br), Virtual Books (virtualbooks.terra.com.br) e IG Educação, (www.igeducacao.ig.com.br). Isso sem falar na pioneira Ebooksbrasil, do Teotonio (http://www.ebooksbrasil.org), onde o leitor poderá encontrar, entre milhares de títulos, uma boa dezena de títulos meus. A Câmara Brasileira do Livro, ao que tudo indica, escolheu uma selenita para representá-la em Frankfurt.
OBSCURANTISMO FEMINISTA ATACA AGORA NA SUÉCIA O obscurantismo anda grassando firme no planetinha. Também, pudera. Em ano em que um analfabeto recebe o prêmio Cervantes na Espanha e Paulo Coelho recebe homenagens especiais na Feira do Livro de Frankfurt, nada mais espanta. Estamos rumando à entropia. Depois dos CTGs no Rio Grande do Sul e dos islâmicos tentando proibir o homossexualismo, o Oscar do obscurantismo vai... para a Suécia. Em Estocolmo, o Conselho sueco de Ética Comercial contra Sexismo na Propaganda (ERK) desatou uma guerra verbal sobre o tratamento das mulheres na publicidade ao acusar a companhia aérea irlandesa Ryanair de promover propaganda sexista. Razão? A empresa aérea, conhecida por vôos regionais de baixa tarifa na Europa, fez uma campanha com anúncios e outdoors, que mostravam uma mulher de minissaia e miniblusa posando como uma estudante ao lado de um quadro-negro com o texto: "As ofertas mais quentes da volta às aulas". Ora, nos dias em que vivi na Suécia, havia uma propaganda muito popular do país, com vistas a atrair trabalhadores imigrantes. Nela, uma sueca com as marianinhas ao léu – como dizem os lusos – dirigia um ônibus pelas ruas de Estocolmo. Hoje, pelo jeito até minissaia virou pecado. Logo no país que foi pioneiro em matéria de pornografia e sexo ao vivo em teatros. O mundo gira, a Lusitana roda e a Suécia se transforma. Ah! Marianinhas ao léu, no português d’aquém-mar, quer dizer topless. Confesso que não entendo muito essa estratégia de usar mulheres para vender desde carros a parafusos. De minha parte, jamais comprei algo só porque uma mulher linda o anuncia, esteja ela vestida ou despida. Mas, pelo jeito, há quem compre. Eu jamais compraria bilhetes numa empresa aérea só porque estes são anunciados por uma moça de minissaia. Mas acusar de sexismo um anúncio com uma menina de minissaia, bom, isto já é desvario de feministas. Diante da recusa da Ryanair em se desculpar pela campanha, a feminista sueca Birgitta Ohlsson pediu um boicote dos consumidores à companhia aérea. "É meu dever apontar e envergonhar empresas como esta", disse. "A Ryanair está se apoiando em valores ultrapassados e anacrônicos, e se orgulha disso. Há muitas outras empresas aéreas de baixo custo para escolher", acrescentou ela. Ohlsson se apóia em um relatório governamental, de janeiro deste ano, que sugere a criação de uma lei banindo qualquer propaganda de teor sexista a partir de janeiro de 2009. Segundo o relatório, a propaganda sexista é definida como qualquer mensagem distribuída com fins comerciais que possa ser "ofensiva tanto às mulheres como aos homens". Do jeito em que vão as coisas, mais um pouco e nem homem nem mulher poderão fazer a propaganda de qualquer produto. Enfim, talvez com uma burka seja permissível. O problema talvez resida no fato de que a menina do anúncio é bonita e atraente. Fosse feia e sem graça como sóem ser as feministas, nada contra.
ISLÂMICOS E CTGs: UM MESMO COMBATE Justo quando surge no Rio Grande do Sul essa estúpida restrição a homossexuais nos Centros de Tradições Gaúchas, uma proposta feita pelo Brasil de permitir que a orientação sexual seja tratada em fóruns das Nações Unidas está gerando polêmica e protesto de países de cultura islâmica. O Brasil tentou inscrever uma organização não-governamental de defesa dos direitos de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais na ONU para que a entidade possa participar dos debates sobre discriminação, racismo e intolerância. Mas Irã, Egito, Líbia e Argélia lideraram os países islâmicos para tentar impedir a inscrição da ONG. Que a estupidez é universal, disto todos sabemos. Que tenha tomado assento na ONU já é novidade. Segundo um diplomata do do Irã, “o que vocês (brasileiros) chamam de direito, em nossos países é crime e punido duramente”. O diplomata, que preferiu não se identificar, parece não ter entendido que o Direito muda de país para país. E que muitas práticas muçulmanas – entre elas a lapidação de mulheres por adultério, a execução de homens por homossexualismo, a excisão do clitóris e a infibulação da vagina – em nossos países constituem crime. “Esta é uma questão religiosa”, continua o diplomata. Para quem vive em Estados teocráticos, de fato é. Mas no Ocidente, exceção feita do Vaticano, os Estados não são teocracias. No fundo das declarações do diplomata, dorme aquele desejo universal de todo religioso de impor sua fé ao mundo todo. O principal temor dos países islâmicos é que o tema entre nos debates da conferência sobre racismo e discriminação que ocorrerá na Suíça em 2009, dizem os jornais. Eles preferem que o encontro se transforme em uma declaração forte contra a blasfêmia, alegando que muçulmanos em todo o mundo ocidental estão sendo atacados por sua religião. Ora, no Ocidente, após o fim da Inquisição, sempre houve liberdade de crítica a qualquer religião. Ninguém mais vai para a forca ou fogueira por blasfêmia. Entre nós, blasfêmia é direito adquirido. E, diga-se de passagem, as críticas não são feitas apenas ao Islã. No Ocidente, a religião que o embasa, o cristianismo, tem sido alvo de duras críticas nos últimos séculos, Voltaire e Nietzsche que o digam. Nem por isso a cultura ocidental afundou. Em todo caso, é oportuna esta ofensiva dos cabeças-de-toalha. Serve para evidenciar o obscurantismo dos cetegistas gaúchos.
Quarta-feira, Outubro 15, 2008
LÁ NA LINHA (A propósito da polêmica medieval levantada pelos cetegistas gaúchos em torno aos gays, um bom amigo, o Ruy Nogueira, me lembra crônica que escrevi em 2001) Depois que Bertrand Delanoë, homossexual assumido, foi eleito prefeito de Paris, a França passou a gabar-se na imprensa de sua mentalidade liberal. Neste mesmo ano da eleição de Delanoë, Veja nos informa que o Estado que reúne a maior quantidade de piadas machistas assumiu a dianteira na defesa dos direitos dos homossexuais. A revista paulistana refere-se ao fato de a Justiça do Rio Grande do Sul ter emitido julgamentos favoráveis em causas relacionadas a reivindicações dos gays. A ausência de preconceitos da gauchada, no que se refere à homossexualidade, não é atitude de hoje, nem mesmo de ontem, mas data de muito mais longe. Antes mesmo que os parisienses ousassem eleger um prefeito homossexual, o Rio Grande do Sul já teve um, e dos mais queridos por seus conterrâneos. Ora, direis, Dom Pedrito não é Paris. Claro que não é. Dom Pedrito é uma pequena comuna isolada do mundo. Já Paris é uma das capitais deste mesmo mundo, com todo cosmopolitismo que isto implica. Feliz de quem tem uma província no coração, disse alguém. Final dos anos 50, há quase meio século, portanto. Naquela cidadezinha da fronteira gaúcha, nos confins da fronteira seca entre Brasil e Uruguai, então com 13 mil habitantes, tive minhas primeiras lições de tolerância. Um dos líderes políticos locais, voz de estentor, bom de voto e temível nos debates, jamais escondeu suas preferências por jovens efebos. Nem por isso deixava de contar com o apreço dos pedritenses. Alto, apolíneo no porte, dionisíaco na vida, Rui Bastide foi eleito e reeleito vereador várias vezes e chegou a ser prefeito da cidade. Nos anos 70, teve seus direitos políticos cassados, por um ato único do presidente Garrastazu Médici. Honrado com a deferência, comemorou o ato com foguetes. Comentário indiferente na cidade: "O Brasil vai perder muito com esta cassação". Na época, não se falava em gays, tampouco havia associações de gays e lésbicas. "Já procurei até médico" - confessou-me um dia Bastide -. "Mas que vou fazer? É a minha natureza." Em tempo: Brasil era um negrão que fazia jus aos favores do futuro alcaide. Sua detenção pelos militares virou folclore. O vereador estava prestando seus serviços ao Brasil, quando batem na porta de seu apartamento. Ainda pelado, entreabriu a porta. Três militares o procuravam, um oficial e dois soldados, de metralhadoras em punho. O senhor é o Rui Bastide? - perguntou o oficial. Sou. Então o senhor está convidado a comparecer às dependências do 14º Regimento de Cavalaria. Acho que vou declinar do gentil convite - respondeu Bastide. Ocorre que não é bem um convite. O senhor terá de ir. Agora e como está. Então me levem - disse o Rui - abrindo a porta e os braços, em plena glória de sua nudez. "Os soldadinhos enrubesceram, não sabiam para onde apontar as metralhadoras. Aí, me deram tempo. Tomei banho, me perfumei, me despedi do Brasil, não sabia quanto tempo ia ficar preso". Pelo jeito, a prisão foi produtiva. Em vez de xingar a ditadura, Rui encenou um balé, onde bravos lanceiros do Ponche Verde, envergando diáfanas bombachas brancas, executavam impecáveis pas de deux enquanto cantavam uma ode ao 14 º RC: Querido Exército... A trajetória do Rui, a meu ver, está à espera de um bom cineasta. Em passadas andanças pela Europa, em vários países relatei este caso pedritense. E vi alemães, franceses, espanhóis perplexos, admitindo que em suas comunidades, por mais abertas que fossem aos novos tempos, não haveria lugar para um prefeito gay. Fala-se muito hoje em abrir o jogo, sair do armário, assumir-se. Tais expressões eram desconhecidas em Dom Pedrito. Se alguém era homossexual, ninguém tinha nada a ver com isso e estamos conversados. Há fatos que na infância nos marcam a memória e só depois de muito viver lhes conferimos a verdadeira dimensão. Ocorreu no Upamaruty, distrito rural de Livramento, na fronteira com o Uruguai, onde vivi meus dias de guri. Torrão de gente rude, onde qualquer adulto tinha de cuidar-se com a língua. Lá na Linha Divisória - como era mais conhecida a região - uma palavra mal empregada, ou mal entendida, podia custar uma vida. Lá, conheci Seu Alvarino. Fora trazido da cidade, como cozinheiro do Peixoto, um bolicheiro local. Negro, enorme, espadaúdo, durante o dia cuidava da cozinha e das coisas do Peixoto. Nas tardes de domingo, cumpridas suas tarefas caseiras, vestia uma blusinha de rendas cor-de-rosa, punha sua mais rodada saia longa e sentava na porta do bolicho, munido de agulhas e novelos. A gauchada ia chegando, boleando a perna e atando os cavalos no alambrado. Em meio àquela gente armada, revólveres e facões pendendo da guaiaca, seu Alvarino, indiferente às charlas e ruídos de esporas, permanecia absorto em seu crochê, como se ali estivesse tricotando desde o início dos tempos. Jamais ouvi qualquer piada a respeito das prendas domésticas de Seu Alvarino. Também, pudera! Seria uma empreitada um tanto arriscada dirigir qualquer comentário desairoso àquele par de munhecas. Seria homossexual? Ou o travestir-se seria apenas uma prosopopéia que o acometia aos domingos? Fosse como fosse, se gostava de usar saias e fazer crochê, isto era algo que só a ele dizia respeito. "A principal explicação para o Rio Grande do Sul estar na vanguarda da defesa dos gays encontra-se no bom nível educacional da população do Estado", diz o redator de Veja, que certamente jamais teve notícias do Bastide ou do seu Alvarino. "Uma classe média instruída e formada com base na imigração européia tende a ser mais crítica e aberta a atitudes liberais", afirma o historiador Luiz Roberto Lopes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pura conversa fiada de acadêmicos. Lá na Linha, não era hábito local imiscuir-se na vida de ninguém. O preconceito veio através dos padres europeus, que lá introduziram as noções de pecado e culpa entre gaúchos que viviam imersos em uma espécie de paganismo crioulo pré-cristão.
APOCALIPSE SEGUNDO CRISTALDO (apócrifo) O primeiro anjo tocou a sua trombeta, e houve saraiva e fogo misturado com sangue, que foram lançados na terra; e foi queimada a terça parte da terra, a terça parte das árvores, e toda a erva verde. O segundo anjo tocou a sua trombeta, e foi lançado no mar como que um grande monte ardendo em fogo, e tornou-se em sangue a terça parte do mar. E morreu a terça parte das criaturas viventes que havia no mar, e foi destruída a terça parte dos navios. O terceiro anjo tocou a sua trombeta, e caiu do céu uma grande estrela, ardendo como uma tocha, e caiu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas. O nome da estrela era Absinto; e a terça parte das águas tornou-se em absinto, e muitos homens morreram das águas, porque se tornaram amargas. O quarto anjo tocou a sua trombeta, e foi ferida a terça parte do sol, a terça parte da lua, e a terça parte das estrelas; para que a terça parte deles se escurecesse, e a terça parte do dia não brilhante, e semelhantemente a da noite. E Lula recebeu o prêmio Cervantes na Espanha. E Paulo Coelho foi homenageado na Feira do Livro de Frankfurt. Os tempos são chegados. Os homens buscarão a morte, e de modo algum a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles.
CETEGISTAS LUTAM CONTRA AMANHECER Y un gaucho mui matrero Me preguntó pronde vai. Eu respondi mui facero: - Vô pra esquina do DMAE Me esperavam de bombacha, Eu vim de calça de vinco. Pensaram que eu era macho, Eu era prenda do 35. (Da Milonga do Gaúcho Bicha, de autor que creio que se quer anônimo. DMAE era um prédio em Porto Alegre que constituiu ponto de travestis. 35 é um CTG) Gaúcho pode ser homossexual? No que depender dos Centros de Tradições Gaúchas, não. Gaúcho tem de ser macho. É o que se depreende de uma medieval polêmica que mexe com as bases do dito tradicionalismo no Rio Grande do Sul. Em artigo na Internet, o tradicionalista Ademir Canabarro alerta para o que chama de "avanço assustador do homossexualismo" nos CTGs. Para Taiane Lucas Pontel, de São Gabriel, “o CTG não pode ser de maneira alguma descaracterizado por esse tipo de atitude! Não tenho nada contra homossexuais, somente acho que os CTGs definitivamente não são o lugar mais apropriado para demonstrações de tal tipo” — afirma. Diz um certo Eduardo, de São Leopoldo: “Acredito que o MTG tenha razão em não querer que pessoas homossexuais participem dos CTGs, pois isso é contra os princípios da entidade. Como também acho que as ONGs homossexuais tem o mesmo direito de não concordar que pessoas machistas freqüentem suas sedes e eventos”. Antes de ir adiante, melhor explicar o que é um CTG. É uma farsa. É um clubinho de classe média que pretende interpretar os costumes e tradições gaúchas. Não interpreta coisa nenhuma. O gaúcho de CTG é um gaúcho pra turista ver. Com suas pilchas e suas prendas, os CTGs criam contos de fada que nada tem a ver com o gaúcho, um pobre diabo que sempre viveu no campo, entre vacas e cavalos. Originalmente, o gaúcho não passava de um contrabandista e ladrão de gado. De marginal, foi promovido a centauro dos pampas pelos tradicionalistas do Rio Grande do Sul, com evidente propósito de conquista de poder político. Hoje, o gentílico gaúcho se estende a toda pessoa nascida no Rio Grande do Sul. É uma impropriedade lingüística. Não se pode dissociar o gaúcho de um ambiente rural, de campo, gado e lides campeiras. Os CTGs – que hoje existem até nos Estados Unidos e Japão – são clubinhos de pessoas que jamais montaram um cavalo e sequer sabem a diferença entre touro e boi, carneiro e capão. Pretenderá alguém que os italianos ou alemães da zona da serra, que nasceram comendo polenta ou chucrute, dançando valsas ou tarantelas, sejam gaúchos? É gaúcho quem nasceu no asfalto, brincando de Batman em corredores escuros de prédios urbanos? Claro que não. No Uruguai e Argentina há mais gaúchos que em todo o Rio Grande do Sul, onde estes se resumem – se é que ainda existem – a uma estreita fímbria do Estado, nas fronteiras com Uruguai e Argentina. Nem por isso estes dois países pretenderam adotar o gentílico de gaúcho para seus nacionais. Quem nasce na Argentina é argentino, quem nasce no Uruguai é uruguaio. Gaúcho é aquele homem lá do campo, que lida com cavalos e gado. CTG é ficção. Ficção até interessante, com certos laivos estéticos, mas ficção. O tal de gaúcho, humano sendo, pode ser tanto heterossexual como homossexual. Homossexualidade faz parte da história. Moeda corrente na antiga cultura grega, foi satanizada pelo cristianismo e por seu desprezo aos prazeres da carne. Os CTGs, ao que tudo indica, estão assumindo o mesmo viés das igrejas neopentecostais, para as quais homossexualismo é obra do demônio. Propositadamente, não cito a Igreja Católica, cujos sacerdotes há horas descobriram os prazeres do mesmo sexo. Exceção feita dos países islâmicos, homossexualismo, nos dias que correm, é comportamento igual a qualquer outro. No Ocidente – e muito menos no Brasil – não constitui crime nem transgressão. Por que um homossexual seria barrado em tais clubes? Que crime cometeu? Por que avanço assustador? De que o bravo Canabarro tem medo? De si próprio? Os cetegistas estão pretendendo lutar contra o amanhecer.
Terça-feira, Outubro 14, 2008
MONOTEÍSTAS E FANÁTICOS Ainda há pouco, em algum país árabe, já não lembro qual, um muçulmano foi preso por não observar o jejum no Ramadã. Ou seja, religião é obrigação compulsória. A qualquer descumprimento do dogma, prisão. As autoridades até que estão sendo lenientes. Ano passado, no Paquistão, um projeto de lei que tramitava em primeira instância na Assembléia Nacional, previa prisão e pena de morte para muçulmanos, homens ou mulheres, no caso de abandono da fé islâmica. Os condenados também seriam obrigados a deixar suas propriedades e entregar a custódia legal de seus filhos. O Paquistão está em atraso com os costumes vigentes no universo muçulmano. Segundo a Anistia Internacional, nos países islâmicos onde foi introduzida a Sharia, adultério, abandono do islã e conversão para outras religiões, blasfêmia contra a religião e seu profeta Maomé, são motivos para alguém ser condenado à morte por apedrejamento, decapitação ou enforcamento. Fanáticos, direis. Certo. Mas o fanatismo não é exclusividade do mundo islâmico. Em Acre, Israel, a polícia prendeu Taufik Jamal, cidadão árabe-israelita, que dirigia seu carro na segunda-feira à noite, por “ferir sensibilidades religiosas”. Era Yom Kipur, a mais sagrada festividade judaica, durante a qual os judeus dedicam 25 horas ao jejum e à oração. É o que nos conta El País. Ocorre que Jamal era muçulmano. Não importa. Deve observar as práticas de uma religião que não a sua. Era perto de meia-noite, o Yom Kipur havia começado. Jamal foi com seu carro até um bairro judeu de Acre, para apanhar sua filha na casa de seu noivo. Grupos de crentes judeus apedrejaram Jamal e o perseguiram pela cidade. Os palestinos residentes na localidade souberam da coisa e instalou-se o conflito na mesma noite. Segundo o jornal espanhol, isto ocorre todos os anos. Os extremistas judeus apedrejam até mesmo as ambulâncias. Os choferes de David Magem Adom (o equivalente à Cruz Vermelha, quando trabalham, são aconselhados a usar coletes e capacetes à prova de balas. Em Aux Origines du Dieu unique, de Jean Soler, leio que nesses bairros é apedrejado até mesmo quem ousar acender um cigarro durante o shabat. Pois não se pode fazer fogo nessas datas. O curioso é que não encontramos nada na Bíblia que prescreva o jejum durante Yom Kipur. É criação rabínica. A lei de Moisés tem múltiplas prescrições a serem observadas no Dia das Expiações, mas nenhuma delas prescreve o jejum. Ou seja, em matéria de fanatismo, os judeus nada ficam a dever aos árabes. Neste sentido, os árabes são inclusive mais tolerantes. Durante o Ramadã, mês sagrado do Islã, os judeus bebem álcool e comem nas ruas durante as horas em que os crentes de Maomé jejuam. “Isso também nos ofende, mas nós não criamos confusão” – diz um habitante de Acre. A polícia israelita, por sua vez, não detém ninguém por ferir alguma sensibilidade. Me ocorre episódio que me foi contado por uma amiga pianista. Ela dava aulas de canto para um rabino. Em certo momento, bateu-lhe três vezes no ombro para marcar o compasso: um, dois, três. O bom rabino se escandalizou. Não podia ser tocado por mulher. A mulher pode estar impura, isto é, menstruada. Mas este gesto foi o de menos. O rabino era diabético. Certo dia, teve uma crise de hipoglicemia durante a aula. Minha amiga correu a trazer-lhe açúcar, o que se recomenda nessas ocasiões. O rabino recusou. Só consumia açúcar kasher, o açúcar benzido por outro rabino. O fanático arriscou a vida – ou pelo menos a ficar aleijado – apenas em função de uma prescrição rabínica. Porque isso de açúcar kasher tampouco está no Livro. Aliás, açúcar é coisa que não existe na Bíblia. Vivo em Higienópolis, bairro profundamente judeu. Neste último Yom Kipur, as ruas foram tomadas por senhores e senhoras elegantes, bem vestidos, mas todos usando tênis. Porque no Yom Kipur judeus não podem usar calçados de couro. Nem ter relacionamento conjugal, nem passar cremes ou desodorantes no corpo, nem banhar-se por prazer. Uma colega de jornalismo, ainda dos tempos da Folha de São Paulo, que vive no bairro, aproveita esta ortodoxia para divertir-se, espalhando terrorismo intelectual. Adora provocar um esbarrão com um rabino. E se desculpa: “Perdão, não o vi. É que estou menstruadíssima”. Os rabinos se apavoram e tentam limpar o corpo, batendo desesperadamente com as mãos nos braços. Como se isso adiantasse. Afinal, diz o Levítico: “todo aquele em quem tocar o que tiver o fluxo, sem haver antes lavado as mãos em água, lavará as suas vestes, e se banhará em água, e será imundo até a tarde”. Minha colega se diverte, tornando imundos os transeuntes do bairro por pelo menos uma tarde, com um simples esbarrão. Estamos em São Paulo, bem entendido. Em Acre, ela seria talvez lapidada.
SANTIDADE VENDE BEM NO TERCEIRO MUNDO Costumo afirmar que tabagismo e cristianismo só avançam no Terceiro Mundo. Citei ainda as palavras de Sua Santidade: enquanto as bolsas caem, a palavra de Deus permanece. Bento XVI está perfeitamente ciente disto. Domingo passado, canonizou mais quatro beatos, criando entre eles a primeira santa da Índia, Irmã Alphonsa. Batizada como Anna Muttathupadathu, Alphonsa da Imaculada Conceição viveu no Estado de Kerala, no sul da Índia, onde uma série de curas milagrosas são atribuídas a ela. De ilhapa, também canonizou uma equatoriana que não seguiu a vida religiosa enquanto era viva, Narcisa de Jesús Martillo Morán (1832-1869). A novel santa viveu parte da sua vida em Lima, no Peru, onde viveu ajudando os pobres até sua morte. Foi ainda canonizada a freira suíça Maria Bernarda Butler (1848-1924), que viveu no Equador e na Colômbia. Claro que terá seus santuários não na desenvolvida Suíça, mas nos subdesenvolvidos Equador e Colômbia. Santos são ótimos para o Terceiro Mundo. Afinal, a palavra divina tem demonstrado ser mais sólida que as bolsas.
Para francófonos: CAMUS, L’INDIVIDU ET L’HISTOIRE* par Janer Cristaldo Je vois naître dans la rue un homme nouveau, un gueux. Un gueux qui ne croit plus à rien, mais qui a foi totale dans les forces de la vie. (...) Je lui dis ceci : après avoir eu foi dans toutes les démocraties, tans toutes les dictatures et dans toutes les sciences et après avoir été partout déçu, mon dernier espoir de justice sociale s’était fixé sur les arts et les artistes. Vive l’homme qui n’adhère à rien. Panaït Istrati, Vers l’autre flamme. Dieu mort, écrit Camus, il faut changer et organiser le monde avec les forces de l’homme. A partir de cette donnée, l’auteur commence ses réflexions sur la révolte historique. Il faut faire, avant de continuer, une distinction entre révolution et mouvement de révolte. Spartacus n’est pas un révolutionnaire, il ne veut pas changer les principes de la société romaine. Il se bat pour que l’esclave ait des droits égaux à ceux du maître, il rejette la servitude et veut l’égalité avec son maître. Cette envie d’égalité l’amènera au désir de remplacer le maître. La révolution, c’est le changement total. A partir de la conception astronomique de révolution – mouvement qui boucle la boucle, qui passe d’un gouvernement à l’autre après une translation complète – Camus précise sa définition. La révolution implique un changement du régime de gouvernement. Pour qu’un changement économique soit une révolution économique, il faut qu’il soit en même temps politique. Que ses moyens soient sanglants ou pacifiques, c’est le changement politique, le changement du gouvernement qui distinguera la révolution de la révolte. Cette dichotomie fondamentale est mise en relief par mot fameux, cité par Camus : «Non, sire, ce n’est pas une révolte, c’est une révolution». Camus et le communisme - Aux annés 30, la Révolution de 1917 constitue un seuil de définition obligatoire pour tous les intellectuels européens. Le krach de 29, l’ascension du nazisme, la nouvelle société soviétique dont on ne connaissait pas encore les goulags, tous ces facteurs poussent les hommes d’idées à défendre – ou au moins à sympathiser avec – le socialisme selon Marx. Dans le continent européen, une intense agitation intellectuelle mène des écrivains, artistes et penseurs à l’action politique. Aragon, Éluard, Malraux, Romain Rolland, Sartre, Simone de Beauvoir, Roger Garaudy, Bernard Shaw, H.G. Wells, Brecht, Feuchtwanger, Heinrich Mann, Kazantzaki, Pablo Neruda, Jorge Amado, Alejos Carpentier, enfin, il serait fastidieux d’énumérer tous les grands noms de la première moitié de ce siècle attachés aux idéaux de 1917. Liaison quelquefois aveugle et inconditionnelle, amour qui ferme les yeux aux déformations de l’aimé, comme chez Aragon ou Neruda. Passion quelquefois tourmentée, parsemée de doutes et des ruptures, comme chez Gide ou Sartre. Mais préoccupation toujours constante pour des générations d’artistes. D’ailleurs il ne pourrait pas en être autrement: comment pourraient-ils, ces hommes engagés avec l’homme, ignorer ce qui s’annonçait comme le prélude d’un monde nouveau? Dans sa monumentale biographie (1), Herbert Lottman nous raconte le processus d’engagement et d’adhésion de Camus au Parti Communiste. Nous sommes en 1934. L’époque est confuse. En France, la crise économique bat son plein, l’Algérie tombe dans une nouvelle période de turbulence politique, «la droite basculant ver le fascisme et la gauche vers le communisme, chacune attirée vers son modèle, l’Allemagne de Hitler ou l’Union Soviétique de Staline». (2) Le prestige du marxisme parmi les jeunes est immense. Lottman reproduit, par exemple, ce témoignage de Jean Daniel: «Le sommaire de Commune nous gonflait d’enthousiasme avant même d’avoir lu les articles. Chaque nom était paré d’un prestige qui garantissait pour nous ‘la ligne’. D’ailleurs, comment souhaiter situation plus claire? Pouvait-on douter que le nazisme, le fascisme et leurs complices français incarnaient le Mal? Quant au Bien: il suffisait de regarder Moscou». (3) Camus entre au Parti par l’intermédiaire d’Emile Padula, alors secrétaire général adjoint du mouvement Paix et Liberté (Amsterdam-Pleyel). Sans interrompre son travail universitaire, il dirige la cellule de son quartier ouvrier, Belcourt. On parle de la création d’une revue, La Nouvelle Journée, trait d’union entre Européens et musulmans, qui serait dirigée par Camus. Quant à l’inscription au Parti, le jeune militant attend l’opinion de celui qu’il considère comme son maître, Jean Grenier. Grenier prenait alors des positions qui exigeaient un certain courage. A une époque où des hommes comme Gide ou Malraux, héros de toute une génération, proclamaient leur fascination pour le communisme, Grenier prenait ses distances par rapport à la prison intellectuelle que signifiait pour lui le PC. Il considérait qu’il n’était pas convenable de se précipiter dans le parti sans y être poussé par toutes les forces de l’esprit et du cœur. Le créateur qui, conscient de sa propre misère et de la solidarité humaine, se jette dans le parti, il le comparait à la jeune fille qui décide soudain de se marier pour échapper à la famille. Et il anticipe la fin de la lune de miel de Gide avec le marxisme. Et pourtant, Grenier conseille à son élève d’accepter le risque. Il considère que la vie n’est pas concevable sans risque, et que les avantages et les périls d’une carrière dans le PC ne pouvaient changer en rien les convictions de Camus. «Vous avez raison quand vous me conseillez de m’inscrire au parti communiste. Je le ferai à mon retour des Baléares. Je vous avoue que tout m’attire vers eux et que j’étais décidé à cette expérience. Les obstacles que j’oppose au communisme, il me semple qu’il vaut mieux les vivre». (4) Pour Lottman, il y a un cynisme bien intentionné de la part de Grenier dans ce conseil: «Il estimait que le Parti pouvait procurer une carrière valable à quelque nouveau Julien Sorel. En l’expliquant à son élève préféré, en l’écrivant plus tard, Grenier avait-il envisagé toutes les implications de ce qu’il suggérait? Le jeune héros de Stendhal n’avait-il pas opté cyniquement pour l’Église comme tremplin pour ses ambitions? Grenier ne voulait certainement pas sous-entendre qu’il souhaitait inciter Camus à agir hypocritement. Mais s’il espérait voir Camus agir sincèrement, n’était-ce pas lui, Grenier, le cynique?» (5) De toute façon, il est clair que Camus ne cherchait pas dans le Parti l’occasion d’une carrière soit politique, soit littéraire. Comme machine publicitaire, le Parti est un outil de rêve pour un jeune écrivain inconnu, et évidemment beaucoup d’auteurs dans le monde ne seraient pas diffusés sans ces coups de main extra-littéraires. Mais Camus voit le Parti comme un instrument de travail, une machine déjà montée dont on peut se servir pour transformer le monde, et il serait même prêt à faire quelques concessions pour pouvoir l’utiliser. Curieusement, à ce moment-là, Camus reproche aux communistes le manque de ce qui constituera plus tard, dans L’Homme révolté, un de ses chefs d’accusation à la nouvelle philosophie : «Ce qui m’a longtemps arrêté, ce qui arrête tant d’esprits je crois» - écrit-il à Grenier – «c’est le sens religieux qui manque au marxisme» (6). On voit dans cette évolution spirituelle de Camus la paradoxale impulsion d’un homme qui ne veut pas professer une doctrine parce qu’elle manque de religiosité, et qui s’en éloignera parce qu’elle est une nouvelle religion. Les doutes – Vaut-il la peine, pour l’individu, de donner sa vie pour l’avenir de la société sans classes? À cette question, d’ordre existentiel, le marxisme n’a pas encore répondu. Pour Camus, le sacrifice de l’individu serait concevable si la lutte d’une ou deux générations suffisait à amener la société sans classes. L’avenir a donc un visage pour le militant, c’est le visage de son petit enfant. Mais il faut beaucoup de foi pour lutter pendant des générations pour un avenir qui tarde à arriver, «il faut alors les certitudes de la foi pour accepter de mourir et de donner la mort». (7) La fin de l’histoire dans la théologie marxiste coïncide avec la fin de l’économie politique, ce qui veut dire, la fin de toute douleur. «Nous sommes dans l’Eden». (8) Mais Marx, à la façon des grands prophètes, ne donne pas un délai pour cet événement. Le marxisme se contente de dire que les délais sont longs et qu’il faut compter avec la fin qui justifie tout. Le meurtre ou le suicide, comme on l’a déjà vu, en somme, la mort, sera une préoccupation dans toute l’œuvre camusienne. De retour d’un voyage aux États Unis, il écrit dans son journal que «le seul problème vraiment sérieux c’est le meurtre».(9) Cette phrase, avec deux variantes, est la nouvelle formulation de l’ouverture du Mythe de Sisyphe. Car Camus, à cette époque de sa vie, n’établira plus de grandes différences entre l’un et l’autre. Dans les mêmes Carnets il insistera sur la pureté du terroriste Kaliayev, pour lequel meurtre égale suicide, puisque une vie est payée pour une autre. «Le raisonnement est faux, mais respectable. (Une vie ravie ne vaut pas une vie donnée). Aujourd’hui, le meurtre par procuration. Personne ne paye». (10) Analysant la révolution russe, Camus voit dans le communisme l’ambition d’édifier, après la mort de Dieu, une cité de l’homme enfin divinisé. Ce parallélisme entre la Parousie recherché par le christianisme et une Parousie terrienne, au bout de l’Histoire, sera une constante dans toute l’analyse camusienne. À l’origine du marxisme, l’auteur en vient à voir un messianisme d’origine chrétienne et bourgeoise. L’Histoire considérée comme un mouvement qui se déroule d’une origine vers une fin, conception propre au christianisme, sera reprise par Marx, via Hegel. Au long de son essai, Camus reprendra plusieurs fois ce sujet. Citons à ce propos différents passages, traduisant l’insistance de sa pensée sur ce parallélisme: «Pour les chrétiens comme pour les marxistes, il faut maîtriser la nature. Les Grecs sont d’avis qu’il vaut mieux lui obéir». (11) «L’athéisme marxiste est absolu. Mais il restitue pourtant l’être suprême au niveau de l’homme. (...) Sous cet angle, le socialisme est ainsi une entreprise de divinisation de l’homme et a pris quelques caractères des religions traditionnelles». (12) «Le messianisme scientifique de Marx...». (13) Le prolétariat, «par ses douleurs et ses luttes, il est le Christ humain qui rachète le péché collectif de l’aliénation». (14) «La révolution russe reste seule, vivante contre son propre système, encore loin des portes célestes, avec une apocalypse à organiser. La Parousie s’éloigne encore. La foi est intacte, mais elle plie sous une énorme masse de problèmes et des découvertes que le marxisme n’avait pas prévus. La nouvelle église est à nouveau devant Galilée: pour conserver la foi, elle va nier le soleil et humilier l’homme libre». (15) Pour Camus, ce qui est en cause, c’est le mythe de la divinisation de l’homme, de la domination, de l’unification de l’univers par les seuls pouvoirs de la raison humaine. Selon lui, la Russie croyait être l’instrument de ce messianisme sans Dieu. Le siècle de la peur - Très sévères seront les critiques de Camus à une philosophie qui justifie la mort de l’individu en fonction d’un hypothétique idéal futur. En 1946, du 19 au 30 novembre, Camus publie dans Combat une série d’articles, sous le titre générique de Ni victimes ni bourreaux, réflexions qui anticipent L’Homme révolté. Si le XVIIe fut le siècle des mathématiques, raisonne Camus, si le XVIIIe a été le siècle des sciences physiques, si le XIXe a été le siècle de la biologie, l’homme contemporain vit le siècle de la peur : «On me dira que ce n’est pas là une science. Mais d’abord la science y est pour quelque chose, puisque ses derniers progrès théoriques l’ont amenée à se nier elle-même et puisque ses perfectionnements pratiques menacent la terre entière de destruction. De plus, si la peur en elle-même ne peut être considérée comme une science, il n’y a pas de doute qu’elle ne soit cependant une technique». (16) Ce qui choque Camus, c’est le fait que les hommes qui ont vu «mentir, avilir, tuer, déporter, torturer» aient fait les sourds chaque fois qu’on essayait de dissuader les hommes qui mentaient, avilissaient, tuaient, déportaient et torturaient, parce que ceux-ci luttaient au nom d’une abstraction, d’une idéologie. Le dialogue entre les hommes n’est plus. «Un homme qu’on ne peut pas persuader est un homme qui fait peur». (17) Camus n’accepte pas les contraintes de son époque, ou du moins les contraintes de certains courants intellectuels. On ne peut par parler de l’épuration des artistes en Russie parce que ça favorise la réaction. Impossible de condamner l’appui des Anglo-Saxons à Franco, parce que ça serait favoriser le communisme. Des hommes concrets, des hommes en chair et en os (ces hommes sans H majuscule, dont parlait Ernesto Sábato) sont massacrés, triturés au nom de solennels idéaux. Ce massacre ne doit pas être dénoncé, pour ne pas empêcher la marche de l’Idée : «Nous vivons dans le monde de l’abstraction, celui des bureaux et de machines, des idées absolues et du messianisme sans nuance». (18) Pour échapper à cette terreur, Camus propose une pause afin de réfléchir, sans oublier que la terreur n’est pas propice à la réflexion. Il appelle les hommes sans parti – ces hommes sans aucun parti, dont parlait Panaït Istrati, dans Vers l’autre flamme – ou même les hommes de parti et qui se sentent mal à l’aise, tous ceux qui doutent de la réalisation du socialisme en Russie et du libéralisme en Amérique, il appelle même ceux qui ont des croyances mais qui se refusent à les imposer par l’assassinat, individuel ou collectif. Il se révolte contre la justification de l’assassinat au nom d’abstractions, aussi attirantes soient-elles. Et il pose à ses contemporains deux questions fondamentales : «Oui ou non, directement ou indirectement, voulez-vous être tué ou violenté? Oui ou non, directement ou indirectement, voulez-vous tuer ou violenter? Tous ceux qui répondront non à ces deux questions sont automatiquement embarqués dans une série de conséquences qui doivent modifier leur façon de poser le problème». (19) Ce qu’il demande c’est un monde, non pas où l’on ne se tue pas – «nous ne sommes pas si fous!» – mais où du moins le meurtre ne soit pas légitimé. Ce qui le choque, c’est que tous ceux qui luttent pour des idéaux historiques sont des hommes pleins de bonne volonté et que le résultat de leur action soit le meurtre, la déportation et la guerre. Le refus de légitimer le meurtre doit nous conduire à une reconsidération de la notion d’utopie: «L’utopie est ce qui est en contradiction avec la réalité. De ce point de vue, il serait tout à fait utopique de vouloir qu’une personne ne tue plus personne. C’est l’utopie absolue. Mais c’est une utopie à degré beaucoup plus faible que de demander que le meurtre ne soit plus légitimé». (20) Or, énoncées à une époque où Staline fascinait les intellectuels de l’Occident, ces réflexions vont provoquer des réactions peu courtoises. Dans Combat, l’article passe inaperçu. Mais à l’occasion de sa nouvelle publication dans Caliban (novembre 47), la critique camusienne du stalinisme provoquera pas mal de remous. La première réaction vient du baron Emmanuel d’Astier de la Vigerie, homme de droit avant la guerre, qui s’était plié aux nouveaux vents de l’histoire. Dans un article publié dans la même revue, en avril 48, d’Astier n’accepte pas une troisième option. Rejeter la révolution communiste signifierait servir à la cause du capitalisme, argument que les communistes emploieront pendant toute la Guerre Froide. Donc, Camus est un moraliste, un saint laïque, un complice du capitalisme. Critique du marxisme - Cet article donne à Camus l’occasion de bien préciser la critique qu'il adresse au marxisme, comme il se présente dans l’histoire à son époque. Dans ces jours-là, Victor Kravchenko avait déjà publié J’ai choisi la liberté, le plus formidable libelle contre le stalinisme et il n’était pas facile de nier les évidences de l’univers concentrationnaire. Les deux réponses à d’Astier (Caliban, juin 48, et La Gauche, octobre 48) offrent déjà les éléments fondamentaux de la partie la plus polémique de L’Homme révolté, publié en 1951. Camus insiste sur le refus de toute légitimation de la violence, «que cette légitimation lui vienne d’une raison d’État absolue, ou d’une philosophie totalitaire». (21) Il ne prône pas la non-violence, il n’est pas si naïf. Mais il pense que la violence doit être délimitée, «il faut la cantonner dans certains secteurs quand elle est inévitable, amortir ses effets terrifiants, en l’empêchant d’aller jusqu’au bout de sa fureur». (22) Il refuse la violence confortable qui vient d’intellectuels dont les mots vont plus loin que les actes. Il méprise les appels au meurtre, et il cessera de les mépriser quand ces intellectuels oseront prendre le fusil: «...on ne peut pas être du côté des camps de concentration. J’ai compris alors que je détestais moins la violence que les institutions de la violence». (23) À cette époque, se pose la question des communistes grecs condamnés à mort. Camus – qui interviendra pour leur libération – pense que le problème ne peut pas se résumer à une question statistique. Il refuse l’idée que, pour que les communistes grecs soient épargnés, il faut tuer un certain nombre de non-communistes, et que seuls les communistes méritent d’être sauvés: «Je dis, moi, qu’ils le méritent en effet, mais au même titre que les autres hommes». (24) Camus accuse certains marxistes de ne pas admettre que les données objectives de l’époque de Marx ont changé. Le marxisme a été conçu au temps de la machine à vapeur et de l’optimisme scientifique. Nous sommes au siècle de l’atome et de la relativité. Marx, lui-même, s’il avait vu le développement scientifique qui s’est produit après sa mort, avec la croissance des moyens de destruction, aurait peut-être reconnu que les données objectives de la révolution avaient changé. À la fin du débat avec d’Astier, Camus lui fait une proposition embarrassante. Il propose à d’Astier une prise de position conjointe, contre tous les totalitarismes, qu’ils soient de gauche ou de droite. Camus signera volontiers – et il l’a fait – une lettre ouverte à la presse américaine pour protester contre la complicité directe ou indirecte des États Unis dans les exécutions grecques. Il y ajoutera une protestation contre le maintien de Franco en Espagne. À une seule condition : que d’Astier se dispose à publier, dans la presse française (car la russe ne la publierait pas) une lettre ouverte où il prenne position contre le système concentrationnaire soviétique et l’utilisation de la main-d’œuvre des déportés. Sans réponse. Voyage au Brésil - C’est sous l’impact de ces discussions que Camus, tenté par le suicide et en fragile état de santé, fait son voyage en Amérique Latine. En arrivant à Porto Alegre, le 9 août 1949, il prononce une conférence à l’Instituto de Belas Artes, sous le titre accusateur de «L’Europe et le crime». Dans cette allocution, il considérait que des hommes dispersés dans divers continents se tournaient vers l’Europe et s’interrogeaient sur son avenir, convaincus que l’esclavage ou le désespoir de cette Europe provoquerait la disparition de valeurs indispensables à tout homme digne de ce nom. Le conférencier partageait cette inquiétude, mais se refusait à n’importe quelle prophétie. Il ne prétendait qu’étudier la maladie présente du vieux continent et déterminer, s’il en était possible, les remèdes à appliquer. Son éloignement de l’Europe et ses espoirs dans le nouveau monde sont, certainement, les facteurs qui le poussent à être plus que jamais accusateur. Selon l’écrivain, l’Europe vivait alors en détresse, car on y avait beaucoup tué dans les dernières années et d’une nouvelle façon: Caïn assassinait Abel au nom de la logique et demandait tout de suite la Légion d’honneur. Dans plusieurs pays, les bourreaux s’étaient installés dans des fauteuils ministériels et avaient simplement remplacé la hache par l’encrier. L’Europe souffrait du crime et de l’abstraction, ce qui pour Camus constitue une seule et même maladie. Il préconisait alors une révolte humaine contre l’Europe de l’efficacité, une révolte sans laquelle le monde serait dominé par des peuples enfantins, qui riraient assis sur leurs machines, une révolte comme refus de domination et tentative de diminuer la douleur des hommes. Il a alors raconté une anecdote sur un adolescent français. Sous la menace de mort d’un policier allemand, le garçon répétait qu’aucune idée ne méritait qu’on meure pour elle. Ce qui signifiait, en même temps, qu’en fait il y avait des idées pour lesquelles on pouvait consentir à donner sa vie. Ces idées étaient supérieures à l’existence de l’individu car nécessaires à l’homme: la liberté, la justice, la lutte contre l’envie, contre le mensonge et contre la violence. Camus terminait en disant que, si par malheur, l’écrivain échouait dans sa généreuse mission, il vaudrait mieux se tromper sans tuer personne que d’avoir raison au milieu du silence et des tombes. (25) La dénonciation des goulags – Dans ces années-là, Camus est un des rares intellectuels à oser dénoncer ouvertement les camps qui plus tard seront connus comme goulags. Dès 1941, l’Occident en avait déjà entendu parler, soit à partir des témoignages de rescapés, soit à partir du livre de Kravchenko, soit à partir de détails de la presse soviétique, mais il maintenait un lourd silence sur le sujet. David Rousset sera celui par qui le scandale arrive, en publiant dans Le Figaro littéraire (26) un article où il exhorte les anciens déportés politiques à appuyer la proposition d’une enquête dans les camps soviétiques. Parmi d’autres délicatesses, dans Les Lettres françaises, Pierre Daix le traite de «menteur éhonté». (En 1950 encore, dans Nouvelle Critique, Daix insistait: «les renégats sont toujours seuls, menteurs et désespérés». En 1974, ce sera son tour de devenir seul, menteur et désespéré). Le débat amènera Sartre, jusque là encore hésitant, à rompre le silence en janvier 1950 et à se déclarer convaincu de l’existence des camps. En estimant le chiffre des détenus à dix ou quinze millions, il se demande quel est ce socialisme dans lequel un citoyen sur vingt est dans les camps. Rousset ouvre un procès contre Daix et Lettres françaises. Ce qui est curieux, c’est le fait que plusieurs intellectuels communistes, qui avaient subi les horreurs des camps nazis, sont restés insensibles aux preuves apportées par Rousset et ont pris le parti de Daix. En somme, Camus était plongé dans le vieux problème de la fin et des moyens, sujet sur lequel il ne fera pas de concessions. Avec la fin de la société de classes, selon le marxisme, l’État cesse d’être nécessaire. Il faut que la dictature du prolétariat s’impose pour atteindre deux buts: opprimer ou supprimer ce qui reste de la classe bourgeoise réaliser la socialisation des moyens de production. Ces deux objectifs atteints, la dictature commencerait à dépérir, ce que Camus ne voyait pas dans l’État soviétique, trois décennies après la Révolution. Vu des nos jours, après la chute du Mur de Berlin et l’effondrement du communisme et de l’URSS, Camus est un des rares écrivains lucides du siècle passé. Bibliographie: 1. H. Lottmann, Albert Camus, Éditions du Seuil, 1978. 2. Ibid., p. 91. 3. Ibid., p. 93. 4. Jean Grenier, Albert Camus, Gallimard, 1935, p. 45. 5. Op. cit., p. 101. 6. Jean Grenier, Albert Camus, Gallimard, 1935, p. 45. 7. L’Homme révolté, in Essais, Gallimard, «Bibliothèque de la Pléiade», 1965, p. 626. 8. Ibid., p. 627 9. Carnets, janvier 1942-mars 1951, Gallimard, 1964, p. 172. 10. Ibid., p. 199. 11.L’Homme révolté, in Essais, Gallimard, p. 595. 12. Ibid., p. 597. 13. Ibid., p. 598. 14. Ibid., p. 610. 15. Ibid., p. 616. 16. Actuelles 1, in Essais, op. cit., p. 331. 17. Ibid., p. 332. 18. Ibid., p. 332. 19. Ibid., p. 333. 20. Ibid., p. 335. 21. Ibid., p. 355. 22. Ibid., p. 356. 23. Ibid., p. 356. 24. Ibid., p. 356. 25. Correio do Povo, Porto Alegre, 12 août 1949. 26. Le Figaro Littéraire, 12 novembre 1949. * Artigo publicado no n° 85 do boletim da Société des Études Camusiennes, Paris, outubro 2008
Segunda-feira, Outubro 13, 2008
DESESPERO PETISTA VIRA CONVERSA DE LAVADEIRAS Pelo jeito, o desespero acampou nas hostes petistas paulistanas. Em comerciais na TV, o locutor pergunta sobre Kassab: "Sabe se ele é casado? Tem filhos?" A insinuação não poderia ser mais direta. Corre à boca pequena em São Paulo que Kassab é homossexual. Se é, exerce um direito de todo cidadão e ninguém tem nada a ver com sua opção. Tanto Berlim como Paris tiveram prefeitos homossexuais, e isso nada tem a ver com capacidade administrativa. Aliás, minha aldeia lá da Fronteira Oeste, Dom Pedrito, foi pioneira neste sentido. Ainda nos anos 70, teve um prefeito homossexual, o folclórico Rui Bastide, que era muito estimado pelos pedritenses. Desespero é fogo. Quando o partido da sexóloga que defende o casamento homossexual faz publicamente tais insinuações, o debate se nivela a conversa de lavadeiras, se é que lavadeiras ainda existem. Em 2003, Marta Suplicy vivia a condição de bígama. Era amante do argentino Luís Favre, mas ai do jornalista que ousasse escrever a malsinada palavrinha. Era acusado de invadir a privacidade de Dona Marta e seus dois maridos. Favre era namorado. Já o ACM tinha amantes. Ai do jornalista que ousasse escrever que ACM tinha namorada. A questão provocou a indignação de Barbara Gancia, da Folha de São Paulo, que se espantava com "a desenvoltura da mídia e dos envolvidos no caso dos grampos telefônicos na Bahia em tratar a senhora Adriana Barreto como ex-namorada de ACM. "Vem cá: o senador não é um homem casado? Então que história é essa de "ex-namorada"? Até prova em contrário, Adriana foi ou voltará a ser (se depender da vontade dos pais) a amante de ACM". Zélia Cardoso de Mello, por exemplo, era a amante de Bernardo Cabral. Suzana Alves, a amante de PC Farias. Fernandinho Beira-Mar também tinha amantes. Mas Dona Marta era de esquerda, era do bem. Logo, namoradinha do compadrito argentino. Mônica Bergamo, cronista de futilidades da Folha de São Paulo, ia mais longe. Sem que Marta e Favre tivessem casado, a colunista falava em “Marta Suplicy e seu marido, Luis Favre". Roberto Pompeu Toledo, colunista de Veja, aproveitou o ensejo e fez ironias dizendo que ficou feio falar em amante. "A palavra invoca trampolinagem de mau gosto, libertinagem de subúrbio. Só não é mais brega que "amásia". Então, usa-se "namorada", ou "ex-namorada", para qualificar a mulher que incorreu na fúria do poderoso senador. Pelos padrões atuais de bom gosto, a língua talvez não ofereça mesmo melhor alternativa. Mas surge um problema. Namorar, pelo que sempre se entendeu, e ainda em geral se entende, é para pessoas livres e desimpedidas. Ora, o personagem em questão é homem casado, pai de filhos e avô de netos. Pode-se falar com tanta naturalidade que tem, ou tinha, namorada? Se se pode, é porque estamos no Islã e não sabíamos. Caiu mais um tabu, e está liberada a poligamia". O que o colunista parece ter esquecido é que bigamia também é poligamia. Ora, não vivemos numa sociedade islâmica teocrática – para usar seu paralelo –, e ter amantes faz parte do cotidiano. Verdade que a palavrinha envelheceu, ou mesmo assumiu uma conotação pejorativa, talvez politicamente incorreta. Mas a poligamia está liberada, sim senhor. Só não pode ser reconhecida legalmente. Adultério já não é considerado crime. O PT se indignava quando alguém falava em adultério a respeito de Marta. Mas se reserva o direito de insinuar a suposta homossexualidade de Kassab. Marta, que já criticou a exploração de sua vida pessoal, por ocasião da affaire Favre, faz vistas grossas quando a campanha de seu partido joga na televisão insinuações sobre a vida privada de seu adversário. O desespero petista está se traduzindo em conversa de lavadeiras.
ENTRE AS FARC E O BOM JEOVÁ, INGRID PREFERE QUEM MATA MAIS Ingrid Betancourt, a deputada seqüestrada pelas FARC durante seis anos e resgatada pelo Exército colombiano em julho passado, tem algo em comum comigo, o gosto pelo cochinillo. Teve como companheiro de desgraça durante quatro anos Luis Eladio Pérez, político colombiano que, durante o cativeiro, lhe falava de um restaurante madrilenho, El Sobrino de Botín, onde serviam um cochinillo assado excelente, que ele descrevia com muitos detalhes até que Ingrid, com o estômago inundado por sucos gástricos, lhe pedia que por favor se calasse. É o que leio no El País deste domingo. Paraíso é isso mesmo. Uma vez lá, jamais esquecemos dele. Mas não era disto que pretendia falar. Está ocorrendo um fenômeno curioso no mundo da mídia. Qualquer vítima se sente, ipso facto, herói. Por ter permanecido seis anos como refém do narcotráfico, Betancourt se sentiu logo merecedora do prêmio Nobel da Paz. Na véspera da premiação, uma sala já havia sido alugada em um luxuoso hotel de Paris, para uma entrevista coletiva com a seqüestrada. Um comitê denominado “Agir avec Ingrid” chegou a preparar um comunicado sobre o significado do troféu a ser conferido à deputada. Santa ilusão. Deu Martti Ahtisaari, ex-presidente da Finlândia, discreto mediador de conflitos no mundo todo, que incluem o processo de independência da Namíbia, o conflito armado de Aceh, na Indonésia, mais conflitos no Iraque, na Irlanda do Norte, na antiga Iugoslávia, na Ásia Central e no Chifre da África. Mas que teria feito Ingrid merecer o Nobel da Paz? Permaneceu seis anos como prisioneira de terroristas. Ora, que mérito tem isso? Muitos outros permaneceram esse período prisioneiros das FARC – e outros ainda permanecem – e nem por isso se julgam merecedores do Nobel. Ocorre que Ingrid teve convivência com velhos comunossauros como Pablo Neruda e Gabriel Márquez, sem falar que após sua libertação andou tendo colóquios com sumidades como Bento XVI, Nicolas Sarkozy e outros ícones da mídia contemporânea. Logo se sentiu candidata natural ao Nobel. Seja como for, em 23 de setembro passado, mereceu seu cochinillo no Sobrino de Botín, quando esteve em Madri para o lançamento de Inferno Verde, o livro de Luis Eladio. Cá entre nós, muito melhor que uma cerimônia chata de Nobel. Mas tampouco era disto que pretendia falar. E sim de algo mais surpreendente. Em seus dias como refém, Ingrid teve consigo uma Bíblia, que teria mudado sua vida. “A Bíblia é um instrumento extraordinário” – diz a ex-refém - . “É preciso ler a Bíblia com tranqüilidade, sem orelhas que te condicionem a lê-la por cima, sem entender o retrato humano da relação de Deus com o homem. É muito difícil explicar, mas o que quero dizer é que entendi, lendo a Bíblia, que Deus não é energia, nem luz nem partículas de gás no cosmos, mas que Deus é um ser humano, em outras palavras, que o o que nós temos de humanos é o que temos de Deus e, portanto, que sua relação conosco é uma relação de palavras, e creio que isso é fundamental: entender que somos seres de palavras. Então, através da Bíblia chega a palavra de Deus com uma riqueza infinita de códigos humanos e com retratos psicológicos impressionantes, como os de Abraão”. Vamos começar com Abrão, que assim se chamava Abraão no início dos tempos. De fato, é um retrato psicológico impressionante. Quando no Egito, prostituiu sua mulher, Sara, para receber benesses de Faraó. “Ora, bem sei que és mulher formosa à vista – diz Abrão no Gênesis – e acontecerá que, quando os egípcios te virem, dirão: Esta é mulher dele. E me matarão a mim, mas a ti te guardarão em vida. Dize, peço-te, que és minha irmã, para que me vá bem por tua causa, e que viva a minha alma em atenção a ti. E aconteceu que, entrando Abrão no Egito, viram os egípcios que a mulher era mui formosa. Até os príncipes de Faraó a viram e gabaram-na diante dele; e foi levada a mulher para a casa de Faraó. E ele tratou bem a Abrão por causa dela; e este veio a ter ovelhas, bois e jumentos, servos e servas, jumentas e camelos”. Até Faraó se ofendeu com tanta caftinagem. “Então chamou Faraó a Abrão, e disse: Que é isto que me fizeste? por que não me disseste que ela era tua mulher? Por que disseste: É minha irmã? - de maneira que a tomei para ser minha mulher. Agora, pois, eis aqui tua mulher; toma-a e vai-te. E Faraó deu ordens aos seus guardas a respeito dele, os quais o despediram a ele, e a sua mulher, e a tudo o que tinha”. Impressionante o retrato psicológico do patriarca. Mas isto é o de menos. Nos últimos dez anos, as FARC teriam cometido mais de seis mil assassinatos. Ora, isto é fichinha para o bom Deus de Ingrid. Só para começar, já no Gênesis, Jeová extermina todo o gênero humano. Por quê? Porque os filhos dos deuses haviam descoberto que as filhas dos homens eram belas e com elas se cruzaram. Só porque os filhos dos deuses admiravam a beleza, Jeová destrói o gênero humano, exceto Noé e os seus. Imbuído por Jeová, outro renomado patriarca, Moisés, mata três mil judeus a fio de espada. Jamais as FARC conseguiram tal feito. Elias, por culto a Jeová degola 450 sacerdotes de Baal. Jamais as FARC degolaram tantos de uma vez só. Só porque os sodomitas eram chegados a uma sexualidade menos ortodoxa, Jeová arrasa a ferro e fogo Sodoma. Poupa Lot, o único homem justo de Sodoma. Logo aquele que dormirá mais tarde com suas duas filhas. Que saibamos, jamais as FARC arrasaram uma cidade. Eliseu sobe a Betel, quando alguns meninos saíram da cidade e começaram a gritar: “sobe, careca; sobe, careca”. O santo homem amaldiçoou-os em nome do Senhor. Duas ursas saíram do bosque e despedaçaram quarenta e dois daqueles meninos. Não temos notícia nenhuma de que algum dia as FARC tenham matado tantas crianças. O sábio rei Davi carrega a morte de 70 mil israelitas. Davi faz um censo de seu povo, o que provoca a ira de Jeová. Como castigo, pode escolher entre três opções: “ou três anos de fome; ou seres por três meses consumido diante de teus adversários, enquanto a espada de teus inimigos te alcance; ou que por três dias a espada do Senhor, isto é, a peste na terra, e o anjo do Senhor façam destruição por todos os termos de Israel". O sábio rei Davi não tem dúvidas, escolhe os três dias de peste. "Mandou, pois, o Senhor a peste a Israel; e caíram de Israel setenta mil homens". Jamais as FARC mataram tanto. As FARC não conseguiram matar além dos quatro dígitos. Ingrid Betancourt deve considerá-los uns incompetentes. E passou a cultuar quem mata mais e com mais eficácia.
Domingo, Outubro 12, 2008
GALEGA DESCONHECE O MELHOR DA GALÍCIA A escritora brasileira Nélida Piñon, de origem galega, afirmou em Santiago de Compostela que a “a literatura galega não é conhecida, mas a brasileira muito menos”. Considerou necessário promover mais a tradução a outras línguas para dar a conhecer as obras. Como afonsocelsista de carteirinha, afirmou que Machado de Assis é um “gênio, talvez o maior talento literário da América Latina”. Traduzindo: traduzam mais meus livros, foi o que quis dizer a galega. Aspiração legítima de todo escritor. Mas o que não poderia ter dito é que a literatura galega não é conhecida. Parece que esqueceu Camilo José Cela, prêmio Nobel de Literatura em 1989, nascido em Iria Flavia, La Coruña, em plena Galícia. Cela é autor de A Família de Pascual Duarte – que tive a honra de traduzir ao brasileiro –, considerada a novela espanhola mais publicada no mundo depois do Quixote. Entre seus mais de cem títulos, escreveu também Mazurca para Dois Mortos – que também tive a honra de traduzir – uma belíssima interpretação, quase música, de sua Galícia natal. Piñon, que se pretende galega, demonstra desconhecer o melhor da Galícia.
BOLSAS CAINDO, APARECIDA BOMBANDO: SÓ A PALAVRA DIVINA PERMANECE Bem dizia Sua Santidade que as bolsas caem e a palavra de Deus permanece. Enquanto instituições financeiras vão à falência no mundo todo, o santuário de Aparecida, aqui em São Paulo, está bombando. Segundo o Estadão, os hotéis de Aparecida estão lotados. As fábricas de velas e de imagens dobraram a produção e recusam novos pedidos. Não há como aumentar a fabricação porque falta mão-de-obra na cidade. As lojas estão abarrotadas de todos os tipos de suvenires religiosos, prontas para receber um milhão de romeiros que vão passar por Aparecida até o fim de outubro, 230 mil somente neste sábado e domingo. Mês passado, eu comentava o mais próspero mercado da fé na Europa, Lourdes, também conhecida como a Disneylândia do catolicismo, com seus 223 hotéis, 14 mil quartos e 28 mil leitos, o que a torna a segunda cidade hoteleira da França, depois de Paris. Com mais de seis milhões de peregrinos por ano, os santuários de Lourdes gerem um orçamento colossal de certa de 30 milhões de euros anuais. Cerca de 12 milhões de euros circulam em dinheiro líquido através das oferendas, caixas de esmolas e coletas, após cada missa. Três outros milhões provêm de doações e legados, solicitados aos crentes por correio, duas vezes por ano. O resto decorre das atividades conexas à peregrinação: hospedagem, restauração, compras em lojas, venda de livros, revistas, CDs, DVDs. Aparecida não fica longe. Segundo a Associação Comercial, são 1.200 lojas de produtos religiosos, 160 bares e restaurantes e 30 mil leitos em 165 hotéis. Além das lojas, há ainda, na feira, 2.500 barracas, que também vendem artigos de Nossa Senhora Aparecida. Tudo para atender os 8,5 milhões de romeiros que todos os anos passam pelo município. Ainda segundo o Estadão, a cidade conta com cerca de 80 microindústrias voltadas para atender ao comércio local, onde são fabricadas velas, imagens de santos, terços, quadros. Para comer, se hospedar, circular e rezar, o turista acaba gastando, em média, cerca de R$ 50 por dia, o que resulta na movimentação de cerca de R$ 450 milhões por ano. A chuva de dinheiro sobra até para as cidades vizinhas. Se não há mais vagas em Aparecida, os romeiros ficam em outros municípios. Os governos do país e dos Estados vivem quebrando a cabeça para resolver o problema do desemprego. Ora, Aparecida nos aponta para uma solução singela. Canonizem-se mais santos nossos. Precisamos de santos e mais santos, miríades de santos, santos por todos os cantos, para dar pleno emprego aos brasileiros. Verdade que a produção gerada por tais empregos não passa de vento. Mas a Virgem vende bem e sempre serve para conjurar a crise. Enquanto o Ocidente vive em estado de pânico, a nave da Santa Madre navega serena pelo oceano da fé. Só na fábrica de velas do empresário Péricles de Moraes, as velas de metro - usadas para pagar promessas - neste mês chegaram a 150 mil unidades. "Sem contar os outros tipos. A produção neste ano teve um aumento de cerca de trinta por cento", comemora. Sua fábrica fornece para o Santuário Nacional, que comercializa as velas nas cores azul e branca, cores que evocam o manto de Nossa Senhora Aparecida. Verdade que a Igreja já condenou como simonia a venda de bens espirituais. Alexandre VI, por exemplo – aquele papa que me fez nascer no Brasil e não no Uruguai - sofreu tentativa de deposição em 1494, por parte de prelados à frente dos quais aparecia o cardeal Della Rovere, futuro Papa Júlio II. Resistiu, mas continuou a praticar atos imorais, apesar da condenação que lhe dirigiam, entre outros, o padre Girolamo Savonarola. Que foi devidamente preso por ordem papal e condenado à morte. Foi enforcado no dia 25 de maio de 1497 e teve seu corpo queimado para escarmento. Mas não se fazem mais Savonarolas como antigamente. Simonia virou moeda corrente. A Santa Madre, nestes dias bicudos, sequer pensaria em renunciar aos gordos dividendos do próspero mercado da fé. De fato, enquanto as bolsas caem, só a palavra de Deus permanece.
Sábado, Outubro 11, 2008
TSE QUER ENGARRAFAR O INENGARRAFÁVEL Através da resolução nº 22.718, que serve de guia para as eleições deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) equiparou a internet ao rádio e à televisão, que são concessões públicas. A legislação eleitoral proíbe a mídia eletrônica de difundir opinião favorável ou contrária a candidato e ainda de dar tratamento diferenciado aos postulantes. Com a resolução, ferramentas da internet - como blog, e-mail, web TV, web rádio e páginas de notícias, de bate-papo, de vídeos ou comunidades virtuais - não podem ser usadas para divulgar imagens ou opiniões de apoio ou crítica a candidatos. Já os jornais e revistas, que são empresas privadas, não sofrem restrições. Ou seja, os juízes eleitorais parecem não ter entendido a natureza da internet. Talvez fosse oportuno consultar um adolescente para melhor se informarem. Como controlar os milhões de sites, blogs e comunidades virtuais da rede? Sem falar na suprema tolice de pretender censurar e-mails. Para tanto, seria preciso violar a privacidade de qualquer pessoa que emite e-mails, e estes são milhões. Como milhões são também os blogs e sites. Pretenderá o TSE proibir um cidadão de emitir opiniões sobre um candidato? Seria mais ou menos o mesmo que cercear o direito de voto. No fundo, é até simpática a decisão do tribunal. Recebo centenas de spams na semana, com propaganda pró e contra de candidatos. Propaganda que preferia não receber. Seja como for, melhor liberdade de expressão do que censura. Enfim, talvez exista um método. Mas diria que inviável nos dias que correm: proibir o uso de computador. Surfando nesta onda ridícula, o ex-ministro e candidato a prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, do PT, obteve uma liminar na Justiça para que a Folha Online retire do seu acervo digital uma reportagem de 2005 que, segundo o petista, está sendo divulgada por e-mail por adversários políticos para prejudicá-lo. Ou seja, o candidato quer censurar noticiário. Mais ainda, quer censurar a história. A reportagem de 2005 fala de uma entrevista ao jornal alemão Die Welt, na qual o ex-gerente de Recursos Humanos da Volkswagen, Klaus Joachim Gebauer, disse que Marinho visitou uma boate na Alemanha às custas da fabricante de carros. Bem que o candidato podia exigir junto ao TSE que obrigue o jornal alemão a retirar a notícia de seus arquivos. Marinho se queixa de que seus adversários estão enviando e-mails para eleitores com um link para a reportagem armazenada no arquivo digital da Folha Online, o que estaria afetando sua imagem. Pretenderá o ex-ministro petista censurar e-mails? Uma vez armazenada em computadores, ninguém segura mais a difusão da reportagem. O ex-ministro é outro que precisa buscar a assessoria de um adolescente. O TSE acha que pode mandar o gênio de volta para a garrafa. Mas uma vez destapada a garrafa, ninguém o engarrafa de novo. Resta algo de reconfortante na estúpida resolução. Ao censurar a Web e não impor restrições a jornais e revistas, o TSE está reconhecendo o poder de fogo da nova mídia.
AIATOLÁS PROFEREM AIATOLICES Não bastasse Bento XVI, o aiatolá de Roma, regozijar-se com a crise financeira que grassa no mundo todo, o clero muçulmano está esfregando as mãos de contentamento com o crash em Wall Street. O colapso financeiro está sendo visto como resultado de um castigo divino e da cara política externa do governo Bush na região, principalmente a invasão ao Iraque. Leio na Folha de São Paulo que o aiatolá Ahmad Jannati, um influente linha-dura no Irã, descreveu a crise como uma punição. "Assim como os americanos ficam contentes em ver problemas no Irã, nos estamos felizes em ver a economia americana abalada e os problemas se estendendo à Europa", disse Jannati. "Eles estão vendo os resultados de seus atos odiosos e Deus os está punindo." Os brutos ainda não se deram conta que os países árabes serão profundamente lesados, tanto pela redução da importação de petróleo como pela redução de exportação de alimentos. Se a política de Bush afetou o Iraque, a crise afetará todo o universo muçulmano. Aiatolás em muito se parecem.
LE DERNIER REPAS Leitores não-francófonos que me perdoem, mas não resisto a mais uma letra de Jacques Brel. A mon dernier repas Je veux voir mes frères Et mes chiens et mes chats Et le bord de la mer A mon dernier repas Je veux voir mes voisins Et puis quelques Chinois En guise de cousins Et je veux qu’on y boive En plus du vin de messe De ce vin si joli Qu’on buvait en Arbois Je veux qu’on y dévore Après quelques soutanes Une poule faisane Venue du Périgord Puis je veux qu’on m’emmène En haut de ma colline Voir les arbres dormir En refermant leurs bras Et puis je veux encore Lancer des pierres au ciel En criant Dieu est mort Une dernière fois A mon dernier repas Je veux voir mon âne Mes poules et mes oies Mes vaches et mes femmes A mon dernier repas Je veux voir ces drôlesses Dont je fus maître et roi Ou qui furent mes maîtresses Quand j’aurai dans la panse De quoi noyer la terre Je briserai mon verre Pour faire le silence Et chanterai à tue-tête A la mort qui s’avance Les paillardes romances Qui font peur aux nonnettes Puis je veux qu’on m’emmène En haut de ma colline Voir le soir qui chemine Lentement vers la plaine Et là debout encore J’insulterai les bourgeois Sans crainte et sans remords Une dernière fois Après mon dernier repas Je veux que l’on s’en aille Qu’on finisse ripaille Ailleurs que sous mon toit Après mon dernier repas Je veux que l’on m’installe Assis seul comme un roi Accueillant ses vestales Dans ma pipe je brûlerai Mes souvenirs d’enfance Mes rêves inachevés Mes restes d’espérances Et je ne garderai Pour habiller mon âme Que l’idée d’un rosier Et qu’un prénom de femme Puis je regarderai Le haut de ma colline Qui danse qui se devine Qui finit par sombrer Et dans l’odeur des fleurs Qui bientôt s’éteindra Je sais que j’aurai peur Une dernière fois
Sexta-feira, Outubro 10, 2008
ROMANCES, NÃO MAIS "É preciso continuar a ler romances, porque são uma boa forma de continuar a interrogar o mundo atual de uma maneira não muito tecnicista. Romances são a minha forma de interrogar. Digo isso porque um escritor não é um filósofo” – declarou o novel Nobel, Jean-Marie Gustave Le Clézio. Há uns trinta anos, eu teria concordado com Le Clézio e assinado embaixo. Hoje, não mais. A última ficção que li foi a última que traduzi. No caso, A Família de Pascual Duarte, de Camilo José Cela, em 1986. Se assim foi, encerrei meu ciclo de leitura de ficções com uma novela soberba. Ou seja, faz 22 anos que não ponho os olhos nesses contos de fadas para adultos, como dizia Nabokov. O ficcionista tem algo de petista. Cria argumentos imaginários para melhor rebatê-los. Não é difícil, a uma pessoa dotada de imaginação, criar universos fictícios para defender qualquer tese, por mais absurda que seja. Os cultores do zdanovismo – ou realismo socialista, como é mais conhecido – levaram esta possibilidade às últimas conseqüências. Mas mesmo escritores que jamais poderiam ser acusados de zdanovismo, em maior ou menor grau, abusaram desta possibilidade. Pego, ao acaso, um clássico do século passado, A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Neste romance, em um asilo para tuberculosos, em Davos, se confrontam Settembrini - defensor das idéias da revolução de 1789 e do racionalismo liberal e individualista do século XIX – e Naphta, advogado da parte instintiva e primitiva do homem, que tende à idiossincrasia comunista. Tudo isto sob o olhar atento de Hans Castorp, que fora visitar um primo tísico no asilo. Ora, é evidente que Mann juntou Settembrini a Naphta - dois personagens inviáveis - para discutir sua perplexidade ante o regime que começava a dominar o século. Melhor teria feito se escrevesse um ensaio, denunciando a nova tirania. Por mais que Settembrini e Naphta empunhem argumentos, nenhum deles dá a idéia do que foi o comunismo. O romance de Mann foi publicado em 1924, quando Lênin já havia ordenado fuzilar sumariamente o tzar e sua família. Panaïti Istrati, cinco anos depois, equaciona melhor a questão no ensaio Vers l’autre flamme. Uma coisa é a história vista como ficção. Outra, como realidade nua e crua. Em minha tese sobre a obra de Ernesto Sábato, sustentada na Université de la Sorbonne Nouvelle, defendi com entusiasmo a ficção, a busca de um outro caminho, quando o escritor põe no mundo personagens que parecem ser de carne e osso, "mas que pertencem ao universo dos fantasmas. Entes que realizam por nós, e de certa forma em nós, destinos que a própria vida nos vedou", como diz Sábato. O romance é então uma forma de fugir à imanência, "forma quase tão precária como o sonho, mas pelo menos mais voluntariosa". Para o escritor de Santos Lugares, nisto reside uma das raízes metafísicas da ficção. A outra seria "essa ânsia de eternidade que tem a criatura humana, outra ânsia incompatível com sua finitude. A busca do tempo perdido, o resgate de alguma infância ou alguma paixão, a petrificação de um êxtase". Pode ser. Minha tese, eu a defendi em 81. De lá para cá, mudou minha visão destas fugas à imanência. Tendo escrito dois romances, Ponche Verde e Laputa, concluí que o escritor perde muito tempo criando climas e personagens, quando poderia ser mais conciso e direto no que se propõe. Um dicionário francês definiu o gênero como "história fingida, escrita em prosa". Ora, o real tem se mostrado muito mais surpreendente do que a ficção. Algum ficcionista imaginou que um dia o Muro de Berlim seria derrubado? Que o mundo soviético desmoronaria? Não. Então fico com Fernando Pessoa. "A mesquinhez, a estreiteza imaginativa são os vícios definidores da nossa época. Somos incapazes de escrever, ou de querer escrever, ou de saber ler sem escrever, epopéias. Em compensação, escrevemos romances. O romance é o conto de fadas de quem não tem imaginação" - escreveu Pessoa -. "A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Talhar a obra literária sobre as próprias formas do que não basta é ser impotente para substituir a vida". Minha ficção predileta, hoje, é a ficção teológica. Esta é pra valer. Impõe dogmas, comportamentos, visões de mundo. Lendo literatura, consigo entender o universo dos ficcionistas, mas não necessariamente o mundo. Lendo teologia, entendo o Ocidente. Quando um teólogo elabora uma ficção, cuidado. Ou você acredita na ficção, ou vai para a fogueira. Fascinante, o poder da ficção teológica. Fora isto, meu romance cotidiano são os jornais. Na imprensa, os dramas se desenvolvem dia a dia e os desfechos são quase sempre inesperados. Quem imaginaria um pai e uma mãe jogando uma filha pela janela? Ou pais esquartejando filhos? Nem Dostoievski. Verdade que Swift escreveu sua Modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República. Mas se tratava de ironia. Era ensaio, não ficção. Ano passado, confessei que substitui minha leitura de romances pela leitura dos jornais. O que não é muito diferente. Nos jornais, acompanho ao mesmo tempo vários enredos. Em priscas eras, acompanhei a guerra do Vietnã, as façanhas de Pol Pot no Camboja, as matanças de Mao Tse Tung na China - em proporções que nenhum escritor jamais ousaria imaginar. Acompanhei a Guerra dos Seis Dias, a "revolução" iraniana, os desastres de Khomeiny em Teerã, a primeira e a segunda guerras do Golfo, a queda do Muro, a balcanização da antiga Iugoslávia, o fim da URSS, as aventuras de Clinton no Salão Oval. Os romances são muitos na leitura diária dos jornais e satisfazem a todos os paladares. Le Clézio que me desculpe. Romances, não mais. Topo até reler algum clássico. Mas os ficcionistas contemporâneos me dão a sensação de estar ouvindo as conversas de meu boteco. Houve época em que fui atento aos prêmios Nobéis de Literatura. Tive inclusive meus candidatos. Ultimamente, nem ligo. Um Nobel, hoje, me comove tanto quanto um jogo de futebol. Ou seja, nada.
CRISE CHEGANDO CHEZ MOI Apesar de não crer em Deus, pelo jeito ele gosta de mim. Fiz duas viagens à Europa este ano, com dólar e euro relativamente baixos. A segunda foi em julho, estação alta, o que a encareceu um pouco. Mas pior seria ter uma surpresa nada agradável na volta, na hora da quitação dos cartões. Pouco entendo de economia. Mas quem entende? Certa vez, conversando com um redator de economia da Folha de São Paulo, ele me dizia: “descobri que nós, redatores, pouco ou nada entendemos de economia. Mas descobri outra coisa. Os economistas também não”. Pelo jeito, não entendem mesmo. Se entendessem, conheceriam os mecanismos para debelar a crise. Melhor prova de que nada entendem é que crises econômicas surgem sem serem previstas. Já há pessoas preocupadas em como vão ficar os preços no Natal. Segundo consultores econômicos, é provável que produtos importados aumentem de preço e que produtos nacionais caiam. Tanto faz como tanto fez. Natal para mim é data que não existe. Não dou nem recebo presentes, muito menos mudo meus hábitos alimentares. Os médicos recomendam temperança no Natal e Ano Novo, os jornais dão dicas de como comer sem se empanturrar. São recomendações que não me dizem respeito. Segundo os ditos consultores, “o Banco Central vem aumentando a taxa de juros para reduzir a demanda, o que incentiva empresas a reduzir preços. Até o Natal, a política de reajuste das taxas deve aparecer nas gôndolas. Além disso, empresas exportadoras devem ter mais dificuldade para vender seus produtos lá fora e devem descarregar as mercadorias no mercado interno, incentivando queda de preços. Os preços dos alimentos também estão em queda”. Se o Natal não me preocupa, a crise já está rondando minha casa. Meu sommelier acaba de me telefonar: “Janer, até hoje estamos segurando a cotação do dólar dos vinhos importados. Segunda-feira, os preços sobem”. Tratei de estocar meus diletos da Cordilheira, Malbecs e Carmenères. Estou começando a intuir que a crise está se agravando. Poderá o Ocidente viver sem vinho? Quem sobreviver, verá.
Quinta-feira, Outubro 09, 2008
CULINÁRIA E FUNDAMENTALISMO Comentei na terça-feira a pretensão de Fadi Abboud, presidente da Associação das Indústrias do Líbano, que iniciou uma batalha jurídica para impedir que companhias internacionais comercializem pratos com nomes tradicionais da cozinha libanesa como quibe, esfiha e falafel. O problema parece não ser precisamente este. Em declarações aos jornais de hoje, Abboud diz que seu objetivo é impedir que Israel continue anunciando alguns desses pratos como típicos da culinária israelense. "A situação é grave. Em Londres, produtos como a coalhada e o hommus são vendidos como se fossem gregos e israelenses". Indagado sobre se havia como provar que o quibe, por exemplo, não seria originário da Síria ou mesmo da região da Palestina histórica, onde hoje está Israel, Abboud respondeu que o problema não é com os palestinos ou os sírios, que até poderiam patentear os nomes com os libaneses. "O problema é Israel", insistiu. Se a moda pega, a culinária vai ter de recorrer a neologismos. Digamos que o Líbano patenteasse o falafel. Israel – ou qualquer outro país - estariam proibidos de comercializá-lo? Ou poderiam talvez produzir e vender falaféis, apenas trocando de nome? Felafal, quem sabe? Ora, a cozinha deveria ser um momento de paz entre os povos. Abboud quer guerra. Esta guerrilha já ocorreu no Brasil. Em 2001, algumas baianas decretaram a guerra do acarajé, aquele bolo de feijão-fradinho recheado e temperado, que costuma ser vendido pelas assim chamadas filhas de Iansã, mulher de Xangô, o deus do raio e do fogo. As vendedoras vestem saias brancas rodadas e blusas de rendas como as mães-de-santo. Suas barracas seriam montadas em lugares escolhidos, depois de consulta às divindades. Ocorreu que os evangelistas andaram invadindo a seara dos deuses afros. E crentes de cabelos soltos - o que é herético para as filhas de Iansã - passaram a vender o “acarajé de Jesus”. Convertidas a religiões evangélicas, as novas vendedoras se recusam a usar o vestuário tradicional completo, associado às mães-de-santo, especialmente os turbantes e adereços que simbolizam orixás ou divindades. As baianas ligadas ao candomblé se ergueram em santo e irado protesto. "Que os evangélicos vendam cachorro-quente ou milho, mas não acarajé - diz um estivador pai-de-santo -. Se consideram comida do demônio, por que estão tão ansiosos por vender acarajé?" Para defenderem seu faturamento, as vendedoras persuadiram uma vereadora a apresentar projeto de lei que proibia o preparo ou venda de acarajé por qualquer "estabelecimento comercial", incluindo shoppings, restaurantes e bares. No que deu, não sei. Suponho que em nada, pois os jornais não voltaram ao assunto. Só o que faltava culinária ser monopólio de uma raça, país ou grupo religioso. Que os fundamentalismos se afastem da cozinha. Que permaneçam nos templos, onde vicejam. Você já imaginou se os judeus inventassem de cobrar direitos autorais sobre a Torá? Iria sobrar tanto para cristãos como para muçulmanos, tanto para seguidores do Papa como do Edir Macedo.
IN MEMORIAM JACQUES BREL Há exatamente trinta anos, morria um de meus chansoniers diletos, o belga Jacques Brel. De câncer de pulmão, aos 49 anos. Me lembro de quando chegou a Paris, para morrer. Vinha do arquipélago das Marquises, onde vivera seus últimos três anos. Suas canções, de uma profundidade raramente encontradiça no mundo da música, sempre celebraram o amor e as mulheres, a vida e a morte. In memoriam, uma de suas mais belas letras. LA VALSE À MILLE TEMPS Au premier temps de la valse Toute seule tu souris déjà Au premier temps de la valse Je suis seul, mais je t'aperçois Et Paris qui bat la mesure Paris qui mesure notre émoi Et Paris qui bat la mesure Me murmure murmure tout bas {Refrain:} Une valse à trois temps Qui s'offre encore le temps Qui s'offre encore le temps De s'offrir des détours Du côté de l'amour Comme c'est charmant Une valse à quatre temps C'est beaucoup moins dansant C'est beaucoup moins dansant Mais tout aussi charmant Qu'une valse à trois temps Une valse à quatre temps Une valse à vingt ans C'est beaucoup plus troublant C'est beaucoup plus troublant Mais beaucoup plus charmant Qu'une valse à trois temps Une valse à vingt ans Une valse à cent temps Une valse à cent ans Une valse ça s'entend A chaque carrefour Dans Paris que l'amour Rafraîchit au printemps Une valse à mille temps Une valse à mille temps Une valse a mis l'temps De patienter vingt ans Pour que tu aies vingt ans Et pour que j'aie vingt ans Une valse à mille temps Une valse à mille temps Une valse à mille temps Offre seule aux amants Trois cent trente-trois fois l'temps De bâtir un roman Au deuxième temps de la valse On est deux, tu es dans mes bras Au deuxième temps de la valse Nous comptons tous les deux : une deux trois Et Paris qui bat la mesure Paris qui mesure notre émoi Et Paris qui bat la mesure Nous fredonne, fredonne déjà {au Refrain} Au troisième temps de la valse Nous valsons enfin tous les trois Au troisième temps de la valse Il y a toi, y a l'amour et y a moi Et Paris qui bat la mesure Paris qui mesure notre émoi Et Paris qui bat la mesure Laisse enfin éclater sa joie.
Quarta-feira, Outubro 08, 2008
MAN TAGER VAD MAN HAVER Esta frase de Kaysa Varg não é sueco contemporâneo. É sueco antigo, bíblico. Na língua atual, seria “man tar vad man har”. A gente pega o que a gente tem. Bueno, certa vez, na defesa de uma tesina na universidade, usei a frasezinha para justificar minha bibliografia. A banca ficou boiando. O mais atilado dos julgadores aventou: “você utilizou um autor escandinavo”. De fato, escandinavo era. Mas não era nenhum teórico de literatura. E sim uma cozinheira. Volto à história dos nacionalismos gastronômicos. Charles Pilger, um de meus interlocutores, brande o champagne. Que só é champagne o espumante produzido na região de Champagne. Ok! Mas o vinho é fruto da terra e do sol. Depende de geografia. Não é o caso do fetá, derivado do leite. Ora, leite é leite em qualquer lugar do mundo, e é óbvio que não existirão diferenças entre o leite de uma ovelha ou cabra grega e ovelhas ou cabras francesas ou holandesas. Fetá é uma forma de manipular o leite. Já o vinho é algo específico de uma região. Os gregos podem até querer registrar a patente do fetá. Mas é afonsocelsismo helênico. Já há na Grécia uma polêmica em torno ao café. Aquele café com borra, usualmente chamado de café turco, para os gregos é café grego. Mas não peça café grego na Turquia. Nem café turco na Grécia. Pega mal. Iogurte é turco, certo? Mas qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, pode elaborar um iogurte. Em Paris, há uma sobremesa que adoro, a île flottante. Basicamente, é clara de ovo batida. Em princípio, a encontro na França. Não é sobremesa usual na Espanha ou Itália. Já a encontrei em alguns restaurantes franceses de São Paulo, onde atende por oeufs à la neige. Lá nos pagos de minha infância, no Ponche Verde e Upamaruty – que obviamente jamais tiveram influência da culinária francesa – era uma sobremesa bastante comum. Só que chamava-se prosaicamente escuma de sapo. Quem teve uma lagoa em sua infância saberá porquê. Será a île flottante pedritense ou parisiense? Ora, onde tiver galinha tem ovo, onde tem ovo tem clara e onde tiver clara a alguém terá ocorrido fazer dela uma sobremesa. Ou da gema. Outra sobremesa que adoro em Paris é o baba au rhum. (Atenção, leitores de Asterix: daí deriva Babaorum, uma das guarnições romanas na Gália). É um pudim encharcado de rum. Ora, onde existir álcool e pudins, existirá algo similar. Da mesma forma, um dos pratos típicos suecos é o blodpudding. Literalmente, pudim de sangue. É feito a partir do sangue do porco, misturado com leite, farinha de centeio, cerveja ou melaço e temperado com cebola ou pimenta. Ora, lá no Ponche Verde, mal se carneava uma ovelha ou porco, na degola já se extraía o sangue para fazer um guisado, temperado com cebolinha picada ou pimenta. Falei, em crônica passada, do bife kobe. Tem suas origens no Japão e é chamado de “ouro vermelho” por seu preço. É feito com carne de gado wagyu, o boi japonês, e pode custar até 800 dólares em Nova York. A característica principal da carne kobe é o nível de marmoreamento, o grau de gordura entre as fibras que, segundo um amigo gastrônomo, pode chegar a 60%. Consta que sua maciez é devida ao fato de os bois serem tratados com cerveja, massagens... e ouvirem música de Beethoven. Ora, o restaurante Rubaiyat, aqui de São Paulo, está criando bois wagyus em fazendas em Minas Gerais e fornecendo o tal de bife em torno a algo como cem reais. (Pelo preço, vai ver que o boi nosso ouve rock ou música sertaneja). Terá o Rubaiyat de pagar royalties ao Japão? As cozinhas são universais. Claro que não se come porco no universo judaico ou islâmico, nem vacas na Índia. Mas qualquer país do mundo terá pratos semelhantes aos de outros países. Man tager vad man haver.
Terça-feira, Outubro 07, 2008
COZINHA TEM DONO? Fadi Abboud, presidente da Associação das Indústrias do Líbano afirmou que pretende iniciar uma batalha jurídica para impedir que companhias internacionais comercializem pratos com nomes tradicionais da cozinha libanesa como quibe, esfiha e falafel. “Empresas brasileiras vendem quibes e esfihas nos Estados Unidos sem mencionar que são produtos libaneses. Queremos provar que esses pratos são reconhecidamente libaneses, e essas empresas estão infringindo leis de direitos de origem ao usar estes nomes" – disse. Só o que faltava. A partir da bravata do patrioteiro libanês, deduzimos que qualquer país que produz pizzas tem de declarar que pizzas são italianas. E o spaghetti? Seria italiano ou chinês? Segundo Marco Polo, é chinês. E a feijoada, de onde viria? Do Brasil, dirão os patrioteiros nossos. Mas que é o cassoulet, senão uma protofeijoada? Sociólogos e outros ólogos brasileiros pretendem que a feijoada sejam os restos da casa grande, reelaborados pela senzala. Ora, na França nunca houve casa grande nem senzala e lá sempre existiu o cassoulet. E de onde viria o churrasco? Segundo aqueles sedizentes gaúchos, que acham que o Rio Grande do Sul é o centro do mundo, é claro que o churrasco teria suas origens no Rio Grande do Sul. Ora, em qualquer país onde houve fogo e carne – isto é, em todos os países do mundo – sempre houve carne assada. Da mesma forma, o cochinillo e o cordero lechal. À primeira vista, seriam criações da Espanha. Mas é óbvio que em qualquer lugar do mundo onde existam porcos ou ovelhas, terá ocorrido a alguém a idéia de consumir esses animais com poucos dias de vida. Se a Espanha tem os melhores cochinillos e corderos lechales do mundo, bom, isso é questão que tem a ver com o talento dos assadores espanhóis. Ou com a potência de seus fornos. Será o mechoui uma exclusividade do Marrocos, Tunísia e Argélia? Ora, onde existir cordeiro, existe ipso facto o mechoui. O cuscuz argelino pertence à Argélia? Onde houver carne e semolina, existe o cuscuz, e não estou falando do baiano. Que é a esfiha senão um pastel? Onde houver massa e carne, massa e queijo, massa e camarão, massa e qualquer outra coisa, sempre haverá pastéis. Cozinha não é, em princípio, algo complicado. Man tager vad man haver – dizia Kaysa Varg, uma autora sueca de livros de culinária. Isto é, a gente pega o que a gente tem. Ninguém pretenderá que peixes crus – ou carne crua – pertençam à cozinha de um país qualquer. Pertencem à cozinha de onde quer que haja carne ou peixe. Segundo Abboud, as empresas israelenses são as que mais se apropriam indevidamente dos pratos. "A cada dia mais produtos típicos libaneses são comercializados como se fossem originários de Israel", reclama. O libanês diz que a estratégia para levar o caso aos tribunais internacionais é registrar os ingredientes e as receitas dos pratos disputados junto ao governo do Líbano. As autoridades libanesas acionariam a União Européia em um primeiro passo para a disputa ser reconhecida pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Ora, Israel e Líbano pertencem à mesma geografia e é normal que tenham cozinhas semelhantes. Cozinha depende de geografia. Em uma mesma geografia, em pouco difere a cozinha. Você come carne de rena ou alce na Escandinávia, mas dificilmente vai encontrá-las em Paris ou São Paulo. O smörgåsbord pode se pretender escandinavo, mas qualquer bufê de frutos de mar, em qualquer lugar do mundo, é um smörgåsbord. Jamais ocorreria a suecos ou dinamarqueses registrar a receita como sua. Em Paris, são muito apreciadas as coquilles Saint Jacques. É o Ostracus malacus, do mar Cantábrico. Galego algum pretendeu que as vieiras - como nós as chamamos - sejam cozinha local. Abboud cita o precedente aberto pelos gregos no caso do queijo fetá. A União Européia teria decidido, há seis anos, que o queijo fetá pode receber tal nome apenas se for produzido em algumas regiões da Grécia e sob condições específicas. A Justiça européia decidiu que o queijo fetá "é amplamente associado com a história grega e vem sendo produzido com este nome há seis mil anos". Que seja. Hoje você come fetá em qualquer país europeu, sem nenhuma indicação de origem. E duvido que seja importado da Grécia. Sem ir mais longe, imagine proibir chamar pizza de pizza em São Paulo, só porque pizza teria surgido na Itália. No fundo, uma guerrilha culinária entre árabes e judeus. Segundo um cidadão de Tel Aviv, Jacob Erickson, "se os libaneses vão contestar o direito israelense de produzir e comercializar os alimentos, espero que contestem também em todo o Oriente Médio e em uma esfera global. Esses alimentos pertencem ao Oriente Médio e ao território que era conhecido como Palestina, que agora se chama Israel". Para um outro leitor, identificado como 'palestino', "esses são pratos conhecidos na Síria, Palestina, Jordânia e Egito e são tradicionais no Oriente Médio há tempos. A comida deve ficar de fora da política". Abboud não passa de um patrioteiro ridículo. Em nada difere desses que acham que feijoada é um prato brasileiro. Se a moda pega, mais dia menos dia algum Afonso Celso nosso pretenderá registrá-la na OMC como cozinha exclusivamente tupiniquim.
JOHN McCAIN PODE INVOCAR MADRE TERESA DE CALCUTÁ Barack Obama divulgou ontem um documentário na Internet, no qual vincula seu rival republicano John McCain com um escândalo financeiro do final dos anos 80, conhecido como Keating Five. O magnata Charles Keating era o presidente da firma Lincoln Savings, cuja quebra fez com que mais de 20 mil investidores, a maioria deles de idade avançada, perdessem suas economias. Keating foi declarado culpado de fraude financeira e esteve cinco anos na prisão. É o que nos conta El País. John McCain foi então investigado, com mais quatro senadores, por sua intervenção junto aos reguladores bancários para ajudar Keating, que havia feito contribuição às campanhas dos cinco, que passaram a ser conhecidos como os Cinco de Keating. Agnes Gonxha Bojaxhiu, mais conhecida como madre Teresa de Calcutá - aquela santa senhora que costumava depositar flores na tumba de seu conterrâneo, Enver Hoxha, um dos mais sanguinários ditadores comunistas do século passado, e que no Haiti, durante a tirania de Baby Doc, recebeu de suas mãos a "Légion d'honneur" haitiana – foi brindada por Keating com a simpática quantia de 1,25 milhão de dólares e a oferta de um jato privado para suas viagens. A santa madre dileta de João Paulo II, prêmio Nobel da Paz em 1979 e beatificada em 2003, pediu clemência à Suprema Corte dos Estados Unidos para seu benfeitor benemérito, que na época foi condenado a dez anos de prisão por lesar os contribuintes americanos em 252 milhões de dólares. McCain descreveu este episódio como o pior erro de sua vida. Está na hora de o senador republicano invocar as bênçãos da beata albanesa.
Segunda-feira, Outubro 06, 2008
PAULISTANOS E PANACAS Chefs, eis o novo ícone do noveaurichisme paulistano. Verdade que muitos são migrantes, em geral nordestinos, que um dia foram auxiliares de cozinha nalguma capital européia e voltaram com o pomposo título. Afinal, chef é galão que se ganha no Exterior, preferentemente na França. Chefs franceses e espanhóis, cientes destas vaidades da Paulicéia, acabaram descobrindo o Brasil. Abriu hoje um leilão, a um valor mínimo de R$ 5.000, de ingressos para o assim chamado jantar do século, que reunirá a elite da gastronomia espanhola em São Paulo, no Hyatt, no próximo dia 3. Estima-se que os lances mais altos para arrematar um dos 80 lugares disponíveis para o jantar de Ferran Adrià, Juan Mari Arzak, Andoni Aduriz, Martín Berasategui e companhia ultrapassem a casa dos R$ 10 mil. O evento é pretencioso. 2.000 recém iniciou e o jantar já se pretende o jantar do século. É beneficente, é verdade. Os tais de chefs não cobrarão nada por seus serviços, mas serão os reais beneficiados. O que ganharão em publicidade certamente vale bem mais que os 500 mil reais que os organizadores da coisa pretendem arrecadar. “Nenhum chef está cobrando cachê para vir", diz Mariella Lazaretti, uma das organizadoras do regabofe. Pode ser. Mas duvido que paguem passagem, hospedagem e estada do próprio bolso. Ora, dez mil reais são 3.700 euros. Nenhum francês ou espanhol pagaria uma fortuna dessas por um jantar. Você come excepcionalmente bem por 70 ou 80 euros nos restaurantes de Paris ou Madri. Poderá comer algo mais sofisticado, pelo dobro do preço. Se quiser, pode até comer por 3.700 euros. O diferencial está no vinho. Se você se dispõe a pagar 3.000 euros por um vinho, encontra vinho por esse preço. Mas não é preço que gue pessoa sensata pague. Pelo preço estimado do famigerado jantar, você paga uma passagem de ida-e-volta a Paris (uns mil dólares ou talvez menos) e sobram uns 3.000 euros para a festa. O que significaria pelo menos umas vinte ou trinta refeições excelentes, nos melhores restaurantes au bord'elle, la Seine. É preciso ser paulistano – e panaca – para cair no conto do jantar do século.
VICE-DEUS SE REGOZIJA COM CRISE FINANCEIRA Há quem ache que eu fale demais sobre o vice-Deus. Mas que fazer, se o santo homem só diz bobagens? Ontem, até que teve uma crise de lucidez, ao afirmar que houve uma perda de influência do cristianismo em países que em outros tempos foram “ricos em fé e em vocações”. Mas sua lucidez tinha um ar de lamúria. Hoje, voltou ao besteirol habitual, ao afirmar que “a crise financeira mundial demonstra a futilidade do sucesso e do dinheiro”. Pediu ainda que as pessoas cimentem a vida sobre a rocha da palavra divina. Você, que é católico convicto, prefere o quê? Uma gorda conta bancária ou a tal de rocha divina? Um bom patrimônio em imóveis ou a palavra de Deus? “Mais que qualquer outra palavra, é o fundamento de tudo, a autêntica realidade. Você se equivoca se pensa que a matéria, as coisas sólidas que podemos tocar, são a realidade mais segura” – diz Bento. E depois a Santa Madre não entende porque está perdendo fiéis para os neopentecostais, que privilegiam os bons investimentos... junto com a tal de palavra divina. Para quem vive em um dos mais soberbos palácios do mundo, tendo à sua disposição um séquito de criados para satisfazer qualquer capricho gastronômico, qualquer necessidade de saúde, projeto de férias ou de qualquer outra natureza, é muito fácil fazer tal afirmação. Palavra divina dá de comer? Dá para papas, cardeais, arcebispos, bispos e padres. Para o crente, não dá nem para o cafezinho. Para um papa, a tal de palavra de Deus evidentemente é mais sólida que quaisquer ações no mercado financeiro. Enquanto as bolsas caem, o Vaticano permanece impertérrito, em pé. Para nós, pobres mortais, qualquer mísera CDB rende mais que a palavra divina. "Agora estamos vendo, com o afundamento dos grandes bancos, que este dinheiro desaparece, que não é nada; se tratam de realidades de segunda ordem", diz Sua Santidade. Se há uma coisa que invejo num papa, é sua capacidade de viver longe do dinheiro. Bento XVI, como tantos outros potentados, jamais teve de sujar as mãos em contato com o vil metal. Certamente jamais pôs uma mão no bolso para pagar um picolé. Isso de manusear cédulas imundas é quinhão nosso, pobres mortais que não temos intimidade nenhuma com o divino. Sempre vi no catolicismo o germe do comunismo. Não por acaso, a Rússia era o segundo país católico do mundo quando ocorreu a Revolução de 17. Não por acaso, o Partido Comunista mais poderoso da Europa foi o da Itália, onde se sedia o Vaticano. Não por acaso, França e Espanha, os países mais católicos do continente depois da Itália, tiveram os partidos comunistas mais influentes do século passado. Em meio à atual crise financeira do Ocidente, Sua Santidade se une às viúvas do Kremlin, ao regozijar-se com o afundamento dos bancos. Moscou e Vaticano, o mesmo combate.
MOHAMED AL HABDAN, UM LIBERAL Deu no Terra, hoje: Um influente clérigo saudita lançou uma fatwa dizendo que as mulheres que cobrem suas faces com um véu devem deixar apenas um olho descoberto. O xeque Mohamed al Habdan fez a afirmação durante um programa de TV por satélite da emissora Al Maid, que transmite para vários países do mundo árabe e já foi plataforma para o lançamento de outras fatwas. "Quando Ibn Abbas lia uma passagem do Alcorão que mencionava o véu, ele cobriu sua face e um olho, mostrando apenas um pouco do outro olho e disse: este é o véu que cobre o rosto, apenas o suficiente para ver o caminho", disse ele. Ele disse que as mulheres muçulmanas que usam o niqab, ou véu que cobre o rosto, ajustem a indumentária para que ela passe a cobrir um dos olhos. Segundo ele, mostrar os dois seria "islamicamente incorreto", por não ser recatado o suficiente. Mohamed al Habdan é um liberal irremediável. No Afeganistão, a burka não deixa sequer um olho a descoberto.
Domingo, Outubro 05, 2008
BENTO E BISPOS ME DÃO RAZÃO Alvíssaras! Bento XVI nos trouxe hoje de manhã uma boa notícia, ao abrir a 12ª Assembléia do Sínodo de Bispos que se celebra em Roma. Segundo Sua Santidade, há uma perda de influência do cristianismo em países que em outros tempos foram “ricos em fé e em vocações”, devido à “influência nociva e destrutiva de certa cultura moderna”, na qual muitos decidiram que “Deus morreu”. No que estou absolutamente de acordo com o vice-Deus. Há horas venho afirmando que cristianismo e tabagismo estão se deslocando para o Terceiro Mundo. No Primeiro, a tendência é jogar fora tanto o cigarro como Deus. Estou de acordo, com uma ressalva. Não é que as pessoas tenham decidido que Deus morreu. Isto era um wishful thinking de Nietzsche, que acreditava na sensatez humana. Está expresso no Assim falava Zaratustra. Gênio, Nietzsche era também ingênuo. Acontecendo que, em nossa época, não mais é possível aceitar o Deus milenar e castrador proposto pela Igreja. O cristianismo pode até estar perdendo influência, mas a idéia de Deus não morre. Todos os dias surgem novas religiões, sempre mais tolerantes, que fogem ao leito de Procusto imposto pelo cristianismo. Ainda na semana passada, Bento XVI se manifestava contra os anticoncepcionais. Sem falar que a Igreja de Roma é um dos fatores responsáveis pela proliferação da Aids, particularmente nos países católicos africanos, por sua teimosia em não aceitar o uso de preservativos. A oposição às relações pré-matrimoniais, ao homossexualismo, ao divórcio, ao aborto e a pesquisas científicas são outros fatores que devem render-lhe não poucas deserções. Gostei da homilia de Sua Santidade. Sempre é bom saber que a superstição perde terreno. Pena que falou demais. Ante esta situação, Bento perguntou-se se “quando se elimina Deus do horizonte próprio se pode ser certamente feliz”? Pergunta meramente retórica, que o vice-Deus se apressa em responder que, “ao final, o homem se encontra mais só e a sociedade mais dividida e confusa”. O papa também denuncia, nesta nossa cultura moderna, quem decidiu “que Deus morreu e se declara Deus a si mesmo, considerando-se o único artífice de seu próprio destino e o proprietário absoluto do mundo”. É óbvio que se pode ser feliz sem Deus. Com Deus é que não dá. Pelo menos não com esse que nega a seu rebanho os prazeres do corpo, a liberdade de estabelecer relações com novos parceiros ou com parceiros do mesmo sexo, o direito a recusar uma gravidez indesejada e – sumo anacronismo – a pesquisa científica. Quanto ao homem encontrar-se mais só, eu diria que é bem melhor estar só do que acompanhado por uma divindade repressora. Dividido e confuso vivia eu, quando acreditava em Deus. O corpo me pedia uma coisa, o tal de Deus ma proibia. A razão me levava a certas conclusões, a fé as interditava. Jamais decidi que Deus morreu. A partir da leitura da Bíblia, lá pelos 15 ou 16 anos, decidi que nunca havia existido. Após um fugaz desespero inicial, fui tomado de uma extraordinária sensação de liberdade. Não me pretendi Deus, como afirma Sua Santidade. Mas me considerei, isto sim, o único artífice de meu próprio destino. Era finalmente dono de meu nariz. Não digo que me sentisse proprietário absoluto do mundo. Mas conseguia explorá-lo sem medos. E – o melhor de tudo – podia agora gozar sem peias daqueles prazeres que me eram antes proibidos. Se era dividido e confuso, passei a ser um só, e esclarecido. Uma outra conclusão desta reunião de bispos me conforta. Há horas venho afirmando que os católicos desconhecem a Bíblia. Os príncipes da Igreja me dão razão. Segundo o Instrumentum Laboris, documento de trabalho apresentado para o Sínodo, os senhores bispos estão preocupados pelo desconhecimento da Bíblia entre os fiéis e querem decidir como corrigi-lo, para superar “a indiferença, a ignorância e a confusão sobre as verdades da fé acerca da Palavra de Deus”. A meu ver, só há uma solução, estimular a leitura do Livro. Mas o risco de perder fiéis será então maior. Não há fé que resista a uma leitura atenta da Bíblia.
Sábado, Outubro 04, 2008
PODEM OS DEMÔNIOS GERAR FILHOS COM AS MORTAIS? Em termos, diz meu colega de Sorbonne, Tomás de Aquino, o Doutor Angélico. Como diz Agostinho, muitos experimentados, ou instruídos pelos experientes, confirmam que os Silvanos e os Faunos, chamados vulgarmente íncubos, são muitas vezes luxuriosos com as mulheres, desejando-as e realizando o ato carnal com elas, de modo que é imprudência negar tal fato. Porém os santos anjos de Deus de nenhum modo puderam assim manchar-se, antes do dilúvio. Por onde, entendem-se por filhos de Deus os de Sete, que eram bons; porém a Escritura chama filhas dos homens às nascidas da estirpe de Caim, nem é para admirar que delas pudessem nascer gigantes, embora nem todos assim o nascessem, mas muito mais antes que depois do dilúvio. Se, porém, por vezes, alguns nasceram de coito com os demônios, tal não se operou pelo sêmen emitido por eles ou pelos corpos assumidos, mas pelo sêmen de algum homem, obtido para tal fim; e isto por ter o mesmo demônio, súcubo em relação ao homem, se tornado íncubo em relação à mulher, assim como assumem as sementes de outros seres para a geração de alguns deles, como diz Agostinho. De modo que o nascido de tal operação não é filho do demônio, mas do homem de quem foi obtido o sêmen. Ah bom! O demônio é então apenas um intermediário, uma abelhinha que transporta o pólen. No fundo, uma inseminação artificial avant la lettre. Para quem não conhece o jargão dos teólogos, íncubo é o demônio em forma masculina, o que fica por cima. Súcubo, é a forma feminina, que fica por baixo. Se você quiser divertir-se mais um pouco, vá a http://sumateologica.permanencia.org.br/suma.htm
Sexta-feira, Outubro 03, 2008
DESONESTIDADE EDITORIAL Em julho passado, subi a costa da Noruega navegando pela Hurtigruten – Expresso Costeiro, em bom português. É certamente a mais linda das viagens do mundo. Os navios navegam entre arquipélagos, entram em fjordes montanhosos e atracam em vários portos. Ao final do percurso, você conheceu quase todo o país, pois as cidades da Noruega se situam geralmente no litoral. Já falei do assunto, em agosto passado. Bom, viajei com uma jornalista. Ao voltar, ela propôs uma pauta a vários jornais e revistas de São Paulo. Particularmente sobre a Hurtigruten, que é praticamente desconhecida no Brasil. Pauta das boas, mas não foi aceita. Houve quem alegasse que brasileiro não se interessa pela Noruega, então a pauta não interessa. Melhor continuar repetindo ad nauseam Londres, Paris, Roma, Madri. Não que sejam cidades desinteressantes. Mas há matérias demais – e redundantes – sobre esses destinos. A Folha de São Paulo alegou que não aceitava colaborações. Algumas semanas depois, chupou a pauta da moça. Deu primeira página à Noruega, no suplemento de turismo de ontem. Até aí, tudo bem. Um editor pode recusar ou aceitar a colaboração de qualquer profissional. O que não pode é mentir. Dizer que o jornal não aceita colaboração e publicar logo após uma colaboração. A partir de pauta alheia. Conheço isso. Lá pelos anos 70, fiz uma longa entrevista com Ernesto Sábato. Enviei-a para a maior revista do país, pensando em publicação nas Páginas Amarelas. Não recebi nem resposta. Semana seguinte, a revista enviou um foca a Santos Lugares para entrevistar Sábato. E publicou sua entrevista, feita por alguém que obviamente jamais lera um livro de Sábato. Ou seja, jornalismo no Brasil ainda se faz na base do compadrismo. Não interessa a qualidade do trabalho. O que interessa é a relação que um editor tem com um apadrinhado. Até aí, nada demais. As empresas privadas do país têm os mesmos vícios das públicas, e esta é que é a vida nacional, como dizia uma canção dos anos 70. O problema reside em outro lugar. Sempre dou uma olhadela nos suplementos de turismo, mas olhadela inútil. É jornalismo vendido. Empresas de turismo ou de transporte oferecem viagens a jornalistas, para que vendam seus peixes. Por peixes, entenda-se turismo de massa. O jornalista, cooptado, se sente constrangido a vender peixes podres. Confesso nunca ter visto propostas inteligentes de viagem nos suplementos turísticos da imprensa nossa. É uma pena, porque viajar inteligentemente é muito bom. O “repórter” da Folha, ao que tudo indica, sequer fez a viagem que relata. Se a fizesse, não escreveria esta besteira: Repleto de fiordes, baías, enseadas e rochedos, o litoral norueguês tem 25.148 km de extensão. E esses navios, usados como transporte regular, percorrem essa costa do sul (partem de Bergen) ao norte (vão até Kirkenes). A viagem de ida e volta dura 11 dias e custa US$ 1.435,50 por pessoa, em cabine dupla, com pensão completa. Ora, se os navios são usados como transporte regular – como de fato o são – o repórter deixa de informar o melhor da viagem. Fala de uma ida e volta de onze dias, com pensão completa. Não está informando errado. Mas está omitindo dados importantes. Sendo um expresso costeiro, a Hurtigruten permite aos passageiros fazer a viagem que bem entenderem. Se você quer navegar um dia, dois, três ou cinco – ou mesmo os onze – sinta-se à vontade. Você pode descer em um porto, ficar lá pelos dias que quiser e tomar outro navio mais tarde. Pode descer do navio, pegar um ônibus para ver os fjordes do alto, e retomar o navio no porto seguinte. A Hurtigruten não é, em princípio, um cruzeiro. É uma linha de transporte. Ocorre que a agência brasileira que açambarcou as reservas na Hurtigruten só vende o trajeto completo, de Bergen a Kirkenes. Se eu quiser descer em Ålesund ou Tromsø, nada feito. Isto é, até pode ser. Mas tenho de pagar o trajeto até Kirkenes. Para comprar uma viagem nos moldes em que a Hurtigruten propõe, só em Paris, Madri ou alguma outra cidade européia. A agência brasileira que monopoliza o expresso norueguês – a Abreu Turismo – ainda não entendeu que o socialismo morreu e que cada cliente tem direito a escolher a mercadoria que quiser. Sem falar na armadilha da pensão completa. De repente, você entra em um fjord magnífico... e está preso no salão de almoço. Faltou informar que o restaurante é caríssimo e que você pode muito bem comer nos cafés do navio, a preços bem mais humanos. E na hora que bem entender. Todos os jornais nacionais oferecem péssimos suplementos de turismo. Mas a Folha – além de chupar pauta alheia – exagerou na desinformação.
DA SELVA AMAZÔNICA De João José Melo de Carvalho, da selva amazônica, recebo: Um dos presentes que ganhei no dia do meu aniversário, 28/09, domingo passado, foi ler um post, lá no blog do Janer Cristaldo. Trata-se de um assunto que analiso há anos e que, lamentavelmente, não estar no centro das atenções. Afinal, assistir "A FAVORITA" agrega muito mais conhecimento a pessoa do que ler, por exemplo, Fernando Pessoa, ou não? Não é a toa que nossos indicadores de ensino são terríveis e que o aluno torna-se graduado e, sabe-se lá como, nunca leu UM livro da primeira à última página. Vocês já tentaram conversar com essa turma que está no ensino médio e analisaram o grau de conhecimento deles? Transcrevo abaixo o post do Janer, no qual, exceto alguns poucos comentários que discordo, reproduz o que eu também sinto no Brasil. Estive uma temporada em Toronto e realmente em todos os lugares que eu estava, sempre tinha uma pessoa com um livro na mão. E lendo. http://www.economiaecapitalismo.blogspot.com
Quinta-feira, Outubro 02, 2008
VIÚVAS ENTRAM EM CIO As viúvas do Kremlin andam excitadas com as quebras financeiras nos Estados Unidos e a queda geral das bolsas no Ocidente. Sentem-se vingadas pelo desmoronamento do comunismo em 1989. Agora chegou a vez do Ocidente, imaginam. Já não faltam Cassandras que falem em fim do capitalismo. Falta de conhecimentos históricos. Bastaria dar uma googlada para ver que a situação econômica dos States já foi muito pior. No crash de 1929, investidores milionários ficaram falidos instantaneamente ao verem suas posições dizimadas nos dias 28 e 29 de outubro. Em novembro, o Dow Jones passou de 400 para 145. Em três dias, o New York Stock Exchange perdeu cerca de cinco bilhões de dólares em valor das capitalizações. No fim de 1929, este valor alcançou 16 bilhões de dólares. Muitos especuladores falidos cometeram suicídio saltando de edifícios. Considera-se que 140 bilhões de dólares desapareceram e dez mil bancos abriram falência. Os Estados Unidos se recuperaram, montaram o maior aparato bélico do planeta, entraram em novas guerras, mandaram o homem à Lua e suas naves aos confins da galáxia. Os últimos americanos a se jogarem em massa de edifícios foram os que estavam no World Trade Center, no atentado do 11 de setembro. Mas aí as razões para jogar-se eram bem mais imperiosas que o índice Dow Jones. Ora, por enquanto faliram apenas quatro ou cinco instituições financeiras. Mesmo que centenas entrem em falência, o sistema saberá como reagir. O que os velhos comunossauros não entendem é que o capitalismo não é uma teoria a partir da qual se formata um Estado. É apenas a forma que os Estados do Ocidente encontraram para melhor prosperar. As teorias sobre o capitalismo surgem a posteriori, para explicar o capitalismo, não para criá-lo. Completamente diferente do marxismo, filosofia utópica que antecedeu a criação dos Estados comunistas. Sem nenhum suporte na realidade, deu no que deu: sete décadas de tirania e massacres, empobrecimento generalizado de todos – todos – os Estados que o adotaram, definhamento e morte. O comunismo caiu de podre, sem que fosse necessário disparar um só tiro. Caiu desde dentro e dele só têm saudades algumas múmias remanescentes da antiga Nomenklatura. Mesmo admitindo-se que vivêssemos os estertores do capitalismo. Após o fim do regime, qual sistema irá substituí-lo? Ora, não há nenhum à vista. Depois do capitalismo, só capitalismo mesmo. As viúvas podem tirar o cavalinho da chuva. Que voltem a carpir suas múmias.
A IGREJA DOS JEDI Sobre a novel picaretagem, Chico Aragão me escreve: Os Jedi fazem parte da Universal Life Church, mas a ULC não é só dos Jedi. A ULC é uma denominação norte-americana que há décadas ordena sacerdotes pelo correio (e atualmente pela Internet) se apoiando na Primeira Emenda da Constituição dos EUA, que garante a liberdade religiosa. O fundador dessa organização criou, então, uma igreja que se baseia na crença da defesa da liberdade religiosa. Ponto. Tecnicamente, o sujeito pode ser ateu e pedir para ser registrado como sacerdote deles. Esse grupo de Jedis deve ter se cadastrado na ULC, mas isso não significa que todo mundo da ULC seja Jedi. Partindo-se da premissa de que toda religião é picaretagem, sim, a ULC é meio picareta. Eles não cobram pela ordenação, mas vendem lindos certificados a preços módicos para os interessados e diversos tipos de parafernálias religiosas, além de emitirem "certificados de doutorado" sem validade acadêmica (coisa que eles reconhecem). Agora, considerando que nos EUA qualquer sacerdote de uma religião registrada pode oficiar casamentos (de acordo com as normas legais de cada Estado) é preciso admitir que esse sistema deles permite não apenas que algumas pessoas possam encontrar um ganha-pão inofensivo com também permite coisas mais inofensivas, como um amigo se ordenar sacerdote para casar as pessoas (economizando assim grana que poderia ir para algum conglomerado religioso). Em resumo, a ULC fornece um serviço que poderia ser definido como "religião personalizada", dando autonomia a seus ordenados a se autodefinirem como quiserem. Mais informações nos sites abaixo: http://www.ulc.net/ http://en.wikipedia.org/wiki/Universal_Life_Church http://www.themonastery.org/ (essa uma "dissidência" de ordenados pela ULC que montaram o próprio serviço de ordenações online) Divirta-se!
Quarta-feira, Outubro 01, 2008
VIRGEM SUBSTITUI ANESTESIA Leio no jornal sueco Aftonbladet que choques elétricos não provocam dor se você crê em Deus. Pesquisadores da prestigiosa universidade de Oxford concluíram que religiosos podem bloquear a dor. Assim, quando Jesus foi crucificado, ao ter as mãos pregadas na cruz não terá sentido a mesma dor que sentiria um não-crente. Bem que eu desconfiava que havia algum truque. Não precisava ficar então se lamuriando: “Eli Eli, lama sabachtani!” Uma experiência foi feita com doze católicos e doze ateus, que receberam vinte choques elétricos enquanto olhavam para uma pintura da Virgem Maria, do pintor barroco italiano Giovanni Battista Salvi da Sassoferrato. Segundo os pesquisadores, os católicos mantiveram-se calmos, amparados e cheios de paz enquanto olhavam para a Virgem. Foram mais tarde induzidos a olhar para a Dama com Arminho, de da Vinci, que os pesquisadores acreditavam ter o mesmo efeito calmante. Mas concluiu-se que os católicos sentiam 12% menos dor olhando para a pintura da Virgem. Não imagino como se quantifique a dor em percentuais, dado que é sensação das mais subjetivas. Mas desde há muito suspeito que a Medicina desperdiça recursos proporcionando anestesia a pacientes que sofrem. Os hospitais poderiam fazer uma grande economia durante cirurgias, neste nosso país de maioria católica, oferecendo aos pacientes católicos, em vez de anestésicos, um quadro da santíssima mãe de Cristo. Anestesia seria reservada para nós, ateus. Como somos minoria, isto pouco influiria no orçamento dos hospitais.
O NOME DO ÓRGÃO O Supremo Tribunal russo acaba de reabilitar a figura do último tzar, Nicolau II, assassinado pelos comunistas em 1918, ao determinar que foi fuzilado de forma ilegal. No que não vai nada de novo. O tribunal apenas passou a admitir o que os comunistas sempre negaram mas que era há muito sabido. A sentença não tem maiores conseqüências, a não ser que os descendentes de Nicolau poderão reclamar uma magra indenização de até dez mil rublos (cerca de 300 euros), caso tenham perdido propriedades imobiliárias durante o período soviético. Fosse no Brasil, teriam direito a milhões de reais e gordas pensões perpétuas. O que diz o Supremo russo, fundamentalmente, é que o fuzilamento, determinado por um órgão não legítimo, foi ilegal. Falta agora mais um passo, dar nome a esse órgão ilegítimo. Se os juízes do tribunal russo não sabem, o resto do mundo sabe. Chama-se Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido como Lênin.
TUCANO PATÉTICO TELEFONA Quem me acompanha sabe que não voto há umas boas duas décadas. Cansei. Em priscas eras, já votei até num candidato do PT. Não que votasse no partido, nunca votei em partidos. Votava em pessoas. No caso, era um engraxate da Praça da Alfândega que se candidatava a vereador em Porto Alegre. Achei que faria bem para ele trocar de cadeira. Foi eleito. Uma vez vereador, usava o carro funcional para caçar putinhas pelas ruas da cidade. Devo ter votado uma ou duas vezes mais, e desisti. Digamos que eu vote num candidato que julgo honesto. Se ele não for eleito, meu voto conta para um vagabundo qualquer. Assim sendo, é com total indiferença que vejo as eleições de domingo que vem para a Prefeitura de São Paulo. Poderia vagamente torcer pelo menos pior dos candidatos. O problema é definir qual seja o menos pior. Não é fácil. Já dizer qual o mais patético é barbada. O Geraldo Alckmin ganha folgado. O catolicão pacóvio ataca quem seria seu aliado óbvio em um segundo turno e louva a adversária. Faz acenos até para Lula. Oposição é algo que não mais existe no país. Dada essa brilhante estratégia, já está fora do segundo turno. Marta Suplicy, apesar de uma péssima gestão anterior, continua liderando nas intenções de voto. O povão parece ter esquecido seu governo. E também seus laivos olímpico-aristocráticos por ocasião da crise dos aeroportos: “relaxa e goza”. Desde há muito passei a aceitar o mundo em que vivo. Se o maioria dos brasileiros vota em Lula, se a maioria dos paulistanos vota em Marta, é porque os merecem. Não participo dessa farsa. Como Cândido, vou cuidar de meu jardim. É o que me resta. O tucano patético parece estar desesperado. Sabe que, perdidas estas eleições, o melhor que tem a fazer é tocar alguma clínica de acupuntura em Pindamonhangaba. Tal é seu desespero, que ontem telefonou-me. Pelo jeito, está consultando o catálogo telefônico e invadindo todas as residências, apelando à antipática estratégia de telemarketing. O pior de tudo é que se trata de uma mensagem gravada. Não tive sequer a chance de mandá-lo para onde merece.
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